Porquê Lando Norris fez tudo certo

Algumas horas se passaram desde o término do GP da Rússia de F1, então já tive um tempo de digerir e refletir sobre tudo o que aconteceu nas últimas voltas e que alteraram completamente o resultado da corrida. E mesmo após ler e escrever muita coisa no twitter, mantenho a opinião que tive ao término da corrida, e que já foi expresso no título dessa postagem. E, após ter lido muita coisa frustrante no twitter eu resolvi elaborar um pouco mais o meu raciocínio.

Lando Norris em ação na Rússia (Foto: McLaren)

Mantenho a opinião de que Lando Norris fez tudo correto nos momentos finais da corrida. Ele era o líder da prova, que vinha dominando até com autoridade, e faltavam pouco mais de 3 voltas quando o tempo realmente fechou e a chuva começou a cair com mais intensidade no circuito russo. Ele está ali, a pouco mais de 5 minutos da primeira vitória na carreira, conduzindo o carro já a algumas voltas em condições difíceis em que ele estava se saindo muito bem (melhor que Lewis Hamilton, diga-se) quando a maioria dos pilotos entra nos pits para trocar os pneus para intermediários. Como outros pilotos fizeram no passado, ele arriscou seguir em frente e apostando que as condições não iriam piorar, sabendo que tinha uma vantagem enorme para o segundo colocado e que, mesmo que perdesse muito tempo nos trechos da pista que estavam molhados, nos demais onde ainda estava seco poderia andar mais rápido e não perder tanto tempo total na volta, o que seria suficiente para a vitória.

Dentre muito o que se foi falado no twitter após a prova, uma das coisas que mais me irritou foi diversas pessoas dizendo que isso foi um erro. Discordo dessa posição. Norris não errou. Ele tomou a decisão de arriscar e ir como estava até o final. A equipe o chamou para os pits porque este é o papel da equipe. E o papel do piloto é o de dizer para o time “olha, não vou, ainda está bom aqui, consigo manter tudo sob controle”. E isso não pode ser considerado um erro. É uma aposta, que poderia dar muito certo, ou muito errado. Infelizmente, deu muito errado e acabou ocasionando a perda da vitória. Mas isso não quer dizer que o piloto errou. Simplesmente tomou uma decisão ousada em um momento crítico.

Muitos compararam a atitude de Norris com a de Barrichello no GP da Alemanha no ano 2000 e realmente há diversas similaridades. Naquele dia, o brasileiro também desafiou a equipe para se manter na pista úmida com pneus para a pista seca, assumiu a liderança e não perdeu mais até o final. A atitude dos pilotos nessas duas corridas separadas por 21 anos é a mesma, porém o resultado foi o oposto. A diferença? Em 2000 a chuva não apertou tanto quanto hoje na Rússia e nem começou a cair em todo o circuito, muito em razão da enormidade do circuito alemão àquela época. Com isso Rubens perdia muito tempo no último setor (e o mais lento) da pista e recuperava os outros 2 trechos de retas rápidas do circuito. Como a pista russa é menor, não houve essa chance para Norris e ao mesmo tempo a chuva apertou em todo o circuito, inviabilizando a aposta do piloto inglês. Tivesse a chuva apertado na Alemanha, o resultado de Barrichello poderia ter sido exatamente o mesmo que foi o de Norris.

Outra coisa que me chateou muito na falta das pessoas no twitter é de que Norris foi juvenil e não parou por uma ousadia e/ou inexperiência provocada pela pouca idade. Isso é uma avaliação pueril e baseada em superficialidades. A realidade é que Norris faz o melhor campeonato entre os 20 pilotos do grid, melhor até que Hamilton e Verstappen, os 2 que estão à sua frente na tabela de pontos. Apesar da pouca idade, é um piloto já em sua 3ª temporada, com resultados robustos e liderando a equipe em uma recuperação excepcional, dominando facilmente seu companheiro de equipe vitorioso e muito mais experiente. Não há nada de juvenil na postura de Norris neste ano. Inclusive no próprio GP da Rússia neste domingo, ele mais uma vez demonstrou maturidade e segurança: Não se afobou ao perder a liderança na largada por conta das condições da pista, andou próximo a Sainz na parte inicial da prova, aguardou o melhor momento de fazer a ultrapassagem, daí em diante determinou um ritmo forte e seguro que o faria vencedor se o tempo não tivesse mudado subitamente no final da prova. Foi um dos últimos entre os pilotos com pneu médio a realizar a parada, segurou a pressão de Lewis Hamilton de forma segura sem cometer erros, e mesmo quando a chuva começou a apertar e deu uma deslizada, se defendeu do heptacampeão e retomou uma vantagem segura, que inviabilizou qualquer tentativa do compatriota em ultrapassa-lo na pista.

Traçando outro paralelo com a história da categoria, resgato uma corrida em que um piloto jogou fora uma vitória em um movimento que pode ser considerado um erro pela pouca experiência, com consequências desastrosas que foi bem diferente do que houve com Norris na corrida de hoje. NO GP da China de 2007 o mesmo Lewis Hamilton jogou fora uma vitória em circunstâncias muito similares às de hoje, por se manter na pista além do necessário e não atender ao chamado da equipe de vir aos pits colocar pneus intermediários em uma condição de chuva fraca, como estava hoje em Sochi antes das últimas 3 voltas. Em 2007, parar para trocar pneus faria Hamilton perder a liderança da prova, mas o manteria ainda em um lugar no pódio que significaria o título antecipado já naquela prova. Porém ele insistiu em continuar na pista com pneus gastos, e quando a chuva apertou e ele finalmente teve de fazer sua parada, por conta dos pneus em má condição e a pista bastante molhada na entrada dos pits, perdeu o controle e ficou atolado na brita, abandonando a prova e abrindo espaço para Kimi Raikkonen descontar os pontos necessários para ser campeão naquele ano. A decisão de Hamilton em lutar pela vitória naquele momento, quando o mais sensato seria ser conservador e pensar no título foi um erro motivado pela juventude e inexperiência. Algo que ele aprendeu e utilizou em outros momentos na carreira, como neste domingo.

Não foi o caso de Norris hoje. Sua decisão foi madura e consciente. Lando estava a pouquíssimas voltas da primeira vitória da carreira, em uma condição de pista difícil, mas sob controle, não deveria parar para trocar pneus esperando que o tempo piorasse. O correto na situação dele seria se manter como estava e esperar que o tempo se mantivesse como estava por mais alguns minutos, até o final da prova. Ele não tinha que ser conservador pensando no campeonato. Isso importava a Hamilton que tinha muito mais a perder se mantendo como estava (e o rádio do heptacampeão mostrava que ele queria se manter assim), por isso fez o mais seguro. Se Norris fizesse o mesmo, poderia perder a liderança para o piloto da Mercedes e chegar seguro em uma segunda posição que não faria diferença naquela altura dos fatos. Tivesse acontecido dessa forma, estaríamos aqui falando agora sobre o porquê de Lando Norris não ter insistido em se manter com os slicks para tentar a vitória. Ele tinha tudo a ganhar se arriscando a continuar na pista. Quando Hamilton parou, reclamou que a pista estava muito seca e não era a ideal para o pneu intermediário. Tivesse se mantido assim, diríamos que o Hamilton abdicou da vitória com uma aposta errada e estaríamos chamando Norris de gênio por ter ficado na pista.

Isso é o que acontece no esporte, especialmente em um de alto desempenho como a Fórmula 1, em que uma decisão deve ser tomada literalmente em um décimo de segundo e que pode fazer toda a diferença entre a vitória e a derrota. Infelizmente para Norris e a McLaren isso significou a derrota hoje, mas poderia ter significado a segunda vitória em 2 GPs. O problema é as reações absurdas das pessoas nos tribunais das redes sociais, sempre prontos para condenar o piloto por uma decisão muito difícil, como se fosse obvio qual era a melhor escolha (vendo de fora, pela TV, seco em seu sofá, após os acontecimentos, é fácil saber qual a melhor decisão) não entendendo as nuances e a linha tênue em que os pilotos estão lidando nessa situação. Deveríamos julgar um pouco menos e somente apreciar o que foi uma corrida eletrizante, com um final de partir o coração em que o melhor piloto do dia perdeu uma vitória consagradora por uma decisão arriscada que poderia ter tido um final inteiramente diferente.

Eu curti muito a decisão corajosa de Lando Norris e só torci para que a chuva não caísse e ele saísse vitorioso de Sochi. Não aconteceu e infelizmente ele perdeu várias posições. Mas ainda assim sai da Rússia maior do que chegou, após fazer uma corrida de gente grande e se colocar como candidato natural à vitória, sem auxílio de circunstâncias excepcionais. Parem de julgá-lo e chamarem de imaturo, juvenil ou que errou. Reclamamos sempre de pilotos pouco ousados que não se arriscam e são burocratas do volante (alô Bottas!!), mas quando um piloto arrisca tudo para buscar a vitória e não dá certo, vamos apontar o dedo para o rapaz e ficar falando que errou? Me ajudem né. Foi um domingo soberbo do jovem piloto inglês, demonstrou mais uma vez muita maturidade, fez tudo certo, a equipe fez tudo certo, e por uma infeliz conjuntura de fatores climáticos, a vitória não veio. A vitória do Lando está no forno, crescendo, quase chegando, e chegará em breve. Possivelmente ainda esse ano.

Resenhando

Guerra dos Tronos – Livro 1: Bom, “pero no mucho”.

Vou iniciar uma nova seção aqui no blog. Estou sempre lendo um livro, foi um hábito adquirido ao longo dos anos que mantenho com muito prazer. De uns tempos para cá, estou participando dos desafios Skoob lá na plataforma, e um dos desafios é o de sempre fazer a resenha de um livro lido. Vou começar a trazer aqui no blog também uma resenha dos livros que leio, quem sabe posso estimular alguém a ler novos livros, não é mesmo? Será uma seção fixa, e sempre que finalizar uma leitura, vou trazer a minha percepção aqui para que possamos falar sobre o delicioso hábito da leitura. Pois bem, vamos lá ao que realmente interessa:

Decepcionante. Esta é a palavra que melhor define o meu sentimento ao finalizar a leitura deste livro. Calma, não me julguem. Leiam até o final que eu explico o motivo de usar este adjetivo. Conheço a fama da saga criada pelo autor, e mais ainda, acompanhei toda a repercussão da série derivada da obra. Por isso a minha expectativa era alta com esse livro. Aliás, altíssima, pois além de todo o zum, zum, zum, tive recomendações de duas pessoas que são leitores tão ávidos quanto eu e ambos me recomendaram enfaticamente a leitura desta obra. Então cheguei já esperando um enredo arrasa-quarteirão e avassalador. Claro que quando esperamos tanto de algo, pode ser que a realidade não corresponda à nossa expectativa imaginada, mas por muitas vezes ainda é algo gratificante. Com livros isso acontece constantemente, não era tudo aquilo que eu esperava, mas ainda me rendeu uma boa leitura. E é o caso de “A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo – Livro 1”, ainda que, se fosse localizá-lo numa escala de 0 a 100, sendo 100 o indicador para ter atendido e até superado as minhas expectativas, penso que o colocaria próximo à metade da escala, talvez até um pouco abaixo.

Fiquei realmente frustrado com a leitura. O livro é um calhamaço de quase mil páginas, mas que certamente metade ou menos que isso daria conta de contar a história sem divagar tanto em descrições. O livro perde muito da ação por conta da opção do autor por descrever rica e exaustivamente cada peça de figurino e cenário de cada um dos personagens que vão aparecendo ao longo da história. Sério, não estou brincando. Em determinados momentos o autor usa 2 ou 3 páginas para descrever o modo como cavaleiro tal está vestido, com a armadura assim, o elmo assado, o manto de tal jeito com bordados de não sei o que e coisa e tal. Sei que na escrita literária, a descrição rica de personagens e cenários é essencial para o envolvimento com a história e o despertar da imaginação para o que se lê, mas acho que o autor abusou um tiquinho demais desse recurso e deixa o livro cansativo e pesado desnecessariamente.

Em contraponto, fiquei com a sensação de que os momentos de ação da história que possuem relevância direta para o fechamento do primeiro volume são contados de forma acelerada e simplista, quando poderiam ser mais bem exploradas, especialmente se considerando o tempo e energia dedicados à descrição de vestimentas. Por exemplo, (aqui solto um breve spoiler, se ainda não leu o livro e espera ler no futuro, e não gosta de saber nada antecipadamente, recomendo pular o restante deste parágrafo e seguir a leitura no parágrafo seguinte), o episódio do embate entre o Regicida e seus asseclas contra Lorde Eddard Stark, que resulta na perna quebrada e total mudança de planos deste, acontece de forma tão rápida que não entendi muito bem como se deu de fato a queda que ocasionou a lesão na perna do senhor de Winterfell. Acho que um fato tão relevante para o direcionamento da história poderia ser mais bem explorado.

Além disso, para um livro tão extenso, a sensação de que nada de realmente relevante acontece na história deixa um gostinho de “enganação” no leitor. Não enganação de fato, de se sentir traído pelo autor, mas uma enganação no sentido figurado, de se pensar que com quase mil páginas, existiriam acontecimentos mais marcantes ao longo da trama e mais perguntas respondidas ao término da leitura. Sei que o autor escreveu o livro pensando-o como parte de um enredo ainda mais extenso, quase que como somente a introdução do universo fantasioso que criou, para realmente explorar os desdobramentos ao longo dos volumes futuros, mas é possível um livro que seja parte de uma coleção maior ter mais respostas e uma história independente da trama geral (aí está o universo Harry Potter e seus sete livros que não me deixam mentir).

Durante a leitura, fui observando que o universo criado pelo autor possui muitas semelhanças com o universo fantasioso de Eragon, como as intrigas antigas do reino, a história de dragões desaparecidos que retornam à vida, diversas criaturas místicas e um mundo vasto e perigoso. Posteriormente, ao pesquisar, vi que o primeiro livro da saga Game Of Thrones foi lançado em 1996 e Eragon em 2002, portanto pode ser até que o autor Christopher Paolini (de Eragon) fosse um fã do universo criado por George R.R. Martin e tenha se inspirado diretamente em sua obra para criar os cenários de sua própria história.

Mas não achem que eu detestei o livro. Pelo contrário, achei até uma boa leitura, somente cansativa por conta do excesso de descrições como já mencionei, mas ainda assim é uma leitura que prende e desperta a atenção e provavelmente irei ler os demais volumes da saga, até para saber como o autor irá encerrar a batalha pelo trono de ferro. O recurso do autor de não haver um narrador fixo, mas vários olhares diferentes sobre os acontecimentos, contados capítulo a capítulo pelos olhos de cada personagem, nos possibilitando vários pontos de vistas sobre o que acontece em diferentes locações da história torna a leitura estimulante e compensa o ritmo lento pelo excesso de descrição dos cenários. Especialmente quando o capítulo narrado por determinado personagem começa a ficar mais envolvente e ficamos na expectativa do desenrolar da história, mas aí o capítulo se encerra, e a narrativa passa para outro personagem, que está seguindo uma linha do tempo distinta e destacando fatos que considera mais relevantes, sem porém qualquer ligação direta com o desenrolar no capítulo anterior, ficamos ansiosos para retomar o ponto anterior e com isso a leitura avança mais rápida.

Peço que me perdoem pela resenha majoritariamente negativa. Talvez ainda esteja levemente chateado por esperar muito mais da história. Possivelmente essa sensação possa melhorar ao ler as obras seguintes e o cenário geral ganhar mais corpo e profundidade. A primeira impressão pode não ter sido das melhores, mas certamente darei nova chance ao universo do autor e irei retornar aos Sete Reinos e, quem sabe, com a expectativa menor, possa vir a ser arrebatado como milhões de pessoas ao redor do mundo. Nota 2,5 de 5 considerando todos os fatores.

(Re)Inícios

Estou de volta. Pouquíssimas pessoas, além de mim mesmo, se recordam que há alguns anos eu mantive um blog pessoal, com maior ou menor assiduidade, de acordo com o momento vivido à época. O blog sempre funcionou como um espaço de liberdade para falar sobre assuntos que fossem do meu interesse. Entre 2009 e 2014 isso significou basicamente falar de automobilismo e games, com uma ou outra exceção tratando de um assunto distinto. Porém, desativei este espaço em 2014, um pouco assustado com a escalada do ódio online, receoso de alguma palavra já escrita pudesse ser mal interpretada e acabar gerando alguma dor de cabeça. Ainda que à época eu considerasse esta decisão correta, hoje me arrependo levemente, pois os textos ali postados eram um recorte de um momento muito único de minha vida e que serviriam, pelo menos como amostra histórica de meu crescimento pessoal. Porém, como já é um fato consumado, não vale a pena ficar me lamentando e ser grato por ter aqui uma oportunidade para um novo começo. E como todo recomeço, temos a oportunidade de revistar algumas decisões, e por isso optei por explorar uma nova plataforma de blogs, a fim de reoxigenar a experiência e buscar uma nova abordagem conforme meus objetivos nesse espaço. Enfim, estou de volta. Há tempos venho ruminando este desejo de retorno e sempre postergando a decisão, porém aqui estou e mesmo com diversos desafios de tempo e agenda, além é claro de disposição, estou ansioso para trilhar um novo caminho neste espaço, compartilhar algumas ideias e reflexões, buscando ser um espaço livre e que possa trazer, ainda que tímida e minimamente, algo de bom para as pessoas que por aqui passarem e se dispuserem a ler as frases incertas e claudicantes que irei pingar por aqui de vez em quando. Não haverá um tema no blog. Não haverá um assunto principal. Não existirão objetivos. A ideia é que seja um espaço livre e despojado de compartilhamento de ideias. Sem certo ou errado. Somente liberdade para escrever, para ler, para refletir, para conversar. Com respeito, otimismo, uma pitada de humor e leveza. A única coisa que busco é paz. E todos que compartilham dessa busca, são bem vindos a desfrutar deste espaço. Será quase um exercício terapêutico, de extravasar algumas ideias que ficam ruminando em minha mente por dias a fio, ou mesmo um simples exercício criativo de escrita, processo que invariavelmente me proporciona um sentimento de paz e serenidade que faz bem nesses tempos tão sombrios que estamos vivendo. 
Espero que seja uma jornada prazerosa e enriquecedora. Aos que quiserem me acompanhar neste caminho, sejam muito bem vindos.