A quarta leitura deste ano foi o livro “Onze Anéis: a Alma do Sucesso”, do mestre Phil Jackson. Apesar de ser um fã confesso do antigo treinador da NBA, estou há anos com esse livro guardado esperando um bom momento para iniciar a leitura. Confesso que minha hesitação se devia principalmente pelo receio de ser um livro estilo “autoajuda” ou voltado para o universo corporativo/empresarial. Já havia visto personalidades do mundo corporativo recomendando o livro, e isso sempre me causou arrepios. Detesto esse tipo de leitura.

Mas, como nesse início de ano estou me propondo a resgatar leituras antigas ou livros que estavam parados na minha biblioteca, resolvi deixar o preconceito de lado e dar uma chance, afinal de contas, se tratava de uma obra sobre o universo do basquetebol, com um personagem que me desperta muito interesse e admiração.
E que bom que optei por dar essa chance. É um bom livro, que conta de forma direcionada boa parte da carreira de Phil Jackson, desde a sua adolescência, sua carreira no basquete universitário até a chegada à NBA como jogador do New York Knicks, até a sua aposentadoria como treinador, após o recorde de 11 títulos. Não se trata, porém, de uma biografia. Não no contexto clássico de uma obra biográfica. Phil Jackson conta diversos detalhes sobre a sua vida e sua carreira, detendo-se com maior ou menor atenção em alguns pontos específicos. Mas é uma descrição direcionada, quase sempre para a sua abordagem como jogador e treinador de basquete, e sua busca incessante por autoconhecimento e crescimento espiritual, sem ser forçado ou enfocando alguma religião.
Acho interessante que ele descreve a sua intensa formação cristã, por conta da criação de seus pais, mas como nunca isso nunca o tocou profundamente e quando se tornou adulto partiu em busca de uma ressignificação de sua espiritualidade e o aprofundamento na doutrina zen-budista.
O autor descreve várias passagens interessantes e as visões e interpretações de diversos personagens relevantes, em especial Michael Jordan e Scottie Pippen, e no segundo tricampeonato do Chicago Bulls, os desafios de treinar e extrair o melhor do instável e brilhante Dennis Rodman. Há também passagens deliciosas sobre o tempo de Los Angeles Lakers, que, para um torcedor como eu, são maravilhosas, especialmente a relação cheia de altos e baixos de Shaq e Kobe, marcado por uma intensa rivalidade e uma parceria fantástica. Phil Jackson aborda amplamente suas estratégias para lidar com a luta de egos existentes no universo de Los Angeles, as maneiras com que possibilita a criação de uma conexão especial entre atletas de personalidades tão diversas buscando uma unidade enquanto time que possibilita a realização de feitos espetaculares.
Com a leitura, pude entender porque diversas pessoas citam o livro como obra de referencia para gestão, pois aborda muito aspectos de liderança e gestão de conflitos, principalmente. Mas, o livro vai muito além disso, o que simplifica quando o retratam como um livro de gestão. Pude finalmente entender também porque chamam Phil Jackson de o “Mestre Zen” da NBA, pois ele trata em diversos momentos dos ensinamentos do budismo e como aplicou em seu universo, especialmente os benefícios da meditação e direcionamento de foco, desligando-se dos ruídos e interferências que envolvem todo o universo do basquete profissional.
Foi uma leitura enriquecedora, tanto no conhecimento de curiosidades de momentos especiais dos últimos 30 anos da NBA, como Phil Jackson construiu 2 dinastias com duas franquias extremamente diferentes, e como trilhou seu caminho rumo ao autoconhecimento espiritual e como essa experiência foi fundamental no seu sucesso e no seu crescimento pessoal. Como alguém que vive um momento pessoal de questionamento profundo de suas verdades espirituais e não encontra familiaridade no universo que sempre frequentou, a busca do autor me tocou profundamente e possibilitou reflexões importantes e essenciais no processo pessoal que vivo atualmente. Livro surpreendentemente bom e leve, que me prendeu do inicio ao final, muito mais que estava esperando. Nota 4/5.


