O último apelo

Estamos a pouco mais de 24 horas do resultado das eleições presidenciais de 2022. Amanhã neste mesmo horário receberemos os primeiros números de apuração das urnas pelo Brasil e começaremos a celebrar ou lamentar. Tudo o que havia de ser dito já foi dito. Todos os pontos já foram colocados na mesa e discutidos exaustivamente. Nessa altura do campeonato, todos já estão com seu voto decidido para amanhã.

Minha passagem por aqui hoje é somente para fazer um último apelo. Peço a todos que apelem para a sua humanidade. Deixem de lado o que viram no WhatsApp. Deixem de lado os vídeos de “analistas” ou especialistas falando de previsões chocantes caso Lula seja eleito. Gente, sejam minimamente razoáveis. Se você está próximo dos 30 anos ou já passou dessa idade, você viveu conscientemente os anos de governo Lula no Brasil. Nunca viramos uma ditadura comunista, não passamos nem perto disso. Se você tinha 5 anos de idade em 2002 você se lembra de tudo o que aconteceu naqueles tempos, mesmo que fosse uma criança sem qualquer preocupação. O Brasil era um país feliz. Otimista. Esperançoso com o futuro. Racionalmente não há como você pensar que o Brasil dos últimos 4 anos está melhor que isso. Não tem como. Você pode ter escolhido acreditar nisso, mas no fundo de sua consciência você sabe que isso não é verdade.

Mas eu havia falado de humanidade. Gente, apelo para que sejam mais humanos. Os ataques a pessoas de Igrejas, toda a arruaça feita durante a festa da padroeira do Brasil. Todos os padres e pessoas que estão sofrendo ameaças de morte por simplesmente estarem pregando o evangelho de Jesus Cristo. Não é possível que não consigam perceber que as pessoas que estão se ofendendo e se exaltando durante homilias e sermões Brasil afora estão sentindo isso ao ouvirem literalmente a “palavra de Deus”. Isso é normal? Vocês realmente acham que é o PT ou Lula ou a esquerda quem estão provocando isso? Gente, Lula foi candidato à presidente por 6 vezes e em nenhuma das outras 5 vezes houve qualquer tipo de manifestações como essa, qualquer ataque a pessoas do clero ou quem quer que seja. Sério mesmo que vocês acreditam que o problema está no Lula ou na esquerda? Qual a única diferença nas eleições presidenciais que houveram antes de 2018 e de lá para cá? A violência, a truculência, a intimidação. Por qual motivo vocês acham que essas manifestações de violência estão acontecendo com maior frequência e agressividade neste momento?

Sejam humanos, gente. Deus nos dotou de um cérebro altamente capacitado para que pudéssemos pensar. Vamos utilizar esse presente! Sejamos críticos. Sejamos conscientes. E mais uma vez, sejamos humanos. Não é possível que tanta violência, tanta indiferença com a dor do outro, tanta falta de empatia e gentileza sejam normais. Passamos por uma pandemia que morreu quase meio milhões de pessoas por indiferença. Por descaso. Eu perdi um amigo queridíssimo que não pode sequer conhecer a minha filha. Que não poderá visitar a minha casa para um almoço de domingo. Por descaso. Por falta de humanidade de quem deveria zelar pela vida dos brasileiros. Não é possível que já se esqueceram disso. Não é possível que irão relevar isso. Não é isso que queremos para nosso país. Não é isso que queremos para nosso futuro. Se não querem pensar no mundo melhor agora, pensem no mundo que querem deixar para seus filhos e netos.

Apelo para a humanidade de cada um de vocês. Tenho uma filha de 2 anos, que está começando a descobrir o mundo, começando a experimentar de fato esta grande aventura que é a vida. Me ajudem a permitir a ela um mundo onde possa correr e brincar por ruas e praças sem medo de sofrer qualquer tipo de violência ou abuso. Permitam que ela possa ir para escola e brincar com os amiguinhos sem o receio de que algum deles possa ter pegado a arma do pai/tio/irmão e levado para mostrar aos coleguinhas na hora do recreio. Permitam que ela cresça consciente de sua força e capacidade e possa ter direito a todas as oportunidades de forma igualitária. Que ela possa nunca ser diminuída ou depreciada por ser mulher. Que ela possa ter condições de sonhar com um futuro em que haja abundância de água, alimento, saúde e educação.

Se você é pai ou mãe, sabe do que eu estou falando. Do quanto sonhamos e desejamos que nossos filhos possam ter uma vida feliz. Se você não é, certamente é tio, primo ou amigo de crianças e certamente quer o bem delas e quer que cresçam em um mundo com mais amor, com mais compaixão, com mais humanidade. E isso não será possível com nosso país vivendo como em um faroeste sem lei, com as pessoas raivosas e armadas por todo lado, buscando somente uma oportunidade para se mostrarem as mais fortes ou corajosas unicamente por terem uma arma na mão.

Pelo amor de Deus, o que está em jogo aqui é algo muito maior que somente o medo de um comunismo irreal que nunca existiu e nem existirá. O que está em jogo aqui é a oportunidade de tentarmos mais uma vez construir uma sociedade com maior humanidade, tolerância e paz. Não permitamos que um lunático violento com fetiche por armas desvirtue a nossa sociedade e nos torne um país cheio de ódio.

Você pode não gostar do Lula, é normal e legítimo. Mas infelizmente, ele é a única opção que restou para que possamos voltar a ter um mínimo de normalidade em nosso país. De ter um presidente que se responsabilize por seus atos. Que queira falar a todos os brasileiros, e não somente aos que o apoiam. Que queira construir pontes e dialogar e não somente agredir e subjugar aquele que é diferente, ou pensa diferente. Nós merecemos poder dialogar com todos. Mas é impossível fazer isso se alguns dos outros estiverem armados e prontos para tirar a nossa vida somente porque não concordam com as nossas escolhas.

Pensem em nossas crianças. Você se sentiria seguro se os professores de seus filhos estivessem armados na escola e lidando com os desafios de educar várias crianças inquietas? Você gostaria que o professor de natação do seu filho o xingasse e o chamasse de incapaz somente porque a criança não conseguiu fazer o exercício que ele pediu? Você se sentiria à vontade se o Uber que sua filha adolescente pegou para ir à festinha na casa da amiga olhasse com olhos lascivos para ela porque acha que pintou um clima somente porque a menina foi educada? Você acredita que o ambiente mais acolhedor para a família é uma igreja onde todos são raivosos e julgam cada pequeno detalhe da vida do outro, impondo regras e sofrimentos a quem não se enquadra no modelo que avaliam como certo?

Sejam humanos! A inteligência é o maior dom que recebemos de Deus e o que nos diferencia da maioria dos outros animais que andam por esta terra. Rogo esse apelo a todos que estiverem lendo este texto. Sejam humanos. Não se deixem contaminar pelo ódio ou pela estupidez. O mundo é complexo, é difícil, é injusto, mas somente com humanidade e harmonia teremos uma chance de prosperar. Sejam humanos. Escolham a humanidade amanhã. Deixei a irracionalidade de fora da sala de votação. Votem pela paz. Votem pela harmonia. Votem pelo respeito. Votem pelo amor. Quem ama não quer violência. E quem não quer violência não precisa de armas. Sejamos luz. Sejamos amor. Multipliquem o amor. O amor é dom de Deus. Não o ódio. Votem com amor! 

SEM MEDO DE SER FELIZ!!!

Relatos de uma noite no teatro

Este texto não tem o desejo de soar pretensioso, elitista ou intelectual, relatando a experiência de ir ao teatro como algo superior ou descolado. Não sou superior a ninguém e muito menos descolado. Pretendo somente compartilhar com vocês uma experiência deliciosamente leve e revigorante ao mesmo tempo, permitindo nos desconectar da realidade por 90 minutos e vivenciar uma experiência transcendental de conexão com a arte e com a lembrança de que, apesar de tudo, ainda resta beleza neste mundo e que podemos desfrutar dela, basta querer.

Oswaldo Montenegro – Teatro Municipal de Uberlândia – 13/10/22

Me refiro a experiência de poder vivenciar a apresentação de Oswaldo Montenegro na noite de ontem aqui em Uberlândia, no teatro municipal. Quem me conhece sabe que, apesar de conhecê-lo enquanto artista desde a minha infância, eu “descobri” Oswaldo em 2014 em uma apresentação gratuita aqui na cidade. De lá para cá, consumi a sua discografia avassaladoramente e me tornei um admirador incondicional de sua capacidade artística.

Essa descoberta me proporcionou uma conexão com um aspecto artístico e de sensibilidade que sempre me havia escapado. Não fui criado ou educado para experimentar e apreciar a arte. Tampouco para desenvolver a sensibilidade. E a obra e a vida de Oswaldo Montenegro foi uma hecatombe de descoberta deste universo e ao mesmo tempo uma ponte de conexão justamente com estes aspectos tão negligenciados de minha formação pessoal.

Como o relato feito pela atriz Paloma Duarte em um dos DVDs de um show de Oswaldo, ele consome e produz arte 24 horas por dia. E é impossível a qualquer pessoa que tenha contato com uma obra de Oswaldo ficar indiferente a ela. Seja diante de uma pintura, de um poema, de uma peça de teatro, de um curta metragem ou, é claro, diante de uma de suas canções.

A experiência de vivenciar uma apresentação musical de Oswaldo Montenegro é como experimentar diversas sensações em um curto espaço de tempo. Se vai da alegria à melancolia, passando por momentos de deslumbre e arrebatamento, combinando risadas com momentos de profunda reflexão e, ao final da apresentação, a sensação é de alma lavada e reenergizada.

Particularmente neste momento tão tenso em que vivemos, com emoções à flor da pele e em constante ebulição, a sensação de poder se sentar e viver e sentir uma canção de Oswaldo transcende o simples “ouvir” música, nos permitindo experimentar a arte com todos os nossos sentidos, e mais do que isso, nos conectar com aspectos esquecidos de nossa ou nunca experimentados de sensibilidade, nos permitindo acreditar que tudo pode melhorar, que tudo irá melhorar, pois, como bem diz o artista, “que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer”, maravilhoso poema-canção e talvez a obra mais famosa de Oswaldo, Metade.

O show em si é tecnicamente perfeito, exaltando todas as qualidades de Oswaldo como cantor, compositor e instrumentista, onde ele passa por toda a sua carreira com um pot-pourri de uma hora de duração, com uma canção se sobrepondo a outra e formando uma sequencia maravilhosa na qual não se é possível encontrar uma que se goste menos, ou que não seja tão boa quanto a anterior, na qual destaco a poderosa e inspiradora “Eu quero ser feliz agora”,com seu grito de inconformismo e declaração de autodeterminação em busca da felicidade.

Além do desfrutar de canções tão belas, existem momentos excepcionais na apresentação, como a oportunidade para reflexão e cura interna de uma dor ou trauma, durante a apresentação da belíssima “Estrada Nova”, uma das canções mais belas e tocantes que já conheci, expressando emoções e sentimentos que jamais havia conseguido expressar antes.

Há também o momento de reverência de Oswaldo a outros artistas que o inspiraram e inspiram ainda hoje, com recortes de gracejo e autodepreciação quando o artista relata que tinha um grave defeito e que levou anos para superar, e quando a audiência se pergunta qual seria tal defeito, ele completa “eu era jovem…”, arrancando risos de toda a plateia. Neste momento o artista ressalta como se encanta com a canção Blowing in the Wind e a frustração de não ter encontrado resposta alguma no vento, e que, por sua vez, responde a Bob Dylan em forma de homenagem, afirmando que “o vento não traz resposta, acabou”, refletindo ainda a respeito do medo humano da solidão. Tem ainda a reverência a Jorge Ben Jor por, nas palavras de Oswaldo, “nunca ter escrito uma música triste”, e como ele – Oswaldo – afirma que nunca havia conseguido isso e precisou se esforçar muito para conseguir compor uma canção que não fosse triste, resultando na maravilhosa e reconfortante “Sem Mandamentos”.

Ainda nesta temática, houve um momento espontâneo vindo da plateia que resultou em uma homenagem a Belchior, quando uma pessoa pediu para Oswaldo cantar “A palo seco”, no que ele afirmou que “queria ter escrito essa canção”, sendo tal declaração o ápice de admiração e respeito pela obra do genial cantor cearense.

A segunda parte da apresentação foi um diálogo entre o artista e o público, com bastante informalidade e bom humor, no qual ele conta histórias, relata experiências da vida, faz reflexões a respeito do mundo e da história e relata sobre as trilhas sonoras de seus filmes, resultando em momentos deliciosos, como a reflexiva e provocativa “A lógica da criação” que coloca em versos os questionamentos em que todos nós fazemos em algum momento da vida mas não temos a coragem ou a disposição de colocar em palavras.  Importante destacar ainda a breve palhinha a pedido de uma fã da canção “Incompatibilidade” que, com seu ritmo rápido e animado, levantou da cadeira e colocou para dançar as poucas crianças presentes no teatro, mostrando que a obra de Oswaldo transcende faixa etária e pode ser apreciada em todos os momentos da vida.

Por fim, a apresentação é um balsamo de paz e sensibilidade artística em meio ao caos do mundo atual, uma ilha de beleza e emoção que nos permite um respiro e ressalta a importância e a necessidade da democratização do acesso de todos à arte e a cultura. A dureza do mundo torna-se muito mais fácil de lidar quando há esse respiro proporcionado pela arte. E Oswaldo é um artista completo. O meu artista favorito, ainda que isso não signifique muita coisa para alguém além de mim mesmo. Foi minha terceira oportunidade de acompanhar um show ao vivo e espero que venham muitas outras. E para quem ainda não pôde acompanhar, eu ressalto: não percam a oportunidade. Mais que um show de música, é uma experiência de vida. Mesmo que não conheça uma canção sequer, eu tenho a certeza de que irá sair da apresentação muito melhor que chegou. Vida longa à arte e à boa música!

Vamos falar sobre a corrupção do PT?

Acho que já é hora de falarmos sobre esse assunto, né? O assunto do momento no Brasil que está na boca do povo há tempos. Antes de mais nada, um aviso: se você espera encontrar aqui um texto defendendo a corrupção dos governos do PT, vai se decepcionar. Tampouco vou condenar ou demonizar como muita gente faz. Também não vou relativizar o assunto, mas procurarei contextualiza-lo. Logo, se você chegou aqui esperando uma defesa ou uma acusação apaixonada com relação a este tema, lamento frustrá-lo. Este não será o objetivo aqui. Recomendo que abandone a leitura aqui mesmo, para não perder o seu tempo.

Percepção da Corrupção – Créditos na imagem

Mas se você, assim como eu, acha que este é um tema extremamente complexo e que qualquer análise feita com o fígado pouco acrescenta para a discussão e especialmente para o objetivo de construir um país melhor, talvez encontre neste texto ideias que ressoem com os seus anseios. O objetivo aqui será fazer uma análise crítica deste tema tão complexo e tão profundo, sem qualquer desejo de propor respostas, mas apenas de levantar questões que possam contribuir com o enriquecimento da discussão.

Feito todo esse preâmbulo, vamos começar. O primeiro ponto a se discutir é que os governos do PT, de 2003 a 2014(os dois anos do segundo mandato de Dilma sequer podem ser considerados aqui, tamanha a disposição de diversos setores da sociedade e da politica em sabotá-la antes de sequer avaliar o que ela tinha a propor) foram os primeiros governos da história do Brasil a terem de lidar com a internet e as redes sociais. Ainda que em 2003 a internet estivesse longe de estar presente em todo o país, como hoje, já tínhamos uma boa parcela da população utilizando a rede. E mais do que isso, eram os primeiros passos das redes sociais, em especial com o surgimento do Orkut e MSN. Posteriormente vieram facebook, twitter, Instagram e todas as outras redes que surgem e desaparecem diariamente no mundo de hoje.

Mas o que isso tem a ver com a corrupção nos governos do PT? Tudo! Foi nessa época em que surgiram os grandes portais de notícias que repercutiam as denúncias de corrupção em tempo real, sem haver a necessidade de fechamento de uma edição diária, semanal ou mensal de jornal ou revista para publicação. Foi o início da era da informação imediata e da repercussão massiva nas redes sociais. Pense comigo: antes das redes sociais e da internet, as denúncias de corrupção chegavam ao grande publico somente via telejornais, especialmente o Jornal Nacional. A pessoa via as notícias do dia, se revoltava com as denúncias de corrupção, talvez repercutisse ali com as pessoas que habitavam a mesma casa, mas depois ia jantar, ver novela, acompanhar um filme na TV ou uma partida de futebol e depois ia pra cama. No outro dia, esse assunto, ainda que surgisse ao longo do dia, não estava no topo da lista dos pensamentos da pessoa. Com a internet e as redes sociais isso mudou. O volume de informações a que temos acesso, o tamanho, o alcance e a duração da repercussão tornou-se muito maior, o que nos leva à percepção de que o volume de denúncias é muito maior atualmente.

Ou seja: os governos do PT foram os primeiros que tiveram de lidar diária e exaustivamente com o escrutínio massivo de cada noticia na internet. E aí entra um segundo fator muito importante: foi a primeira vez que um partido de orientação política de esquerda governou nosso país. Os verdadeiros donos do poder ficaram muito sentidos com isso, ainda que tivessem sinalizado positivamente em um primeiro momento. Foi como se dissessem: “tudo bem, vamos deixar vocês governarem, mas estaremos de olho para massacrá-los ao menor deslize que cometerem”. A disposição para o superdimensionamento de cada denúncia feito durante os governos petistas já era muito maior que em qualquer outro governo anterior. Mesmo sem a massificação da internet, o PT já iria sofrer bastante com a mídia negativa em seu governo, pelo simples fato de serem um governo surgido das esferas mais humildes da população. Aqui entra outro componente bacana dessa equação: o ódio de classes. O PT não somente conseguiu alcançar o poder vindo da classe trabalhadora, como construiu uma máquina gigantesca que ousou se manter no poder, mandato após mandato. Então a hiperexposição de cada denuncia de corrupção, a manipulação da narrativa para que fossem apresentadas como as maiores já vistas no país, tudo isso contribuiu para essa visão disseminada entre muitos hoje que “nunca havia se roubado tanto” quanto durante o período do PT no poder.

Será mesmo? Vamos jogar uma luz sobre os principais escândalos de corrupção durante a Era PT no poder. O primeiro deles e que rendeu condenações a inúmeros personagens do alto escalão do governo petista foi o escândalo do mensalão. Minha nossa, que horrível! O governo tinha um orçamento mensal para distribuir entre parlamentares que votassem favoravelmente às medidas propostas pelo Executivo. Quais eram as principais medidas apresentadas à época? Sendo google free e puxando somente pela memória: Programa Fome Zero, Bolsa Família, Criação de Novas Universidades Federais e Ampliação do orçamento para reforma, infraestrutura e novas cursos e vagas para as já existentes, Programa de Aceleração do Crescimento, visando obras de infraestrutura em todo o país, PROUNI e Minha Casa Minha Vida.

Tudo bem, vamos deixar de lado as pautas e voltar para analise somente do fato: governo pagando “mesada” para parlamentares a fim de garantir maioria no congresso. À época foi alardeado como o “o maior esquema de corrupção da história”. Aí eu questiono: em que este esquema difere do esquema adotado pelo governo FHC na década de 90 por muito tempo para aprovação de projetos do governo e que veio à tona com denúncias quando houve a votação da emenda constitucional que permitiria a reeleição presidencial? Se buscar reportagens da época, todas tratavam da denúncia com muito mais permissividade, alegando que se tratava de algo questionável, mas compreensível. Hoje, 25 anos depois, a grande maioria da população sequer se recorda do fato que, em essência, trata-se exatamente do mesmo caso do Mensalão, que até hoje rende ao PT a alcunha de “partido de ladrões”.

Vamos falar agora do segundo escândalo de corrupção nos governos do PT que veio para substituir o anterior como “o maior esquema de corrupção da galáxia”: as investigações da Lava Jato sobre as negociatas entre empreiteiras e a Petrobrás. Na última década, este caso tornou-se o assunto mais falado em todos os telejornais e portais de internet do país – quem não se lembra da abertura diária do Jornal Nacional falando por 20 minutos sobre as delações do processo com aquele tubo enorme escorrendo nota de 100 reais às costas do Bonner?

Uma vez mais a história vem em nosso auxílio para lançar um olhar um pouco mais crítico a tudo o que aconteceu. Todas as empreiteiras citadas neste processo são empresas gigantescas e que prestaram e continuam prestando serviços de infraestrutura ao governo federal desde a década de 60, quando surgiram e enriqueceram. Alguém realmente acredita que as negociatas de superfaturamento, notas frias e favorecimentos em contratos públicos só ocorreram nos anos de governos do PT e todos os contratos realizados nos 40 anos anteriores possuem lisura e foram rigorosamente cumpridos sem qualquer desvio?

Como podemos avaliar as inúmeras obras faraônicas realizadas durante a Ditadura Militar que nos presenteou com uma lista enorme de elefantes brancos com pouco ou nenhuma utilidade pratica? Foram produzidas somente por conta do ufanismo militarista de mostrar um “Brasil Potência” ou foram enormes esquemas de corrupção e enriquecimento ilícito envolvendo o governo e empreiteiras intimamente ligadas à cúpula militar da época?

A respeito das denúncias da Operação Lava-Jato fia ainda uma outra questão: se o PT destruiu a Petrobras com os esquemas de corrupção, como que a empresa tem tido lucro liquido ano após ano? Pois é.

Olhando para a atualidade, como explicar o orçamento secreto? Por que não há diariamente nos jornais enormes reportagens a respeito desse repasse de verbas do Estado para parlamentares obscuros e para pagamento de notas de serviço altamente suspeitas em todo o país? E o já esquecido caso dos milhões de dinheiro publico repassado a prefeituras para pagamento de shows de cantores sertanejo por 3 ou 4 vezes o valor normal de um cachê cobrado por eles? O que tá acontecendo? Isso não é indício de corrupção aos olhos dos zelosos defensores da moral e críticos ferrenhos da era do PT no governo?

Para concluir – até porque o texto já ficou longo além da conta – façamos duas reflexões. A primeira é: se o PT é o partido mais corrupto da história do Brasil e foram eles que criaram a corrupção em nosso país, porque o partido sequer tem o maior número de políticos condenados por corrupção? Essa primazia cabe quase integralmente aos partidos do chamado “centrão” que hoje estão aí cheios de carícias, intimidade e alinhamento com o atual “presidente da república”, o príncipe anticorrupção, paladino da moral e lisura. O partido com o maior número de condenados – e com uma certa margem perante os demais – é o PP, coincidentemente o mesmo partido que abrigou o então parlamentar Bolsonaro por mais de 20 anos (e por toda carreira do coronelíssimo prefeito de Uberlândia). Outros destaques nessa lista impressionante são o PL – cujo presidente do partido, Valdemar da Costa Neto foi condenado e preço por corrupção, cumprindo prisão domiciliar por muitos anos e hoje abrigando, vejam só, o atual presidente da república – e o PTB, cujo presidente Roberto Jefferson não pôde se candidatar à presidência por estar impedido pela lei da ficha limpa(condenado por casos de corrupção) e que nos premiou com o falso padre surgido do submundo para tumultuar os debates presidenciais e servir de escada para o atual ocupante do planalto. Não é no mínimo curioso que partidos tão manchados por casos de corrupções em suas fileiras estarem todos alinhados ao governo que alega ter “acabado com a corrupção”?

Em segundo lugar, a reflexão final: corrupção é uma denúncia relativamente fácil de se fazer, porém muito complexa de se comprovar. Afinal de contas, entre tantas contas públicas, notas de serviço, licitações e concessões, como rastrear de onde vem o dinheiro e para onde vai para que se possam estabelecer provas confiáveis que houve desvio de dinheiro público para enriquecimento ilícito dos favorecidos, configurando-se assim o crime de corrupção de fato? Isso somente é possível se houver um investimento maciço em órgãos de fiscalização publica, como Ministério Público, Policia Federal e em toda a esfera judiciária. Com autonomia e infraestrutura para realização de um bom trabalho investigativo, as denúncias de corrupção surgirão aos montes – até porque, como já havia dito aqui – esse é um traço cultural inerente à sociedade brasileira.

O contrário também é verdadeiro, quanto menos autonomia e investimento houverem para investigações, menos denúncias e condenações por corrupção haverão. De novo, ao se olhar para os governos anteriores no Brasil, em qual momento da história foram criadas mais medidas para controle das contas públicas (como o Portal da Transparência, abandonado no governo Bolsonaro) e para liberdade investigativa do ministério publico e polícia federal no combater a corrupção? De 2003 a 2014, e quem estava no poder durante esse período? O PT.

Entendam de uma vez por todas: não acredito que não houve corrupção nos governos do PT; pelo contrário, sei que houve. Na realidade este é o meu maior ponto de crítica ao PT: para ser governo, deixaram de lado muito da identificação histórica do partido e se aproximaram com enorme semelhança às praticas adotadas historicamente em todos os governos anteriores, provando que, para conseguir governar no país, não importa se o partido é de esquerda ou direita, ele vai precisar aprender a jogar esse jogo obsceno de troca de favores com o congresso, do contrario passará ao rodapé da história como um governo fraco que não conseguiu levar adiante nenhuma politica autoral durante seu mandato.

Em outras palavras, o aspecto mais criticado nos governos do PT e aquele pelo qual é condenado veementemente como o mais imoral dos governos é o aspecto no qual ele mais se assemelhou aos governos de direita que vieram antes e depois da década em que o partido dos trabalhadores esteve no poder.  A grande diferença é que a hiperexposição de cada denuncia de corrupção por conta das redes sociais e internet existentes hoje e claro, a disposição da grande mídia – ressentida até hoje por um partido de origem popular ter chegado ao poder e ousado se manter lá – em querer massacrar a historia e o maior personagem do partido para que nunca mais ousassem ser governo no país. O projeto e o desejo não é só o de pregar de forma irremediável o rotulo de “bandido corrupto” em Lula e o PT. É o de massacrar as lideranças de esquerda para que nunca mais ousem ser governo no país.  O projeto em voga no país não é o de condenar e combater a corrupção, é o de construir uma narrativa na qual estes crimes só aconteceram e acontecem nos governos de esquerda, para que isso fique impregnado no imaginário popular e nunca mais consigam chegar ao poder.

O combate à corrupção talvez seja a mais inglória e difícil das batalhas a se promover no Brasil, pois como disse anteriormente, ela mexe com traços culturais nacionais e, por se tratar de uma pauta altamente moral, é facilmente distorcida com uma narrativa pseudo-religiosa e repleta de uma moralidade tacanha que não se atreve nunca a olhar de forma crítica a assuntos complexos, mantendo uma análise rasa e superficial do tema, pois assim é mais fácil de engajar e manipular o máximo de pessoas para aceitarem a narrativa estabelecida pelos verdadeiros donos do poder no Brasil. É difícil, complexo e exaustivo tentar ser critico nesta temática, mas somente insistindo no assunto é que poderemos um dia ver alguma mudança, ainda que marginal, nessa realidade.

A hora da esperança

Na última segunda feira, fiz uma postagem a respeito do resultado das eleições gerais do Brasil em 2022. No texto, repleto de tristeza e desânimo, comentei que mais do que o resultado das eleições, perdemos enquanto sociedade que desperdiçou mais uma chance de ser um pouco melhor, de avançar um pouco mais.

Não vou negar, fiquei muito decepcionado com o resultado; foi muito triste atestar que uma grande parte da população, mesmo tendo sofrido perdas pessoais e materiais enormes nos últimos 4 anos, continua apoiando este terrível projeto de poder neofascista excludente e preconceituoso representado pelo atual ocupante da cadeira de presidente da república. Minha frustração maior foi constatar que, para além dessa figura repugnante, boa parte de seus apoiadores que se lançaram em candidaturas próprias obtiveram bons resultados. Certamente acreditei que após tanta tristeza, esse movimento perderia forças.

Assumo a minha ingenuidade. Apesar de sempre fazer uma análise crítica do perfil sociocultural do brasileiro, ainda relutava em aceitar que o brasileiro poderia ser assim tão conservador, preconceituoso e misógino como se apresentavam estes candidatos. Mas a realidade é que somos verdadeiramente assim mesmo, o Brasil é um país com os dois pés fincados na tradição e ainda que tenhamos bolhas de progressismo e liberdade em alguns locais (quase sempre nos maiores centros urbanos); na maior parte do país, especialmente no interior, o tradicionalismo é quase lei, estimulado pela herança religiosa sistematicamente. Seja na tradição católica que ainda possui muito espaço, especialmente nas pequenas cidades e no campo, ou com o crescimento do número de evangélicos no país, com destaque para as representações neopentecostais pouco sérias que possuem explícita e quase que exclusivamente um projeto de tomada de poder no país, antes mesmo de um objetivo de propagação da fé cristã.

É esse retrato de Brasil que emergiu das urnas no último domingo. Talvez por estar esperando um resultado alinhado à minha visão de mundo e dos fatos nos últimos anos, eu tenha ficado um pouco assustado com o que apareceu. Mas a realidade que vejo agora, passadas 48 horas e com a cabeça mais fria, é que este resultado era esperado. O congresso nacional foi e continuará sendo a partir da próxima legislatura o mesmo espaço de sempre: branco, elitista, latifundiário e conservador. Com raríssimas exceções pretas, pobres e progressistas que demonstram a pluralidade do povo brasileiro, que ainda permite a eleição de pessoas fora dos centros de poder contra todas as expectativas.

Tenho uma teoria de que o baque que sentimos é porque hoje temos muito mais acesso à informação e podemos acompanhar em tempo real o desempenho do congresso, coisa que não era possível há alguns anos. Com a massificação da internet e das redes sociais, temos na palma da mão amostras diárias dos posicionamentos de todos os congressistas, bem como todas as articulações que são feitas ali. É como um grande reality show bizarro que acompanhamos e podemos a cada 4 anos escolher os participantes da brincadeira. Dessa forma pudemos perceber o quão baixo é o nível intelectual e moral dos ocupantes da “casa do povo” e tendemos a acreditar que a cada legislatura o congresso eleito é o pior da história. Acredito que a diferença é que anteriormente não tínhamos esse acesso à informação para perceber que historicamente, sempre foi assim e o nível do congresso sempre foi deplorável.

Fiz todo esse permeio para concluir que o meu estado de desânimo pós domingo de esvaneceu. O resultado era esperado e foi apenas reflexo de todas as nossas mazelas enquanto sociedade. Temos muito para avançar e muito pelo qual continuar lutando para que o futuro possa ser um pouquinho melhor. E mais do que isso: acompanhando um pouco da reação da seita bolsonarista ao resultado das eleições, todos ficaram chocados e verdadeiramente sentidos com a vitória do Lula na eleição presidencial, resvalando na possibilidade de fechar já no primeiro turno, apesar de todas as pesquisas indicarem esta possibilidade como real.

O descolamento da realidade vivido por esse pessoal é tão grande que uma parte gigante deles acreditava verdadeiramente que o excremento da república iria vencer a eleição no primeiro turno e sentiram muito o golpe. São tão fascistas e adoradores da figura do lider infalível que não conseguem olhar para a realidade como um todo, e se interessam somente pelo resultado que afeta o seu lider. E justamente esse resultado foi o mais negativo que tiveram. Os 5 pontos percentuais que o capiroto ficou atrás de Lula, representando cerca de 6 milhões de votos os deixaram chocados e transtornados, pois finalmente perceberam que a possibilidade de perderem a eleição é muito real. E isso já se traduziu em um crescimento massivo no disparo de notícias falsas e insultos a Lula.

Por isso, a nós progressistas que estamos do lado certo da história (a quem ainda duvida disso, o tempo irá confirmar) cabe redobrar os esforços e colocar ainda mais energia na eleição de Lula presidente, para deixar os bolsominions transtornados e sem chão. O congresso é retrogrado? Azar. Lula já enfrentou algo assim no passado e se saiu muito bem. O congresso vai dificultar a vida e os projetos de governo de Lula? Pode ser, mas ao mesmo tempo, Lula, como chefe do executivo, poderá vetar todos os absurdos que o congresso insistir em seguir adiante. Os próximos anos poderão ser um grande cabo-de-guerra do poder? É possível, por isso é ainda mais importante garantir que teremos um lado com muita força para travar essa batalha contra o obscurantismo e conservadorismo do outro lado.

O congresso está eleito, os cargos estão todos definidos e para nós, o foco agora é total na eleição de Lula Presidente. É hora de lutar contra cada peça de desinformação que for lançada. É hora que conversar com os mais humildes para ajudá-los a entender a importância de votar em quem olha para os mais pobres. É hora que conversar as pessoas religiosas que estão verdadeiramente com medo de uma “ameaça comunista” que está chegando desde 1945 e nunca se materializa de fato. Concluindo, é hora de lutar contra a mentira usando a verdade.

É hora de ser aberto, inclusivo, construir pontes com os mais humildes, incluí-los no centro da discussão, quebrar resistências, desmentir absurdos. É hora de força total. Sentimos o baque no primeiro turno. Vamos sacudir a poeira, respirar fundo e continuar a lutar pois a nossa vitória será muito maior e muito mais gratificante. O bolsonarismo é fruto do ódio e da violência, por isso sentiram e sentirão ainda mais o golpe após a derrota final, pois ela virá do amor e da alegria, da esperança em um futuro melhor, apesar de tudo. Como bem disse Zeca Baleiro em sua canção “nossa vingança vai ser de doer, porque seremos felizes como eles não podem ser”, pois quem ressoa no ódio e na carnificina não consegue experimentar verdadeiramente a alegria.

Seguimos na luta, são mais 25 dias de batalha pelo nosso futuro, para que possamos dar um passo mais próximo do destino que queremos seguir, do país que queremos construir e do futuro que queremos preparar para as próximas gerações. Para que possamos sonhar que podemos ser grandes, que podemos ser felizes e que podemos ser verdadeiramente um país inclusivo e justo para todos. Para que possamos verdadeiramente ser a imagem de acolhedores, alegres e sociáveis que tanto tentamos divulgar para o mundo. Podemos ser melhores, podemos ser mais felizes, basta querermos.

Batemos na trave, gente! Mesmo após 10 anos de insultos e perseguição diária da mídia e do gabinete do ódio, contra a máquina estatal usada para fins eleitoreiros, Lula conseguiu a maior votação que um candidato já conseguiu para presidente da república na história do Brasil. Faltou 1,5% para ser eleito no primeiro turno. Sendo massacrado diariamente por todos os lados, ainda assim quase deu pra fechar no domingo. É seguir na pegada. É hora de ter esperança. É hora de acreditar que podemos ser felizes. Que temos direito a um país onde tenhamos paz, respeito, liberdade e inclusão. Podemos e merecemos acreditar que o Brasil pode ser melhor do que somente ódio, ofensas e armas. Merecemos sorrir, brincar e se alegrar! Falta pouco! É só querer, converse com todos, vamos construir uma grande onda de alegria e esperança, é isso que o Brasil precisa após tantos anos de trevas e luto! O amanhã há de ser melhor! Seguimos lutando!!

Infelizmente, perdemos.

Sei que várias pessoas poderão me censurar ou me condenar por estar sendo muito pessimista em um momento já crítico ou estar desistindo antes da hora, mas a única palavra que me vem à mente ao tentar traduzir a sensação de vazio na boca do estomago ao acordar hoje, na primeira manhã pós resultado das eleições de ontem, é essa: perdemos!

Triste país – imagem autor desconhecido (para créditos, entrar em contato)

E o uso do pronome “nós” aqui é utilizado não somente para se referir a nós, militantes progressistas situados mais à esquerda no espectro político. O nós aqui é utilizado para se referir a todos NÓS, cidadãos brasileiros que, após passar anos nos deslocando a pé por um campo minado, debaixo de chuva contra inimigos muito mais bem equipados e sem qualquer clemência, chegamos à beira de um precipício e ao invés de usarmos a ponte que nos ofereceram para chegarmos em segurança ao outro lado, optamos por tentar pular o precipício acreditando que de alguma forma conseguiremos alcançar o outro lado do desfiladeiro.

Está além da minha capacidade lógica e racional entender o que acontece com o Brasil e o brasileiro nos últimos anos. O resultado das eleições de ontem mostram um povo perdido que procura a salvação nas mãos de seus carrascos, como animais que seguem com docilidade o caminho indicado por seus algozes ao matadouro. E aqui não me refiro exclusivamente à expressiva votação da pústula necrosada que temos o desprazer de chamar de “presidente”, mas sim ao cenário geral no qual praticamente todos os representantes desse mal pulsante chamado “bolsonarismo” tiveram expressiva votação para os mais diversos cargos.

É desesperadamente assustador pensar que um resultado desses pôde acontecer após estes 4 anos que vivemos. Este governo foi, com sobras, o mais desconectado dos anseios e necessidades da grande massa populacional do nosso país e o mais focado em governar visando única e exclusivamente os objetivos próprios. Foi um governo inteiramente voltado para atender aos caprichos do presidente e entregar o país aos desejos dos financiadores de sua campanha, utilizando a máquina estatal para dobrar o Brasil à suas vontades, não importando o quão inconstitucional eram suas atitudes.

E mesmo assim, conseguiu obter uma votação ainda mais expressiva que em 2018. Não importaram as mortes por descaso na pandemia. Não importaram as mortes na miséria causadas pela fome. Não importaram as mortes causadas pela escalada da violência com o armamento massivo de pessoas incapazes de operarem funcionalmente um garfo e faca à mesa. Não importaram as mortes causadas pelo avanço do desmatamento em nossas florestas. Não importaram quaisquer mortes causadas por esse governo, direta ou indiretamente. Pior, todos os cúmplices do “presidente” nessa carnificina – sejam por ação direta ou por conivência – que se lançaram candidatos a algum cargo nestas eleições foram eleitos com margem considerável, validando e relativizando os absurdos diários que vivenciamos nestes últimos anos.

Duas frases que vi ontem nas redes sociais resumem muito bem o desamparo e o desespero que estamos experimentando hoje: “o pior congresso da história será substituído pelo pior congresso da história”, provando que o fundo do poço pode não ter fim quando se há disposição de muitos para continuar cavando; e “agora é mais desanimador que em 2018, uma vez que as pessoas puderam experimentar o horror e metade delas quer continuar nele”, mostrando o inexplicável desejo do brasileiro em proporcionar meios para o próprio sofrimento.

Então, me desculpem as pessoas que querem se manter otimistas: admiro vocês, a resiliência e a capacidade em se manterem positivos e animados diante deste cenário aterrador. Até concordo com vocês, ainda há muito o que fazer e devemos continuar lutando para eleger Lula presidente. Acredito até que devemos fazer isso com ainda mais afinco, pois no final de contas esta é a única tábua de salvação que nos restou, a única boia que poderá nos manter à superfície em um mar revolto e repleto de tubarões. Mas a realidade crua e nua é que serão anos ainda mais difíceis pela frente, pois mesmo que Lula vença (e estarei 100% focado em lutar por este objetivo) a realidade é que será muito difícil para ele conseguir governar da forma positiva e progressista que gostaríamos, pois terá que lutar contra um congresso assustadoramente conservador e uma população que valida os seus absurdos. É uma tênue luz que pode nos guiar em um corredor longo e angustiante que nunca foi tão sombrio.

Lamento muito soar tão desanimado, mas depois de ontem, infelizmente a sensação é que mesmo que possamos vencer a última eleição que resta, na verdade já perdemos. Perdemos enquanto nação, enquanto sociedade que optou por validar a violência, a misoginia, o racismo, a vulgaridade, o desprezo pela vida humana, a falta de educação e o desprezo pela ciência e a defesa do meio ambiente. Por mais triste que seja assumir isso, a verdade é que, independentemente do resultado em 30 de outubro, nós já perdemos. Sairemos deste processo ainda pior que entramos.