
Hoje farei uma resenha diferente. Pela primeira vez irei resenhar dois livros simultaneamente: “A casa do outro lado do lago”, de Riley Sager e “A Garota no Trem”, de Paula Hawkins. Não se enganem, porém – não são histórias complementares ou pertencem ao mesmo universo. Se tratam de duas obras independentes, de duas autorias diferentes, que retratam universos distintos e com finais bastante diferentes entre si, e havia ainda cerca de dois meses de distancia entre os momentos de leitura de cada uma das obras. Ainda assim, encontrei nelas similaridades e sensações parecidas suficientes para que pudesse compartilhar as impressões sobre cada uma delas de forma conjunta.
Mas, falando brevemente sobre cada uma das histórias, “A Garota no Trem” conta a história de uma mulher que se divorciou recentemente e está lidando com a nova rotina com auxilio de bebidas. Nesse período ela passa diariamente diante de uma casa em seu percurso de trem para o trabalho e passa a acompanhar o casal que ali vive e a imaginar e fantasiar como seria a vida deles com base nos breves fragmentos que captura enquanto o trem passa pelo trecho em que a casa é visível.
Por sua vez, “A Casa do outro lado do lago” conta a história de outra mulher que também vive um período de luto e que recorre ao álcool para lidar com a situação – neste caso, porém, tratando da perda do marido após um acidente no lago ao lado da casa de veraneio da família. Mas também nesta história, a protagonista passa a acompanhar a realidade da vida de um casal vizinho – no caso os moradores da casa do outro lado do lago – e que também passa a inferir como é a vida do casal com base nos pequenos fragmentos que captura olhando com binóculos pelas amplas janelas da casa.

Para fins de organização, de agora em diante, passarei a chamar “A garota no trem” de a primeira história e “A casa do outro lado do lago” como a segunda história, para facilitar o entendimento. Pelo breve resumo que fiz acima das duas histórias já é possível entender os motivos pelos quais encontrei similaridades nos dois livros: em ambas há uma protagonista vivendo um período de perda e luto, se fiando na bebida para lidar com as emoções do momento e que se percebem vazias de protagonismo da própria vida ao ponto de se envolverem com ilusões criadas pelas próprias mentes ao observar a vida de terceiros próximos. Ainda há o fato de ambas as histórias envolverem investigações de desaparecimentos de outras mulheres que parecem estar ligadas às suas vidas antes do fato que desencadeou a solidão atual.
As duas histórias são bastante ricas de detalhes ao abordar a questão do alcoolismo e, o que mais importante neste contexto, de personagens femininas. Ainda hoje, em 2025, quando falamos de alcoolismo há uma associação direta e imediata ao gênero masculino. As duas histórias contribuem no sentido de desconstruir essa visão e, concomitantemente oferecer uma narrativa plausível e verdadeira acerca dos impulsos, inseguranças e dilemas que afligem a pessoa vivendo na situação de alcoólatra. Há o estágio da negação, da aceitação, da resignação, do fundo do poço e por fim o despertar para a necessidade de ajuda.
Ainda que haja uma diferença fundamental nas histórias – a primeira trata de fatos essencialmente mundanos e humanos, residindo na normalidade da vida e das relações humanas todo o clímax do plot twist que irá compor o fechamento da história, enquanto a segunda descamba para o plot sobrenatural de forma até surpreendente sendo não há qualquer aviso prévio de que trata-se de uma história de terror sobrenatural, ainda que os dilemas da personagem principal sejam bem reais – a similaridade entre elas nos permite traçar um paralelo único para o desenvolvimento de ambas até chegar ao clímax das histórias que, por motivos óbvios, não vou mencionar aqui.
Gostei muito de ambas as histórias, foram leituras interessantes e enriquecedores, especialmente no que diz respeito à batalha silenciosa que é travada dentro da pessoa alcoólatra consigo mesma para lidar com o vício, e todos os previsíveis desdobramentos decorrentes na vida real dessa pessoa por conta do seu vício. As personagens femininas retratadas são mulheres reais, com virtudes e defeitos e lidam com problemas reais da sociedade, como a onipresente depreciação da opinião da mulher somente por ser mulher, a rotulação como intrometida por querer auxiliar em uma história que não está diretamente relacionada a elas, dentre outras questões.
Os dois livros são thrillers no melhor sentido, com histórias densas que mergulhamos profunda e intensamente, lendo rapidamente capitulo atrás de capitulo até chegar ao final da história. Ainda que a primeira tenha tido um final mais comum e até certo ponto previsível diante do desenrolar da narrativa, em oposição à segunda que verdadeiramente me surpreendeu, acredito que eu tenha gostado ainda mais de “A Garota no Trem” do que “A casa do outro lado do lado”, ainda que ambas as histórias sejam excelentes e altamente recomendadas por mim. Nota 4.1/5 para a primeira e 4/5 para a segunda. Boas leituras para preencher um final de semana um pouco mais ocioso.