Retomando as leituras feitas já nesse ano de 2023, chego finalmente a esse primoroso romance nacional, talvez o livro brasileiro de maior sucesso dos últimos anos. “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior é um romance lírico e maravilhoso que arrebatou todos os prêmios literários brasileiro disponíveis, alçando o autor ao patamar de grande nome dos escritores nacionais da nova geração. Não estou brincando. Sempre quando navegava por alguns instagrams literários, sempre me deparava com um vídeo de opinião a respeito desse livro, uma resenha detalhando a opinião e o arrebatamento com a leitura.

Sinto novamente que sequer possuo muito a habilidade necessária para tecer qualquer análise a respeito do livro, especialmente por pessoas muito mais capacitadas já terem dedicado amplo espaço a debater a respeito dessa obra, mas, em respeito e fidelidade à pujante audiência fixa de 3 pessoas em meu blog, vou manter o hábito de resenhar todos os livros lidos ao longo desse ano, ainda que possa demorar um tempo após a leitura para conseguir concatenar as ideias e rascunhar algumas palavras a respeito desse clássico moderno da literatura brasileira.
O livro conta a história de duas irmãs Bibiana e Belonisia vivendo no sertão da Bahia dentro de uma grande fazenda, na qual seus pais trabalham para os patrões e no tempo livrem trabalham a terra para ter o mínimo para alimentarem a si e seus familiares. Não vou me estender longamente a respeito da trama, mas ela segue a história das irmãs desde o acidente envolvendo uma faca guardada à mala da avó na primeira infância de ambas – distantes em idade por apenas um ano, até a vida adulta e todos os desdobramentos decorrentes do crescimento e amadurecimento.
“Torto Arado” é, antes de qualquer outra definição, uma história essencialmente brasileira. Puramente brasileira. O autor não faz nenhum destaque a respeito do tempo em que a história decorre, apenas menções superficiais que podemos situar os acontecimentos acontecendo em algum local entre as décadas de 30 e 50 do século XX, mas até mesmo isso é especulação da minha parte e – acho que por decisão do autor – o objetivo é exatamente este. Digo que a história é essencialmente brasileira por destacar a história da desigualdade e da miséria presente em nosso país e que aflige, majoritariamente, a população preta do nosso país. A temática da riqueza caminhando paralelamente à pobreza está presente em toda a história e a miséria descrita é tão real que torna plenamente possível situar a história no início do século XXI quanto em finais do século XVIII.
A ambientação feita pelo autor dos cenários nos quais os personagens vivem me levaram inclusive a cometer uma gafe interna que não havia compartilhado com ninguém mas vou dividir com vocês. Nos primeiros capítulos do livro, ao descrever a casa das meninas e sua família, a pobreza e o despojamento me fizeram lembrar de diversos sítios que visitem em minha infância, de tios avós, principalmente, onde não havia luz elétrica ou água encanada, mas que ao resgatar essas memorias do início da minha vida, pude perceber que as condições de vida dos meus antepassados eram muito superiores às descritas no livro. Todas as casas que visitei, ainda que muito simples e espartanas, possuíam parede de alvenaria, piso de madeira ou vermelhão, telhado de barro e condições de salubridade muito superiores aos casebres de pau-a-pique e barro do romance, o chão de terra batida e os colchoes de palha. Sei de histórias de meus bisavós e tataravós que viveram situações mais semelhantes, mas a percepção do que eu havia registrado em minha memória com a realidade descrita no livro é tão discrepante que me assustou e me fez amaldiçoar mais uma vez esse absurdo que é a desigualdade social em nosso país. E pensar ainda que, mesmo que muito tempo tenha se passado desde faixa temporal em que situei o romance, ainda existem muitas pessoas vivendo em condições análogas àquelas e, morrendo, tal qual no romance, de fome, doenças tratáveis e assassinadas por lutarem por melhores condições para seu povo.
Descobri após a leitura que o autor do livro é um colega meu de profissão, sendo também um geografo e todas as questões que a geografia pensa constantemente referentes à ocupação social do espaço geográfico e suas inferências, podem ser observadas, ainda que sutilmente durante o romance. É possível dizer que é um romance recheado de elementos geográficos, desde a paisagem até as questões da ocupação humana ao longo da história na região, bem como a passagem de terra a novos donos e negligenciando direitos essenciais à população original da região.
É um romance brasileiro. E acredito que todo brasileiro deveria lê-lo. Fosse para se identificar, para se assustar com tamanha desigualdade ou para se revoltar e assumir um papel mais atuante na busca urgente por justiça social em nosso país, é um romance necessário. Ainda que não seja o meu estilo literário favorito, li o livro do início ao fim com um arrebatamento gigante e sentindo muito com o sofrimento dos personagens à cada página que ia passando. Profundamente tocante, discutindo assuntos atuais (ainda que já o sejam há pelo menos 80 anos) e verdadeiramente brilhante. Nota 5/5 pela primeira vez nesse blog.





