Resenhando #27

Retomando as leituras feitas já nesse ano de 2023, chego finalmente a esse primoroso romance nacional, talvez o livro brasileiro de maior sucesso dos últimos anos. “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior é um romance lírico e maravilhoso que arrebatou todos os prêmios literários brasileiro disponíveis, alçando o autor ao patamar de grande nome dos escritores nacionais da nova geração. Não estou brincando. Sempre quando navegava por alguns instagrams literários, sempre me deparava com um vídeo de opinião a respeito desse livro, uma resenha detalhando a opinião e o arrebatamento com a leitura.

Sinto novamente que sequer possuo muito a habilidade necessária para tecer qualquer análise a respeito do livro, especialmente por pessoas muito mais capacitadas já terem dedicado amplo espaço a debater a respeito dessa obra, mas, em respeito e fidelidade à pujante audiência fixa de 3 pessoas em meu blog, vou manter o hábito de resenhar todos os livros lidos ao longo desse ano, ainda que possa demorar um tempo após a leitura para conseguir concatenar as ideias e rascunhar algumas palavras a respeito desse clássico moderno da literatura brasileira.

O livro conta a história de duas irmãs Bibiana e Belonisia vivendo no sertão da Bahia dentro de uma grande fazenda, na qual seus pais trabalham para os patrões e no tempo livrem trabalham a terra para ter o mínimo para alimentarem a si e seus familiares. Não vou me estender longamente a respeito da trama, mas ela segue a história das irmãs desde o acidente envolvendo uma faca guardada à mala da avó na primeira infância de ambas – distantes em idade por apenas um ano, até a vida adulta e todos os desdobramentos decorrentes do crescimento e amadurecimento.

“Torto Arado” é, antes de qualquer outra definição, uma história essencialmente brasileira. Puramente brasileira. O autor não faz nenhum destaque a respeito do tempo em que a história decorre, apenas menções superficiais que podemos situar os acontecimentos acontecendo em algum local entre as décadas de 30 e 50 do século XX, mas até mesmo isso é especulação da minha parte e – acho que por decisão do autor – o objetivo é exatamente este. Digo que a história é essencialmente brasileira por destacar a história da desigualdade e da miséria presente em nosso país e que aflige, majoritariamente, a população preta do nosso país. A temática da riqueza caminhando paralelamente à pobreza está presente em toda a história e a miséria descrita é tão real que torna plenamente possível situar a história no início do século XXI quanto em finais do século XVIII.

A ambientação feita pelo autor dos cenários nos quais os personagens vivem me levaram inclusive a cometer uma gafe interna que não havia compartilhado com ninguém mas vou dividir com vocês. Nos primeiros capítulos do livro, ao descrever a casa das meninas e sua família, a pobreza e o despojamento me fizeram lembrar de diversos sítios que visitem em minha infância, de tios avós, principalmente, onde não havia luz elétrica ou água encanada, mas que ao resgatar essas memorias do início da minha vida, pude perceber que as condições de vida dos meus antepassados eram muito superiores às descritas no livro. Todas as casas que visitei, ainda que muito simples e espartanas, possuíam parede de alvenaria, piso de madeira ou vermelhão, telhado de barro e condições de salubridade muito superiores aos casebres de pau-a-pique e barro do romance, o chão de terra batida e os colchoes de palha. Sei de histórias de meus bisavós e tataravós que viveram situações mais semelhantes, mas a percepção do que eu havia registrado em minha memória com a realidade descrita no livro é tão discrepante que me assustou e me fez amaldiçoar mais uma vez esse absurdo que é a desigualdade social em nosso país. E pensar ainda que, mesmo que muito tempo tenha se passado desde faixa temporal em que situei o romance, ainda existem muitas pessoas vivendo em condições análogas àquelas e, morrendo, tal qual no romance, de fome, doenças tratáveis e assassinadas por lutarem por melhores condições para seu povo.

Descobri após a leitura que o autor do livro é um colega meu de profissão, sendo também um geografo e todas as questões que a geografia pensa constantemente referentes à ocupação social do espaço geográfico e suas inferências, podem ser observadas, ainda que sutilmente durante o romance. É possível dizer que é um romance recheado de elementos geográficos, desde a paisagem até as questões da ocupação humana ao longo da história na região, bem como a passagem de terra a novos donos e negligenciando direitos essenciais à população original da região.

É um romance brasileiro. E acredito que todo brasileiro deveria lê-lo. Fosse para se identificar, para se assustar com tamanha desigualdade ou para se revoltar e assumir um papel mais atuante na busca urgente por justiça social em nosso país, é um romance necessário. Ainda que não seja o meu estilo literário favorito, li o livro do início ao fim com um arrebatamento gigante e sentindo muito com o sofrimento dos personagens à cada página que ia passando. Profundamente tocante, discutindo assuntos atuais (ainda que já o sejam há pelo menos 80 anos) e verdadeiramente brilhante. Nota 5/5 pela primeira vez nesse blog.

Resenhando #26

Dando sequência as resenhas de livros queridos da minha biblioteca, hoje sigo falando sobre o autor suíço Joel Dicker. Falo hoje de seu segundo livro do universo do escritor Marcus Goldman, chamado “O Livro dos Baltimore”. Para essa resenha, eu vou abordar o livro de uma forma um pouquinho diferente. Vou falar na primeira parte sobre os pontos positivos do livro, e na segunda parte vou abordar exclusivamente os aspectos negativos da obra.

Como mencionei anteriormente, esse livro trata-se de uma sequência do universo apresentado pelo autor em “A Verdade sobre o caso Harry Quebert”, primeiro livro e primeiro grande sucesso do escritor. N’O Livro dos Baltimore nos reencontramos com Marcus Goldman, escritor jovem e bem sucedido que tem uma vida de dar inveja em todas as pessoas. Mas, assim como no primeiro livro, logo percebemos que a vida de Marcus não é assim tão maravilhosa e, como qualquer pessoa, existem aspectos não tão memoráveis em sua história, bem como passagens um tanto questionáveis. Neste livro, essencialmente, ainda que toda a narrativa aconteça no presente, e existam desdobramentos referentes a isso, toda o olhar é voltado para o passado, com o narrador/personagem principal relembrando fatos de sua infância e adolescência em boa parte vividos na casa de seus tios, os bem-sucedidos “Goldman de Baltimore”, daí o título bem sugestivo.

Não é meu objetivo me aprofundar nos detalhes da narrativa, acho muito mais válido falar de sensações e impressões durante a leitura. Sob esse prisma, o primeiro comentário positivo é que o livro é muito bom de ler. Bem no estilo Dicker, o livro é rápido, intenso e prende a atenção do início ao fim. O autor tem um talento natural em produzir uma narrativa poderosa e que nos deixa em constante suspense, ansiosos pelo próximo desdobramento. Além disso, ele consegue ser descritivo na medida certa, sem se perder em páginas e mais páginas discorrendo sobre ambientes, cenários, personagens e fatores climáticos. Sempre há um meio termo bastante aceitável entre a descrição detalhada o suficiente para se ter a dimensão perfeita do cenário e a margem para que a nossa imaginação faça o seu próprio trabalho de construir em nossa mente os detalhes mais relevantes para tornar a história ainda mais instigante para mim.

Porém, como nem tudo são flores, é preciso falar também sobre os aspectos negativos do livro. Ainda que não seja nenhum detalhe absolutamente desgostoso ou que desabone a boa experiência de leitura, existem algumas críticas a serem feitas, especialmente se você é um leitor que chega a esse livro após ter lido “A verdade sobre o caso Harry Quebert”. Não se assuste, porém, se você nunca leu esse primeiro livro. São duas histórias completamente independentes e a não leitura do livro anterior em nada atrapalha a leitura desse. Mas como são duas histórias que se passam no mesmo universo, há um desconforto claro quando se pensa na linha do tempo das duas histórias. Ainda não que esteja explicito, entende-se que a história d’O Livro dos Baltimore se passa após os acontecimentos de “A verdade sobre o caso Harry Quebert”. Nesse livro, Marcus é um autor recém saído de seu primeiro livro de sucesso que enfrenta uma crise de ideias que o impedem de escrever um novo romance, daí, ao tentar vencer esse bloqueio, vai se refugiar na casa de seu tutor e amigo Harry Quebert. Dessa forma, só é possível imaginar que a trama de “O Livro dos Baltimore” se passe após esses acontecimentos. Por esse motivo é muito estranho que os personagens apresentados nesse livro, que foram tão importantes ao personagem principal são sequer mencionados no primeiro livro. Mais do que isso, ainda que no primeiro ele se atenha principalmente em seu relacionamento universitário com Harry, ele aborda passagens de sua infância e adolescência sendo “o admirável”, jovem com larga carreira esportiva e acadêmica que dedica muito tempo de sua vida a isso.

Daí o confronto entre essa narrativa e a do segundo livro, onde Marcus explica que passava virtualmente quase todo o tempo disponível indo a Baltimore para estar com seus tios e primos e passar com eles o máximo de tempo disponível. Simplesmente não é plausível – não sem entrar nos terrenos da fantasia – que um jovem que passava tanto tempo no deslocamento entre Baltimore e Nova Jersey tivesse ainda tanto tempo disponível para ser um fenômeno esportivo e aluno exemplar de sua escola. Mais ainda, durante suas longas discussões com Harry no primeiro livro, Marcus é questionado sobre ter um grande amor, onde responde negativamente, alegando nunca ter vivido algo assim. Porém no segundo, boa parte da narrativa é pra descrever o seu amor juvenil e avassalador por Alexandra, jovem vizinha encantadora de Baltimore, com quem Marcus vive um romance.

Enfim, o livro é muito bom, ainda que uma das maiores críticas de outros leitores seja toda a narrativa em volta d’ O Grande Drama que é mencionado constantemente e ao final não é algo assim tão impressionante ou surpreendente, pelo contrário, até previsível. Mas a forma como o autor coloca todo o suspense em jogo, nos deixando ansiosos para saber logo o que é o tal drama é muito cativante e vale pena – ressalto mais uma vez – a leitura. O ponto da cronologia dos fatos entre os dois livros do autor são pontos de desconforto, assumo, especialmente para leitores como eu, que são mais atentos e costumam guardar detalhes e cronologia de outros livros queridos, especialmente do mesmo autor, mas em nada desabonam a aventura de um novo leitor que está somente ansiando por uma leitura divertida, cativante e estimulante. Apesar de tudo, ainda recomendo amplamente essa leitura. Nota 4/5.

Resenhando #25

Durante o processo de releitura de algum livro, sempre acontece de eu gostar ainda de algumas histórias e um pouco menos de outras. Felizmente, nesse caso, “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert” pertence à primeira categoria. Esse romance havia despertado meu interesse há um tempo atrás e acabei me decidindo adquirir por conta da belíssima capa que apresenta uma cena bucólica em uma rua qualquer.

O livro conta a história do jovem escritor Marcus Goldman que, após um estrondoso sucesso de seu romance de estreia, tinha dificuldades para engatar um novo livro. Sendo pressionado por seus editores, pelo público e por si mesmo, ele decidiu fazer um último movimento desesperado; vai se hospedar na casa de seu amigo e mentor Harry Quebert, autor de sucesso na década de 70 e seu professor na universidade. Harry, que mora em uma bela mansão à beira mar de uma bucólica e pequena cidade dos EUA desde a época de seu grande sucesso literário, acolhe o rapaz em busca de ajuda-lo.

Durante a estadia de Marcus no local, descobre-se o corpo de uma jovem desaparecida há décadas enterrada no quintal da casa de Harry e ele é imediatamente preso e acusado do assassinato, devido principalmente à uma prova substancial encontrada junto ao corpo da menina: um exemplar manuscrito do livro de sucesso de Harry. Daí em diante o livro se torna uma correria imensa de Marcus Goldman em buscar de provar a inocência de seu amigo. Durante esse processo de busca de provas para salvar Harry, Marcus acaba encarando um emaranho de histórias do passado muito mais complexas e profundas do que imaginava.

Todo este processo ocorre simultaneamente à sua busca por escrever um novo romance, quando decide escrever um livro para provar a inocência de Harry. E aqui encerro o detalhamento do romance, em primeiro lugar para não estender demais essa resenha, mas em segundo e principal lugar, por gostar sempre de deixar espaço para a descoberta da história por cada novo leitor que possa se deparar com essa resenha – como já falado em outros momentos, prefiro muito mais em minhas resenhas tratar das sensações que essa obra provocou em mim, pois acredito ser uma impressão mais honesta a respeito do impacto que o livro teve para mim.

Por esse motivo, eu afirmo sem o maior medo de parecer exagerado: A verdade sobre o caso Harry Quebert é um livro maravilho. Trata de diversos temas simultaneamente de forma brilhante, sem parecer superficial em nenhum momento, ainda que não seja o objetivo do autor aprofundar as discussões acerca de cada tema. Trabalha com fatos no presente bem como de flashbacks muito bem descritos de passado, que enriquecem a história e deixa no ar um suspense delicioso durante toda a leitura que nos leva a passar páginas e mais páginas sem sequer perceber. É um livro de 500 páginas que pode ser lido em 1 ou 2 dias facilmente, dependendo da disponibilidade do leitor. Não cansa e a cada novo desdobramento e reviravolta ficamos embasbacados imaginando se o autor irá verdadeiramente encontrar uma elucidação para o crime do assassinato da jovem, que, podia até ser jovem, mas nem um pouco inocente.

É um livro falando de livros também – todos os capítulos se iniciam com conversas entre Marcus e Harry nos tempos de universitário do primeiro a respeito de todas as etapas necessárias para se escrever um grande romance. E todo livro assim imediatamente atrai a minha simpatia e interesse, pois são grandes provas de amor à literatura e acho esse gancho maravilhosamente saboroso. Tudo isso misturado a um elenco de personagens da mais alta qualidade e heterogeneidade, os quais em determinado momento da leitura, podem todos ser considerados suspeitos de terem cometido o crime.

“A Verdade sobre o caso Harry Quebert” é o romance de estreia do autor suíço Joel Dicker e nada melhor do que um sucesso avassalador como esse para iniciar a carreira. Este livro foi o responsável por me fazer comprar todos os outros quatro romances do autor lançados posteriormente e fazendo com que ele se tornasse um de meus autores contemporâneos favoritos. Para quem gosta de suspense investigativo, é um prato cheio. Para quem gosta de romances policialescos, também. Para quem prefere uma história de amor proibido, em que tudo conspira contra o casal, idem. É um livro arrebatador. Vale muito a pena a leitura e garanto que irá desfrutar imensamente. Nota 4,5/5.

Resenhando (e refletindo) #24

Seguindo em frente na estrada “retomando as resenhas dos livros lidos ainda em 2022”, chego ao tão esperado “Biblioteca da Meia Noite”. Desde que descobri a sinopse desse livro, ele entrou em minha lista de livros e assim que pude, o comprei para compor a minha biblioteca. É uma história com uma daquelas premissas avassaladoras e que todo mundo já se perguntou a respeito. Afinal de contas, quem nunca pensou que gostaria de voltar em algum momento importante da própria história e tomar uma decisão diferente da que tomou e ver qual seria o resultado daquilo em sua própria vida?

Essa é a dinâmica que compõe esse romance, contando a história de uma mulher por volta dos seus 30 e poucos anos, infeliz e deprimida com a própria vida, remoendo-se com a insignificância de sua existência e que fica constantemente pensando em como seria diferente a sua vida se houvesse tomado algumas decisões diferentes em momentos críticos de seu passado.

Um romance assim claramente é um prato cheio para qualquer pessoa com pouco mais de 30 anos, momento no qual a sociedade deixa de olhar com condescendência a nossa indecisão e decisões errática durantes os 20 anos e passa a julgar a pessoa que chega nessa faixa etária e ainda não tem claro “o que quer fazer da vida”. Consigo afirmar isso com propriedade pois é algo que vivencio e diversas pessoas próximas à minha faixa etária relatam sentimentos similares. É um momento da vida em que, aos olhos da sociedade julgadora e hostil, precisamos deixar de querer experimentar e viver novas experiências, conhecer novas pessoas e cenários e precisamos sedimentar o caminho que queremos, devemos ou precisamos seguir.

A sociedade não tem muita tolerância para quem não consegue ou escolher não seguir um único caminho para sua existência, e é entre os 30 e 40 anos que essa cobrança pela obrigatoriedade de se escolher um único caminho torna-se quase uma exigência, daí a dúvida de inúmeras pessoas, como eu mesmo e a personagem da história, que passam a olhar constante e sistematicamente para cada decisão de sua vida e pensando o que poderia ter feito diferente, em diversos momentos se martirizando e sofrendo por não ter tomado à época a decisão que julga melhor com a maturidade de ter vivido muita coisa após o momento crítico que exigiu uma escolha.

Para não trazer muitos spoilers sobre o livro, vou apenas mencionar que na história existe uma biblioteca na qual a personagem pode frequentar e que há um livro diferente para cada momento específico de sua própria existência, especialmente relacionado às decisões que tomou e pode escolher tirar um destes livros da prateleira da biblioteca e voltar a viver aquele momento, porém com uma decisão diferente da que tomou à época. Com essa possiblidade de escolha, se desenrolam diversos cenários pelos quais a personagem pode viver e se perceber mais ou menos feliz, ainda que não consiga ter uma percepção segura e verdadeira de que aquele caminho é realmente o que ela gostaria de fazer e que a tornaria realmente feliz e realizada.

Para as pessoas da minha geração, que atualmente estão entre 30 e 40 anos, que cresceram ouvindo sistematicamente que era preciso escolhermos e buscar um caminho único que nos faz verdadeiramente felizes, sabemos que é uma exigência que por muitas vezes nos direciona à uma busca insana, na qual se não formos bem sucedidos é porque cometemos um erro ou fomos incapazes de encontrar essa “galinha dos ovos de ouro”, que é a realização eterna. Não vou sequer mencionar todos os problemas psicológicos que podem resultar dessa cobrança imensa, sejam em depressão, ansiedade e infelicidade, mas a verdade é que crescemos, em maior ou menor escala, sendo filhos de pais que não foram essencialmente felizes profissionalmente ou até mesmo pessoalmente, mas que conseguiram ascender muito em comparação aos seus genitores, sejam financeiras ou profissionalmente. Mas que, em sua maioria relatavam que não puderam escolher ser felizes, fizeram somente o que tinham que fazer para conseguir ter uma condição de vida melhor e principalmente oferecer oportunidades melhores para que os filhos (minha geração) aí sim, pudessem ser felizes. Ainda que a felicidade nesse cenário seja, no final das contas, cumprir as expectativas que foram projetadas em nós pela geração anterior que acreditam não ter tido a oportunidade ou a permissão de ser tudo o que gostariam de ser.

O livro é um prato cheio para pensar a vida, as decisões, as experiencias que vivemos e as pessoas que cativamos ao longo do caminho, pois a cada caminho vivido, há desdobramentos, o que torna a busca pelo caminho perfeito um objetivo impossível de ser realizado, uma vez que essa própria perfeição não existe, dado que por mais que sejam diferentes versões de nós mesmos em cada cenário, ainda somos nós que vivemos aquilo, e a felicidade plena vem(ou pelo menos deveria vir) de nós mesmos e nunca do exterior.

Cativante, intrigante e profundamente reflexivo, o livro me proporcionou uma das leituras mais marcantes de 2022. Me provocou reflexões profundas acerca de mim mesmo, da minha história e das escolhas que fiz ao longo do percurso, muitas das quais eu mesmo já estava ruminando durante meu processo terapêutico de tomada de consciência de vida, o que torna a leitura muito mais prazerosa e rica, pois há uma conexão real com o que vivemos e não somente uma breve, porém cativante leitura de um bom romance de ficção científica. Nota 4,5/5.

Resenhando #23

Dando continuidade às resenhas atrasadas de 2022, hoje falo de “A cidade de vapor – Contos reunidos”, a última obra lançada pelo premiado escritor espanhol Carlos Ruiz Zafon. Na verdade, o livro foi publicado após o falecimento do autor e foi divulgado como sendo uma verdadeira homenagem ao legado de sua carreira, contemplando todos os 11 contos escritos pelo autor em vida. Não há muito detalhamento a respeito do período em que cada um destes contos foi escrito, portanto podemos presumir que podem ter sido escritos por um Zafon ainda adolescente ou mesmo pelo autor já consagrado pouco antes de sua morte. Claro que com as ferramentas de hoje é possível se levantar todas estas informações, mas eu prefiro encarar este livro com uma aura de mistério e reverência que a última obra do autor de meu livro favorito merece.

Por essa razão eu me sinto verdadeiramente desconfortável em colocar em palavras as minhas reflexões a respeito da obra. Sinto – com verdadeira convicção – que não sou digno de tecer qualquer crítica a respeito de uma obra sequer de Zafon, mas ainda assim, preciso ser fiel às minhas convicções e trazer as minhas impressões sinceras a respeito dessa obra. Não achei o livro ruim, longe disso, simplesmente não é o meu formato favorito de leitura. Gosto de uma conexão mais aprofundada com cada personagem e cenário descrito, gosto de saber maiores detalhes a seu respeito, sua forma de pensar o mundo e entender o que o envolve e motiva, por essa razão esse compilado de vários contos curtos jamais irá me cativar verdadeira e profundamente. Ainda que proporcione uma leitura leve e bela, com o pincelar característico do estilo único de Zafon em diversos momentos.

Há uns contos melhores que outros, obviamente, o que me leva a crer que, por se tratar de um compilado de contos de uma vida toda, se relacionam a diversos momentos da obra do autor. Alguns me parecem firmemente ancorados na estética de “A Sombra do Vento”, sua maior obra – e meu livro favorito da vida. Poderiam facilmente compor um capitulo adicional dentro da trama do livro supracitado sem nenhuma dificuldade de integração, tamanha a similaridade da escrita. Outros, por vez, se parecem bem diferentes com este estilo, o que me leva a crer que se tratam de contos escritos em outro momento, talvez por um Zafon ainda em formação como o célebre escritor que viria a se tornar.

Nada disso, porém, desabona o livro. Ainda que não me pareça algo que o autor talvez tivesse publicado integralmente – ou pelo menos não sem uma revisão ou reescrita de alguns trechos – a sensação de ter em mãos um livro inédito de Zafon mesmo após a triste partida do autor é tão avassalador que tudo é colocado em perspectiva. O que importa é ter mais um volume desse autor maravilhoso, que me proporcionou e proporciona constantemente momentos deliciosos durante alguma releitura. O livro é proposto como homenagem e deve ser saboreado dessa forma, como homenagem. É uma celebração da vida e da obra desse autor tão especial, que pode ter deixado o plano terreno, mas que viverá eternamente em suas páginas transbordando emoção, mística, humor e, acima de tudo, um amor imensurável pela palavra escrita.

Obrigado, Zafon. Você despertou em mim um leitor melhor, um leitor ainda mais apaixonado por livros e bibliotecas, profundamente reverente à sublime e mais bela de todas as formas de arte. Transformar palavras em sentimentos, memórias e paixões, requer uma alquimia complexa que somente os maiores gênios são capazes de executar. E você, meu amigo, certamente hoje repousa tranquilamente no olimpo entre outros de sua espécie. Um abraço de seu singelo fã.

Resenhando #22

Uma de minhas leituras mais agradavelmente surpreendentes de 2022 foi este livro chamado “18 dias – Quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush”, que trata, obviamente, do período de transição entre o final do governo FHC e o início do primeiro governo Lula, e os naturais desafios da mudança de um governo de centro direita para um governo de centro-esquerda, mas mais do que isso, faz um apanhado histórico do posicionamento diplomático brasileiro nos últimos 50 anos.

O principal objetivo com essa aliança durante o período de transição governamental entre dois partidos historicamente adversários, como o próprio subtítulo deixa explícito, consistia no objetivo de convencer os EUA – à época o maior parceiro comercial brasileiro e maior superpotência global inconteste – em acreditar e apoiar o Brasil, deixando de lado o seu tradicional posicionamento aversivo a qualquer governo de orientação política de esquerda surgido na América Latina. Não era uma tarefa fácil, alias. A história americana está repleta de exemplos em que os EUA utilizaram de sua posição econômico-militar e sua peculiar visão de observar a América Latina como um quintal de seus interesses para sistematicamente saquear, desestabilizar, intimidar, sabotar e derrubar qualquer governo minimamente resistente aos interesses imperialistas estadunidenses.

Mas digo que o livro foi agradavelmente surpreendente por trazer muito mais que somente isso. O livro faz um resumo dos anos anteriores ao governo FHC e traz bastante elementos referentes às suas políticas e posicionamentos durante os 8 anos de duração de seu mandato, os sucessos e insucessos, especialmente destacando o viés diplomático e o desgaste natural do governo ao término do período, tanto com a população, a imprensa e demais países e parceiros. O texto do autor aborda também – ainda que de maneira mais breve e sem tanto aprofundamento – as relações diplomáticas brasileiras com outros países relevantes, como a China (que ainda não era a superpotência atual, mas já se encontrava em vias de vir a se tornar), a Argentina, que (apesar do que acham algumas pessoas) é um grande parceiro comercial do Brasil, e também com nações do Bloco Econômico Europeu.

Existem dois pontos principais interessantíssimos a ressaltar: o primeiro é que – como já mencionei anteriormente – o livro aborda muito a questão diplomática e para quem se interessar pelo assunto, essa obra é um prato cheio, abordando a diplomacia brasileira desde meados da década de 50, passando pelo final do período Vargas, a ditadura militar e chegando à redemocratização e os desafios para o futuro pensados naquele já longínquo ano de 2002. Trata de momentos importantes da diplomacia mundial, períodos de crise e desafios enormes, especialmente ao se considerar todo o intrincado e complexo pano de fundo da guerra fria acontecendo, apresentando técnicas e abordagens dos governos e diplomatas brasileiros nesse período. Trata-se de um relato impressionante e cheio de detalhes que cativa com uma escrita profissional e nem um pouco cansativa.

O segundo e mais importante ponto, especialmente ao olhar para o Brasil agora, 20 anos depois, é o quanto impressiona a colaboração existentes entre dois partidos fundamentalmente rivais. PT e PSDB haviam disputado até aquele momento 4 eleições presidenciais e eram vistos como posicionados em lados diametralmente opostos no espectro político brasileiro. Ainda assim, porém colaboraram mutuamente, com o governo tucano abrindo as portas para todos os líderes petistas e os apresentando todos os aspectos do governo, contribuindo ativamente para que o país continuasse progredindo, incluindo aí o período de preparação e aproximação com os EUA que constituem os 18 dias que serviram de base para o título do livro, no qual os ministros e o próprio FHC não somente convidaram como trabalharam próximos aos principais integrantes do futuro governo petista durante essa aproximação e abordagem junto aos americanos . Parece uma atitude inexplicavelmente desapegada ou pouco preocupada em expor a um grupo adversário os meandros do tortuoso rio que é a governança de um país grande e complexo como o Brasil, mas, na realidade é o mínimo que se espera em um momento de transição governamental. Nós, com os olhos de 2023 enxergamos com estranheza devido a radicalização da polarização atual, e vendo como foi o processo de transição governamental no final do ano passado (ainda que muito menos dramático e atravancado como se imaginava anteriormente às eleições), é de se admirar a civilidade e a seriedade com que os envolvidos abordaram esse processo em 2002. Aqueles personagens – todos eles – foram verdadeiros patriotas que pensaram no bem do país. Deixaram as diferenças partidárias e ideológicas de lado para se portarem como democratas que visam somente servir de forma correta e produtiva a seu país. Li em uma resenha sobre esse livro que este foi o melhor período da democracia brasileira, e tendo a concordar fortemente, ainda que fosse à época um adolescente com hormônios em ebulição. Foi um período muito especial da política brasileira, em que se olhava para o futuro do país de forma conjunta e todos os lados políticos almejavam somente o desenvolvimento do Brasil. Um exemplo a ser resgatado.  Pena que o PSDB da época, tão necessário e relevante para o bom funcionamento da democracia brasileira foi corroído por vaidades e intrigas pessoais internas e hoje encontra-se moribundo, se apegando ao extremismo golpista para tentar sobreviver.

Uma frase em especial, presente no livro, merece ser destacada ao final dessa resenha, por resumir bem o sentimento que o livro – e o período vivido à época:

“Quando Fernando Henrique Cardoso passou a faixa presidencial a Lula, foi a primeira vez que um presidente eleito pelo povo empossou um sucessor de oposição, também escolhido nas urnas, e este, por sua vez, completou o mandato sem morrer, renunciar ou ser derrubado por um golpe”.

Triste é pensar que, passados 20 anos desse momento, este ainda continua sendo o exemplo único dessa civilidade democrática tão necessária para o crescimento e desenvolvimento da nação. Nota 4,5/5.

Resenhando #21

Há meses que estou bastante atrasado com as minhas resenhas de livros e há muito tempo que não faço qualquer postagem aqui no blog. Com isso, estou com muitos livros aguardando algumas palavras para finalizar o processo de leitura. Desde que comecei a resenhar todo livro que leio, tornou-se um hábito para conclusão de fato do livro. Estou com um bocado de livros parados aguardando a resenha, então vou desovar todos antes de resenhar os livros que li neste começo de 2023, para pegar novamente o ritmo de escrita e de análise.

Começo essa retomada falando sobre o livro “Manuscritos do Mar Morto” que, como todo livro que carrega uma premissa de suspense envolto em mistério histórico me chamou atenção logo de cara. A história é envolta em um mistério a respeito de um povo milenar que sobrevive através dos séculos e atualmente busca alcançar um projeto de dominação mundial. Como diversos outros povos e lideres ao longo da história da humanidade, eles se veem como merecedores do direito de dominar todo o planeta. O ponto de maior destaque é que, segundo o livro, eles descendem de um personagem central presente na Bíblia, mas que, segundo a tradição bíblica, não deixou nenhum descendente

Confesso que, após tanto tempo da leitura, não me recordo absolutamente de todos os detalhes, para fazer uma resenha aprofundada, mas é possível descrever o livro focando nas sensações que ficaram em mim a respeito da leitura. Primeiramente, é um bom romance de suspense, com reviravoltas e dramas na medida certa, com encadeamento de diversos núcleos de personagens aparentemente distintos, mas que acabam tendo seus destinos cruzados., no qual o autor se utiliza amplamente do popular recurso de narrar uma história no tempo presente, mas permeá-la constantemente com flashbacks do passado que nos ajudam a entender melhor como se dá a relação entre os personagens que são apresentados.

Tem um determinado momento em que parece que o livro vai realmente decolar e nos deixar na ponta dos dedos ansiando pela próxima página, especialmente quando os membros da seita aparecem sorrateira e assustadoramente nas cenas de acidentes que ocorrem ao longo da história, quase sempre descritos como personagens sinistros e um tanto sobrenaturais, deixando uma pontinha de dúvida sobre sua real existência, quase como se fossem assombrações ou extraterrestres.

Ainda que não seja a história mais cativante que já li, além de sentir que faltaram alguns elementos para que a contextualização histórica do povo milenar fosse um pouco mais crível, o livro entretém e cativa, rendendo bons momentos de leitura e isso – no final das contas – é o que realmente importa. Portanto, nota 3,5/5.