Resenhando (#14)

Acabo de terminar o meu maior desafio literário de 2022: ler as mais de 1600 páginas de “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. Foi um processo longo, penoso, cheio de altos e baixos, mas com um resultado misto, de emoções diversas. Ou como dizem os falantes da língua inglesa, um tanto “bittersweet”.

O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas

Mas, vamos à análise. Conheci a história por conta do filme lançado há 20 anos. Na minha ingenuidade de menino do interior de Minas, não tinha muita noção da existência destes clássicos da literatura de mais de 200 anos atrás, por isso a minha primeira experiência foi com a película cinematográfica, de uma forma um tanto curiosa. Em uma viagem de escola, nos tempos de colegial, o organizador havia levado 2 filmes para assistirmos na viagem. Um era “O Terno de 6 bilhões de dólares”, com Jackie Chan e o outro, O Conde de Monte Cristo.  Havia visto o primeiro no cinema, e o segundo acabou me prendendo ainda mais. Achei a história bem cativante e interessante e, quando soube muitos anos depois que era um filme baseado em um romance literário, fiz uma anotação mental para me embrenhar na leitura assim que conseguisse colocar as mãos no romance de mais de 150 anos.

A oportunidade surgiu há alguns anos, quando encontrei o ebook disponível na internet e o coloquei em minha biblioteca. Fiquei namorando e buscando disposição para encarar o calhamaço de quase 2000 páginas e, finalmente neste 2022 resolvi encarar o desafio. Como a versão que tive acesso é uma versão estendida, com nova tradução e comentários, acabou sendo um pouco mais extenso que o romance original, com impressões de jornalistas sobre a vida e a obra do autor, que auxiliaram a compreender um pouco mais sobre a conjuntura na qual a obra foi escrita e o processo construtivo de todo o texto. Algumas novidades me chamaram a atenção logo de cara, que foi o fato de que o livro não foi lançado completo logo de cara, mas sim em diversas partes ao longo de meses, quase como uma série de diversos volumes que iam se interligando para construir todo o universo do romance. A segunda parte que me chamou a atenção foi a de que Dumas não escrevia sozinho os seus romances, tendo vários colaboradores que auxiliavam ao longo do texto, colocando as suas próprias ideias e impressões, o que pode ser sentido ao longo da obra, ainda que de forma sutil em que nada impacte no resultado.

Posto isso, vamos ao livro. A primeira coisa a se falar é que é uma leitura um tanto cansativa, logicamente pelo tamanho do livro, que se pode presumir uma riqueza excessiva de detalhes e um prolongamento da narrativa além do essencial para garantir o interesse e a riqueza da história. Como a minha primeira experiencia com o universo foi pelo filme, é inevitável traçar paralelos e fazer comparações entre a película e o livro, e são absolutamente diferentes. O trecho mais fiel no filme é o início da narrativa, mostrando como Edmond Dantes foi traído e condenado à prisão perpétua e o seu tempo no cativeiro, até a ousada fuga do Castelo de If. A partir daí, há uma constante separação entre o filme e o livro, optando por caminhos diversos para narrar os caminhos que o Conde de Monte Cristo segue para perpetrar a sua vingança àqueles que o traíram.

O ponto mais marcante sobre essas diferenças é que no livro, são essencialmente 3 os personagens que tramam a prisão de Dantés e o levam a alimentar desejos de vingança, enquanto no filme, talvez até para se enquadrar melhor no formato cinematográfico de mocinho x vilão, os 3 personagens tornam-se um só que é o responsável por todo o infortúnio do nosso herói

Um aspecto interessante e ao mesmo tempo cansativo do livro é que, todo o cenário de fundo que permeia os trechos iniciais da obra, e os seus eventuais desdobramentos refere-se ao período napoleônico e o seu exilio para a ilha de Elba, sua tentativa de retomada do poder e sua expulsão definitiva, o que, para fanáticos por história como eu, é bastante rico de detalhes e agrega muito à história, ao mesmo tempo que, a riqueza de discussões politicas e históricas torna a leitura um tanto cansativa e deixa a sensação de que a leitura seria mais impactante se não fosse tão extensa. Esse mesmo aspecto retorna em vários outros momentos da narrativa, onde, para chegar ao momento do ápice narrativo em um episódio, o autor retrocede a pontos muito antigos e relata detalhadamente como tudo aconteceu até se chegar ao momento realmente relevante para a história. Vou ilustrar esse ponto:  em um determinado ponto da história, o visconde Albert de Morcef (não vou dizer quem ele é na história, para não dar spoiler) é capturado por bandoleiros romanos sob o comando de Luigi Vampa. Para chegar neste ponto da história, o autor retrocede até antes do nascimento de Vampa, para explicar que havia um corso que aterrorizava determinada região da Itália, com assaltos e sequestros, passando pelo nascimento e infância de Vampa, até que Vampa se encontra com este corsário e o desafia para um duelo ao ter sua namorada sequestrada por ele, vencendo o duelo e se tornando o lider do bando e como eles mudam de ataques nas regiões campestres da Itália para se sediarem em Roma e daí se desdobrar ate o sequestro do visconde de Morcef.

Exemplos de saltos retrospectivos e narrativas amplamente descritivas de fatos pouco impactantes no desenrolar da história principal são comuns e acabam por cansar o leitor um pouco, deixando a sensação de que, com um romance mais enxuto, de cerca de 700 paginas a história poderia ser contada de forma muito mais objetiva e sem perder nenhum detalhe, mas sendo um volume muito mais eletrizante e cativante. Mesmo vindo em um ritmo de leitura bastante rápido, acabei levando 2 meses para concluir a obra, claro que também se considerando o tamanho do calhamaço, mas ainda assim, a minha sensação é de que uma narrativa mais objetiva poderia aumentar a capacidade de prender a atenção do leitor e dar aquela sensação de não querer deixar o livro de lado.

Entendo perfeitamente porém, que, na época em que foi escrito, este era o modelo vigente na literatura e ele foi escrito para as pessoas de seu tempo, por isso relativizo esta questão e contemporizo, pontuando com os meus olhos de leitor do século XXI mas, respeitando a tradição e o brilhantismo da obra, ao mesmo tempo em que avalio com base nos meus critérios e pensando em leitores do meu tempo que, porventura, leiam esta resenha ao decidirem se irão se embrenhar no emaranhado de intrigas, conspirações e jogos de aparência da Paris do século XIX.

Um outro ponto que gostaria de destacar antes de finalizar esta resenha é com relação ao final do romance. Ainda que eu não vá dar qualquer spoiler a respeito de como o livro é finalizado, a conclusão é de conhecimento de muitas pessoas, tendo em vista que foi lançado um filme hollywoodiano sobre a obra. E talvez influenciado por este filme, eu esperava um final diferente, que a meu ver foi concluído muito sem emoção e de uma forma um tanto acelerada, quase como se o autor, a escrever mais de 1600 páginas não soubesse como terminar de forma satisfatória o seu romance. É estranho, pois ficamos esperando aquele clímax da história, onde tudo é desvelado, somos impactados e no final, há somente umas páginas de conclusão e respiro para assimilar tudo o que aconteceu nas paginas anteriores. Neste livro não tive essa sensação, parece que tudo se encerra de forma muito sem clímax, somente com pequenas pinceladas de emoção e drama, mas sem aquele momento de “puxa vida” que adoramos na conclusão de uma história. É quase como se a história fosse esquentando, mas ao invés daquele momento de pegar fogo, ela voltasse a se esfriar e seguisse no máximo, morno até o final.

Foi gostoso viver essa experiência e estou feliz por ter me desafiado a encarar esta leitura, e agradecido por ter conhecido um clássico da literatura mundial, mas para meu gosto pessoal, foi uma leitura apenas mediana, sem o impacto avassalador que me fez apaixonar por literatura. Nota 3,5/5.