Carta aberta a bolsonaristas

Quer dizer que mesmo após 3 anos de um governo nulo e fraco, sem nenhuma melhoria real para a condição de vida da população brasileira – pelo contrário, um governo que nos leva a retroceder 30 anos de avanços econômicos e sociais você ainda o defende? Mesmo após 3 anos de sucessivos erros de postura, atitudes e decisões, de absurdos que levaram à morte centenas de milhares de brasileiros, seja por conta da pandemia, da violência, da intolerância, da fome e da miséria que este governo estimula diariamente, você ainda o defende?

Lamento, mas você deixou o espectro do razoável e do humano e se tornou adepto de uma seita fanática que não apenas é conivente com absurdos desumanos e vergonhosos promovidos pelo presidente e seu governo, como os aplaude como se fossem um espetáculo agradável. Não vou tentar discutir em nome de uma falsa pluralidade e respeito ao diverso, pois nesse caso eu estaria sendo conivente e normalizando os absurdos ditos e feitos por aquele que vocês ainda insistem em defender. Por essa razão, não tenho nada a dizer a vocês, lamento.

Resenhando (#3)

As Espiãs do Dia D – Ken Follett – Imagem: google

Acabo de finalizar a leitura desse delicioso romance histórico. Levei um pouco mais de tempo que o normal porque o meu leitor de livros digital sofreu uma avaria que infelizmente encurtou sua vida útil e precisei encontrar alternativas para seguir com a leitura. Mas, ao final deu tudo certo e pude apreciar o romance sem problemas.

Falando do livro, trata-se da segunda ou terceira obra que leio do autor, bastante famoso e conhecido especialmente pelo sucesso Queda de Gigantes (que está em minha lista e devo ler no ano que vem, junto de toda a Trilogia do Século), e como a maioria de seus livros, este também se utiliza de um fato histórico real como pano de fundo para desenrolar de seu romance. No caso de “As Espiãs do dia D”, o autor narra a tensão existente nos dias que antecederam a invasão aliada na França e a consequente virada na guerra, culminando com a derrota dos países do Eixo.

Romances tendo como cenário histórico a segunda guerra mundial não são novidades, este (infeliz) fato histórico é provavelmente o tema mais utilizado em livros, filmes, series e documentários desde então, mas a capacidade do autor Ken Follett em ambientar detalhadamente os seus personagens neste recorte histórico é de se aplaudir. A história flui perfeitamente no meio dos fatos históricos apresentados, dando uma perspectiva humana e mais próxima do que foi verdadeiramente aquele momento, permitindo a pessoas que, como eu, nascidas mais de 50 anos após o término do conflito possam entender o que de fato foi uma guerra mundial e todo o sofrimento envolvido.

Além de tudo, a forma utilizada pelo autor para narrar a história, ora na perspectiva de uma espiã inglesa que dá apoio militar e logístico à resistência francesa no combate aos nazistas em território francês, e ora vemos os fatos pelos olhos de um oficial nazista responsável por identificar e desabilitar todas as células da resistência francesa, utilizando-se de técnicas de tortura e intimidação, mas também muita inteligência e perspicácia. É bastante interessante como as duas narrativas são entrelaçadas e vão se desenvolvendo até o momento em que se encontram. Temos ainda o fato de tocar em um ponto extremamente sensível ainda nos dias de hoje: a igualdade de gênero e o respeito às habilidades das mulheres, personagens essenciais em todos os momentos da história, mas constantemente desprezadas ou esquecidas nos registros oficiais. A equipe de espiãs descritas pelo autor é diversa, dinâmica e inteligente, contando com personalidades distintas, indo desde uma aristocrata inglesa, passando por uma presidiária assassina e inteligentíssima, até uma travesti alemã buscando vingança pessoal contra os nazistas. Todas a seu modo contribuem diretamente para a realização da missão que foi apresentada: explodir uma central telefônica nazista na França para dificultar a reação alemã à invasão aliada.

Um romance longo (são quase 500 páginas) do jeito que eu gosto: muito bem escrito, dinâmico, instigante, que nos prende e nos faz identificar com os personagens e proporciona uma imersão no cenário quase como se tivéssemos vivido aquele tempo. Eu particularmente nunca havia me tocado realmente para as questões como racionamento de comida e bebida nos tempos de guerra e os impactos para a população civil destas restrições durante a batalha. Meu olhar quase sempre foi para os horrores do nazifascismo e seus campos de concentração, ou na destruição causada pela bomba atômica e os seus impactos na geopolítica mundial. Este aspecto mais humano e rotineiro foi sempre deixado um pouco de lado e o autor me permitiu conectar com este ponto tão importante em um conflito dessas proporções, me fazendo refletir verdadeiramente como seria viver um momento tão intenso e extremo como foi a Segunda Guerra mundial. Um romance irrepreensível e indicado a todos, particularmente a quem se interessa por suspense e história mundial. Nota 4,5 de 5. Não ganha nota máxima porque essa só reservo aos meus livros favoritos, mas este mereceu a nota máxima disponível em meu ranking.

Carta aberta a leitores arrependidos de Bolsonaro

Em primeiro lugar, gostaria de deixar bem claro que não me importa mais que você tenha votado em Bolsonaro em 2018. E me importa ainda menos as razões que tenham te levado a votar em Bolsonaro em 2018. A única coisa que me importa neste momento é que você está arrependido desta decisão e disposto a corrigir o seu erro de anos atrás. Aplaudo a sua coragem de assumir que errou: não é fácil, ainda mais neste mundo de hoje em que dar o braço a torcer e assumir que cometeu um equívoco é visto com muita desconfiança e até como sinal de fraqueza.

Acredito, porém, que é uma força imensa e demonstração de caráter e, por esta razão, hoje me dirijo a você. O seu arrependimento com a escolha em 2018 será o diferencial para evitar que o país cometa o mesmo erro em 2022. Sei que se você está arrependido, é porque reconheceu que este é um governo incapaz de produzir qualquer coisa que seja minimamente útil para o país, e por isso, estamos agora do mesmo lado na batalha e, somente com a união de nossas forças, é que poderemos evitar 4 anos de nova tragédia.

Ressalto que o “governo” Bolsonaro não possui nenhum plano, não existem propostas concretas a respeito do que fazer para melhorar o Brasil e, mais importante ainda, como fazer para tornar as propostas realidade. Por isso, tão certo quanto a garantia de que o presidente dirá alguma mentira amanhã, é a convicção de que seu plano de “governo” para a reeleição será um deserto similar de ideias. Por esta razão, não há, sob qualquer viés que se queira adotar, a convicção ou expectativa de que ele possa vir a fazer um segundo governo bom. Ele simplesmente não sabe ser governo, portanto, não merece nova oportunidade de governar, tampouco de angariar votos para que seja uma ameaça nas eleições.

Por isso eu acredito fortemente de que o depoimento e posicionamento sincero e frequente de vocês fará toda a diferença para evitar que ele seja reeleito. É importantíssimo que iniciem desde já um movimento explicando os motivos pelos quais se arrependeram da escolha de 2018 e por que motivos não irão repetir a escolha em 2022. Não se preocupem que possam aparecer pessoas de esquerda fazendo piadas ou desmerecendo o depoimento de vocês – eles ainda não entenderam a gravidade da situação e o quanto é importante lutar com todas as armas para cortar o mal que é Bolsonaro no poder pela raiz.

Acho que podem fazer uma diferença gigantesca e evitar mais 4 anos de Bolsonaro. Ah, vocês não gostam de que o candidato lider nas pesquisas neste momento seja o ex-presidente Lula? Sem problemas. Trabalhem com ainda mais afinco para tirar votos de Bolsonaro, de forma que ele nem chegue no segundo turno. Aí sim, com ele fora da disputa, vocês podem ficar à vontade para fazer campanha contra o ex-presidente Lula (ou quem quer que seja da esquerda que esteja no segundo turno) sem nenhum problema.

Sei que temos aqui nossas diferenças de visão do mundo, do que é melhor para o país, mas acredito que podemos discutir racional e cordialmente estes tópicos com o retorno do país à normalidade de um governo que busque pelo menos tentar melhorar a vida de sua população, ao invés de ficar o tempo todo em permanente conflito contra tudo e todos e governando somente em benefício próprio. Precisamos retornar à normalidade democrática, chega de ser refém de um governo vil, mesquinho e incapaz de abordar qualquer questão minimamente importante de forma realista e verdadeira.

Precisamos muito recuperar a dignidade de nosso país, a defesa de bandeiras realmente importantes, como a preservação ambiental, o combate à fome e à miséria e a busca por justiça social e igualdade. Além do respeito a todos, independentemente de raça, sexualidade, gênero, condição social e visão de mundo. E só conseguiremos tudo isso se unirmos forças contra Bolsonaro que é a antítese a tudo isso. Vamos juntos!

Carta aberta a eleitores não bolsonaristas

Antes de qualquer colocação, gostaria de dar os meus parabéns. Parece fácil agora, diante do caos institucional, e era realmente simples de perceber que o governo de um candidato que não se deu ao trabalho de elaborar um plano de governo, ou de participar de debates para discutir os problemas mais essenciais do país seria um fracasso, mas, mesmo assim houve muita gente disposta a pagar para ver, e agora estamos pagando, literalmente, com nossas vidas o resultado dessas escolhas.

Mas, se você não foi um dos 57 milhões de brasileiros que escolheram o atual presidente conscientemente, eu aplaudo a sua sensatez e o seu posicionamento correto diante da maior ameaça à nossa frágil e jovem democracia. Significa que você entendeu o risco que seria colocar uma pessoa assim à frente do país, e fez o que estava a seu alcance para evitar o fato.

E olhe que aqui não estou sequer fazendo distinção entre quem votou no candidato derrotado e quem votou em branco, nulo ou se absteve. Ainda que, em última análise, a escolha destes 3 últimos grupos acabe por não contabilizar no resultado eleitoral, tornando a eleição de um candidato mais fácil por necessitar de menos votos válidos, estou considerado nesta carta que você quis expressar conscientemente que não considerava o atual presidente uma boa escolha, então, por este motivo, acredito que estamos todos sob a mesma bandeira.

Por esta razão escrevo a todos, ciente de que minha colocação é só mais uma em meio a tanto ruido que já se faz e se fará ainda mais em 2022, a medida em que se aproximem as eleições, mas acredito ser meu dever cívico e esclarecido de conclamar a todos para que façamos juntos uma militância ativa e implacável, mas adulta e consciente, a fim de reduzirmos cada vez mais até eliminarmos a ameaça de um novo governo do atual presidente.

Percebam que não me importo (neste momento) qual será a sua escolha de voto para 2022. Até mesmo porque nem sabemos de fato quais serão as cartas deste baralho que teremos para escolher daqui a pouco mais de um ano, porém o mais importante é desde já combater e enfraquecer ao máximo o bolsonarismo, para que perca força e influência, até que não seja mais uma sombra a ameaçar a democracia em nosso país.

Sei que o nosso grupo é muito heterogêneo e talvez existam mais diferenças que semelhanças entre nós, mas o fato é que aquilo que nos une é o mais nobre e importante dos objetivos: não haver um segundo mandato do atual presidente. E o quanto antes isso acontecer, melhor. Por isso é importante que possamos virar qualquer voto que ainda possa pender para o lado do presidente. Não deem ouvido a quem fale que o melhor é atacar a esquerda para tirar a sua força e emplacar um candidato de “terceira via” contra o presidente no segundo turno, e não escutem também quem é de esquerda e diz que o melhor para garantir a eleição de Lula (provável candidato petista e maior força da esquerda) seja enfrentar Bolsonaro.

A sombra do atual presidente é tão nociva e preocupante que não devemos adotar uma postura pragmática achando que ele está enfraquecido, portanto é o candidato ideal para deixar os cenários em banho maria para enfrentar em 2022, que a chance de quem quer que seja contra ele é maior. Não se esqueçam que as pesquisas em 2018 apontavam que todos os candidatos venceriam facilmente Bolsonaro no segundo turno, por isso pouco se fez para reduzir os seus votos no primeiro turno. O resultado todos conhecemos.  

Quanto antes Bolsonaro for alijado da disputa, melhor para a democracia. Melhor para o país, e melhor para a escolha de um bom governo, seja ele qual for. Enquanto o presidente estiver na disputa com um volume considerável de votos, ficaremos discutindo as mesmas questões estúpidas e vazias que discutimos em 2018: ficaremos falando de ideologia de gênero, kit gay, ameaça comunista e outros devaneios sem sentido que vira e mexe o presidente requenta quando precisa de uma cortina de fumaça para desviar os olhos da população dos problemas existentes em seu (não)governo.

Por isso, quando ele começar a esbravejar sobre estes assuntos, ou tentar sequestrar a narrativa falando qualquer outra baboseira do tipo, não vamos cair na esparrela de repostar seus devaneios em redes sociais comentando o quão absurdo isso é, ou quanto a sua postura não condiz com o cargo que ocupa. É isso que ele quer. Lembrem-se: sempre que postamos as loucuras do presidente para criticar, estamos amplificando o seu discurso e levando a sua insanidade a pessoas que talvez nem tivessem ciência do fato. E mesmo que façamos uma crítica maravilhosa sobre o absurdo da vez, o que vai ressoar mais na cabeça do brasileiro médio e mal informado é o discurso simplista e bravateiro do presidente. Foi assim que ele chegou aonde está.

Temos que focar a crítica nos assuntos relevantes à vida no país: a inflação galopante, a economia em recessão que não se recupera mesmo após N promessas do “super ministro” da economia, o crescimento da pobreza e da miséria, o fantasma da fome que voltou a assombrar o país, o desemprego recorde, a corrupção sistêmica em seu governo, o fracasso no combate à pandemia, os escândalos na compra das vacinas, o desgaste na imagem internacional do país, a destruição ambiental dos biomas nacionais, enfim, a piora na condição de vida da maioria da população brasileira.

Não devemos também cair na armadilha de tentarmos nos igualar a ele: há quem diga que devemos jogar o mesmo jogo, espalhando desinformação, notícias falsas, bravatas, ameaças etc. Não vai adiantar, em primeiro lugar porque estaríamos nos igualando a ele e dando margem para que digam “quando querem o poder, fazem exatamente como nos criticavam” e o mais importante, estaremos jogando o jogo no qual eles já são experts. Não há como ganhar da milicia digital do presidente no jogo deles. São anos de uma engrenagem que funciona a todo vapor sempre que há a necessidade de defender o presidente em um momento de baixa na popularidade.

Devemos focar o tempo todo no que é prático e palpável: o fracasso do seu governo. Incapaz de gerar condições para a melhoria do país, não há um único indicador econômico, social ou ambiental que esteja melhor hoje do que estava anteriormente a 2018. Temos que nos ater sempre a realidade. E a realidade é de ir ao supermercado e não conseguir encher um carrinho de compras. É de ir ao açougue e não conseguir comprar carne para a semana. É ir ao posto de combustíveis e não conseguir sequer encher meio tanque. É olhar para o que éramos a 10 anos atras e ver que todos somos mais infelizes hoje. É perceber as pesquisas que apontam que os jovens brasileiros são hoje os mais infelizes e que menos acreditam em um futuro melhor.

Não importa qual o seu viés político, social ou econômico. Importa que você não quer mais 4 anos de Bolsonaro no governo. Importa que você quer que o país volte a crescer e a ser feliz. Por isso temos que estar juntos do lado desta batalha. Depois disso, superada a ameaça bolsonarista, podemos voltar a divergir em nossas ideias e propostas, pois acredito que conseguiremos fazer isso de forma educada e cordial. As eleições municipais na cidade de São Paulo foram o exemplo de que se é possível ter um debate de ideias completamente opostas sem deixar a civilidade de lado. E nós perdemos isso com esse governo. E é isso que precisamos recuperar imediatamente. Pelo bem de nossos filhos, pelo bem de nosso meio ambiente, pelo bem de nosso país, enquanto ainda é tempo. Pode ser que não tenhamos essa oportunidade após mais 4 anos de Bolsonaro no poder. 

A nossa bandeira jamais será vermelha?

Há alguns meses, quando estava acompanhando (na medida do possível, já que não consigo mais atravessar madrugadas na frente da TV) os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio, estive refletindo sobre uma das coisas que mais gosto de observar em Jogos Olímpicos, além das disputas esportivas, é claro. Gosto muito de observar as bandeiras nacionais e os uniformes dos atletas de cada nação e refletir sobre como a identidade visual de cada país é construída. É claro que observando tudo isso, comecei a pensar sobre a bandeira brasileira e as cores nacionais, que tem estado em destaque nos últimos anos, quase sempre pelos motivos errados.

Fato é que as cores da bandeira nacional não representam verdadeiramente a nação brasileira. Ainda que a maioria de nós tenhamos aprendidos no período escolar que as cores da bandeira do brasil representam as riquezas naturais de nosso país, a realidade é que todas as cores são relacionadas à história da família real portuguesa, e que foram herdadas pelo nosso país após a independência. Essa construção histórica não é única do Brasil – outros países possuem bandeiras nacionais com uma construção histórica similar à do nosso país. A Austrália é um bom exemplo disso: sua bandeira contém símbolos e cores que remetem diretamente à da Grã-Bretanha, com pequenas diferenças no grafismo.

Porém, em eventos esportivos, por exemplo, os australianos adotam uma identidade visual bastante distinta, usando o amarelo bem pronunciado, oriundo das flores de uma árvore que representa a identidade nacional, se recusando a usar as cores britânicas como identidade visual. O Brasil, por sua vez, utiliza sempre as mesmas cores da bandeira em seus diversos uniformes esportivos.

Toda essa questão me fez refletir profundamente sobre o quanto a identidade nacional está vinculada à bandeira, e como na maioria das nações do planeta, a construção de seu símbolo nacional está diretamente atrelada à sua história, utilizando elementos de sua fauna, flora ou aspectos históricos para definição de sua bandeira, de forma que ao se utilizar este símbolo para identificar o país, os seus cidadãos sintam-se representados e orgulhosos.

Com os acontecimentos dos últimos anos no Brasil, é fato consumado que a bandeira nacional foi sequestrada pela extrema direita e utilizada à exaustão em diversos atos antidemocráticos em defesa de pautas absurdas. Tanto é que hoje uma parcela considerável da população brasileira não se identifica com a bandeira nacional, e evita a sua utilização por conta destes acontecimentos recentes e, há entre estes quem considere legítimo um movimento para que seja desenvolvida uma nova bandeira nacional, uma vez que a atual está irremediavelmente associada aos escalabros e absurdos recentes.

Ainda que a maioria das pessoas acreditem que seja melhor promover uma campanha de resgate da bandeira nacional, retirando-a desse contexto de símbolo quase exclusivo da extrema direita para que volte a ser um estandarte nacional, eu estou com o segundo grupo. Acredito ser este o momento oportuno para criação de nova bandeira brasileira e nos próximos parágrafos vou exemplificar o porquê:

Como disse anteriormente, as cores da bandeira nacional brasileira são todas ligadas diretamente à história de Portugal, a saber:

  • Verde: essa cor era utilizada pelos primeiros povos que habitaram a Lusitânia, região correspondente a Portugal. Essa cor passou a simbolizar liberdade quando os habitantes da região lutaram contra a invasão dos mouros na Idade Média.
  • Amarelo: essa cor fazia parte do brasão de armas de Portugal e foi adicionado depois da conquista do Algarve, em 1249. Outra observação importante é que o amarelo era uma cor símbolo dos Habsburgo-Lorena, dinastia do qual d. Leopoldina (esposa do imperador Pedro I) era membro.
  • Azul e Branco: essas cores remontam ao Condado Portucale, condado do qual surgiu Portugal, e as cores desse condado foram escolhidas pelo d. Henrique da Borgonha.(trecho extraído daqui, clique para ler o artigo completo sobre a definição da bandeira nacional)

Por conta de uma construção histórica complexa, optamos por continuar a usar as cores de outro país ao invés de desenvolver nosso próprio símbolo nacional baseado em nossa história, de forma a valorizar a nascente identidade brasileira. Optamos por manter quase que integralmente a bandeira brasileira criada no tempo de colônia, com pequenas e minúsculas alterações, o que reflete o conservadorismo da sociedade nacional e seu medo de mudanças mais ousadas.

Bandeira Imperial: simbolos portugueses. Foto – Internet

Com todo esse histórico, a minha posição é que seria riquíssimo ao Brasil a elaboração de uma nova bandeira. Acho que o próximo governo democrático que assumir o poder (porque o atual é tudo menos democrático) poderia convocar um referendo para verificar qual o percentual da população que tem o desejo de promover uma mudança na bandeira nacional.

Presumindo que este possa ser um desejo expresso pela maioria da população e uma proposição desta siga adiante, fica a questão: mais do que o grafismo e estilo, quais seriam as cores da bandeira nacional? A escalada da bandeira verde e amarela como símbolo da extrema direita decorre principalmente da alucinação coletiva de que há uma ameaça comunista que irá tomar o país de assalto e transformar o brasil em uma nação comunista com uma bandeira vermelha com a foice e o martelo comunistas bem pronunciados. Claro que isso é uma loucura total, desconectada da realidade e uma estratégia política manjada de assustar a população inculta com uma ameaça irreal e reutilizada à exaustão há mais de 50 anos, resquício de tempos de guerra fria.

O mais irônico dessa visão de medo de uma “bandeira vermelha”, utilizada à exaustão pelo lema “nossa bandeira jamais será vermelha” é que se fossemos realmente promover a criação de uma nova bandeira nacional que refletisse inteiramente os símbolos da nossa nação, a nova bandeira teria que obrigatoriamente considerar como alternativa para ser a cor principal ou pelo menos relevante justamente a cor… vermelha! Afinal de contas, o nosso país se chama Brasil em função do Pau Brasil, tão vasto e tão devastado na época da colonização. A arvore símbolo do país foi nomeada desta forma por ser literalmente “da cor de brasa”, caracterizada por sua madeira bastante avermelhada.

Bandeira do Brasil vermelha – é viavel? Foto: internet

Eu vejo com bons olhos essa mudança, pois não vejo muito sentido em continuarmos a utilizar um símbolo que não é exclusivamente brasileiro como identidade nacional, ainda mais agora que foi sequestrado por uma parcela abjeta da população nacional. Seria como a Alemanha pós segunda guerra mundial tivesse continuado usando uma suástica nazista em sua nova bandeira nacional.

O mundo está evoluindo e reconhecendo a importância de valorizar cada vez mais os símbolos culturais e históricos de cada povo, cada nação, então talvez seja o momento oportuno para se revisar a bandeira nacional. As cores lusitanas, a frase positivista vazia de significados e a associação direta com o nefasto movimento extremista atual já são razões mais do que dignas para se considerar uma mudança. Acredito que valeria pelo menos uma consulta pública nesse sentido. Aliás, a consulta pública via referendo é um instrumento democrático muito subutilizado no Brasil, mas este é assunto para um outro post.

Resenhando (#2)

O Livro Obscuro do Descobrimento do Brasil, de Marcos Costa. Foto: Google

Quando me proponho a ler um livro de História (a ciência mesmo), sempre pesquiso antes para saber quem é o autor e se é um pesquisador sério e pode ser considerado como uma boa referência no assunto. Este cuidado vem desde que ganhei de presente um livro sobre fatos históricos, mas escrito por alguém que não tem compromisso com a pesquisa científica séria ao tratar destes fatos. Não vou citar qual o autor ou o livro, mas para qualquer pessoa que tenha pegado algum volume que se autointitula “politicamente incorreto” sabe do que estou falando.

Antes de mais nada é preciso deixar uma coisa bem clara: este é um livro de História. Não é um romance, ou uma ficção. Por essa razão, inicialmente é um livro que pode ser de difícil leitura para que não está acostumado com o estilo. O livro apresenta detalhamente diversos elementos que contribuíram direta e indiretamente com o “descobrimento” do novo mundo pelos europeus. E quando digo detalhadamente, não é uma figura de linguagem e sim uma constatação: em diversos trechos de sua narrativa, como forma de ilustrar um tema mais profundamente, o autor se utiliza de escritos históricos da época, cartas trocadas entre reis e papas, entre colonizadores e padres, e diversos outros relatos que, embora riquíssimos do ponto de vista histórico, acabam por deixar a leitura um pouco maçante e cansativa em alguns momentos.

Não que isso seja algo ruim, entendendo o perfil de historiador do autor, é mais do que compreensível o desejo de cercar-se de documentos seguros que possam contar detalhes da época relatada, porém por se tratar em grande parte de documentos do final da idade média (séculos XV e XVI), a forma da escrita é diferente do praticado atualmente, então requer mais atenção e interpretação para compreensão exata do que se está dizendo. É uma questão de gosto, claro, mas eu particularmente preferiria que fossem utilizados recortes menores, e feito uma paráfrase em outros momentos, de forma a deixar a leitura mais prazerosa para leitores que não são tão ligados assim em história. E digo isso como alguém que ama história e se delicia com obras como essa.

Falando da obra em si, o autor faz uma combinação de diversos elementos históricos que levam as nações europeias a se lançarem na aventura de navegarem rumo ao ocidente, desbravando o assustador (para a época) Oceano Atlântico. O autor nos mostra que o “descobrimento” do Brasil e das Américas foi muito mais que um mero “acidente de percurso” ao se tentar chegar às Índias por parte das nações ibéricas e que as datas “oficiais” da descoberta pouco tem relação com a chegada dos primeiros europeus no continente americano.

Eu gostei particularmente de o autor sanar uma dúvida antiga minha, desde os tempos escolares. Nunca entendi, em minha mente adolescente, por que razão os portugueses, ao tentar chegar à índia navegando ao redor do continente africano, acabaram vindo parar no Brasil. Sempre me pareceu um desvio um tanto desconexo, pois seria mais fácil margear e acompanhar a linha do continente africano. O autor explica, brilhantemente, que se trata de uma questão natural, uma vez que as correntes do atlântico propiciam uma navegação mais segura e rápida nesta direção, e seria mais fácil para as embarcações portuguesas se deixarem levar pela corrente ao invés de lutar com elas para se manterem próximas à costa africana.

O livro é muito rico, a leitura, apesar do que já pontuei acima, flui de forma natural e, para quem gosta de fatos históricos como eu, bastante instigante. Existem muito mais detalhes que ajudam a entender a construção da nação brasileira. Como, por exemplo, os impactos da inquisição espanhola nos destinos da colonização do Brasil, e a influência da Reforma Protestante e da Contrarreforma na ascensão e queda dos impérios Ibéricos. Dou uma nota 4,5 pelo conteúdo e um 3,5 pela construção do texto. Nota 4 no conjunto geral da obra. Recomendado a todos, e particularmente aos que se interessam por questões históricas.