Seja você mesmo; todos os outros já existem.
— Oscar Wilde.
Este é meu primeiro post no meu novo blog. Este é só o começo do blog, então fique de olho. Assine abaixo para receber notificações das minhas postagens novas.
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O terceiro livro que li neste ano de 2025 foi uma pequena biografia de Wlamir Marques – O diabo loiro. Para que não conhece, Wlamir Marques é considerado por quase todos como o maior jogador brasileiro de basquete da história. Junto com seu parceiro Amaury Passos, foi o líder da geração de ouro do basquete brasileiro, bicampeão mundial e duas vezes medalhista olímpica na década de 60.
Eu sou um fã ardoroso de basquete. Foi o esporte que mais me cativou ao praticar na infância e juventude. Claro que vivi a fase do futebol que todo brasileiro invariavelmente vive somente por nascer no Brasil: fui uma criança apaixonada pela geração do tetracampeonato mundial em 1994, fã ardoroso de Taffarel e do Palmeiras da Parmalat.
Mas desde a primeira infância eu tinha muito contato com o basquete. Não sei ao certo por qual motivo, mas desde que eu tenho lembranças da minha infância, me recordo de que havia uma tabela de basquete de ferro no quintal da minha casa, que meu pai havia mandado um serralheiro confeccionar para que seus filhos pudessem brincar de arremessar. E eram os primeiros anos da década de 1990, então o basquete ainda era muito relevante no cenário nacional. Há poucos anos, Oscar e Marcel haviam vencido os EUA no Pan-Americano de 1987, e vivíamos a geração dourada do basquete feminino com rainha Hortência e Magic Paula liderando aquela seleção maravilhosa. Era plausível se afirmar que nessa época o basquete era o segundo esporte nacional – no pior dos cenários, o terceiro.
Então desde cedo eu tive contato com a modalidade. Na adolescência, porém, já morando em Uberlândia, e durante o boom do time da cidade no cenário nacional do basquete, me tornei um fã ardoroso da modalidade e praticante assíduo, participando de escolinhas de basquete e jogando na escola, na rua e no parque. E a partir daí o basquete se tornou o esporte número 1 em minha vida.
Logo, é claro que eu tinha conhecimento de quem era Wlamir e seu tamanho para o basquete brasileiro. Até mesmo porque eu peguei a fase dele como comentarista de basquete na ESPN Brasil por muito tempo. Mas confesso que nunca tive uma curiosidade grande em saber de sua história como atleta e os seus feitos em detalhes.
Este livro, portanto, veio em excelente momento. Nele pude conhecer mais detalhes sobre a vitoriosíssima carreira de Wlamir e o tamanho de seus feitos em uma época completamente diferente. Vendo hoje atletas não mais do que medianos ganhando um destaque gigantesco nas redes sociais, só posso imaginar o furacão que seria se tivéssemos, nos dias de hoje, um jogador como era Wlamir Marques. O livro, ainda que seja uma biografia simples e sem aprofundamentos detalhados, nos permite visualizar o quão grandioso Wlamir era enquanto jogador e pessoa. Definitivamente um atleta completo, genial e que foi o rosto das maiores vitorias brasileiras dentro das quadras de basquete.
É interessante também notar o quão amador era o esporte nessa época, vendo um atleta desse calibre que precisa ter um segundo e até terceiro emprego para se manter e se financiar enquanto jogador de basquete, as dificuldades enfrentadas para participar de competições internacionais e o quanto o esporte como um todo ainda engatinhada em meados do século XX.
Enquanto somente peça literária, o livro, apesar de toda a boa vontade do autor, é mediano e pouco afeito a detalhes, mas, enquanto peça histórica para registrar para a posteridade o tamanho de Wlamir Marques, o livro merece nota máxima. 5/5. Recomendadíssimo a toda pessoa que se interessa por esportes olímpicos ou historia de atletas de meados do século passado.


Hoje farei uma resenha diferente. Pela primeira vez irei resenhar dois livros simultaneamente: “A casa do outro lado do lago”, de Riley Sager e “A Garota no Trem”, de Paula Hawkins. Não se enganem, porém – não são histórias complementares ou pertencem ao mesmo universo. Se tratam de duas obras independentes, de duas autorias diferentes, que retratam universos distintos e com finais bastante diferentes entre si, e havia ainda cerca de dois meses de distancia entre os momentos de leitura de cada uma das obras. Ainda assim, encontrei nelas similaridades e sensações parecidas suficientes para que pudesse compartilhar as impressões sobre cada uma delas de forma conjunta.
Mas, falando brevemente sobre cada uma das histórias, “A Garota no Trem” conta a história de uma mulher que se divorciou recentemente e está lidando com a nova rotina com auxilio de bebidas. Nesse período ela passa diariamente diante de uma casa em seu percurso de trem para o trabalho e passa a acompanhar o casal que ali vive e a imaginar e fantasiar como seria a vida deles com base nos breves fragmentos que captura enquanto o trem passa pelo trecho em que a casa é visível.
Por sua vez, “A Casa do outro lado do lago” conta a história de outra mulher que também vive um período de luto e que recorre ao álcool para lidar com a situação – neste caso, porém, tratando da perda do marido após um acidente no lago ao lado da casa de veraneio da família. Mas também nesta história, a protagonista passa a acompanhar a realidade da vida de um casal vizinho – no caso os moradores da casa do outro lado do lago – e que também passa a inferir como é a vida do casal com base nos pequenos fragmentos que captura olhando com binóculos pelas amplas janelas da casa.

Para fins de organização, de agora em diante, passarei a chamar “A garota no trem” de a primeira história e “A casa do outro lado do lago” como a segunda história, para facilitar o entendimento. Pelo breve resumo que fiz acima das duas histórias já é possível entender os motivos pelos quais encontrei similaridades nos dois livros: em ambas há uma protagonista vivendo um período de perda e luto, se fiando na bebida para lidar com as emoções do momento e que se percebem vazias de protagonismo da própria vida ao ponto de se envolverem com ilusões criadas pelas próprias mentes ao observar a vida de terceiros próximos. Ainda há o fato de ambas as histórias envolverem investigações de desaparecimentos de outras mulheres que parecem estar ligadas às suas vidas antes do fato que desencadeou a solidão atual.
As duas histórias são bastante ricas de detalhes ao abordar a questão do alcoolismo e, o que mais importante neste contexto, de personagens femininas. Ainda hoje, em 2025, quando falamos de alcoolismo há uma associação direta e imediata ao gênero masculino. As duas histórias contribuem no sentido de desconstruir essa visão e, concomitantemente oferecer uma narrativa plausível e verdadeira acerca dos impulsos, inseguranças e dilemas que afligem a pessoa vivendo na situação de alcoólatra. Há o estágio da negação, da aceitação, da resignação, do fundo do poço e por fim o despertar para a necessidade de ajuda.
Ainda que haja uma diferença fundamental nas histórias – a primeira trata de fatos essencialmente mundanos e humanos, residindo na normalidade da vida e das relações humanas todo o clímax do plot twist que irá compor o fechamento da história, enquanto a segunda descamba para o plot sobrenatural de forma até surpreendente sendo não há qualquer aviso prévio de que trata-se de uma história de terror sobrenatural, ainda que os dilemas da personagem principal sejam bem reais – a similaridade entre elas nos permite traçar um paralelo único para o desenvolvimento de ambas até chegar ao clímax das histórias que, por motivos óbvios, não vou mencionar aqui.
Gostei muito de ambas as histórias, foram leituras interessantes e enriquecedores, especialmente no que diz respeito à batalha silenciosa que é travada dentro da pessoa alcoólatra consigo mesma para lidar com o vício, e todos os previsíveis desdobramentos decorrentes na vida real dessa pessoa por conta do seu vício. As personagens femininas retratadas são mulheres reais, com virtudes e defeitos e lidam com problemas reais da sociedade, como a onipresente depreciação da opinião da mulher somente por ser mulher, a rotulação como intrometida por querer auxiliar em uma história que não está diretamente relacionada a elas, dentre outras questões.
Os dois livros são thrillers no melhor sentido, com histórias densas que mergulhamos profunda e intensamente, lendo rapidamente capitulo atrás de capitulo até chegar ao final da história. Ainda que a primeira tenha tido um final mais comum e até certo ponto previsível diante do desenrolar da narrativa, em oposição à segunda que verdadeiramente me surpreendeu, acredito que eu tenha gostado ainda mais de “A Garota no Trem” do que “A casa do outro lado do lado”, ainda que ambas as histórias sejam excelentes e altamente recomendadas por mim. Nota 4.1/5 para a primeira e 4/5 para a segunda. Boas leituras para preencher um final de semana um pouco mais ocioso.
“Não foi isso que eu quis dizer” é um livro interessantíssimo. Acho que não há como iniciar esta resenha de outra forma. É um livro reflexo do tempo em que foi escrito e exatamente com o proposito de trazer uma analise da realidade relacionada à interpretação de textos no tempo das redes sociais e, especialmente, da pós verdade (ou normalização da mentira, como preferirem).
A autora é responsável pela página “Português é Legal” com milhares de seguidores no Instagram. Conheci a página há alguns anos, primeiro acompanhando postagens avulsas que surgia nas paginas sugeridas no app, e depois que me tornei seguidor, passei a acompanhar o dia a dia das postagens, sempre com classe e bom humor e, principalmente, conteúdo de alta qualidade, contribuindo ativamente para a minha melhora na utilização da língua portuguesa no cotidiano.
Foi pela página que eu soube do desenvolvimento do livro e, desde o primeiro momento, assumi o compromisso de adquirir uma cópia. Levou um pouquinho mais de tempo que eu gostaria, mas no segundo semestre de 2024 adquiri o livro e acabei por ler somente neste primeiro mês de 2025. A leitura foi fluida e leve, com pitadas de humor e reflexões profundas em medidas iguais. São utilizados exemplos reais de postagens e comentários de pessoas extraídos das redes, conectando-os aos conceitos de língua portuguesa e interpretação de textos.
Mais do que um livro interessante e lúdico, é um livro necessário. A nossa sociedade atual padece de uma total falta de capacidade interpretativa de todas as formas, mas particularmente grave no que se refere à interpretação de textos. Qualquer esforço feito neste caminho deve ser louvado e disseminado para que possa atingir o máximo de pessoas. Esta é a minha reflexão e vontade, portanto. Recomendo a todos o livro, e também que possam seguir a página “Português é Legal” para que possamos combater esta epidemia de desinformação e mentiras, melhorando a comunicação entre pessoas. Nota 4,5/5.

Sou um grande fã de Stephen King. Gosto particularmente de suas histórias que fogem ao gênero de terror/suspense que o consagrou. Prefiro as histórias que escreve que tratam menos do sobrenatural e mais do casual e mundano, sempre com uma pegada ácida e resignada de dramaticidade. Me encanta os contos reunidos no livro “Quatro Estações”, em que o autor escreve 4 histórias mais curtas sobre temas diversos que são riquíssimas em profundidade e sensibilidade. Ainda escreverei uma resenha detalhada sobre cada um dos contos, mas por ora, basta que saibam que 2 destes contos renderam os maravilhosos filmes “Um sonho de liberdade” e “Conta Comigo”, além da história chocante e com muitos traços de contemporaneidade do conto “Aluno Inteligente”, que trata de um adolescente fascinado pelos campos de concentração nazistas da Segunda Guerra mundial.
Mas, muito mais do que isso, um dos aspectos mais fascinantes desse autor é a sua capacidade de capturar a atenção do leitor de seus livros quase que imediatamente. Comecei a ler neste final de semana um de seus mais recentes livros, “Conto de Fadas” e, com menos de 3 paginas de leitura, já havia sido completamente capturado pela narrativa. Ainda não havia ocorrido nenhum fato dramático na história que pudesse tirar o ar logo de cara, mas somente fatos triviais e introdutórios a respeito da história do narrador, mas a forma como a escrita se dá, sem excessos, mas sensível e natural, te cativa de uma maneira que você se vê impelido a continuar na leitura ansiando por saber os próximos desdobramentos. No caso deste livro em questão – um calhamaço de mais de 600 páginas – este ‘clique’ imediato com a história é essencial para garantir que o leitor irá perseverar na aventura de continuar por aquelas páginas, e isso explica claramente o fato de que o autor é um best-seller ambulante há 40 anos e um escritor incansável que lança facilmente de 3 a 4 novos romances todos anos.
Ainda não sei como irá se desdobrar a história, ou sequer se irei gostar do livro ao término da leitura, mas não é isso o importante neste momento. O que me impressiona profundamente é esta capacidade que algumas pessoas possuem de naturalmente serem excepcionais contadoras de histórias, e como isso gera uma conexão entre leitura e leitor que torna o ato de ler muito mais prazeroso e interessante. Pessoas assim devem ser reconhecidas e valorizadas como os artistas excepcionais que são. Sou um grande fã de Stephen King. Possivelmente em poucos dias já terei finalizado a leitura de “Conto de Fadas” – dada a velocidade com que a leitura tem se desenrolado – ainda que se pese o fato de eu estar começando um novo emprego e tendo um bebê recém nascido em casa.
Ainda não é hora, porém de resenhar o livro. Assim que finalizar a sua leitura, trarei as minhas impressões e opiniões a respeito, mas neste momento o desejo era somente o de exaltar as qualidades deste autor lendário e expressar a minha admiração por pessoas que possuem esse dom maravilho de contar histórias.

Sejam todos bem vindo a mais um retorno do blog. Sempre que sentir vontade, tentarei passar por aqui com alguma reflexão que potencialmente não interessará a ninguém além de mim mesmo, mas seguiremos. Hoje gostaria de falar um pouco a respeito de uma experiência que vivi no início deste novo ano.
Nas primeiras duas semanas de 2025 eu suspendi a minha conta do Instagram. Não foi uma resolução de ano novo – era somente algo que eu já vinha pensando em fazer, e calhou de dar certo justamente na vida do ano. Há tempos que venho sentindo um desconforto ao utilizar o Instagram, uma mescla de preguiça com falta de interesse, e um desanimo com o conteúdo que invariavelmente acabava consumindo por boa parte do dia.
Porém a suspensão de fato demorou a sair por motivos de vício. Não me considero um usuário hardcore do Instagram, mas ainda assim percebi que estou viciado no uso da rede. Sem nem ao menos perceber, ficava por muito tempo rolando o feed ou vendo stories pelos quais eu tinha pouco ou nenhum interesse. É mesmo uma questão de vício, de precisar fazer aquilo sem nem saber o porquê.
Conclui que um afastamento, ainda que provisório me faria bem, e não me faria falta. Mas claro que estava enganado, pois, como todo vicio, a interrupção abrupta causa sintomas de abstinência que podem ser mais ou menos intensos. No meu caso nem foi tão intenso, mas senti em diversos momentos uma vontade quase mecânica de clicar no ícone do aplicativo e ficar rolando o feed indefinidamente. Só não o fiz porque havia desinstalado o aplicativo do celular. Mas o que fiz? Instalei o de outra rede social (no caso o bluesky, que havia criado uma conta uns meses antes, mas não havia utilizado de fato) e passei a usar como o um substituto do Instagram.
Mas o sintoma mais marcante que senti com o afastamento temporário do Instagram foi a sensação de total afastamento do mundo. Nunca fui uma pessoa de sair muito e no momento atual da vida, faço isso ainda menos, então acaba que a forma de me conectar com o mundo e a maioria das pessoas é via rede social e, me afastar daquela que eu mais utilizava, causou em mim um profundo sentimento de solidão e não pertencimento do mundo. Me senti completamente invisível. Foi uma sensação muito estranha, como se de fato eu não existisse para o mundo ou as pessoas ao meu redor.
Percebi que as redes sociais hoje em dia são péssimas, especialmente nesse contexto de gerar níveis de vicio comparáveis às drogas mais pesadas que existem, mas ao mesmo tempo é virtualmente impossível viver sem elas e se manter integrado ao mundo como ele é. Todos nos estamos vivendo de forma atabalhoada e corrida, com inúmeros compromissos da vida se atropelando ao longo dos dias e semanas, e quase nunca temos um tempo disponível de qualidade para dedicar a algo que gostamos ou encontrar pessoas queridas. E quando há esse temo disponível, na maioria das vezes ele não coincide com o tempo disponível da pessoa que se quer encontrar. Assim, seguimos parecendo que estamos próximos pelo contato em rede social, mas cada vez mais distantes.
Acabei voltando para o Instagram, é claro. Não recebi uma mensagem sequer por WhatsApp ou qualquer outra forma de comunicação nesse período, o que me levou a perceber que hoje parece que a nossa vida social de fato acontece nas redes sociais e que a materialização física das relações humanas é só uma pequena faceta dessa realidade – quase como se fossem avatares nossos sendo comandados pela realidade virtual das redes. E me senti sozinho. Ainda que me relacionar virtualmente com amigos e pessoas queridas seja uma forma incompleta de relação, é o mais presente que se é possível de estar nas circunstancias de vida atuais. E isso é bem bizarro e assustador.
Não há reflexão final nem moral da história por aqui, só queria compartilhar a sensação de estranheza e confusão causadas por esse movimento feito no inicio do ano. A nossa vida, em linhas gerais, está cada vez mais confusa e bizarra. Não sei como vocês se sentem, mas eu fico bastante assustado.
Retomando as leituras feitas já nesse ano de 2023, chego finalmente a esse primoroso romance nacional, talvez o livro brasileiro de maior sucesso dos últimos anos. “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior é um romance lírico e maravilhoso que arrebatou todos os prêmios literários brasileiro disponíveis, alçando o autor ao patamar de grande nome dos escritores nacionais da nova geração. Não estou brincando. Sempre quando navegava por alguns instagrams literários, sempre me deparava com um vídeo de opinião a respeito desse livro, uma resenha detalhando a opinião e o arrebatamento com a leitura.

Sinto novamente que sequer possuo muito a habilidade necessária para tecer qualquer análise a respeito do livro, especialmente por pessoas muito mais capacitadas já terem dedicado amplo espaço a debater a respeito dessa obra, mas, em respeito e fidelidade à pujante audiência fixa de 3 pessoas em meu blog, vou manter o hábito de resenhar todos os livros lidos ao longo desse ano, ainda que possa demorar um tempo após a leitura para conseguir concatenar as ideias e rascunhar algumas palavras a respeito desse clássico moderno da literatura brasileira.
O livro conta a história de duas irmãs Bibiana e Belonisia vivendo no sertão da Bahia dentro de uma grande fazenda, na qual seus pais trabalham para os patrões e no tempo livrem trabalham a terra para ter o mínimo para alimentarem a si e seus familiares. Não vou me estender longamente a respeito da trama, mas ela segue a história das irmãs desde o acidente envolvendo uma faca guardada à mala da avó na primeira infância de ambas – distantes em idade por apenas um ano, até a vida adulta e todos os desdobramentos decorrentes do crescimento e amadurecimento.
“Torto Arado” é, antes de qualquer outra definição, uma história essencialmente brasileira. Puramente brasileira. O autor não faz nenhum destaque a respeito do tempo em que a história decorre, apenas menções superficiais que podemos situar os acontecimentos acontecendo em algum local entre as décadas de 30 e 50 do século XX, mas até mesmo isso é especulação da minha parte e – acho que por decisão do autor – o objetivo é exatamente este. Digo que a história é essencialmente brasileira por destacar a história da desigualdade e da miséria presente em nosso país e que aflige, majoritariamente, a população preta do nosso país. A temática da riqueza caminhando paralelamente à pobreza está presente em toda a história e a miséria descrita é tão real que torna plenamente possível situar a história no início do século XXI quanto em finais do século XVIII.
A ambientação feita pelo autor dos cenários nos quais os personagens vivem me levaram inclusive a cometer uma gafe interna que não havia compartilhado com ninguém mas vou dividir com vocês. Nos primeiros capítulos do livro, ao descrever a casa das meninas e sua família, a pobreza e o despojamento me fizeram lembrar de diversos sítios que visitem em minha infância, de tios avós, principalmente, onde não havia luz elétrica ou água encanada, mas que ao resgatar essas memorias do início da minha vida, pude perceber que as condições de vida dos meus antepassados eram muito superiores às descritas no livro. Todas as casas que visitei, ainda que muito simples e espartanas, possuíam parede de alvenaria, piso de madeira ou vermelhão, telhado de barro e condições de salubridade muito superiores aos casebres de pau-a-pique e barro do romance, o chão de terra batida e os colchoes de palha. Sei de histórias de meus bisavós e tataravós que viveram situações mais semelhantes, mas a percepção do que eu havia registrado em minha memória com a realidade descrita no livro é tão discrepante que me assustou e me fez amaldiçoar mais uma vez esse absurdo que é a desigualdade social em nosso país. E pensar ainda que, mesmo que muito tempo tenha se passado desde faixa temporal em que situei o romance, ainda existem muitas pessoas vivendo em condições análogas àquelas e, morrendo, tal qual no romance, de fome, doenças tratáveis e assassinadas por lutarem por melhores condições para seu povo.
Descobri após a leitura que o autor do livro é um colega meu de profissão, sendo também um geografo e todas as questões que a geografia pensa constantemente referentes à ocupação social do espaço geográfico e suas inferências, podem ser observadas, ainda que sutilmente durante o romance. É possível dizer que é um romance recheado de elementos geográficos, desde a paisagem até as questões da ocupação humana ao longo da história na região, bem como a passagem de terra a novos donos e negligenciando direitos essenciais à população original da região.
É um romance brasileiro. E acredito que todo brasileiro deveria lê-lo. Fosse para se identificar, para se assustar com tamanha desigualdade ou para se revoltar e assumir um papel mais atuante na busca urgente por justiça social em nosso país, é um romance necessário. Ainda que não seja o meu estilo literário favorito, li o livro do início ao fim com um arrebatamento gigante e sentindo muito com o sofrimento dos personagens à cada página que ia passando. Profundamente tocante, discutindo assuntos atuais (ainda que já o sejam há pelo menos 80 anos) e verdadeiramente brilhante. Nota 5/5 pela primeira vez nesse blog.
Dando sequência as resenhas de livros queridos da minha biblioteca, hoje sigo falando sobre o autor suíço Joel Dicker. Falo hoje de seu segundo livro do universo do escritor Marcus Goldman, chamado “O Livro dos Baltimore”. Para essa resenha, eu vou abordar o livro de uma forma um pouquinho diferente. Vou falar na primeira parte sobre os pontos positivos do livro, e na segunda parte vou abordar exclusivamente os aspectos negativos da obra.

Como mencionei anteriormente, esse livro trata-se de uma sequência do universo apresentado pelo autor em “A Verdade sobre o caso Harry Quebert”, primeiro livro e primeiro grande sucesso do escritor. N’O Livro dos Baltimore nos reencontramos com Marcus Goldman, escritor jovem e bem sucedido que tem uma vida de dar inveja em todas as pessoas. Mas, assim como no primeiro livro, logo percebemos que a vida de Marcus não é assim tão maravilhosa e, como qualquer pessoa, existem aspectos não tão memoráveis em sua história, bem como passagens um tanto questionáveis. Neste livro, essencialmente, ainda que toda a narrativa aconteça no presente, e existam desdobramentos referentes a isso, toda o olhar é voltado para o passado, com o narrador/personagem principal relembrando fatos de sua infância e adolescência em boa parte vividos na casa de seus tios, os bem-sucedidos “Goldman de Baltimore”, daí o título bem sugestivo.
Não é meu objetivo me aprofundar nos detalhes da narrativa, acho muito mais válido falar de sensações e impressões durante a leitura. Sob esse prisma, o primeiro comentário positivo é que o livro é muito bom de ler. Bem no estilo Dicker, o livro é rápido, intenso e prende a atenção do início ao fim. O autor tem um talento natural em produzir uma narrativa poderosa e que nos deixa em constante suspense, ansiosos pelo próximo desdobramento. Além disso, ele consegue ser descritivo na medida certa, sem se perder em páginas e mais páginas discorrendo sobre ambientes, cenários, personagens e fatores climáticos. Sempre há um meio termo bastante aceitável entre a descrição detalhada o suficiente para se ter a dimensão perfeita do cenário e a margem para que a nossa imaginação faça o seu próprio trabalho de construir em nossa mente os detalhes mais relevantes para tornar a história ainda mais instigante para mim.
Porém, como nem tudo são flores, é preciso falar também sobre os aspectos negativos do livro. Ainda que não seja nenhum detalhe absolutamente desgostoso ou que desabone a boa experiência de leitura, existem algumas críticas a serem feitas, especialmente se você é um leitor que chega a esse livro após ter lido “A verdade sobre o caso Harry Quebert”. Não se assuste, porém, se você nunca leu esse primeiro livro. São duas histórias completamente independentes e a não leitura do livro anterior em nada atrapalha a leitura desse. Mas como são duas histórias que se passam no mesmo universo, há um desconforto claro quando se pensa na linha do tempo das duas histórias. Ainda não que esteja explicito, entende-se que a história d’O Livro dos Baltimore se passa após os acontecimentos de “A verdade sobre o caso Harry Quebert”. Nesse livro, Marcus é um autor recém saído de seu primeiro livro de sucesso que enfrenta uma crise de ideias que o impedem de escrever um novo romance, daí, ao tentar vencer esse bloqueio, vai se refugiar na casa de seu tutor e amigo Harry Quebert. Dessa forma, só é possível imaginar que a trama de “O Livro dos Baltimore” se passe após esses acontecimentos. Por esse motivo é muito estranho que os personagens apresentados nesse livro, que foram tão importantes ao personagem principal são sequer mencionados no primeiro livro. Mais do que isso, ainda que no primeiro ele se atenha principalmente em seu relacionamento universitário com Harry, ele aborda passagens de sua infância e adolescência sendo “o admirável”, jovem com larga carreira esportiva e acadêmica que dedica muito tempo de sua vida a isso.
Daí o confronto entre essa narrativa e a do segundo livro, onde Marcus explica que passava virtualmente quase todo o tempo disponível indo a Baltimore para estar com seus tios e primos e passar com eles o máximo de tempo disponível. Simplesmente não é plausível – não sem entrar nos terrenos da fantasia – que um jovem que passava tanto tempo no deslocamento entre Baltimore e Nova Jersey tivesse ainda tanto tempo disponível para ser um fenômeno esportivo e aluno exemplar de sua escola. Mais ainda, durante suas longas discussões com Harry no primeiro livro, Marcus é questionado sobre ter um grande amor, onde responde negativamente, alegando nunca ter vivido algo assim. Porém no segundo, boa parte da narrativa é pra descrever o seu amor juvenil e avassalador por Alexandra, jovem vizinha encantadora de Baltimore, com quem Marcus vive um romance.
Enfim, o livro é muito bom, ainda que uma das maiores críticas de outros leitores seja toda a narrativa em volta d’ O Grande Drama que é mencionado constantemente e ao final não é algo assim tão impressionante ou surpreendente, pelo contrário, até previsível. Mas a forma como o autor coloca todo o suspense em jogo, nos deixando ansiosos para saber logo o que é o tal drama é muito cativante e vale pena – ressalto mais uma vez – a leitura. O ponto da cronologia dos fatos entre os dois livros do autor são pontos de desconforto, assumo, especialmente para leitores como eu, que são mais atentos e costumam guardar detalhes e cronologia de outros livros queridos, especialmente do mesmo autor, mas em nada desabonam a aventura de um novo leitor que está somente ansiando por uma leitura divertida, cativante e estimulante. Apesar de tudo, ainda recomendo amplamente essa leitura. Nota 4/5.
Durante o processo de releitura de algum livro, sempre acontece de eu gostar ainda de algumas histórias e um pouco menos de outras. Felizmente, nesse caso, “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert” pertence à primeira categoria. Esse romance havia despertado meu interesse há um tempo atrás e acabei me decidindo adquirir por conta da belíssima capa que apresenta uma cena bucólica em uma rua qualquer.
O livro conta a história do jovem escritor Marcus Goldman que, após um estrondoso sucesso de seu romance de estreia, tinha dificuldades para engatar um novo livro. Sendo pressionado por seus editores, pelo público e por si mesmo, ele decidiu fazer um último movimento desesperado; vai se hospedar na casa de seu amigo e mentor Harry Quebert, autor de sucesso na década de 70 e seu professor na universidade. Harry, que mora em uma bela mansão à beira mar de uma bucólica e pequena cidade dos EUA desde a época de seu grande sucesso literário, acolhe o rapaz em busca de ajuda-lo.

Durante a estadia de Marcus no local, descobre-se o corpo de uma jovem desaparecida há décadas enterrada no quintal da casa de Harry e ele é imediatamente preso e acusado do assassinato, devido principalmente à uma prova substancial encontrada junto ao corpo da menina: um exemplar manuscrito do livro de sucesso de Harry. Daí em diante o livro se torna uma correria imensa de Marcus Goldman em buscar de provar a inocência de seu amigo. Durante esse processo de busca de provas para salvar Harry, Marcus acaba encarando um emaranho de histórias do passado muito mais complexas e profundas do que imaginava.
Todo este processo ocorre simultaneamente à sua busca por escrever um novo romance, quando decide escrever um livro para provar a inocência de Harry. E aqui encerro o detalhamento do romance, em primeiro lugar para não estender demais essa resenha, mas em segundo e principal lugar, por gostar sempre de deixar espaço para a descoberta da história por cada novo leitor que possa se deparar com essa resenha – como já falado em outros momentos, prefiro muito mais em minhas resenhas tratar das sensações que essa obra provocou em mim, pois acredito ser uma impressão mais honesta a respeito do impacto que o livro teve para mim.
Por esse motivo, eu afirmo sem o maior medo de parecer exagerado: A verdade sobre o caso Harry Quebert é um livro maravilho. Trata de diversos temas simultaneamente de forma brilhante, sem parecer superficial em nenhum momento, ainda que não seja o objetivo do autor aprofundar as discussões acerca de cada tema. Trabalha com fatos no presente bem como de flashbacks muito bem descritos de passado, que enriquecem a história e deixa no ar um suspense delicioso durante toda a leitura que nos leva a passar páginas e mais páginas sem sequer perceber. É um livro de 500 páginas que pode ser lido em 1 ou 2 dias facilmente, dependendo da disponibilidade do leitor. Não cansa e a cada novo desdobramento e reviravolta ficamos embasbacados imaginando se o autor irá verdadeiramente encontrar uma elucidação para o crime do assassinato da jovem, que, podia até ser jovem, mas nem um pouco inocente.
É um livro falando de livros também – todos os capítulos se iniciam com conversas entre Marcus e Harry nos tempos de universitário do primeiro a respeito de todas as etapas necessárias para se escrever um grande romance. E todo livro assim imediatamente atrai a minha simpatia e interesse, pois são grandes provas de amor à literatura e acho esse gancho maravilhosamente saboroso. Tudo isso misturado a um elenco de personagens da mais alta qualidade e heterogeneidade, os quais em determinado momento da leitura, podem todos ser considerados suspeitos de terem cometido o crime.
“A Verdade sobre o caso Harry Quebert” é o romance de estreia do autor suíço Joel Dicker e nada melhor do que um sucesso avassalador como esse para iniciar a carreira. Este livro foi o responsável por me fazer comprar todos os outros quatro romances do autor lançados posteriormente e fazendo com que ele se tornasse um de meus autores contemporâneos favoritos. Para quem gosta de suspense investigativo, é um prato cheio. Para quem gosta de romances policialescos, também. Para quem prefere uma história de amor proibido, em que tudo conspira contra o casal, idem. É um livro arrebatador. Vale muito a pena a leitura e garanto que irá desfrutar imensamente. Nota 4,5/5.
Seguindo em frente na estrada “retomando as resenhas dos livros lidos ainda em 2022”, chego ao tão esperado “Biblioteca da Meia Noite”. Desde que descobri a sinopse desse livro, ele entrou em minha lista de livros e assim que pude, o comprei para compor a minha biblioteca. É uma história com uma daquelas premissas avassaladoras e que todo mundo já se perguntou a respeito. Afinal de contas, quem nunca pensou que gostaria de voltar em algum momento importante da própria história e tomar uma decisão diferente da que tomou e ver qual seria o resultado daquilo em sua própria vida?
Essa é a dinâmica que compõe esse romance, contando a história de uma mulher por volta dos seus 30 e poucos anos, infeliz e deprimida com a própria vida, remoendo-se com a insignificância de sua existência e que fica constantemente pensando em como seria diferente a sua vida se houvesse tomado algumas decisões diferentes em momentos críticos de seu passado.

Um romance assim claramente é um prato cheio para qualquer pessoa com pouco mais de 30 anos, momento no qual a sociedade deixa de olhar com condescendência a nossa indecisão e decisões errática durantes os 20 anos e passa a julgar a pessoa que chega nessa faixa etária e ainda não tem claro “o que quer fazer da vida”. Consigo afirmar isso com propriedade pois é algo que vivencio e diversas pessoas próximas à minha faixa etária relatam sentimentos similares. É um momento da vida em que, aos olhos da sociedade julgadora e hostil, precisamos deixar de querer experimentar e viver novas experiências, conhecer novas pessoas e cenários e precisamos sedimentar o caminho que queremos, devemos ou precisamos seguir.
A sociedade não tem muita tolerância para quem não consegue ou escolher não seguir um único caminho para sua existência, e é entre os 30 e 40 anos que essa cobrança pela obrigatoriedade de se escolher um único caminho torna-se quase uma exigência, daí a dúvida de inúmeras pessoas, como eu mesmo e a personagem da história, que passam a olhar constante e sistematicamente para cada decisão de sua vida e pensando o que poderia ter feito diferente, em diversos momentos se martirizando e sofrendo por não ter tomado à época a decisão que julga melhor com a maturidade de ter vivido muita coisa após o momento crítico que exigiu uma escolha.
Para não trazer muitos spoilers sobre o livro, vou apenas mencionar que na história existe uma biblioteca na qual a personagem pode frequentar e que há um livro diferente para cada momento específico de sua própria existência, especialmente relacionado às decisões que tomou e pode escolher tirar um destes livros da prateleira da biblioteca e voltar a viver aquele momento, porém com uma decisão diferente da que tomou à época. Com essa possiblidade de escolha, se desenrolam diversos cenários pelos quais a personagem pode viver e se perceber mais ou menos feliz, ainda que não consiga ter uma percepção segura e verdadeira de que aquele caminho é realmente o que ela gostaria de fazer e que a tornaria realmente feliz e realizada.
Para as pessoas da minha geração, que atualmente estão entre 30 e 40 anos, que cresceram ouvindo sistematicamente que era preciso escolhermos e buscar um caminho único que nos faz verdadeiramente felizes, sabemos que é uma exigência que por muitas vezes nos direciona à uma busca insana, na qual se não formos bem sucedidos é porque cometemos um erro ou fomos incapazes de encontrar essa “galinha dos ovos de ouro”, que é a realização eterna. Não vou sequer mencionar todos os problemas psicológicos que podem resultar dessa cobrança imensa, sejam em depressão, ansiedade e infelicidade, mas a verdade é que crescemos, em maior ou menor escala, sendo filhos de pais que não foram essencialmente felizes profissionalmente ou até mesmo pessoalmente, mas que conseguiram ascender muito em comparação aos seus genitores, sejam financeiras ou profissionalmente. Mas que, em sua maioria relatavam que não puderam escolher ser felizes, fizeram somente o que tinham que fazer para conseguir ter uma condição de vida melhor e principalmente oferecer oportunidades melhores para que os filhos (minha geração) aí sim, pudessem ser felizes. Ainda que a felicidade nesse cenário seja, no final das contas, cumprir as expectativas que foram projetadas em nós pela geração anterior que acreditam não ter tido a oportunidade ou a permissão de ser tudo o que gostariam de ser.
O livro é um prato cheio para pensar a vida, as decisões, as experiencias que vivemos e as pessoas que cativamos ao longo do caminho, pois a cada caminho vivido, há desdobramentos, o que torna a busca pelo caminho perfeito um objetivo impossível de ser realizado, uma vez que essa própria perfeição não existe, dado que por mais que sejam diferentes versões de nós mesmos em cada cenário, ainda somos nós que vivemos aquilo, e a felicidade plena vem(ou pelo menos deveria vir) de nós mesmos e nunca do exterior.
Cativante, intrigante e profundamente reflexivo, o livro me proporcionou uma das leituras mais marcantes de 2022. Me provocou reflexões profundas acerca de mim mesmo, da minha história e das escolhas que fiz ao longo do percurso, muitas das quais eu mesmo já estava ruminando durante meu processo terapêutico de tomada de consciência de vida, o que torna a leitura muito mais prazerosa e rica, pois há uma conexão real com o que vivemos e não somente uma breve, porém cativante leitura de um bom romance de ficção científica. Nota 4,5/5.
Dando continuidade às resenhas atrasadas de 2022, hoje falo de “A cidade de vapor – Contos reunidos”, a última obra lançada pelo premiado escritor espanhol Carlos Ruiz Zafon. Na verdade, o livro foi publicado após o falecimento do autor e foi divulgado como sendo uma verdadeira homenagem ao legado de sua carreira, contemplando todos os 11 contos escritos pelo autor em vida. Não há muito detalhamento a respeito do período em que cada um destes contos foi escrito, portanto podemos presumir que podem ter sido escritos por um Zafon ainda adolescente ou mesmo pelo autor já consagrado pouco antes de sua morte. Claro que com as ferramentas de hoje é possível se levantar todas estas informações, mas eu prefiro encarar este livro com uma aura de mistério e reverência que a última obra do autor de meu livro favorito merece.

Por essa razão eu me sinto verdadeiramente desconfortável em colocar em palavras as minhas reflexões a respeito da obra. Sinto – com verdadeira convicção – que não sou digno de tecer qualquer crítica a respeito de uma obra sequer de Zafon, mas ainda assim, preciso ser fiel às minhas convicções e trazer as minhas impressões sinceras a respeito dessa obra. Não achei o livro ruim, longe disso, simplesmente não é o meu formato favorito de leitura. Gosto de uma conexão mais aprofundada com cada personagem e cenário descrito, gosto de saber maiores detalhes a seu respeito, sua forma de pensar o mundo e entender o que o envolve e motiva, por essa razão esse compilado de vários contos curtos jamais irá me cativar verdadeira e profundamente. Ainda que proporcione uma leitura leve e bela, com o pincelar característico do estilo único de Zafon em diversos momentos.
Há uns contos melhores que outros, obviamente, o que me leva a crer que, por se tratar de um compilado de contos de uma vida toda, se relacionam a diversos momentos da obra do autor. Alguns me parecem firmemente ancorados na estética de “A Sombra do Vento”, sua maior obra – e meu livro favorito da vida. Poderiam facilmente compor um capitulo adicional dentro da trama do livro supracitado sem nenhuma dificuldade de integração, tamanha a similaridade da escrita. Outros, por vez, se parecem bem diferentes com este estilo, o que me leva a crer que se tratam de contos escritos em outro momento, talvez por um Zafon ainda em formação como o célebre escritor que viria a se tornar.
Nada disso, porém, desabona o livro. Ainda que não me pareça algo que o autor talvez tivesse publicado integralmente – ou pelo menos não sem uma revisão ou reescrita de alguns trechos – a sensação de ter em mãos um livro inédito de Zafon mesmo após a triste partida do autor é tão avassalador que tudo é colocado em perspectiva. O que importa é ter mais um volume desse autor maravilhoso, que me proporcionou e proporciona constantemente momentos deliciosos durante alguma releitura. O livro é proposto como homenagem e deve ser saboreado dessa forma, como homenagem. É uma celebração da vida e da obra desse autor tão especial, que pode ter deixado o plano terreno, mas que viverá eternamente em suas páginas transbordando emoção, mística, humor e, acima de tudo, um amor imensurável pela palavra escrita.
Obrigado, Zafon. Você despertou em mim um leitor melhor, um leitor ainda mais apaixonado por livros e bibliotecas, profundamente reverente à sublime e mais bela de todas as formas de arte. Transformar palavras em sentimentos, memórias e paixões, requer uma alquimia complexa que somente os maiores gênios são capazes de executar. E você, meu amigo, certamente hoje repousa tranquilamente no olimpo entre outros de sua espécie. Um abraço de seu singelo fã.