Resenhando(&refletindo) #20

Dando continuidade à finalização das leituras de 2022 que haviam ficado pendentes, acabo de (finalmente) concluir o livro “A Primeira Pedra – EU, padre gay, e minha revolta contra a hipocrisia da Igreja Católica”, do autor Krzysztof Charamsa. Foi um dos livros de mais difícil leitura que me deparei em 2022. Até por este motivo foi colocado de lado e por um tempo considerei desistir de vez e abandonar a leitura, mas a relevância do tema e o impacto em minha própria história com a igreja me levaram a insistir na leitura no início de 2023.

A temática da obra é explicita imediatamente com o próprio título. A contracapa se encarrega de dar um tom sombrio e assustador ainda maior quando faz afirmações bombásticas: “Um testemunho sem precedentes… Um alto sacerdote do Vaticano rompe o silêncio e revela uma face inquietante da Igreja Católica… A santa inquisição ainda existe…”. Todas estas colocações instigam o leitor a pensar que algo chocante está para ser apresentado no texto e ficamos na ponta dos dedos aguardando o momento das revelações.

“A Primeira Pedra” – de Krzysztof Charamsa. Difícil, porém necessário

A realidade, porém, é que infelizmente a editora “carregou nas tintas” para estimular um suspense revelador a respeito do Vaticano para vender exemplares do livro. A minha primeira motivação até foi a de conhecer o testemunho do padre que, sei por vivência própria, é somente um dentre tantos sacerdotes homossexuais na igreja, mas confesso que o principal interesse era o de saber “fofocas” internas a respeito do Vaticano e de sua postura engessada e altamente homofóbica.

Infelizmente o livro não apresenta nada disso. O autor até relata um pouco de sua experiência nos altos órgãos da igreja, em especial sua atuação na Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício, ex-Inquisição), mas em nenhum momento revela pormenores e detalhes da atuação da instituição, talvez até por receio de ser ainda mais rechaçado após se assumir homossexual e deixar a igreja. A maior parte das atividades e posturas da instituição não são surpresa para pessoas que, assim como eu, são católicas desde o nascimento e participam ou participaram ativamente dos movimentos pastorais dentro da Igreja. Não é preciso ser um sacerdote da mais alta corte para vislumbrar os atos e palavras que o autor relata em seu livro – basta acompanhar qualquer pastoral e as palavras da própria igreja no dia a dia de suas atividades.

Logo, esse aspecto foi um tanto frustrante para mim, confesso. E para dificultar ainda mais, a leitura é bastante comprometida e atravancada pela utilização excessiva do dialeto “igrejiano”. Claro que estou inventando palavras, mas qualquer católico praticante sabe do que estou falando: a igreja usa e abusa de uma linguagem excessivamente rebuscada em seus rituais e rotinas, dinâmica seguida por quase todos os fiéis ao se expressarem nos grupos e momentos de orações dentro da instituição. É um uso constante de “vós, tu que sois o altíssimo, o magnânimo, fazemo-nos humildemente servos de vossa inexorável compaixão”, se afastando muito da linguagem coloquial utilizada pelo seu povo. Estes sempre foram um dos aspectos que mais me incomodaram durante minha vivência dentro da igreja. Essa necessidade de soar sempre muito culto, quase que como para ser respeitado é preciso se distanciar da linguagem popular, o que, historicamente podemos entender perfeitamente como uma estratégia para subordinar os mais humildes – a dominação e a obediência mediante a opressão da língua – quem fala bonito é porque sabe muito, é inteligente, coisas assim, mas que acho que sempre distanciou a igreja daqueles que lhe são mais importante: os seus fiéis mais humildes, que são quem conseguem ter uma expressão de fé e devoção genuínas, sem afetação ou brilhantismos, com objetivo de autopromoção ou admiração.

Tudo isso contribuiu para o meu não-engajamento na leitura imediatamente e dificultou amplamente o meu avanço, que só a muito custo e determinação seguia adiante, mas sem me conectar muito com a história. O tom fortemente rancoroso do autor, externalizando constante e sistematicamente toda a sua revolta anunciada no subtítulo deixa o livro pouco convidativo. Não me entendam mal, entendo perfeitamente a revolta do autor e a sua necessidade de expressar todo o rancor com a opressão sofrida por uma instituição que amava e devia obediência, mas que ao mesmo tempo o impedia de ser quem verdadeiramente é, e incitava as pessoas a destilarem ódio a pessoas que, como ele, não se encaixavam no padrão único aceito como o certo pela instituição. Sua revolta é mais do que justificada e compreensível e, gritar isso aos quatro ventos é um processo catártico e de cura para sua verdadeira libertação e aceitação de quem é na integralidade. Só deixa a leitura difícil e pouco estimulante para quem acompanha, ainda que eu tenha feito desde o início o exercício de empatia de me colocar no lugar do autor.

E este aliás é o ponto que me fez insistir na leitura e chegar até o final. A conexão entre a história do próprio autor e minha própria experiência de vida no seio da igreja católica. Não que eu seja homossexual como o autor, mas ao longo de minha caminhada na igreja eu conheci inúmeros amigos e amigas que são homossexuais e sofriam imensamente dentro dos movimentos pastorais por ficarem divididos entre o amor pela igreja e sua própria expressão de fé e o desejo de se aceitarem como verdadeiramente são, vivendo honesta e livremente a sua sexualidade sem julgamentos. Mas, para além da questão da sexualidade de cada pessoa, a minha identificação com o livro decorre do sentimento de dicotomia entre admirar a igreja e a sua expressão de fé, ao mesmo tempo em que é muito difícil aceitar a sua postura e omissão em temas importantíssimos na qual ainda mantém um posicionamento vindo da idade média, sua incapacidade de verdadeiramente se abrir e abraçar a realidade colocada pelo mundo e estar ao lado das pessoas que amam a igreja, acolhendo-as, amando-as e sendo amparo ao invés de condená-las e sujeita-las a humilhações e ridicularizações públicas. Tenho inclusive um texto planejado a respeito desta temática, no qual eu devo relatar e expressar melhor algumas dessas incoerências que via na vida pastoral da igreja, mas que me levaram a uma série de questionamentos e posteriormente a um afastamento.

Mas nem tudo são críticas nesta resenha. O terço final do livro melhora bastante e torna a leitura mais fluida, ainda que na mesma linguagem rebuscada de outrora. Aliás, poderíamos dividir o livro em três momentos: a primeira parte, na qual o autor relata o início de sua vida e história com a igreja, o seu crescimento enquanto sacerdote e teólogo e sua ascensão até a chegada ao cargo que ocupava dentro da Congregação para a Doutrina da Fé. Aqui cabe um adendo: eu acho surreal existir um órgão assim dentro da igreja, responsável única e exclusivamente para rastrear, identificar, denunciar e perseguir sacerdotes que não sigam 100% aquilo que ditam as regras instituídas por homens como o que é correto dentro da igreja, ainda que contradigam em sua totalidade o que pregam as Santas Escrituras. Um exemplo: como pode existir um órgão instituído na igreja para julgar e condenar as pessoas quando nas escrituras diz que não cabe a nenhum homem julgar e condenar o próximo e que isso cabe somente a Deus? Enfim, este é um dos aspectos de incoerência entre a pregação e a realidade que me suscitam dúvidas e que foi o que me aproximou do sentimento contido neste livro. 

Nesta primeira parte, ainda que o autor teça alguns comentários sobre a postura lamentável da igreja em diversos momentos ao tratar as questões referentes à homossexualidade e aos homossexuais, seu tom não é excessivamente rancoroso como se torna na segunda parte. Esta sim é a etapa mais difícil da leitura – é o momento em que o autor já se entende e aceita como homossexual, mas ainda não encontrou o caminho para sua libertação do meio em que está inserido e se ressente – com razão – da postura lamentável da igreja com relação a pessoas como ele. Porém, como já relatei anteriormente, o tom excessivamente revoltado dificulta um pouco a leitura e deixa o texto cansativo.

Felizmente ao chegar na terceira parte há uma mudança no tom. Ainda que continue criticando a postura da igreja e sua inanição em buscar uma transformação, este é o momento em que o autor se aceita plenamente e passa a viver realmente como é, livre e feliz de ser quem verdadeiramente é, entendendo que não há mais espaço para continuar preso às amarras da religião opressora em que foi criado. É um processo muito bonito o de aceitação de si e de comunicação a todos a seu redor de que não mais irá silenciar quem é e a consciência de que será achincalhado por isso, perseguido e desmoralizado por se assumir quem sempre foi verdadeiramente, e não se importar com isso, pois é mais urgente ser feliz e consciente de si mesmo que se esconder de sua própria essência para ser aceito como igual em um meio nocivo, excludente e preconceituoso.

A parte final do livro, especialmente no Post Scriptum, onde apresenta, na sequência, a sua carta de saída do armário, uma carta direta ao Papa Francisco e um manifesto da libertação gay, no qual exige essencialmente respeito e desculpas da igreja por conta de sua omissão e perseguição por séculos aos homossexuais. Este trecho é particularmente belo pois poderia facilmente ser transcrito como um manifesto em defesa de todas as minorias oprimidas ao longo da história pela tradição da igreja. Qualquer pessoa católica esclarecida sabe que há momentos profundamente lamentáveis na história da igreja na qual ela se omite ou se alinha e apoia diretamente a grupos perseguidores de minorias, cometendo atrocidades indescritíveis e, infelizmente, somente para uma ínfima parte houve um reconhecimento de culpa e um pedido de perdão. Daí este manifesto ser tão profundo, pois se posto em prática poderia resgatar muitos fiéis para a igreja e, mais do que isso, a tornaria mais humana e, a meu ver, muito mais cristã e amorosa.

No final das constas o livro vale a pena, muito mais por conta das reflexões que suscita do que propriamente do entretenimento contido na leitura em si. É sim um relato importante – sei de inúmeras pessoas que sofreram e sofrem como o autor por conta de não poderem ou não conseguirem se aceitarem integralmente por medo do julgamento dentro da igreja – e um ponto de partida em reflexões que a igreja deveria iniciar imediatamente. Sei que provavelmente algumas pessoas do meu círculo de amizade me execrarão simplesmente por estar falando nisso, ou abordando a igreja nestes termos, mas há tempos que deixei de me importar com estas opiniões retrógradas e acho que o verdadeiro e correto caminho para a igreja ser verdadeiramente Igreja é o de discutir e acolher a todas as minorias, fazendo uma revolução em suas antiquadas e retrógradas leis para que possa verdadeiramente ser a Igreja de Cristo na terra: AMOR. Cristo é Amor e somente pelo amor, inclusão e aceitação de todos é que a igreja pode verdadeiramente dar testemunho de fé a todos. Ainda que seja difícil e possa levar tempo, vale a pena a leitura. Nota 3/5.

Resenhando (#19)

Pela primeira vez vou fazer uma única resenha para dois livros. Por diversas razões; a primeira é que se trata de dois livros “fictícios” citados pelo personagem Barney Stinson na sitcom “How I Met Your Mother”; a segunda é que são dois livros igualmente ruins. Comprei ambos durante uma promoção na qual cada um deles saiu por menos de R$ 10,00. Vejo agora que ainda assim saíram caros.

“Bro Code” e “Playbook”, derivados da série How I Met Your Mother: dispensáveis

Raramente eu faço resenhas tão críticas e negativas de livros quanto farei destes, mas o ineditismo é necessário, tamanha a incapacidade dos livros em proporcionar o mínimo de entretenimento. São reproduções praticamente literais dos “livros“ citados na série, por isso já não esperava muita coisa, porém a impressão final é ainda mais decepcionante que o (pouco) esperado.

A série How I Met Your Mother é uma sitcom de grande sucesso e realmente é uma das mais divertidas, apesar de criticas referentes ao seu final e principalmente a algumas piadas consideradas machistas, homofóbicas e misóginas. Tudo isso é verdade, porém no contexto da série e na época em que foi produzida era considerado aceitável. Ainda que tenham menos de 10 anos do final da série, muitas dessas piadas não são mais toleradas pela sociedade atual e envelheceram muito mal.

E o livro, além de não acrescentar nada de diferente ao roteiro da série – eu esperava pelo menos alguma novidade nas piadas, ou uma forma diferente de apresentá-las – é excepcionalmente machista, sexista, misógino, e sem graça. Ainda que algumas piadas funcionassem na série, ainda mais com a interpretação brilhante de Neil Patrick Harris, a verdade é que escritas no livro tornam-se fúteis, baixas e muito sem graça.

Não tenho muito o que falar além disso. Não vale a pena nem como curiosidade trivial aos fãs da série. Foram as notas mais baixas que já dei a algum livro, mas não me arrependo. Livros totalmente dispensáveis. Playbook – Nota 1,5/5. Bro Code – Nota 0,5/5.

Resenhando(#18)

“Misery – Louca Obsessão”: o que dizer desse livro que mal conheci, mas já considero pacas?

A piadinha infame para começar esse texto relembra os tempos de Orkut, quando escrevíamos depoimentos “profundos” para pessoas recém-conhecidas, foi somente uma tentativa de quebrar o gelo neste primeiro texto de 2023, que começa com a resenha desse livro “leve” do mestre do terror Stephen King. Começo dizendo que sou fã do autor, não um fã fervoroso que lê tudo o que ele publica – até mesmo porque para isso eu teria que ficar 24 horas por dia, 7 dias por semana por conta de ler tudo o que ele escreve, tamanha a produtividade do homem – mas quase sempre os seus livros que chegam à minha mão entregam uma boa dose de entretenimento e diversão literária.

Alguns conseguem me entregar um pouco mais e percebo que todos eles possuem uma coisa em comum: são as histórias do autor que não entregam uma trama sobrenatural, como é comum na biografia dele. As obras de Stephen King que mais me marcam sempre são as que ele escreve a respeito de personagens tipicamente humanos, com suas virtudes e defeitos, e de uma forma particularmente rica e profunda ao tratar de temáticas relacionadas a traumas e problemas relacionadas à mente humana. King consegue quase sempre entregar com maestria personagens com fobias, distúrbios mentais, obsessões doentias e distorções fantasiosas.

Misery – Louca Obsessão – Imagem: Editora Suma

E é exatamente o caso nesta obra maravilhosa que é um dos clássicos da carreira do autor. Não somente por seu sucesso literário, mas também pelo sucesso de sua adaptação cinematográfica – que inclusive rendeu um Oscar de melhor atris a Kathy Bates por seu papel como a protagonista Anne Wilkes.  Por se tratar de uma obra de mais de 30 anos, não terei pudores em citar fatos da trama, com medo de estragar a experiência de leitura para quem nunca leu. Portanto, fica somente o alerta: se você ainda pensa em ler esse livro, e não quer saber nada, absolutamente nada sobre a história, salte os próximos parágrafos. Pode retornar no penúltimo ou último parágrafo deste texto que acredito que aí já não haverá perigo.

O livro conta a história de Paul Sheldon, um escritor de sucesso, conhecido por suas histórias a respeito de Misery, uma personagem que desperta paixões em diversos leitores. Cansado de escrever histórias sobre Misery, Paul decidi escrever nova obra que, após o término ele considera o melhor que escreveu até o momento. Feliz pelo resultado, sai para comemorar dirigindo embriagado e sobre um acidente em uma estrada das montanhas rochosas durante uma tempestade de neve. Para sua sorte – ou não – ele é resgatado por Anne Wilkes, uma ex enfermeira que se autointitula fã número 1 de Paul, e absolutamente apaixonada pelos livros de Misery.

O problema começa quando Annie, ao invés de levar Paul para atendimento hospitalar, o leva para casa e passa a cuidar dele por conta própria, onde descobre que Paul matou a sua personagem favorita ao ler o último livro de Misery que havia sido lançado. Ao longo da convivência Paul descobre que Annie é profundamente desequilibrada e psicótica, com uma profunda obsessão por ele (daí o título) e com uma visão peculiar e distorcida do mundo, que a leva a torturar – física e psicologicamente – o debilitado autor, que está preso a uma cama devido às inúmeras lesões nas pernas e no quadril decorrentes de seu acidente automobilístico.

Durante a sua prisão torturante no manicômio Wilkes, Paul descobre que Annie possui distúrbios ainda mais profundos que os demonstrados inicialmente, e que possui um passado sinistro e assustador, do qual ela guarda recortes alegremente, como um álbum de lembranças macabras. A história é tão brilhantemente escrita que em diversos momentos, apesar da clara psicose de Annie, ela parece um personagem cativante e acolhedor, em que até mesmo a sua vítima – Paul – sente momentos de simpatia e carinho por aquela pessoa tão diferente.

O livro inteiro é chocante, assustador e cativante na medida certa. Há passagens que nos trazem um profundo desespero enquanto leitores, em outros nos leva a ficar na ponta dos dedos esperando o que irá acontecer, e a todo o momento nos chocamos mais e mais com a capacidade de Annie Wilkes em ser mais e mais assustadora. É uma história que te causa uma reflexão profunda acerca das capacidades humanas para a maldade e a dissimulação, e como isso pode ser fruto tanto de experiencias traumáticas quanto de distúrbios psicológicos graves, e o quanto é importante nos preocuparmos em tratar as doenças da mente tanto quanto as do corpo.

O livro é o oposto do que se espera de uma leitura de início do ano – leve, otimista e esperançosa – mas, não sem surpreender, atender perfeitamente ao objetivo de fisgar o interesse pela leitura e estimular o hábito para que ao longo do ano ele seja cultivado da melhor maneira possível: lendo mais. É uma obra irresistível. Aos que já conhecem, vale a releitura. Aos que ainda não conhecem, procurem. É Stephen King no ápice de suas capacidades literárias: nos deixa sistematicamente na ponta dos dedos esperando por mais e narra todos os fatos com uma maestria que parece que estamos dentro da história, ali ao lado da cama de Paul Sheldon, vendo o desenrolar de toda a loucura de Annie. Vai para meu top 3 de histórias favoritas do autor. Primeiro livro de 2022: recomendadíssimo. Nota 4,5/5.

O dia em que a esperança voltou

Ontem foi a cerimônia de posse de nosso novo(velho) presidente. Lula chega ao poder pela terceira vez e – tenho a certeza – continuará no poder enquanto quiser/puder. O homem perdeu 3 eleições na sequência, mas depois que ganhou a primeira, nunca mais perdeu. Porém, espero sinceramente que este seja o seu terceiro e último mandato como presidente da república. Já havia dito que ele não tem nada a ganhar e tudo a perder com esse retorno. Mas já que decidiu retornar, que possa redirecionar o país no caminho correto, reunificar a população em torno de um Brasil em comum e possa após os 4 anos de seu mandato seguir seu caminho para uma merecida aposentadoria.

Cerimônia de posse presidencial – Linda, plural e inclusiva. Um acerto gigantesco.

Antes de falar de seu mandato, entretanto, gostaria de falar um pouco a respeito da tarde/noite de ontem. Das sensações e percepções acerca da posse de um presidente de verdade após os últimos 6 anos de caos institucional. Sei que pessoas mais preparadas e capazes já publicaram colunas a respeito de ontem, fazendo análises aprofundadas da conjuntura atual e do que há por vir, e meu texto, não tem qualquer dessas pretensões, mas gostaria, humildemente, de compartilhar um pouco de minhas sensações ao acompanhar – somente pela TV, infelizmente – a cerimônia da posse.

A primeira percepção era a sensação de tensão explicita que envolvia a todos – quem acompanhava pela TV, os jornalistas que faziam a cobertura do evento e até mesmo dos participantes – devido ao receio de um eventual atentado terrorista, fruto da insanidade dos apoiados extremistas do ex-presidente. Havia uma dúvida no ar desde o início: irão tentar algo? A segurança foi bem planejada? Haverá algum traidor na equipe de segurança que vai facilitar algum atentado, a exemplo do que houve no Capitólio dos EUA?

A segunda percepção era a de que, apesar dessa tensão, havia uma felicidade incontida no timbre de voz de todos os jornalistas que cobriam o evento, de todas as emissoras. Ainda que não pudessem expressar abertamente a felicidade com o término do mandato anterior, e o início de novo mandato de Lula – na grande mídia brasileira, expressar simpatia por um governo de centro-esquerda é visto como insubordinação passível de demissão – era óbvio que todos apresentavam um maior ou menor grau de felicidade e alivio pelo país estar encerrando o ciclo nefasto e sombrio resultado do estilo e ações do último governo. 

Mesmo assim, a cerimônia de posse foi linda – ainda que menos catártica que em 2003, quando as pessoas invadiram os espelhos d’agua, se jogaram em cima de Lula, em um clima de celebração nunca visto. Este ano isso não seria possível, devido ao forte esquema de segurança. Ainda assim foi tudo lindo, desde a ousadia em desfilar em carro aberto, apesar de todas as ameaças; o tempo firme mesmo com toda a previsão de chuvas; a alegria e emoção no rosto de todos – até mesmo do vice-presidente, conhecido por não ser muito afeito a emoções – além é claro da presença maciça do povo brasileiro, que afluiu em grande número ao planalto central, apesar das ameaças de violência dos extremistas que ainda insistem em não aceitar a derrota nas urnas.

O momento ápice, claro, foi a cerimônia de subida à rampa do planalto e entrega da faixa presidencial – pela terceira vez – a Lula. Após semanas de especulações e debates, a opção escolhida de um pequeno grupo representativo de toda a pluralidade da população brasileira passar a faixa ao presidente foi linda e emocionante. O ex-presidente, ao se rebelar e fugir do país para não repassar o poder ao seu principal rival, sem querer, presenteou o Brasil com a mais bela cerimônia de posse da história. E convenhamos, as imagens foram muito mais emocionantes e belas sem a cara feia e carrancuda do ex-presidente presente. Minha opinião particular era de que poderiam ter incluído a presidente Dilma nessa passagem de faixa, simbolicamente representando que, após o golpe que a tirou do poder, ela retornava para entregar a faixa ao povo e esse ao seu eleito para governar. Mas, mesmo sem essa parte, a cerimônia foi linda e simbólica, passando uma imagem claríssima de que, após anos de um governo excludente, beligerante e avesso às minorias, o novo governo irá acolher e governar para todos, até mesmo para os que insistem em recusar a derrota e ofender o presidente.

Os desafios à frente do novo governo Lula, após 6 anos de governos nocivos ao povo e entreguistas ao extremo, servindo somente ao poder econômico e não ao país são enormes – talvez até maiores que os que enfrentou em 2003 ao chegar ao poder pela primeira vez – mas se o dito popular de que a primeira imagem é a que fica, o novo governo acertou em cheio e nos permite ter esperanças de que há mesmo uma luz ao final deste túnel sombrio que estivemos atravessando. Não será fácil, é claro, mas com muito esforço, trabalho e união, é possível reconstruir e voltar a sentir orgulho desse nosso tão sofrido e maltratado país. Vamos à luta.