Resenhando #30

O terceiro livro que li neste ano de 2025 foi uma pequena biografia de Wlamir Marques – O diabo loiro. Para que não conhece, Wlamir Marques é considerado por quase todos como o maior jogador brasileiro de basquete da história. Junto com seu parceiro Amaury Passos, foi o líder da geração de ouro do basquete brasileiro, bicampeão mundial e duas vezes medalhista olímpica na década de 60.

Eu sou um fã ardoroso de basquete. Foi o esporte que mais me cativou ao praticar na infância e juventude. Claro que vivi a fase do futebol que todo brasileiro invariavelmente vive somente por nascer no Brasil: fui uma criança apaixonada pela geração do tetracampeonato mundial em 1994, fã ardoroso de Taffarel e do Palmeiras da Parmalat.
Mas desde a primeira infância eu tinha muito contato com o basquete. Não sei ao certo por qual motivo, mas desde que eu tenho lembranças da minha infância, me recordo de que havia uma tabela de basquete de ferro no quintal da minha casa, que meu pai havia mandado um serralheiro confeccionar para que seus filhos pudessem brincar de arremessar. E eram os primeiros anos da década de 1990, então o basquete ainda era muito relevante no cenário nacional. Há poucos anos, Oscar e Marcel haviam vencido os EUA no Pan-Americano de 1987, e vivíamos a geração dourada do basquete feminino com rainha Hortência e Magic Paula liderando aquela seleção maravilhosa. Era plausível se afirmar que nessa época o basquete era o segundo esporte nacional – no pior dos cenários, o terceiro.

Então desde cedo eu tive contato com a modalidade. Na adolescência, porém, já morando em Uberlândia, e durante o boom do time da cidade no cenário nacional do basquete, me tornei um fã ardoroso da modalidade e praticante assíduo, participando de escolinhas de basquete e jogando na escola, na rua e no parque. E a partir daí o basquete se tornou o esporte número 1 em minha vida.

Logo, é claro que eu tinha conhecimento de quem era Wlamir e seu tamanho para o basquete brasileiro. Até mesmo porque eu peguei a fase dele como comentarista de basquete na ESPN Brasil por muito tempo. Mas confesso que nunca tive uma curiosidade grande em saber de sua história como atleta e os seus feitos em detalhes.

Este livro, portanto, veio em excelente momento. Nele pude conhecer mais detalhes sobre a vitoriosíssima carreira de Wlamir e o tamanho de seus feitos em uma época completamente diferente. Vendo hoje atletas não mais do que medianos ganhando um destaque gigantesco nas redes sociais, só posso imaginar o furacão que seria se tivéssemos, nos dias de hoje, um jogador como era Wlamir Marques. O livro, ainda que seja uma biografia simples e sem aprofundamentos detalhados, nos permite visualizar o quão grandioso Wlamir era enquanto jogador e pessoa. Definitivamente um atleta completo, genial e que foi o rosto das maiores vitorias brasileiras dentro das quadras de basquete.

É interessante também notar o quão amador era o esporte nessa época, vendo um atleta desse calibre que precisa ter um segundo e até terceiro emprego para se manter e se financiar enquanto jogador de basquete, as dificuldades enfrentadas para participar de competições internacionais e o quanto o esporte como um todo ainda engatinhada em meados do século XX.

Enquanto somente peça literária, o livro, apesar de toda a boa vontade do autor, é mediano e pouco afeito a detalhes, mas, enquanto peça histórica para registrar para a posteridade o tamanho de Wlamir Marques, o livro merece nota máxima. 5/5. Recomendadíssimo a toda pessoa que se interessa por esportes olímpicos ou historia de atletas de meados do século passado.

Resenhando #29 (Em dose dupla)

Hoje farei uma resenha diferente. Pela primeira vez irei resenhar dois livros simultaneamente: “A casa do outro lado do lago”, de Riley Sager e “A Garota no Trem”, de Paula Hawkins. Não se enganem, porém – não são histórias complementares ou pertencem ao mesmo universo. Se tratam de duas obras independentes, de duas autorias diferentes, que retratam universos distintos e com finais bastante diferentes entre si, e havia ainda cerca de dois meses de distancia entre os momentos de leitura de cada uma das obras. Ainda assim, encontrei nelas similaridades e sensações parecidas suficientes para que pudesse compartilhar as impressões sobre cada uma delas de forma conjunta.

Mas, falando brevemente sobre cada uma das histórias, “A Garota no Trem” conta a história de uma mulher que se divorciou recentemente e está lidando com a nova rotina com auxilio de bebidas. Nesse período ela passa diariamente diante de uma casa em seu percurso de trem para o trabalho e passa a acompanhar o casal que ali vive e a imaginar e fantasiar como seria a vida deles com base nos breves fragmentos que captura enquanto o trem passa pelo trecho em que a casa é visível.

Por sua vez, “A Casa do outro lado do lago” conta a história de outra mulher que também vive um período de luto e que recorre ao álcool para lidar com a situação – neste caso, porém, tratando da perda do marido após um acidente no lago ao lado da casa de veraneio da família. Mas também nesta história, a protagonista passa a acompanhar a realidade da vida de um casal vizinho – no caso os moradores da casa do outro lado do lago – e que também passa a inferir como é a vida do casal com base nos pequenos fragmentos que captura olhando com binóculos pelas amplas janelas da casa.

Para fins de organização, de agora em diante, passarei a chamar “A garota no trem” de a primeira história e “A casa do outro lado do lago” como a segunda história, para facilitar o entendimento. Pelo breve resumo que fiz acima das duas histórias já é possível entender os motivos pelos quais encontrei similaridades nos dois livros: em ambas há uma protagonista vivendo um período de perda e luto, se fiando na bebida para lidar com as emoções do momento e que se percebem vazias de protagonismo da própria vida ao ponto de se envolverem com ilusões criadas pelas próprias mentes ao observar a vida de terceiros próximos. Ainda há o fato de ambas as histórias envolverem investigações de desaparecimentos de outras mulheres que parecem estar ligadas às suas vidas antes do fato que desencadeou a solidão atual.

As duas histórias são bastante ricas de detalhes ao abordar a questão do alcoolismo e, o que mais importante neste contexto, de personagens femininas. Ainda hoje, em 2025, quando falamos de alcoolismo há uma associação direta e imediata ao gênero masculino. As duas histórias contribuem no sentido de desconstruir essa visão e, concomitantemente oferecer uma narrativa plausível e verdadeira acerca dos impulsos, inseguranças e dilemas que afligem a pessoa vivendo na situação de alcoólatra. Há o estágio da negação, da aceitação, da resignação, do fundo do poço e por fim o despertar para a necessidade de ajuda.

Ainda que haja uma diferença fundamental nas histórias – a primeira trata de fatos essencialmente mundanos e humanos, residindo na normalidade da vida e das relações humanas todo o clímax do plot twist que irá compor o fechamento da história, enquanto a segunda descamba para o plot sobrenatural de forma até surpreendente sendo não há qualquer aviso prévio de que trata-se de uma história de terror sobrenatural, ainda que os dilemas da personagem principal sejam bem reais – a similaridade entre elas nos permite traçar um paralelo único para o desenvolvimento de ambas até chegar ao clímax das histórias que, por motivos óbvios, não vou mencionar aqui.

Gostei muito de ambas as histórias, foram leituras interessantes e enriquecedores, especialmente no que diz respeito à batalha silenciosa que é travada dentro da pessoa alcoólatra consigo mesma para lidar com o vício, e todos os previsíveis desdobramentos decorrentes na vida real dessa pessoa por conta do seu vício. As personagens femininas retratadas são mulheres reais, com virtudes e defeitos e lidam com problemas reais da sociedade, como a onipresente depreciação da opinião da mulher somente por ser mulher, a rotulação como intrometida por querer auxiliar em uma história que não está diretamente relacionada a elas, dentre outras questões.

Os dois livros são thrillers no melhor sentido, com histórias densas que mergulhamos profunda e intensamente, lendo rapidamente capitulo atrás de capitulo até chegar ao final da história. Ainda que a primeira tenha tido um final mais comum e até certo ponto previsível diante do desenrolar da narrativa, em oposição à segunda que verdadeiramente me surpreendeu, acredito que eu tenha gostado ainda mais de “A Garota no Trem” do que “A casa do outro lado do lado”, ainda que ambas as histórias sejam excelentes e altamente recomendadas por mim. Nota 4.1/5 para a primeira e 4/5 para a segunda. Boas leituras para preencher um final de semana um pouco mais ocioso.

Resenhando #28

“Não foi isso que eu quis dizer” é um livro interessantíssimo. Acho que não há como iniciar esta resenha de outra forma. É um livro reflexo do tempo em que foi escrito e exatamente com o proposito de trazer uma analise da realidade relacionada à interpretação de textos no tempo das redes sociais e, especialmente, da pós verdade (ou normalização da mentira, como preferirem).

A autora é responsável pela página “Português é Legal” com milhares de seguidores no Instagram. Conheci a página há alguns anos, primeiro acompanhando postagens avulsas que surgia nas paginas sugeridas no app, e depois que me tornei seguidor, passei a acompanhar o dia a dia das postagens, sempre com classe e bom humor e, principalmente, conteúdo de alta qualidade, contribuindo ativamente para a minha melhora na utilização da língua portuguesa no cotidiano.

Foi pela página que eu soube do desenvolvimento do livro e, desde o primeiro momento, assumi o compromisso de adquirir uma cópia. Levou um pouquinho mais de tempo que eu gostaria, mas no segundo semestre de 2024 adquiri o livro e acabei por ler somente neste primeiro mês de 2025. A leitura foi fluida e leve, com pitadas de humor e reflexões profundas em medidas iguais. São utilizados exemplos reais de postagens e comentários de pessoas extraídos das redes, conectando-os aos conceitos de língua portuguesa e interpretação de textos.

Mais do que um livro interessante e lúdico, é um livro necessário. A nossa sociedade atual padece de uma total falta de capacidade interpretativa de todas as formas, mas particularmente grave no que se refere à interpretação de textos. Qualquer esforço feito neste caminho deve ser louvado e disseminado para que possa atingir o máximo de pessoas. Esta é a minha reflexão e vontade, portanto. Recomendo a todos o livro, e também que possam seguir a página “Português é Legal” para que possamos combater esta epidemia de desinformação e mentiras, melhorando a comunicação entre pessoas. Nota 4,5/5.

Reconhecendo a genialidade

Sou um grande fã de Stephen King. Gosto particularmente de suas histórias que fogem ao gênero de terror/suspense que o consagrou. Prefiro as histórias que escreve que tratam menos do sobrenatural e mais do casual e mundano, sempre com uma pegada ácida e resignada de dramaticidade. Me encanta os contos reunidos no livro “Quatro Estações”, em que o autor escreve 4 histórias mais curtas sobre temas diversos que são riquíssimas em profundidade e sensibilidade. Ainda escreverei uma resenha detalhada sobre cada um dos contos, mas por ora, basta que saibam que 2 destes contos renderam os maravilhosos filmes “Um sonho de liberdade” e “Conta Comigo”, além da história chocante e com muitos traços de contemporaneidade do conto “Aluno Inteligente”, que trata de um adolescente fascinado pelos campos de concentração nazistas da Segunda Guerra mundial.

Mas, muito mais do que isso, um dos aspectos mais fascinantes desse autor é a sua capacidade de capturar a atenção do leitor de seus livros quase que imediatamente. Comecei a ler neste final de semana um de seus mais recentes livros, “Conto de Fadas” e, com menos de 3 paginas de leitura, já havia sido completamente capturado pela narrativa. Ainda não havia ocorrido nenhum fato dramático na história que pudesse tirar o ar logo de cara, mas somente fatos triviais e introdutórios a respeito da história do narrador, mas a forma como a escrita se dá, sem excessos, mas sensível e natural, te cativa de uma maneira que você se vê impelido a continuar na leitura ansiando por saber os próximos desdobramentos. No caso deste livro em questão – um calhamaço de mais de 600 páginas – este ‘clique’ imediato com a história é essencial para garantir que o leitor irá perseverar na aventura de continuar por aquelas páginas, e isso explica claramente o fato de que o autor é um best-seller ambulante há 40 anos e um escritor incansável que lança facilmente de 3 a 4 novos romances todos anos.

Ainda não sei como irá se desdobrar a história, ou sequer se irei gostar do livro ao término da leitura, mas não é isso o importante neste momento. O que me impressiona profundamente é esta capacidade que algumas pessoas possuem de naturalmente serem excepcionais contadoras de histórias, e como isso gera uma conexão entre leitura e leitor que torna o ato de ler muito mais prazeroso e interessante. Pessoas assim devem ser reconhecidas e valorizadas como os artistas excepcionais que são. Sou um grande fã de Stephen King. Possivelmente em poucos dias já terei finalizado a leitura de “Conto de Fadas” – dada a velocidade com que a leitura tem se desenrolado – ainda que se pese o fato de eu estar começando um novo emprego e tendo um bebê recém nascido em casa.

Ainda não é hora, porém de resenhar o livro. Assim que finalizar a sua leitura, trarei as minhas impressões e opiniões a respeito, mas neste momento o desejo era somente o de exaltar as qualidades deste autor lendário e expressar a minha admiração por pessoas que possuem esse dom maravilho de contar histórias.