Desde o GP da Arábia Saudita de F1, no domingo passado, eu estou ensaiando escrever algumas palavras antes da decisão do campeonato neste final de semana. A ideia inicial era de falar sobre Max Verstappen e os exageros na hora de disputar posições contra outros pilotos e, especialmente contra Lewis Hamilton. Havia pensado em fazer uma retrospectiva do ano todo, mencionar o histórico desde que chegou à Red Bull em 2016, mas este assunto já foi tão abordado em diversos blogs e sites ao longo da semana e as redes sociais estão pulsando tão raivosas e enfáticas com as discussões a respeito do tema que pouco eu teria a dizer para que pudesse de fato acrescentar nesse assunto.
Por essa razão optei por trazer um outro viés para a discussão sobre as atitudes dos pilotos, a postura da FIA no que diz respeito a punições e decisões extra pista, que é a influência e os objetivos da Liberty Media neste contexto. Lembrando, a Liberty Media é um grupo financeiro que comprou a F1 da antiga FOM (Formula One Management), empresa de Bernie Ecclestone, que foi o chefão soberano da categoria por mais de 30 anos. Esta mudança aconteceu em 2017 e desde então a Liberty vem aos poucos colocando a sua visão de negócios no mundo até então sisudo da F1.
Algumas mudanças são extremamente positivas, como a maior abertura da categoria para as redes sociais, para novas midias, como a Netflix, e a captura de novos fãs, especialmente jovens que antes não tinham qualquer interesse pela categoria. Ao mesmo tempo, a Liberty tem uma postura bem estadunidense de “priorizar o espetáculo e o entretenimento acima de tudo”, mesmo que em algum momento as decisões esportivas sejam colocadas um pouco de lado.
A maior polêmica deste ano de 2021 está nas decisões dos comissários de prova e do diretor de corridas, Michael Masi. Ainda que sejam vinculados à FIA, me parece muito claro que estão diretamente a serviço da Liberty no que diz respeito à essa priorização do espetáculo sobre o esporte. A inconsistência de decisões ao longo do ano, a falta de uma diretriz unica a ser aplicada para casos similares, a disposição para condescendência em alguns casos e para a rigidez em outros demonstra para mim um objetivo de sempre tomar decisões que não impactem diretamente o resultado do espetáculo.
Isso apareceu ainda mais claramente nas ultimas polêmicas envolvendo disputa de posições entre os lideres do campeonato. O ano todo foi recheado de momentos de contatos e quase contatos entre Hamilton e Verstappen, o que não é surpresa dado o contexto e principalmente a postura do holandês. Desde que chegou à Red Bull ele é visto como um piloto espetáculo que atrai muitos fãs para a categoria, sejam torcedores ou criticos, logo, é visto como a menina dos olhos para os donos do show, no caso a Liberty. Ao longo dos anos, desde 2016, Verstappen sempre esteve envolvido em disputas excepcionalmente duras e que na maioria das vezes tiveram resultados favoráveis a ele, seja ganhando uma posição, ou não tomando uma punição por uma manobra mais rispida.
Me parece claro que é um desejo da Liberty ter um personagem assim, que desperte paixões e apimente o espetáculo, daí a maior permissividade com ele que com os demais pilotos. E ao longo deste ano, isso foi claro em diversos momentos em que, quando os lideres do campeonato se encontraram na pista, todas as vezes em que quase houve o contato, mas foi evitado em cima da hora porquê Hamilton recolhia. Quando optou por não fazer isso, houve o choque, como em Silverstone, Monza, Interlagos e Jeddah.
Especialmente nos dois ultimos casos, os incidentes geraram polêmicas enormes e, ainda que houvesse uma discussão acerca, a maioria das opiniões são de que Verstappen deveria ter sido punido em Interlagos(não foi) e deveria ter recebido uma punição mais dura na Arabia(10 segundos ficou barato). A permissividade da FIA me parece como uma influência direta da Liberty Media em preservar o espetáculo mesmo que ao custo de perda da credibilidade das decisões dos comissários. A FIA, enquanto orgão regulador, não deve olhar para posição de campeonato, personagens envolvidos ou eventuais consequências de suas decisões. Deveria simplesmente observar as regras, definir se houve infração e aplicar o regulamento.
Mas o que aconteceu não foi isso e me parece uma clara influência da Liberty para que se crie um clima de quase guerra que acirra os animos e aumente substancialmente o interesse pela decisão do campeonato. Desde que o Hamilton tomou 2 punições em Interlagos e ainda assim conseguiu se recuperar, driblar Verstappen que o jogou para fora da pista e ainda assim vencer, a Liberty vislumbrou uma possibilidade de o campeonato chegar na ultima etapa empatado ou muito acirrado, cenário que parecia quase impossivel desde que Verstappen venceu as duas corridas na America do Norte. Após o GP no Brasil eu vislumbrei a possibilidade dos concorrentes chegarem empatados à decisão, e me parece que a Liberty também notou isso e pressionou para que isso acontecesse, mesmo com as atitudes de Max Verstappen beirarem a deslealdade, tanto no Brasil quanto na Arábia. E deram aquela forçada na direção de prova para que, primeiro não se punisse o holandês pela manobra em Interlagos e depois da corrida absurdamente erratíca que fez em Jeddah, onde tomou 5 punições, que estas punições não influenciassem de forma alguma o resultado da corrida e consequentemente do campeonato.
Verdade seja dita, em Interlagos, com a manobra de forçar Hamilton para fora da pista, caberia uma punição que não vejo. Punição essa que poderia jogá-lo para 3° colocado na pista e impediria o empate que temos hoje na decisão. Da mesma forma como aconteceu na Arábia. A recorrência das punições em uma mesma corrida poderia e deveria ter resultado em uma punição dura ao piloto da Red Bull. Sempre foi assim na F1: faz algo errado, recebe uma advertência, repete o erro, é punido, repete o erro, punição mais dura, insiste em errar, desclassificação.
A meu ver, claramente a Liberty viu a possibilidade um campeonato tão instigante chegar à ultima corrida com os pilotos aspirantes ao título empatados em pontos e forçou para que nada atrapalhasse isso. Daí a permissividade da FIA com Verstappen na ultima corrida. Reafirmo: pelo brake test, ele deveria ser desclassificado, porém caso considerassem muito extremo, poderiam ter aplicado a punição de Stop&Go na prova, onde somando-se o tempo perdido no pitlane mais os 10 segundos de punição, seriam pelo menos 30 segundos perdidos, o que derrubaria Max de segundo para 5° na prova, fazendo com que chegasse pelo menos 10 ou 12 pontos atrás de Hamilton na decisão. Tal cenário obrigaria o piloto a vencer e torcer por uma combinação de resultados para ser campeão. Sem as punições e rigorosamente empatados, um abandono duplo, faz do holandês campeão. Muito se especulou sobre isso também ao longo da semana, tanto que até a FIA se pronunciou, dizendo que pode desclassificar se alguém(leia-se Verstappen) utilizar desse artificio pra forçar o resultado que lhe favorece.
Pensando em mercado, visibilidade e retorno de midia para a Liberty,o cenário de decisão empatada, quem ganhar leva é o cenário dos sonhos para a dona da F1 e acredito que ela realmente atuou nos bastidores em todas estas polêmicas para garantir que esse cenário pudesse se consolidade. Nesse ponto, foi uma gestão brilhante, mas o custo esportivo e o desgaste para a imagem da isonomia esperada das decisões esportivas deixa muito a desejar. A F1 é um negócio bilionário, mas jamais deve deixar que isso se sobreponha à preocupação com segurança e o lado esportivo da categoria. Os fãs agradecem.