Pensatas a respeito do “sucesso”

REPORTER: Você vê essa temporada como um fracasso?

Giannis: Meu Deus do céu…Ok, porque eu não tô tão exaltado… você fez a mesma pergunta ano passado, Eric. Tá bom? Por acaso você é promovido todo ano no seu trabalho? Não né? Então se você não foi promovido você fracassou. Sim ou não?

REPORTER: Não.

GIANNIS: Não. Todo ano de trabalho é por alguma coisa, por um objetivo. Seja conseguir uma promoção ou conseguir cuidar da sua família, ou sei lá, dar uma casa para eles, ou cuidar dos seus pais… Você trabalha por um objetivo, não é um fracasso, é um degrau a mais para chegar ao sucesso. E se você nunca…sei lá… eu não quero tornar isso pessoal. Sempre tem degraus para o objetivo. Michael Jordan jogou 15 anos, conseguiu 6 campeonatos, então os outros 9 foram um fracasso? Porque é isso que você está me dizendo. Estou te perguntando, sim ou não?

REPORTER: Não.

GIANNIS: Não, ok. Então porque você está me perguntando isso? A pergunta está errada. Não existe fracasso em esportes. Existem dias bons, dias ruins, alguns dias você terá sucesso e outros não. Alguns dias é a sua vez outro dia não é sua vez. Esportes são sobre isso, você não vence sempre. Outras pessoas também vão vencer. Esse ano outra pessoa vai vencer. Simples assim, vamos voltar temporada que vem tentando ser melhores e tentando construir bons hábitos. Tentar jogar melhor, não ter sequencias de dias jogando nada. E com a esperança de vencer o título. Nos 50 anos entre 1971 e 2021 onde não vencemos um campeonato, foram 50 anos de fracasso? Não, não foram. Foram degraus necessários, conseguimos vencer um e talvez vamos vencer outro. Desculpe, isso não é para ser pessoal. Porque você me perguntou a mesma coisa ano passado. E no ano passado eu não estava no meu melhor para responder essa pergunta. Mas eu lembrei.

Fonte: Gary Dineen / AFP

Fiz questão de iniciar o texto de hoje com a descrição completa do diálogo acontecido entre um repórter e o astro da NBA Giannis Antetokounmpo, acontecido na última quarta-feira (26/04) e que viralizou em toda a internet(pode ser visto aqui, logo após o time do atleta grego ser eliminado na primeira fase dos playoffs da NBA. Antes de dar seguimento ao meu comentário, peço licença para fazer uma pequena contextualização que nos permitirá prosseguir na reflexão de maneira um pouco mais embasada.

Giannis Antetokounmpo é um atleta de basquete, nascido na Grécia e filho de pais nigerianos, que migrou para os Estados Unidos a fim de seguir a carreira. Foi draftado (seleção de novos atletas da NBA) em 2013 e desde então está jogando pelo Milwaukee Bucks, um dos times de menor mercado dentro da liga da NBA. Giannis é, há pelo menos 7 anos, um dos melhores jogadores da NBA. Ganhou prêmios de jogador que mais evoluiu de uma temporada para a outra(MIP), prêmio de melhor defensor da liga, e melhor jogador da liga por dois anos consecutivos(2019/2020) e nas ultimas 3 temporadas não ganhou novamente este prêmio, mas esteve sempre entre os 3 finalistas.  É o atual líder em praticamente todas as estatísticas de sua equipe, bem como o líder em quadra. Em 2021 conseguiu levar o seu time, o Milwaukee Bucks ao titulo da NBA, após 50 anos de espera, tendo o primeiro e único titulo da equipe até então, acontecido na temporada de 1971, sob a liderança de outro gigantesco atleta do basquetebol, Kareem Abdul-Jabbar.

Na atual temporada, Giannis e seus colegas de Milwaukee conseguiram a melhor campanha de toda a NBA durante os 82 jogos da temporada regular, conquistando a primeira posição na Conferência Leste e lhes dando o privilégio de ter o mando de quadra contra todos os times da liga. Por uma dessas coincidências do destino, acabaram se cruzando com o Miami Heat, um de seus maiores algozes, tendo eliminado o Bucks na temporada 2020 quando também eram um dos principais favoritos ao título da NBA. Aconteceu que nesta semana o fato se repetiu, após o Heat eliminar o Bucks mesmo sendo somente a 8ª melhor equipe da conferência leste, por um respeitável 4 x 1 na série melhor de 7 jogos. A entrevista que transcrevi acima aconteceu logo após o 5º e ultimo jogo, após o Bucks perder na prorrogação e ser eliminado.

Como bem disse Giannis na entrevista, o mesmo repórter havia feito a mesma pergunta em 2022, quando o Bucks foi eliminado na semifinal da conferência leste pelo Boston Celtics, que acabou sendo o vice campeão da temporada. Na noite da última quarta-feira, ao ser novamente questionado pelo mesmo repórter, Giannis decidiu se pronunciar e apresentar a sua visão a respeito do que é sucesso, na vida e no âmbito esportivo, visão com a qual eu tenho muita simpatia e concordância. O mundo em que vivemos é tão brutalmente agressivo e exige resultados excepcionais diariamente que uma história tão grande e bem sucedida quanto a história recente do Milwaukee Bucks e de Giannis Antetokounmpo pode ser vista como um fracasso por um resultado ruim. Olhando somente para a própria NBA eu já acho isso particularmente brutal. São 30 times que competem todos os anos e somente 1 é campeão. Não é como no futebol que existem milhares de campeonatos acontecendo simultaneamente e um mesmo time joga 5 ou 6 deles ao longo do ano, podendo ter uma campanha lamentável em um deles e um resultado assombroso em outro. Não, na NBA é um campeonato anual e pronto. Todos os times e jogadores querem vencê-lo, mas ao final da temporada somente 1 time e cerca de 15 jogadores poderão ser chamados verdadeiramente de campeões.

Isso é muito brutal, e é um tanto desumano considerar um fracasso de um time que conseguiu o melhor recorde de vitórias durante a temporada, apresentou um basquetebol de altíssimo nível que encantou à maioria dos críticos e levou quase todos a os considerarem os maiores favoritos ao título da temporada. Sei que alguém certamente irá pensar ou dizer “mas pô, se forma os melhores da temporada regular, eram os favoritos ao título, perderem logo na primeira rodada de playoffs é um fracasso sim”. Concordo e discordo dessa afirmação. Concordo por entender a lógica direta envolvida e a relação entre potencial esperado e realizado. Porém discordo que, a eliminação não desfaz todo o bom trabalho envolvido na preparação. Como disse Giannis, eles fazem o melhor, se preparam, tentam executar tudo da melhor forma, mas simplesmente naquele dia o outro time conseguiu fazer melhor. Isso não é demérito de quem perdeu, mas sim um mérito enorme do vencedor, que apesar das baixas expectativas, conseguiu se exceder e entregar muito mais que todos esperavam, talvez até eles mesmos.

Mas, mais do que isso, e extrapolando o mundo do esporte, o que mais me assusta ao pensar essa necessidade incondicional por sucesso absoluto e constante é essa necessidade de que isso seja realizado em todas as esferas de nossa vida. Acho que Antetokounmpo foi muito preciso ao questionar o repórter se, devido ao fato de ele não ser promovido anualmente faz automaticamente dele um fracassado. É claro que não faz. O nosso mundo atual tem essa necessidade constante por sucessos grandiosos, premiações espalhafatosas que infla magistralmente o ego de quem as recebe e massacra a todos os outros que não conseguem a honraria, forçando-os quase imediatamente a se forçarem a fazer mais, a serem melhores, pois, se não conseguiram o sucesso máximo, é porque faltou algo a mais, e a culpa é exclusivamente sua.

Não acredito que o repórter estava imputando alguma culpa a Giannis pelo time não ter alcançado as expectativas de todos, mas serviu para que pudéssemos pensar um pouco melhor essa busca desenfreada por um sucesso que só é aceito verdadeiramente como sucesso se for validado por um prêmio espalhafatoso que precise o colocar maior e melhor que os seus semelhantes. Todos que estão por aqui lendo certamente vivem isso constantemente em seus trabalhos, sejam eles quais forem. São reconhecidos como profissionais de sucesso somente aqueles que conseguem as promoções mais visíveis, ou os elogios mais estridentes, sem sequer questionar aos demais se cada um deles realmente interpretam aquilo como sucesso.

A comparação que Giannis faz com a carreira de Michael Jordan é simplesmente brilhante, pois ele busca em um exemplo de seu próprio universo que foi extrapolado para todo o mundo como sinônimo de sucesso. Quantas apresentações empresariais e de gurus na internet eu vejo citações a Michael Jordan e sua brilhante carreira como sinônimo de sucesso. Quer dizer então que ele só obteve sucesso nos anos em que foi campeão? Será que praticamente 2/3 e sua carreira foram um desperdício e ele fracassou? Mas é claro que não. Michael entrou na NBA em 1984 e foi conseguir seu primeiro título somente em 1991. Todos os anos em que lutou, ganhou prêmios individuais, foi chamado por Larry Bird de “Deus vestido de Michael Jordan” e mesmo assim não alcançou a gloria máxima do esporte não foram desperdícios, ou frutos e insucesso, mas sim um sucesso gigantesco em pequenos passos para atingir o maior dos objetivos finais.

Sei que essa é uma discussão profunda e que diversas pessoas têm opiniões diferentes. Até mesmo dentro do universo da NBA, o grande astro do passado, Shaquille O’Neal (e um dos atletas com os quais Giannis é constantemente comparado) deu uma opinião diferente que, no final das contas, não é tão diferente assim e no final, ao menos na minha interpretação, corrobora o que disse o grego. Falhar eu um objetivo, em uma missão não é ser um fracasso. O Bucks falhou no objetivo de ser campeão, mas isso não faz da temporada deles um fracasso. As vezes fazemos tudo certo, mas simplesmente não era pra ser. Foi assim com o Bucks nesse ano e será assim sempre com alguém em algum lugar.

E é assim em nossa vida constantemente, seja pessoal, profissional ou ambas. Devemos nos propor objetivos grandes e estimulantes – a nossa busca enquanto humanos por realizações é algo inerente à nossa espécie – mas também não deve ser uma jornada excruciante e de dor e sofrimento, na qual somente a conquista plena e incondicional do desejo final deve ser comemorada. Aliás, essa deve ser a menos impactante de todas, pois ela será fruto de uma série sucessiva de pequenos sucessos e esforços, que foram tão ou mais recompensadores que o resultado final. Quem olha somente para quais foram os promovidos em uma empresa para tentar encontrar os profissionais mais bem sucedidos ou felizes pode ter uma surpresa muito impactante. Qualquer pessoa sabe que uma promoção no emprego é uma soma de fatores que envolve sim competência, mas também envolve muita boa vontade de quem promove, uma boa dose de autopromoção e bajulação, bem como o timing de estar no local exato na hora precisa.

Conheço diversos casos de pessoas promovidas que não se sentiram particularmente bem sucedidas, talvez por terem expectativas ainda maiores ou então por não se sentirem tão deslumbradas com a posição conquistada. Por outro lado podem existir pessoas no mais baixo nível hierárquico que se consideram excepcionalmente bem sucedidas simplesmente por estarem realizando bem o seu trabalho. Não devemos medir o sucesso de ninguém por nossa própria régua.

E mais ainda, precisamos urgentemente desconstruir esse modelo de que somente o sucesso deve ser alcançado a todo custo. Devemos repensar toda essa construção belicista, de que é preciso sobrepujar o outro, é preciso impor fracassos a alguém para conseguir ser um sucesso e, principalmente, precisamos reduzir essa busca desenfreada por sucesso. Essa correria incessante de que todos precisamos ser melhores que ontem, precisamos nos aprimorar sistematicamente, nos exaurir até a ultima gota de existência para que possamos talvez, com sorte e muita boa vontade, conseguirmos ser vistos como um sucesso para nossos pares. E daí? Precisamos todos ser um sucesso? Se todos formos um sucesso, ninguém será um sucesso. É preciso que saibamos aceitar que o conceito de sucesso e fracasso é subjetivo e diferente para cada pessoa. Sucesso para um é ser o maior profissional de sua área na companhia. Para mim é ser o melhor pai que eu posso ser para minha filha. Isso faz de mim ou do outro um fracasso? De forma alguma. Precisamos aprender a conviver com diferentes visões de mundo, onde a opinião do outro precisa ser respeitada e aceita como valida ainda que seja diferente da minha, e não que eu precise forçar a minha visão para que ele concorde e valide o que eu penso a respeito de sucesso. Precisamos mais do que isso aprofundar laços de parceria, de boa convivência e amizade, pois a busca egoísta e desenfreada pelo sucesso tido como “correto” no mundo altamente competitivo em que vivemos pode até elevar alguém a um patamar “maior” que os demais, mas está levando a sociedade toda – e o nosso mundo de carona – a um caminho sem retorno de destruição mútua da qual ninguém sobreviverá. Nem mesmo os fora de série que são ungidos como “bem sucedidos”.