Há alguns meses, quando estava acompanhando (na medida do possível, já que não consigo mais atravessar madrugadas na frente da TV) os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio, estive refletindo sobre uma das coisas que mais gosto de observar em Jogos Olímpicos, além das disputas esportivas, é claro. Gosto muito de observar as bandeiras nacionais e os uniformes dos atletas de cada nação e refletir sobre como a identidade visual de cada país é construída. É claro que observando tudo isso, comecei a pensar sobre a bandeira brasileira e as cores nacionais, que tem estado em destaque nos últimos anos, quase sempre pelos motivos errados.
Fato é que as cores da bandeira nacional não representam verdadeiramente a nação brasileira. Ainda que a maioria de nós tenhamos aprendidos no período escolar que as cores da bandeira do brasil representam as riquezas naturais de nosso país, a realidade é que todas as cores são relacionadas à história da família real portuguesa, e que foram herdadas pelo nosso país após a independência. Essa construção histórica não é única do Brasil – outros países possuem bandeiras nacionais com uma construção histórica similar à do nosso país. A Austrália é um bom exemplo disso: sua bandeira contém símbolos e cores que remetem diretamente à da Grã-Bretanha, com pequenas diferenças no grafismo.
Porém, em eventos esportivos, por exemplo, os australianos adotam uma identidade visual bastante distinta, usando o amarelo bem pronunciado, oriundo das flores de uma árvore que representa a identidade nacional, se recusando a usar as cores britânicas como identidade visual. O Brasil, por sua vez, utiliza sempre as mesmas cores da bandeira em seus diversos uniformes esportivos.
Toda essa questão me fez refletir profundamente sobre o quanto a identidade nacional está vinculada à bandeira, e como na maioria das nações do planeta, a construção de seu símbolo nacional está diretamente atrelada à sua história, utilizando elementos de sua fauna, flora ou aspectos históricos para definição de sua bandeira, de forma que ao se utilizar este símbolo para identificar o país, os seus cidadãos sintam-se representados e orgulhosos.
Com os acontecimentos dos últimos anos no Brasil, é fato consumado que a bandeira nacional foi sequestrada pela extrema direita e utilizada à exaustão em diversos atos antidemocráticos em defesa de pautas absurdas. Tanto é que hoje uma parcela considerável da população brasileira não se identifica com a bandeira nacional, e evita a sua utilização por conta destes acontecimentos recentes e, há entre estes quem considere legítimo um movimento para que seja desenvolvida uma nova bandeira nacional, uma vez que a atual está irremediavelmente associada aos escalabros e absurdos recentes.
Ainda que a maioria das pessoas acreditem que seja melhor promover uma campanha de resgate da bandeira nacional, retirando-a desse contexto de símbolo quase exclusivo da extrema direita para que volte a ser um estandarte nacional, eu estou com o segundo grupo. Acredito ser este o momento oportuno para criação de nova bandeira brasileira e nos próximos parágrafos vou exemplificar o porquê:
Como disse anteriormente, as cores da bandeira nacional brasileira são todas ligadas diretamente à história de Portugal, a saber:
- Verde: essa cor era utilizada pelos primeiros povos que habitaram a Lusitânia, região correspondente a Portugal. Essa cor passou a simbolizar liberdade quando os habitantes da região lutaram contra a invasão dos mouros na Idade Média.
- Amarelo: essa cor fazia parte do brasão de armas de Portugal e foi adicionado depois da conquista do Algarve, em 1249. Outra observação importante é que o amarelo era uma cor símbolo dos Habsburgo-Lorena, dinastia do qual d. Leopoldina (esposa do imperador Pedro I) era membro.
- Azul e Branco: essas cores remontam ao Condado Portucale, condado do qual surgiu Portugal, e as cores desse condado foram escolhidas pelo d. Henrique da Borgonha.(trecho extraído daqui, clique para ler o artigo completo sobre a definição da bandeira nacional)
Por conta de uma construção histórica complexa, optamos por continuar a usar as cores de outro país ao invés de desenvolver nosso próprio símbolo nacional baseado em nossa história, de forma a valorizar a nascente identidade brasileira. Optamos por manter quase que integralmente a bandeira brasileira criada no tempo de colônia, com pequenas e minúsculas alterações, o que reflete o conservadorismo da sociedade nacional e seu medo de mudanças mais ousadas.

Com todo esse histórico, a minha posição é que seria riquíssimo ao Brasil a elaboração de uma nova bandeira. Acho que o próximo governo democrático que assumir o poder (porque o atual é tudo menos democrático) poderia convocar um referendo para verificar qual o percentual da população que tem o desejo de promover uma mudança na bandeira nacional.
Presumindo que este possa ser um desejo expresso pela maioria da população e uma proposição desta siga adiante, fica a questão: mais do que o grafismo e estilo, quais seriam as cores da bandeira nacional? A escalada da bandeira verde e amarela como símbolo da extrema direita decorre principalmente da alucinação coletiva de que há uma ameaça comunista que irá tomar o país de assalto e transformar o brasil em uma nação comunista com uma bandeira vermelha com a foice e o martelo comunistas bem pronunciados. Claro que isso é uma loucura total, desconectada da realidade e uma estratégia política manjada de assustar a população inculta com uma ameaça irreal e reutilizada à exaustão há mais de 50 anos, resquício de tempos de guerra fria.
O mais irônico dessa visão de medo de uma “bandeira vermelha”, utilizada à exaustão pelo lema “nossa bandeira jamais será vermelha” é que se fossemos realmente promover a criação de uma nova bandeira nacional que refletisse inteiramente os símbolos da nossa nação, a nova bandeira teria que obrigatoriamente considerar como alternativa para ser a cor principal ou pelo menos relevante justamente a cor… vermelha! Afinal de contas, o nosso país se chama Brasil em função do Pau Brasil, tão vasto e tão devastado na época da colonização. A arvore símbolo do país foi nomeada desta forma por ser literalmente “da cor de brasa”, caracterizada por sua madeira bastante avermelhada.

Eu vejo com bons olhos essa mudança, pois não vejo muito sentido em continuarmos a utilizar um símbolo que não é exclusivamente brasileiro como identidade nacional, ainda mais agora que foi sequestrado por uma parcela abjeta da população nacional. Seria como a Alemanha pós segunda guerra mundial tivesse continuado usando uma suástica nazista em sua nova bandeira nacional.
O mundo está evoluindo e reconhecendo a importância de valorizar cada vez mais os símbolos culturais e históricos de cada povo, cada nação, então talvez seja o momento oportuno para se revisar a bandeira nacional. As cores lusitanas, a frase positivista vazia de significados e a associação direta com o nefasto movimento extremista atual já são razões mais do que dignas para se considerar uma mudança. Acredito que valeria pelo menos uma consulta pública nesse sentido. Aliás, a consulta pública via referendo é um instrumento democrático muito subutilizado no Brasil, mas este é assunto para um outro post.