É surreal para mim pensar que estamos a poucos dias do término desse “governo” Bolsonaro. Após tanto tempo, dá até medo sentir alegria de esse período tenebroso estar finalmente terminando. Foram quatro anos intensos e exaustivos e é com uma forte sensação de esgotamento, tanto físico quanto mental, que chego a estas últimas semanas. Por essa razão eu gostaria de já não ter que falar desse personagem, até como forma de antecipar a leveza que esperamos ter em 2023 sem esse nome sendo falado diariamente em nossas cabeças. Ao mesmo tempo, porém, aconteceram tantas coisas que é impossível ficar indiferente e não esboçar umas últimas palavras a respeito desse período tão nefasto da nossa história.
Por isso decidi, como forma de passar uma régua neste assunto em minha mente, vou condensar tudo o que de mais importante e relevante ainda preciso falar sobre os “anos Bolsonaro” e que ainda não abordei em outro momento em um artigo em dois atos: no primeiro momento tentarei abordar de forma objetiva as razões pelas quais o atual presidente me causa tanta repulsa. Na segunda parte, vou compilar minhas impressões acerca dos últimos quatro anos e os resultados de seu “governo” para o nosso país.
De coração sincero espero que estas sejam as últimas vezes que eu precise mencionar o nome Bolsonaro. Desde que ouvi pela primeira vez e tomei conhecimento dos absurdos que saiam de sua boca, a antipatia foi imediata. A partir do momento em que se lançou candidato à presidência – se não me falha a memória, pouco após o término das eleições de 2014 – e começou a angariar apoiadores entre os renegados e boçais que habitavam o submundo das redes sociais, ganhando cada vez mais visibilidade e relevância, a minha aversão foi aumentando até chegar ao nível de hoje, de sequer conseguir ver sua imagem ou ouvir sua voz sem sentir algum tipo de repulsa.
Não vou fazer uma retrospectiva de todos os acontecimentos que o levaram à presidência da república, tampouco vou criticar a sua gestão sentado à cadeira mais importante do país. Quero focar unicamente em um aspecto, muito importante e que gostaria de tentar elucidar: por que tenho tanta aversão a Bolsonaro?
Essa não é uma resposta fácil. Aliás, estou há anos (pelo menos 6) tentando entender esse sentimento, que nunca havia sentido com relação a nenhum outro personagem da política brasileira. Nem sequer Aécio Neves, com sua cara debochada e seu estilo ardiloso, me causaram tanto incomodo. Durante esse período em que foi presidente, teci muitas críticas a Bolsonaro. Algumas pessoas inclusive me acusaram de odiar Bolsonaro. Por um bom tempo eu também acredito que isso era uma verdade. Porém busquei entender melhor esse sentimento e compreendi que não se trata de ódio. É uma aversão por tudo o que representa.
Essencialmente, o futuro ex-presidente representa, em suas atitudes e palavras, tudo aquilo que mais repudio em minha vida. Sua abordagem para com a vida é exatamente o oposto de tudo o que eu penso e faço. Tudo o que ele acredita e externaliza como o certo, eu considero errado e inadmissível. Sua forma de cultivar e multiplicar a violência e a intolerância, a boçalidade e a maldade de coração, me ofende profundamente.
Eu acredito na verdade. Ele opera somente na mentira. Eu confio na ciência. Ele repudia a ciência. Eu admiro e busco o conhecimento e a inteligência. Ele se ressente do conhecimento e estimula a estupidez. Eu gosto de demonstrar gentileza, educação e deferência às pessoas. Ele gosta da truculência, falta de educação e arrogância. Eu acredito que cada um tenha o direito de ser o que quiser ser, fazer e decidir o que preferir da própria vida, desde que não se coloque no caminho do livre arbítrio do próximo. Eu aprendi a admirar, gostar e aprender com a diversidade. Ele acha que tem o direito de regular a vida do outro, ofender e ameaçar quem não é como ele acha que deve ser. Eu acredito que devemos respeitar o diferente. Ele acha que é preciso reprimir e violentar com atos e palavras quem diverge de si. Eu acredito e desejo o bem. Ele opera e vibra única e exclusivamente no mal.
Nestes “anos de Bolsonaro”, um dos maiores absurdos que tentaram propagar a todo custo, além da ladainha acéfala de seus seguidores que se tornaram uma seita assustadora e violenta, foi a narrativa de muita gente tentando “normalizar” ou civilizar o futuro ex-presidente, como se ele fosse incompreendido, se expressasse mal ou fosse somente falastrão ou barulhento, mas inofensivo. Foi feito um esforço tremendo, em grande parte da mídia por pressão da classe dominante, para “amansar” ou tornar palatável alguém bruto, truculento e violento. Muito pode se falar sobre Bolsonaro, mas uma coisa que não se pode negar é que ele se expressou exatamente como gostaria e se apresentou exatamente como é: uma pessoa de violenta, rancorosa e de má índole. É aquele tipo de gente que você não entende como pode ser tão desagradável, como pode ser tão baixo, vulgar e de mau gosto. Alguém de caráter duvidoso, cheio de rancor e ódio por quem vive e vê o mundo de forma diferente dele.
Outro ponto importantíssimo em minha aversão pelo futuro ex-presidente é a sua visão de futuro, sua sanha destruidora do meio ambiente e o seu (mau) exemplo legitimador para que demais pessoas demonstrem ser tão vis e repugnantes quanto ele mesmo. Como o pai de uma menina nascida durante esse período, me assusta imaginar qual o futuro a esperaria se Bolsonaro tivesse mais tempo de poder continuar apresentando e convencendo pessoas de sua visão deturpada e estúpida de mundo. Em quatro anos já houve um estrago considerável e um retrocesso de décadas, mas ainda podemos crer que é possível reconstruir o país. Mais quatro anos e acredito que seria muito difícil não atingirmos um ponto de não retorno à normalidade e estaríamos vivenciando uma ruptura civilizatória.
Estes anos foram desafiadores, pois foi muito difícil ver alguém que representa o oposto de tudo o que acredito ocupando um cargo de tanto poder, capaz de estragar a vida de tantas pessoas, capaz de condenar o país a extremos nunca vistos, capaz de demonstrar tamanho desprezo pela saúde, educação e cultura. Foi um baque para mim – nascido nos pós ditadura e formado pessoa durante o período mais progressista e desenvolvimentista da história brasileira – entender que nem sempre o mundo andará para frente e que podem acontecer momentos de governos nefastos e que representam o oposto dos valores que acredito e que regem a minha vida. Foi assustador perceber que tantas pessoas deram carta branca a alguém assim tomar o poder no país e se sentiram representadas – e mais do que isso – autorizadas a serem tão más quanto.
Me doeu perceber que pessoas outrora próximas a mim e muito queridas, por motivos insondáveis que talvez busque discutir no futuro, se aproximaram de um personagem como esse e se deixaram seduzir pelo fascínio do fascismo. Foi doloroso, porém necessário me afastar dessas pessoas. Não foi uma divergência política. Foi uma divergência de valores e visão de mundo. Como poderia permitir que pessoas que acreditam e apoiam Bolsonaro estarem próximas e serem exemplos para a minha filha? Não tenho ilusões, sei que ela irá conviver com pessoas assim no mundo, mas é muito diferente de cruzar com alguém assim no mundo e eu acolhe-as abertamente em minha casa. Não é aceitável e normal permitir que alguém com tendência e que apoia pessoas misóginas e machistas possam brincar com minha filha e serem de alguma forma referência na vida dela.
Minha aversão a Bolsonaro não é política. Ainda que ele também seja o oposto de tudo o que acredito ser o melhor caminho para a política brasileira, minha aversão a ele é por valores essenciais, que regem a minha vida, e que para ele são descartáveis e irrelevantes.
Foram quatro anos de sofrimento, de angústia, de medo e tristeza. Quatro anos em que cada um dos meus valores mais caros eram pisoteados, ridicularizados e tratados como “frescura” e que a resposta para tudo era a intimidação e a violência. Nunca senti algo assim por nenhum outro personagem político na história do país. Houve alguns que, em maior ou menor escala, pareciam piores ou pouco confiáveis, mas como esse personagem que ocupou a cadeira da presidência nos últimos anos, nunca houve e sinceramente espero que não exista nunca mais. Após muita reflexão, entendi que o odeio. Tenho repulsa por ele. E uma aversão extrema por tudo o que ele representa, conjunto de ideias, valores e atitudes reunidos de forma muito perspicaz e verdadeira sob a alcunha de bolsonarismo. Bolsonaro irá desaparecer em breve, mas o bolsonarismo continuará sendo uma ameaça por muito tempo. Mas continuaremos a lutar. E iremos vencer, tal qual vencemos Bolsonaro., pois o mundo anda para frente. Com percalços e tropeços, é claro. Mas sempre para frente.