Seguindo em frente na estrada “retomando as resenhas dos livros lidos ainda em 2022”, chego ao tão esperado “Biblioteca da Meia Noite”. Desde que descobri a sinopse desse livro, ele entrou em minha lista de livros e assim que pude, o comprei para compor a minha biblioteca. É uma história com uma daquelas premissas avassaladoras e que todo mundo já se perguntou a respeito. Afinal de contas, quem nunca pensou que gostaria de voltar em algum momento importante da própria história e tomar uma decisão diferente da que tomou e ver qual seria o resultado daquilo em sua própria vida?
Essa é a dinâmica que compõe esse romance, contando a história de uma mulher por volta dos seus 30 e poucos anos, infeliz e deprimida com a própria vida, remoendo-se com a insignificância de sua existência e que fica constantemente pensando em como seria diferente a sua vida se houvesse tomado algumas decisões diferentes em momentos críticos de seu passado.

Um romance assim claramente é um prato cheio para qualquer pessoa com pouco mais de 30 anos, momento no qual a sociedade deixa de olhar com condescendência a nossa indecisão e decisões errática durantes os 20 anos e passa a julgar a pessoa que chega nessa faixa etária e ainda não tem claro “o que quer fazer da vida”. Consigo afirmar isso com propriedade pois é algo que vivencio e diversas pessoas próximas à minha faixa etária relatam sentimentos similares. É um momento da vida em que, aos olhos da sociedade julgadora e hostil, precisamos deixar de querer experimentar e viver novas experiências, conhecer novas pessoas e cenários e precisamos sedimentar o caminho que queremos, devemos ou precisamos seguir.
A sociedade não tem muita tolerância para quem não consegue ou escolher não seguir um único caminho para sua existência, e é entre os 30 e 40 anos que essa cobrança pela obrigatoriedade de se escolher um único caminho torna-se quase uma exigência, daí a dúvida de inúmeras pessoas, como eu mesmo e a personagem da história, que passam a olhar constante e sistematicamente para cada decisão de sua vida e pensando o que poderia ter feito diferente, em diversos momentos se martirizando e sofrendo por não ter tomado à época a decisão que julga melhor com a maturidade de ter vivido muita coisa após o momento crítico que exigiu uma escolha.
Para não trazer muitos spoilers sobre o livro, vou apenas mencionar que na história existe uma biblioteca na qual a personagem pode frequentar e que há um livro diferente para cada momento específico de sua própria existência, especialmente relacionado às decisões que tomou e pode escolher tirar um destes livros da prateleira da biblioteca e voltar a viver aquele momento, porém com uma decisão diferente da que tomou à época. Com essa possiblidade de escolha, se desenrolam diversos cenários pelos quais a personagem pode viver e se perceber mais ou menos feliz, ainda que não consiga ter uma percepção segura e verdadeira de que aquele caminho é realmente o que ela gostaria de fazer e que a tornaria realmente feliz e realizada.
Para as pessoas da minha geração, que atualmente estão entre 30 e 40 anos, que cresceram ouvindo sistematicamente que era preciso escolhermos e buscar um caminho único que nos faz verdadeiramente felizes, sabemos que é uma exigência que por muitas vezes nos direciona à uma busca insana, na qual se não formos bem sucedidos é porque cometemos um erro ou fomos incapazes de encontrar essa “galinha dos ovos de ouro”, que é a realização eterna. Não vou sequer mencionar todos os problemas psicológicos que podem resultar dessa cobrança imensa, sejam em depressão, ansiedade e infelicidade, mas a verdade é que crescemos, em maior ou menor escala, sendo filhos de pais que não foram essencialmente felizes profissionalmente ou até mesmo pessoalmente, mas que conseguiram ascender muito em comparação aos seus genitores, sejam financeiras ou profissionalmente. Mas que, em sua maioria relatavam que não puderam escolher ser felizes, fizeram somente o que tinham que fazer para conseguir ter uma condição de vida melhor e principalmente oferecer oportunidades melhores para que os filhos (minha geração) aí sim, pudessem ser felizes. Ainda que a felicidade nesse cenário seja, no final das contas, cumprir as expectativas que foram projetadas em nós pela geração anterior que acreditam não ter tido a oportunidade ou a permissão de ser tudo o que gostariam de ser.
O livro é um prato cheio para pensar a vida, as decisões, as experiencias que vivemos e as pessoas que cativamos ao longo do caminho, pois a cada caminho vivido, há desdobramentos, o que torna a busca pelo caminho perfeito um objetivo impossível de ser realizado, uma vez que essa própria perfeição não existe, dado que por mais que sejam diferentes versões de nós mesmos em cada cenário, ainda somos nós que vivemos aquilo, e a felicidade plena vem(ou pelo menos deveria vir) de nós mesmos e nunca do exterior.
Cativante, intrigante e profundamente reflexivo, o livro me proporcionou uma das leituras mais marcantes de 2022. Me provocou reflexões profundas acerca de mim mesmo, da minha história e das escolhas que fiz ao longo do percurso, muitas das quais eu mesmo já estava ruminando durante meu processo terapêutico de tomada de consciência de vida, o que torna a leitura muito mais prazerosa e rica, pois há uma conexão real com o que vivemos e não somente uma breve, porém cativante leitura de um bom romance de ficção científica. Nota 4,5/5.