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Passando a régua

É surreal para mim pensar que estamos a poucos dias do término desse “governo” Bolsonaro. Após tanto tempo, dá até medo sentir alegria de esse período tenebroso estar finalmente terminando. Foram quatro anos intensos e exaustivos e é com uma forte sensação de esgotamento, tanto físico quanto mental, que chego a estas últimas semanas. Por essa razão eu gostaria de já não ter que falar desse personagem, até como forma de antecipar a leveza que esperamos ter em 2023 sem esse nome sendo falado diariamente em nossas cabeças. Ao mesmo tempo, porém, aconteceram tantas coisas que é impossível ficar indiferente e não esboçar umas últimas palavras a respeito desse período tão nefasto da nossa história.

Por isso decidi, como forma de passar uma régua neste assunto em minha mente, vou condensar tudo o que de mais importante e relevante ainda preciso falar sobre os “anos Bolsonaro” e que ainda não abordei em outro momento em um artigo em dois atos: no primeiro momento tentarei abordar de forma objetiva as razões pelas quais o atual presidente me causa tanta repulsa. Na segunda parte, vou compilar minhas impressões acerca dos últimos quatro anos e os resultados de seu “governo” para o nosso país.

De coração sincero espero que estas sejam as últimas vezes que eu precise mencionar o nome Bolsonaro. Desde que ouvi pela primeira vez e tomei conhecimento dos absurdos que saiam de sua boca, a antipatia foi imediata. A partir do momento em que se lançou candidato à presidência – se não me falha a memória, pouco após o término das eleições de 2014 – e começou a angariar apoiadores entre os renegados e boçais que habitavam o submundo das redes sociais, ganhando cada vez mais visibilidade e relevância, a minha aversão foi aumentando até chegar ao nível de hoje, de sequer conseguir ver sua imagem ou ouvir sua voz sem sentir algum tipo de repulsa.

Não vou fazer uma retrospectiva de todos os acontecimentos que o levaram à presidência da república, tampouco vou criticar a sua gestão sentado à cadeira mais importante do país. Quero focar unicamente em um aspecto, muito importante e que gostaria de tentar elucidar: por que tenho tanta aversão a Bolsonaro?

Essa não é uma resposta fácil. Aliás, estou há anos (pelo menos 6) tentando entender esse sentimento, que nunca havia sentido com relação a nenhum outro personagem da política brasileira. Nem sequer Aécio Neves, com sua cara debochada e seu estilo ardiloso, me causaram tanto incomodo. Durante esse período em que foi presidente, teci muitas críticas a Bolsonaro. Algumas pessoas inclusive me acusaram de odiar Bolsonaro. Por um bom tempo eu também acredito que isso era uma verdade. Porém busquei entender melhor esse sentimento e compreendi que não se trata de ódio. É uma aversão por tudo o que representa.

Essencialmente, o futuro ex-presidente representa, em suas atitudes e palavras, tudo aquilo que mais repudio em minha vida. Sua abordagem para com a vida é exatamente o oposto de tudo o que eu penso e faço. Tudo o que ele acredita e externaliza como o certo, eu considero errado e inadmissível.  Sua forma de cultivar e multiplicar a violência e a intolerância, a boçalidade e a maldade de coração, me ofende profundamente.

Eu acredito na verdade. Ele opera somente na mentira. Eu confio na ciência. Ele repudia a ciência. Eu admiro e busco o conhecimento e a inteligência. Ele se ressente do conhecimento e estimula a estupidez. Eu gosto de demonstrar gentileza, educação e deferência às pessoas. Ele gosta da truculência, falta de educação e arrogância. Eu acredito que cada um tenha o direito de ser o que quiser ser, fazer e decidir o que preferir da própria vida, desde que não se coloque no caminho do livre arbítrio do próximo. Eu aprendi a admirar, gostar e aprender com a diversidade. Ele acha que tem o direito de regular a vida do outro, ofender e ameaçar quem não é como ele acha que deve ser. Eu acredito que devemos respeitar o diferente. Ele acha que é preciso reprimir e violentar com atos e palavras quem diverge de si. Eu acredito e desejo o bem. Ele opera e vibra única e exclusivamente no mal.

Nestes “anos de Bolsonaro”, um dos maiores absurdos que tentaram propagar a todo custo, além da ladainha acéfala de seus seguidores que se tornaram uma seita assustadora e violenta, foi a narrativa de muita gente tentando “normalizar” ou civilizar o futuro ex-presidente, como se ele fosse incompreendido, se expressasse mal ou fosse somente falastrão ou barulhento, mas inofensivo. Foi feito um esforço tremendo, em grande parte da mídia por pressão da classe dominante, para “amansar” ou tornar palatável alguém bruto, truculento e violento. Muito pode se falar sobre Bolsonaro, mas uma coisa que não se pode negar é que ele se expressou exatamente como gostaria e se apresentou exatamente como é: uma pessoa de violenta, rancorosa e de má índole. É aquele tipo de gente que você não entende como pode ser tão desagradável, como pode ser tão baixo, vulgar e de mau gosto. Alguém de caráter duvidoso, cheio de rancor e ódio por quem vive e vê o mundo de forma diferente dele.

Outro ponto importantíssimo em minha aversão pelo futuro ex-presidente é a sua visão de futuro, sua sanha destruidora do meio ambiente e o seu (mau) exemplo legitimador para que demais pessoas demonstrem ser tão vis e repugnantes quanto ele mesmo. Como o pai de uma menina nascida durante esse período, me assusta imaginar qual o futuro a esperaria se Bolsonaro tivesse mais tempo de poder continuar apresentando e convencendo pessoas de sua visão deturpada e estúpida de mundo. Em quatro anos já houve um estrago considerável e um retrocesso de décadas, mas ainda podemos crer que é possível reconstruir o país. Mais quatro anos e acredito que seria muito difícil não atingirmos um ponto de não retorno à normalidade e estaríamos vivenciando uma ruptura civilizatória.

Estes anos foram desafiadores, pois foi muito difícil ver alguém que representa o oposto de tudo o que acredito ocupando um cargo de tanto poder, capaz de estragar a vida de tantas pessoas, capaz de condenar o país a extremos nunca vistos, capaz de demonstrar tamanho desprezo pela saúde, educação e cultura. Foi um baque para mim – nascido nos pós ditadura e formado pessoa durante o período mais progressista e desenvolvimentista da história brasileira – entender que nem sempre o mundo andará para frente e que podem acontecer momentos de governos nefastos e que representam o oposto dos valores que acredito e que regem a minha vida. Foi assustador perceber que tantas pessoas deram carta branca a alguém assim tomar o poder no país e se sentiram representadas – e mais do que isso – autorizadas a serem tão más quanto.

Me doeu perceber que pessoas outrora próximas a mim e muito queridas, por motivos insondáveis que talvez busque discutir no futuro, se aproximaram de um personagem como esse e se deixaram seduzir pelo fascínio do fascismo. Foi doloroso, porém necessário me afastar dessas pessoas. Não foi uma divergência política. Foi uma divergência de valores e visão de mundo. Como poderia permitir que pessoas que acreditam e apoiam Bolsonaro estarem próximas e serem exemplos para a minha filha? Não tenho ilusões, sei que ela irá conviver com pessoas assim no mundo, mas é muito diferente de cruzar com alguém assim no mundo e eu acolhe-as abertamente em minha casa. Não é aceitável e normal permitir que alguém com tendência e que apoia pessoas misóginas e machistas possam brincar com minha filha e serem de alguma forma referência na vida dela.

Minha aversão a Bolsonaro não é política. Ainda que ele também seja o oposto de tudo o que acredito ser o melhor caminho para a política brasileira, minha aversão a ele é por valores essenciais, que regem a minha vida, e que para ele são descartáveis e irrelevantes.

Foram quatro anos de sofrimento, de angústia, de medo e tristeza. Quatro anos em que cada um dos meus valores mais caros eram pisoteados, ridicularizados e tratados como “frescura” e que a resposta para tudo era a intimidação e a violência. Nunca senti algo assim por nenhum outro personagem político na história do país. Houve alguns que, em maior ou menor escala, pareciam piores ou pouco confiáveis, mas como esse personagem que ocupou a cadeira da presidência nos últimos anos, nunca houve e sinceramente espero que não exista nunca mais. Após muita reflexão, entendi que o odeio. Tenho repulsa por ele. E uma aversão extrema por tudo o que ele representa, conjunto de ideias, valores e atitudes reunidos de forma muito perspicaz e verdadeira sob a alcunha de bolsonarismo. Bolsonaro irá desaparecer em breve, mas o bolsonarismo continuará sendo uma ameaça por muito tempo. Mas continuaremos a lutar. E iremos vencer, tal qual vencemos Bolsonaro., pois o mundo anda para frente. Com percalços e tropeços, é claro. Mas sempre para frente.

Resenhando (#15)

Como disse na última postagem, perdi um pouco do ritmo nas semanas pré e pós eleições, não consegui escrever muito e ler ainda menos. Mas havia finalizado algumas leituras que ainda não havia compartilhado a resenha por aqui. Como não gosto de deixar nada para trás, e no intuito de enriquecer o debate com quem se interessar por mergulhar nestas leituras que apresento, vou trazer a resenha de algumas obras que li ainda neste ano de 2022, a começar pelo livro “Operação Cavalo de Troia 3 – Saidan”. Sigamos.

Operação Cavalo de Tróia 3 – O mais cansativo da série até o momento.

Não gostei deste livro. Simples e direto. Não há muito o que falar quando a leitura não é minimamente prazerosa e infelizmente foi o caso destes “Operação Cavalo de Troia 3 – Saidan” de J.J. Benitez. O primeiro livro da extensa série foi muito marcante para mim, e me propôs reflexões muito importantes a respeito de religiosidade e espiritualidade, além de misturar temáticas de romances de suspense e thrillers interessantes, além da óbvia abordagem de ficção científica. Por isso eu me propus a ler toda a série, mesmo sabendo que seriam mais de 10 livros. A minha resolução foi levemente abalada ao ler o volume 2, que, ainda que fosse interessante, se utilizou muito dos mesmos elementos no primeiro livro, especialmente no que se referem às críticas à igreja e aos evangelhos tradicionais. Essa insistência que, no primeiro volume soava espontânea e agregando ao texto, no segundo se transformou em uma insistente critica pela crítica e no terceiro volume atingiu níveis ainda maiores, ao ponto de me deixar desconfortável.

Aos que não conhecem, acredito que não haja problema em tratar de possíveis spoilers sobre o livro – ainda mais que se tratam de volumes com mais de 20 anos de lançamento – ainda assim, quem não quiser saber maiores detalhes da trama, melhor pular esse parágrafo. O livro trata-se de uma ficção cientifica em que os personagens principais são militares do exército estadunidense que durante as pesquisas cientificas descobrem uma forma de manipular o tempo e realizar viagens entre períodos distintos da história – essencialmente, criam uma máquina do tempo – e decidem por retornar ao tempo de Jesus Cristo. Nos dois primeiros volumes são abordados a paixão e ressurreição de Cristo.  Neste terceiro livro os “exploradores” se propõem a seguir os passos dos discípulos ao retornarem à Galileia após a ressurreição de Jesus e suas milagrosas aparições em meio aos seus apóstolos.

Até aí, parece muito interessante, porém o desgastante é que o autor demora enormemente a entrar no chamado “diário do major”, cansando o leitor que espera ansiosamente partir para a Galileia do século I. O autor constrói sua narrativa como um personagem da própria história e participa ativamente do desenrolar dos fatos ao buscar a segunda parte do diário do major na Jerusalém do século XX. Porém ele demora tanto a resolver essa parte da narrativa, se detendo ao menor e mais insignificante detalhe e pensamento aleatório ocorrido, diminuindo muito a fluidez da leitura e o interesse do leitor pelo andamento da obra, tanto que quando finalmente inicia a narração dos episódios fantásticos da viagem no tempo, o leitor já está com má vontade com o livro e os menos determinados provavelmente já o deixaram de lado.

Acredito que eu ainda darei chances à série de livros, até mesmo para ver se transformo a má impressão dessa leitura, mas a realidade é que o terceiro livro é chato, pouco emocionante e descartável. Não me cativou, nota 1,5/5.

Pós eleições e o futuro por vir

Finalmente acabaram as eleições. O período entre o primeiro e o segundo turno foi sofrível como imaginávamos. O resultado foi apertado como todos esperávamos, ainda que não quiséssemos acreditar. A negação dos derrotados em aceitar a derrota, previsível. Quem acompanhava meus textos por aqui deve ter percebido um decréscimo no volume de postagens na véspera das eleições em final de outubro e meu total silencio após o resultado final. Pois é, não era este o planejamento, mas faltou disposição. Estava resgatando minha base aqui e percebi que havia planejado publicar 8 textos na reta final das eleições, dos quais 5 já estavam escritos. Mas na correria do dia-a-dia, no cansaço com o acirramento insuportável das emoções e com diversos problemas pessoas acontecendo, faltou fôlego para conseguir colocar no ar tudo o que estava pensando.

Hora de seguir em frente e recuperar o atraso provocado pelos ultimos 4 anos.

Não fez falta, no final das contas, pois tudo o que queria falar eventualmente já havia sido dito por pessoas mais preparadas ou mais dispostas que eu. Pós eleições e com o eventual caos decorrente das manifestações golpista dos derrotados, optei pelo silencio. Preferi saborear a vitória tão difícil e sofrível, e talvez por isso, infinitamente mais doce que todas as anteriores. Entendo perfeitamente meus amigos e colegas que disseram que perdemos mesmo vencendo. Por diversos momentos a sensação era essa mesma. EU mesmo cheguei a relatar isso ao término do primeiro turno. Mas acabei mudando de ideia. É muito importante poder celebrar essa vitória. Pois não é uma vitória da soberba nem da arrogância. É uma vitória da sobrevivência. Como bem disse Gregório Duvivier em um belíssimo vídeo que viralizou após o termino da eleição, foram 6 anos que precisamos continuar lutando e sobrevivendo diariamente quando absurdos inimagináveis aconteciam, a sensação de impotência e falta de esperança no futuro ameaçando tomar conta de tudo. Foram anos dificílimos: todas as nossas crenças na inteligência, na ciência, na humanidade, na tolerância, na fraternidade e na democracia foram colocadas à prova e tínhamos que seguir lutando e acreditando que um dia coisas poderiam melhorar.

Não vou negar: houveram momentos em que acreditei que estávamos condenados. Os absurdos promovidos pelo governo e seus seguidores eram tão surreais para alguém que, como eu, nasceu às vésperas da redemocratização e viveu tempos de prosperidade, fé no futuro e no potencial gigantesco de nosso país que foi difícil conseguir encarar tudo o que estava acontecendo e acreditar que poderíamos superar o desmanche do país a olhos vistos e ousar manter a esperança de que as coisas um dia voltariam a melhorar. Mas vencemos. Derrotamos uma máquina de mentiras voraz e atuante como nunca antes houve no país. Derrotamos a compra de votos institucionalizada pelo governo, o impedimento por parte das forças policiais do país de cumprir uma obrigação constitucional do cidadão e a conivência e indiferença de milhões de brasileiros que não se importam com o que está acontecendo no país agora e no futuro, desde que a sua realidade e seus privilégios se mantenham intocados.

Para mim foi particularmente libertador o término das eleições com vitória de Lula para não ter que lidar com esse último grupo. De um tempo pra cá eu passei a chamá-los de “Os Relativistas”. São aquelas pessoas que dizem não concordar com as coisas que o Bolsonaro fala ou faz, mas relativizaram e encontraram uma forma de justificar todas as atitudes e atrocidades por ele cometidas nos últimos 4 anos em nome de um ódio de classes velado que se materializa com o ódio à figura do presidente Lula. Essa galera é aquela turminha que se vende como “progressista”, ou “isentões”, ou ainda mais comum, “liberais”, que acreditam em uma ilusão de livre mercado como a solução de todos os problemas do mundo. É uma galera que adora postar uma ação de caridade pra se promover como solidário, mas quer a diminuição radical de auxílios governamentais aos mais vulneráveis. Esse pessoal se diz esclarecido e humanista, mas em diversos momentos foram mais bolsonaristas do que os próprios seguidores do presidente derrotado. Em várias oportunidades eu os considerei ainda mais nocivo que os “minions” apaixonados. Porque esse grupo é um caso para estudos psicológicos nos próximos anos, tamanha a contaminação e cegueira pela “Verdade do zap” que construíram toda uma realidade paralela e acreditam firmemente que estão vivendo nela, portanto falta senso crítico e toques de realidade para que possam enxergar o absurdo que estão defendendo.

Mas, os relativistas, estes não. Eles até possuem senso de realidade. Conseguem perceber o quanto o governo atual foi absurdo. Foi desumano. Mas ainda assim relativizam tudo o que aconteceu, porque para eles, “é impossível votar no Lula ou no PT”.  O ódio por um determinado partido ou pessoa os impedem de olhar criticamente o cenário e fazer uma escolha democrática, ainda que pragmática. Aliás, sobre a democracia e a sociedade brasileira, fiquem ligados. Isso será tema de uma futura postagem. Mas retornando aos relativistas, no final das contas são pessoas centradas em si mesmas e olham somente para o que lhe diz respeito. Se milhões sofreram nos últimos 4 anos, se diversos grupos e minorias foram vítimas de perseguições, violência e morte por apoiadores do atual presidente e estimulados por ele, isso pouco lhes afeta, uma vez que não diz respeito às suas realidades. Essa dificuldade em se reconhecer privilegiado e entender que muitas vezes a escolha do governo impacta pouco em sua vida, mas pode afetar diretamente a vida de outros, tornou o diálogo e a convivência com os relativistas nos últimos meses muito difícil.

Hoje, infelizmente a história é muito mais compreensível. Por anos, mesmo estudando muito, não conseguia entender verdadeiramente como os movimentos fascistas da década de 30 obtiveram sucesso na Alemanha e Itália. Mas hoje a história faz muito mais sentido em minha cabeça. Não foi por conseguirem maioria nazifascista na população de seus países que Hitler e Mussolini chegaram ao poder e materializaram atrocidades inimagináveis. Mas foi pela indiferença de boa parte da sociedade, que optou por dar de ombros para as evidências autoritárias, violentas e inumanas de seus líderes e apoiadores, que chegamos ao cenário extremo de uma guerra mundial.

Sobre as manifestações ilegais e antidemocráticas que alguns apoiadores do presidente insistem em continuar fazendo mesmo um mês após as eleições, tenho pouco a falar. Exceto que essa galera está se manifestando por financiamento de empresários que faturaram alto com o entreguismo dos anos bolsonaristas, por conivência das policias, da sociedade e da mídia. Como foi comentado nas redes sociais, fossem professores protestando por melhores salários e condições de trabalho, teriam sido repelidos com truculência e violência, além de inúmeras reportagens negativas já no segundo dia. Reflexos de uma sociedade que ainda precisa avançar muito: pedir investimentos na educação é motivo para ser recebido com – perdão pelo comentário chulo e infame – “tiro, porrada e bomba”. Manifestações favoráveis à tortura, a violência, ao racismo e a homofobia, são recebidas com tapinhas nas costas e condescendência.

Foram difíceis as últimas semanas que antecederam as eleições, assim como estão sendo as que a sucederam e continuarão sendo até o país assimilar de fato que voltaremos a ter um presidente, um governo e um país em reconstrução. Eu precisava de um tempo para me recompor e reencontrar a energia e a disposição em escrever. Ainda tem muito a acontecer até a posse do presidente Lula, mas parece que já é possível vislumbrar e crer que ainda teremos um país em janeiro de 2023, tremendamente combalido e sucateado, precisando ser reconstruído, mas ainda assim um país. E isso já é motivo para muita celebração.
Aqui no blog a expectativa é que possamos retomar assuntos mais interessantes, diversos e enriquecedores que tratar somente de política, ainda que possa retornar a esse tema quando julgar necessário. O desejo é o de retomar um ritmo de postagens semanais, talvez até por duas vezes na semana. Como disse aqui em casa para minha esposa, é mais fácil ter energia e assunto para outras coisas quando não precisamos lutar diariamente contra o neofascismo. E é com essa alegria de acreditar que podemos novamente ter fé e esperança no futuro é que retomo este espaço. Seja bem vindo, futuro!

O último apelo

Estamos a pouco mais de 24 horas do resultado das eleições presidenciais de 2022. Amanhã neste mesmo horário receberemos os primeiros números de apuração das urnas pelo Brasil e começaremos a celebrar ou lamentar. Tudo o que havia de ser dito já foi dito. Todos os pontos já foram colocados na mesa e discutidos exaustivamente. Nessa altura do campeonato, todos já estão com seu voto decidido para amanhã.

Minha passagem por aqui hoje é somente para fazer um último apelo. Peço a todos que apelem para a sua humanidade. Deixem de lado o que viram no WhatsApp. Deixem de lado os vídeos de “analistas” ou especialistas falando de previsões chocantes caso Lula seja eleito. Gente, sejam minimamente razoáveis. Se você está próximo dos 30 anos ou já passou dessa idade, você viveu conscientemente os anos de governo Lula no Brasil. Nunca viramos uma ditadura comunista, não passamos nem perto disso. Se você tinha 5 anos de idade em 2002 você se lembra de tudo o que aconteceu naqueles tempos, mesmo que fosse uma criança sem qualquer preocupação. O Brasil era um país feliz. Otimista. Esperançoso com o futuro. Racionalmente não há como você pensar que o Brasil dos últimos 4 anos está melhor que isso. Não tem como. Você pode ter escolhido acreditar nisso, mas no fundo de sua consciência você sabe que isso não é verdade.

Mas eu havia falado de humanidade. Gente, apelo para que sejam mais humanos. Os ataques a pessoas de Igrejas, toda a arruaça feita durante a festa da padroeira do Brasil. Todos os padres e pessoas que estão sofrendo ameaças de morte por simplesmente estarem pregando o evangelho de Jesus Cristo. Não é possível que não consigam perceber que as pessoas que estão se ofendendo e se exaltando durante homilias e sermões Brasil afora estão sentindo isso ao ouvirem literalmente a “palavra de Deus”. Isso é normal? Vocês realmente acham que é o PT ou Lula ou a esquerda quem estão provocando isso? Gente, Lula foi candidato à presidente por 6 vezes e em nenhuma das outras 5 vezes houve qualquer tipo de manifestações como essa, qualquer ataque a pessoas do clero ou quem quer que seja. Sério mesmo que vocês acreditam que o problema está no Lula ou na esquerda? Qual a única diferença nas eleições presidenciais que houveram antes de 2018 e de lá para cá? A violência, a truculência, a intimidação. Por qual motivo vocês acham que essas manifestações de violência estão acontecendo com maior frequência e agressividade neste momento?

Sejam humanos, gente. Deus nos dotou de um cérebro altamente capacitado para que pudéssemos pensar. Vamos utilizar esse presente! Sejamos críticos. Sejamos conscientes. E mais uma vez, sejamos humanos. Não é possível que tanta violência, tanta indiferença com a dor do outro, tanta falta de empatia e gentileza sejam normais. Passamos por uma pandemia que morreu quase meio milhões de pessoas por indiferença. Por descaso. Eu perdi um amigo queridíssimo que não pode sequer conhecer a minha filha. Que não poderá visitar a minha casa para um almoço de domingo. Por descaso. Por falta de humanidade de quem deveria zelar pela vida dos brasileiros. Não é possível que já se esqueceram disso. Não é possível que irão relevar isso. Não é isso que queremos para nosso país. Não é isso que queremos para nosso futuro. Se não querem pensar no mundo melhor agora, pensem no mundo que querem deixar para seus filhos e netos.

Apelo para a humanidade de cada um de vocês. Tenho uma filha de 2 anos, que está começando a descobrir o mundo, começando a experimentar de fato esta grande aventura que é a vida. Me ajudem a permitir a ela um mundo onde possa correr e brincar por ruas e praças sem medo de sofrer qualquer tipo de violência ou abuso. Permitam que ela possa ir para escola e brincar com os amiguinhos sem o receio de que algum deles possa ter pegado a arma do pai/tio/irmão e levado para mostrar aos coleguinhas na hora do recreio. Permitam que ela cresça consciente de sua força e capacidade e possa ter direito a todas as oportunidades de forma igualitária. Que ela possa nunca ser diminuída ou depreciada por ser mulher. Que ela possa ter condições de sonhar com um futuro em que haja abundância de água, alimento, saúde e educação.

Se você é pai ou mãe, sabe do que eu estou falando. Do quanto sonhamos e desejamos que nossos filhos possam ter uma vida feliz. Se você não é, certamente é tio, primo ou amigo de crianças e certamente quer o bem delas e quer que cresçam em um mundo com mais amor, com mais compaixão, com mais humanidade. E isso não será possível com nosso país vivendo como em um faroeste sem lei, com as pessoas raivosas e armadas por todo lado, buscando somente uma oportunidade para se mostrarem as mais fortes ou corajosas unicamente por terem uma arma na mão.

Pelo amor de Deus, o que está em jogo aqui é algo muito maior que somente o medo de um comunismo irreal que nunca existiu e nem existirá. O que está em jogo aqui é a oportunidade de tentarmos mais uma vez construir uma sociedade com maior humanidade, tolerância e paz. Não permitamos que um lunático violento com fetiche por armas desvirtue a nossa sociedade e nos torne um país cheio de ódio.

Você pode não gostar do Lula, é normal e legítimo. Mas infelizmente, ele é a única opção que restou para que possamos voltar a ter um mínimo de normalidade em nosso país. De ter um presidente que se responsabilize por seus atos. Que queira falar a todos os brasileiros, e não somente aos que o apoiam. Que queira construir pontes e dialogar e não somente agredir e subjugar aquele que é diferente, ou pensa diferente. Nós merecemos poder dialogar com todos. Mas é impossível fazer isso se alguns dos outros estiverem armados e prontos para tirar a nossa vida somente porque não concordam com as nossas escolhas.

Pensem em nossas crianças. Você se sentiria seguro se os professores de seus filhos estivessem armados na escola e lidando com os desafios de educar várias crianças inquietas? Você gostaria que o professor de natação do seu filho o xingasse e o chamasse de incapaz somente porque a criança não conseguiu fazer o exercício que ele pediu? Você se sentiria à vontade se o Uber que sua filha adolescente pegou para ir à festinha na casa da amiga olhasse com olhos lascivos para ela porque acha que pintou um clima somente porque a menina foi educada? Você acredita que o ambiente mais acolhedor para a família é uma igreja onde todos são raivosos e julgam cada pequeno detalhe da vida do outro, impondo regras e sofrimentos a quem não se enquadra no modelo que avaliam como certo?

Sejam humanos! A inteligência é o maior dom que recebemos de Deus e o que nos diferencia da maioria dos outros animais que andam por esta terra. Rogo esse apelo a todos que estiverem lendo este texto. Sejam humanos. Não se deixem contaminar pelo ódio ou pela estupidez. O mundo é complexo, é difícil, é injusto, mas somente com humanidade e harmonia teremos uma chance de prosperar. Sejam humanos. Escolham a humanidade amanhã. Deixei a irracionalidade de fora da sala de votação. Votem pela paz. Votem pela harmonia. Votem pelo respeito. Votem pelo amor. Quem ama não quer violência. E quem não quer violência não precisa de armas. Sejamos luz. Sejamos amor. Multipliquem o amor. O amor é dom de Deus. Não o ódio. Votem com amor! 

SEM MEDO DE SER FELIZ!!!

Relatos de uma noite no teatro

Este texto não tem o desejo de soar pretensioso, elitista ou intelectual, relatando a experiência de ir ao teatro como algo superior ou descolado. Não sou superior a ninguém e muito menos descolado. Pretendo somente compartilhar com vocês uma experiência deliciosamente leve e revigorante ao mesmo tempo, permitindo nos desconectar da realidade por 90 minutos e vivenciar uma experiência transcendental de conexão com a arte e com a lembrança de que, apesar de tudo, ainda resta beleza neste mundo e que podemos desfrutar dela, basta querer.

Oswaldo Montenegro – Teatro Municipal de Uberlândia – 13/10/22

Me refiro a experiência de poder vivenciar a apresentação de Oswaldo Montenegro na noite de ontem aqui em Uberlândia, no teatro municipal. Quem me conhece sabe que, apesar de conhecê-lo enquanto artista desde a minha infância, eu “descobri” Oswaldo em 2014 em uma apresentação gratuita aqui na cidade. De lá para cá, consumi a sua discografia avassaladoramente e me tornei um admirador incondicional de sua capacidade artística.

Essa descoberta me proporcionou uma conexão com um aspecto artístico e de sensibilidade que sempre me havia escapado. Não fui criado ou educado para experimentar e apreciar a arte. Tampouco para desenvolver a sensibilidade. E a obra e a vida de Oswaldo Montenegro foi uma hecatombe de descoberta deste universo e ao mesmo tempo uma ponte de conexão justamente com estes aspectos tão negligenciados de minha formação pessoal.

Como o relato feito pela atriz Paloma Duarte em um dos DVDs de um show de Oswaldo, ele consome e produz arte 24 horas por dia. E é impossível a qualquer pessoa que tenha contato com uma obra de Oswaldo ficar indiferente a ela. Seja diante de uma pintura, de um poema, de uma peça de teatro, de um curta metragem ou, é claro, diante de uma de suas canções.

A experiência de vivenciar uma apresentação musical de Oswaldo Montenegro é como experimentar diversas sensações em um curto espaço de tempo. Se vai da alegria à melancolia, passando por momentos de deslumbre e arrebatamento, combinando risadas com momentos de profunda reflexão e, ao final da apresentação, a sensação é de alma lavada e reenergizada.

Particularmente neste momento tão tenso em que vivemos, com emoções à flor da pele e em constante ebulição, a sensação de poder se sentar e viver e sentir uma canção de Oswaldo transcende o simples “ouvir” música, nos permitindo experimentar a arte com todos os nossos sentidos, e mais do que isso, nos conectar com aspectos esquecidos de nossa ou nunca experimentados de sensibilidade, nos permitindo acreditar que tudo pode melhorar, que tudo irá melhorar, pois, como bem diz o artista, “que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer”, maravilhoso poema-canção e talvez a obra mais famosa de Oswaldo, Metade.

O show em si é tecnicamente perfeito, exaltando todas as qualidades de Oswaldo como cantor, compositor e instrumentista, onde ele passa por toda a sua carreira com um pot-pourri de uma hora de duração, com uma canção se sobrepondo a outra e formando uma sequencia maravilhosa na qual não se é possível encontrar uma que se goste menos, ou que não seja tão boa quanto a anterior, na qual destaco a poderosa e inspiradora “Eu quero ser feliz agora”,com seu grito de inconformismo e declaração de autodeterminação em busca da felicidade.

Além do desfrutar de canções tão belas, existem momentos excepcionais na apresentação, como a oportunidade para reflexão e cura interna de uma dor ou trauma, durante a apresentação da belíssima “Estrada Nova”, uma das canções mais belas e tocantes que já conheci, expressando emoções e sentimentos que jamais havia conseguido expressar antes.

Há também o momento de reverência de Oswaldo a outros artistas que o inspiraram e inspiram ainda hoje, com recortes de gracejo e autodepreciação quando o artista relata que tinha um grave defeito e que levou anos para superar, e quando a audiência se pergunta qual seria tal defeito, ele completa “eu era jovem…”, arrancando risos de toda a plateia. Neste momento o artista ressalta como se encanta com a canção Blowing in the Wind e a frustração de não ter encontrado resposta alguma no vento, e que, por sua vez, responde a Bob Dylan em forma de homenagem, afirmando que “o vento não traz resposta, acabou”, refletindo ainda a respeito do medo humano da solidão. Tem ainda a reverência a Jorge Ben Jor por, nas palavras de Oswaldo, “nunca ter escrito uma música triste”, e como ele – Oswaldo – afirma que nunca havia conseguido isso e precisou se esforçar muito para conseguir compor uma canção que não fosse triste, resultando na maravilhosa e reconfortante “Sem Mandamentos”.

Ainda nesta temática, houve um momento espontâneo vindo da plateia que resultou em uma homenagem a Belchior, quando uma pessoa pediu para Oswaldo cantar “A palo seco”, no que ele afirmou que “queria ter escrito essa canção”, sendo tal declaração o ápice de admiração e respeito pela obra do genial cantor cearense.

A segunda parte da apresentação foi um diálogo entre o artista e o público, com bastante informalidade e bom humor, no qual ele conta histórias, relata experiências da vida, faz reflexões a respeito do mundo e da história e relata sobre as trilhas sonoras de seus filmes, resultando em momentos deliciosos, como a reflexiva e provocativa “A lógica da criação” que coloca em versos os questionamentos em que todos nós fazemos em algum momento da vida mas não temos a coragem ou a disposição de colocar em palavras.  Importante destacar ainda a breve palhinha a pedido de uma fã da canção “Incompatibilidade” que, com seu ritmo rápido e animado, levantou da cadeira e colocou para dançar as poucas crianças presentes no teatro, mostrando que a obra de Oswaldo transcende faixa etária e pode ser apreciada em todos os momentos da vida.

Por fim, a apresentação é um balsamo de paz e sensibilidade artística em meio ao caos do mundo atual, uma ilha de beleza e emoção que nos permite um respiro e ressalta a importância e a necessidade da democratização do acesso de todos à arte e a cultura. A dureza do mundo torna-se muito mais fácil de lidar quando há esse respiro proporcionado pela arte. E Oswaldo é um artista completo. O meu artista favorito, ainda que isso não signifique muita coisa para alguém além de mim mesmo. Foi minha terceira oportunidade de acompanhar um show ao vivo e espero que venham muitas outras. E para quem ainda não pôde acompanhar, eu ressalto: não percam a oportunidade. Mais que um show de música, é uma experiência de vida. Mesmo que não conheça uma canção sequer, eu tenho a certeza de que irá sair da apresentação muito melhor que chegou. Vida longa à arte e à boa música!

Vamos falar sobre a corrupção do PT?

Acho que já é hora de falarmos sobre esse assunto, né? O assunto do momento no Brasil que está na boca do povo há tempos. Antes de mais nada, um aviso: se você espera encontrar aqui um texto defendendo a corrupção dos governos do PT, vai se decepcionar. Tampouco vou condenar ou demonizar como muita gente faz. Também não vou relativizar o assunto, mas procurarei contextualiza-lo. Logo, se você chegou aqui esperando uma defesa ou uma acusação apaixonada com relação a este tema, lamento frustrá-lo. Este não será o objetivo aqui. Recomendo que abandone a leitura aqui mesmo, para não perder o seu tempo.

Percepção da Corrupção – Créditos na imagem

Mas se você, assim como eu, acha que este é um tema extremamente complexo e que qualquer análise feita com o fígado pouco acrescenta para a discussão e especialmente para o objetivo de construir um país melhor, talvez encontre neste texto ideias que ressoem com os seus anseios. O objetivo aqui será fazer uma análise crítica deste tema tão complexo e tão profundo, sem qualquer desejo de propor respostas, mas apenas de levantar questões que possam contribuir com o enriquecimento da discussão.

Feito todo esse preâmbulo, vamos começar. O primeiro ponto a se discutir é que os governos do PT, de 2003 a 2014(os dois anos do segundo mandato de Dilma sequer podem ser considerados aqui, tamanha a disposição de diversos setores da sociedade e da politica em sabotá-la antes de sequer avaliar o que ela tinha a propor) foram os primeiros governos da história do Brasil a terem de lidar com a internet e as redes sociais. Ainda que em 2003 a internet estivesse longe de estar presente em todo o país, como hoje, já tínhamos uma boa parcela da população utilizando a rede. E mais do que isso, eram os primeiros passos das redes sociais, em especial com o surgimento do Orkut e MSN. Posteriormente vieram facebook, twitter, Instagram e todas as outras redes que surgem e desaparecem diariamente no mundo de hoje.

Mas o que isso tem a ver com a corrupção nos governos do PT? Tudo! Foi nessa época em que surgiram os grandes portais de notícias que repercutiam as denúncias de corrupção em tempo real, sem haver a necessidade de fechamento de uma edição diária, semanal ou mensal de jornal ou revista para publicação. Foi o início da era da informação imediata e da repercussão massiva nas redes sociais. Pense comigo: antes das redes sociais e da internet, as denúncias de corrupção chegavam ao grande publico somente via telejornais, especialmente o Jornal Nacional. A pessoa via as notícias do dia, se revoltava com as denúncias de corrupção, talvez repercutisse ali com as pessoas que habitavam a mesma casa, mas depois ia jantar, ver novela, acompanhar um filme na TV ou uma partida de futebol e depois ia pra cama. No outro dia, esse assunto, ainda que surgisse ao longo do dia, não estava no topo da lista dos pensamentos da pessoa. Com a internet e as redes sociais isso mudou. O volume de informações a que temos acesso, o tamanho, o alcance e a duração da repercussão tornou-se muito maior, o que nos leva à percepção de que o volume de denúncias é muito maior atualmente.

Ou seja: os governos do PT foram os primeiros que tiveram de lidar diária e exaustivamente com o escrutínio massivo de cada noticia na internet. E aí entra um segundo fator muito importante: foi a primeira vez que um partido de orientação política de esquerda governou nosso país. Os verdadeiros donos do poder ficaram muito sentidos com isso, ainda que tivessem sinalizado positivamente em um primeiro momento. Foi como se dissessem: “tudo bem, vamos deixar vocês governarem, mas estaremos de olho para massacrá-los ao menor deslize que cometerem”. A disposição para o superdimensionamento de cada denúncia feito durante os governos petistas já era muito maior que em qualquer outro governo anterior. Mesmo sem a massificação da internet, o PT já iria sofrer bastante com a mídia negativa em seu governo, pelo simples fato de serem um governo surgido das esferas mais humildes da população. Aqui entra outro componente bacana dessa equação: o ódio de classes. O PT não somente conseguiu alcançar o poder vindo da classe trabalhadora, como construiu uma máquina gigantesca que ousou se manter no poder, mandato após mandato. Então a hiperexposição de cada denuncia de corrupção, a manipulação da narrativa para que fossem apresentadas como as maiores já vistas no país, tudo isso contribuiu para essa visão disseminada entre muitos hoje que “nunca havia se roubado tanto” quanto durante o período do PT no poder.

Será mesmo? Vamos jogar uma luz sobre os principais escândalos de corrupção durante a Era PT no poder. O primeiro deles e que rendeu condenações a inúmeros personagens do alto escalão do governo petista foi o escândalo do mensalão. Minha nossa, que horrível! O governo tinha um orçamento mensal para distribuir entre parlamentares que votassem favoravelmente às medidas propostas pelo Executivo. Quais eram as principais medidas apresentadas à época? Sendo google free e puxando somente pela memória: Programa Fome Zero, Bolsa Família, Criação de Novas Universidades Federais e Ampliação do orçamento para reforma, infraestrutura e novas cursos e vagas para as já existentes, Programa de Aceleração do Crescimento, visando obras de infraestrutura em todo o país, PROUNI e Minha Casa Minha Vida.

Tudo bem, vamos deixar de lado as pautas e voltar para analise somente do fato: governo pagando “mesada” para parlamentares a fim de garantir maioria no congresso. À época foi alardeado como o “o maior esquema de corrupção da história”. Aí eu questiono: em que este esquema difere do esquema adotado pelo governo FHC na década de 90 por muito tempo para aprovação de projetos do governo e que veio à tona com denúncias quando houve a votação da emenda constitucional que permitiria a reeleição presidencial? Se buscar reportagens da época, todas tratavam da denúncia com muito mais permissividade, alegando que se tratava de algo questionável, mas compreensível. Hoje, 25 anos depois, a grande maioria da população sequer se recorda do fato que, em essência, trata-se exatamente do mesmo caso do Mensalão, que até hoje rende ao PT a alcunha de “partido de ladrões”.

Vamos falar agora do segundo escândalo de corrupção nos governos do PT que veio para substituir o anterior como “o maior esquema de corrupção da galáxia”: as investigações da Lava Jato sobre as negociatas entre empreiteiras e a Petrobrás. Na última década, este caso tornou-se o assunto mais falado em todos os telejornais e portais de internet do país – quem não se lembra da abertura diária do Jornal Nacional falando por 20 minutos sobre as delações do processo com aquele tubo enorme escorrendo nota de 100 reais às costas do Bonner?

Uma vez mais a história vem em nosso auxílio para lançar um olhar um pouco mais crítico a tudo o que aconteceu. Todas as empreiteiras citadas neste processo são empresas gigantescas e que prestaram e continuam prestando serviços de infraestrutura ao governo federal desde a década de 60, quando surgiram e enriqueceram. Alguém realmente acredita que as negociatas de superfaturamento, notas frias e favorecimentos em contratos públicos só ocorreram nos anos de governos do PT e todos os contratos realizados nos 40 anos anteriores possuem lisura e foram rigorosamente cumpridos sem qualquer desvio?

Como podemos avaliar as inúmeras obras faraônicas realizadas durante a Ditadura Militar que nos presenteou com uma lista enorme de elefantes brancos com pouco ou nenhuma utilidade pratica? Foram produzidas somente por conta do ufanismo militarista de mostrar um “Brasil Potência” ou foram enormes esquemas de corrupção e enriquecimento ilícito envolvendo o governo e empreiteiras intimamente ligadas à cúpula militar da época?

A respeito das denúncias da Operação Lava-Jato fia ainda uma outra questão: se o PT destruiu a Petrobras com os esquemas de corrupção, como que a empresa tem tido lucro liquido ano após ano? Pois é.

Olhando para a atualidade, como explicar o orçamento secreto? Por que não há diariamente nos jornais enormes reportagens a respeito desse repasse de verbas do Estado para parlamentares obscuros e para pagamento de notas de serviço altamente suspeitas em todo o país? E o já esquecido caso dos milhões de dinheiro publico repassado a prefeituras para pagamento de shows de cantores sertanejo por 3 ou 4 vezes o valor normal de um cachê cobrado por eles? O que tá acontecendo? Isso não é indício de corrupção aos olhos dos zelosos defensores da moral e críticos ferrenhos da era do PT no governo?

Para concluir – até porque o texto já ficou longo além da conta – façamos duas reflexões. A primeira é: se o PT é o partido mais corrupto da história do Brasil e foram eles que criaram a corrupção em nosso país, porque o partido sequer tem o maior número de políticos condenados por corrupção? Essa primazia cabe quase integralmente aos partidos do chamado “centrão” que hoje estão aí cheios de carícias, intimidade e alinhamento com o atual “presidente da república”, o príncipe anticorrupção, paladino da moral e lisura. O partido com o maior número de condenados – e com uma certa margem perante os demais – é o PP, coincidentemente o mesmo partido que abrigou o então parlamentar Bolsonaro por mais de 20 anos (e por toda carreira do coronelíssimo prefeito de Uberlândia). Outros destaques nessa lista impressionante são o PL – cujo presidente do partido, Valdemar da Costa Neto foi condenado e preço por corrupção, cumprindo prisão domiciliar por muitos anos e hoje abrigando, vejam só, o atual presidente da república – e o PTB, cujo presidente Roberto Jefferson não pôde se candidatar à presidência por estar impedido pela lei da ficha limpa(condenado por casos de corrupção) e que nos premiou com o falso padre surgido do submundo para tumultuar os debates presidenciais e servir de escada para o atual ocupante do planalto. Não é no mínimo curioso que partidos tão manchados por casos de corrupções em suas fileiras estarem todos alinhados ao governo que alega ter “acabado com a corrupção”?

Em segundo lugar, a reflexão final: corrupção é uma denúncia relativamente fácil de se fazer, porém muito complexa de se comprovar. Afinal de contas, entre tantas contas públicas, notas de serviço, licitações e concessões, como rastrear de onde vem o dinheiro e para onde vai para que se possam estabelecer provas confiáveis que houve desvio de dinheiro público para enriquecimento ilícito dos favorecidos, configurando-se assim o crime de corrupção de fato? Isso somente é possível se houver um investimento maciço em órgãos de fiscalização publica, como Ministério Público, Policia Federal e em toda a esfera judiciária. Com autonomia e infraestrutura para realização de um bom trabalho investigativo, as denúncias de corrupção surgirão aos montes – até porque, como já havia dito aqui – esse é um traço cultural inerente à sociedade brasileira.

O contrário também é verdadeiro, quanto menos autonomia e investimento houverem para investigações, menos denúncias e condenações por corrupção haverão. De novo, ao se olhar para os governos anteriores no Brasil, em qual momento da história foram criadas mais medidas para controle das contas públicas (como o Portal da Transparência, abandonado no governo Bolsonaro) e para liberdade investigativa do ministério publico e polícia federal no combater a corrupção? De 2003 a 2014, e quem estava no poder durante esse período? O PT.

Entendam de uma vez por todas: não acredito que não houve corrupção nos governos do PT; pelo contrário, sei que houve. Na realidade este é o meu maior ponto de crítica ao PT: para ser governo, deixaram de lado muito da identificação histórica do partido e se aproximaram com enorme semelhança às praticas adotadas historicamente em todos os governos anteriores, provando que, para conseguir governar no país, não importa se o partido é de esquerda ou direita, ele vai precisar aprender a jogar esse jogo obsceno de troca de favores com o congresso, do contrario passará ao rodapé da história como um governo fraco que não conseguiu levar adiante nenhuma politica autoral durante seu mandato.

Em outras palavras, o aspecto mais criticado nos governos do PT e aquele pelo qual é condenado veementemente como o mais imoral dos governos é o aspecto no qual ele mais se assemelhou aos governos de direita que vieram antes e depois da década em que o partido dos trabalhadores esteve no poder.  A grande diferença é que a hiperexposição de cada denuncia de corrupção por conta das redes sociais e internet existentes hoje e claro, a disposição da grande mídia – ressentida até hoje por um partido de origem popular ter chegado ao poder e ousado se manter lá – em querer massacrar a historia e o maior personagem do partido para que nunca mais ousassem ser governo no país. O projeto e o desejo não é só o de pregar de forma irremediável o rotulo de “bandido corrupto” em Lula e o PT. É o de massacrar as lideranças de esquerda para que nunca mais ousem ser governo no país.  O projeto em voga no país não é o de condenar e combater a corrupção, é o de construir uma narrativa na qual estes crimes só aconteceram e acontecem nos governos de esquerda, para que isso fique impregnado no imaginário popular e nunca mais consigam chegar ao poder.

O combate à corrupção talvez seja a mais inglória e difícil das batalhas a se promover no Brasil, pois como disse anteriormente, ela mexe com traços culturais nacionais e, por se tratar de uma pauta altamente moral, é facilmente distorcida com uma narrativa pseudo-religiosa e repleta de uma moralidade tacanha que não se atreve nunca a olhar de forma crítica a assuntos complexos, mantendo uma análise rasa e superficial do tema, pois assim é mais fácil de engajar e manipular o máximo de pessoas para aceitarem a narrativa estabelecida pelos verdadeiros donos do poder no Brasil. É difícil, complexo e exaustivo tentar ser critico nesta temática, mas somente insistindo no assunto é que poderemos um dia ver alguma mudança, ainda que marginal, nessa realidade.

A hora da esperança

Na última segunda feira, fiz uma postagem a respeito do resultado das eleições gerais do Brasil em 2022. No texto, repleto de tristeza e desânimo, comentei que mais do que o resultado das eleições, perdemos enquanto sociedade que desperdiçou mais uma chance de ser um pouco melhor, de avançar um pouco mais.

Não vou negar, fiquei muito decepcionado com o resultado; foi muito triste atestar que uma grande parte da população, mesmo tendo sofrido perdas pessoais e materiais enormes nos últimos 4 anos, continua apoiando este terrível projeto de poder neofascista excludente e preconceituoso representado pelo atual ocupante da cadeira de presidente da república. Minha frustração maior foi constatar que, para além dessa figura repugnante, boa parte de seus apoiadores que se lançaram em candidaturas próprias obtiveram bons resultados. Certamente acreditei que após tanta tristeza, esse movimento perderia forças.

Assumo a minha ingenuidade. Apesar de sempre fazer uma análise crítica do perfil sociocultural do brasileiro, ainda relutava em aceitar que o brasileiro poderia ser assim tão conservador, preconceituoso e misógino como se apresentavam estes candidatos. Mas a realidade é que somos verdadeiramente assim mesmo, o Brasil é um país com os dois pés fincados na tradição e ainda que tenhamos bolhas de progressismo e liberdade em alguns locais (quase sempre nos maiores centros urbanos); na maior parte do país, especialmente no interior, o tradicionalismo é quase lei, estimulado pela herança religiosa sistematicamente. Seja na tradição católica que ainda possui muito espaço, especialmente nas pequenas cidades e no campo, ou com o crescimento do número de evangélicos no país, com destaque para as representações neopentecostais pouco sérias que possuem explícita e quase que exclusivamente um projeto de tomada de poder no país, antes mesmo de um objetivo de propagação da fé cristã.

É esse retrato de Brasil que emergiu das urnas no último domingo. Talvez por estar esperando um resultado alinhado à minha visão de mundo e dos fatos nos últimos anos, eu tenha ficado um pouco assustado com o que apareceu. Mas a realidade que vejo agora, passadas 48 horas e com a cabeça mais fria, é que este resultado era esperado. O congresso nacional foi e continuará sendo a partir da próxima legislatura o mesmo espaço de sempre: branco, elitista, latifundiário e conservador. Com raríssimas exceções pretas, pobres e progressistas que demonstram a pluralidade do povo brasileiro, que ainda permite a eleição de pessoas fora dos centros de poder contra todas as expectativas.

Tenho uma teoria de que o baque que sentimos é porque hoje temos muito mais acesso à informação e podemos acompanhar em tempo real o desempenho do congresso, coisa que não era possível há alguns anos. Com a massificação da internet e das redes sociais, temos na palma da mão amostras diárias dos posicionamentos de todos os congressistas, bem como todas as articulações que são feitas ali. É como um grande reality show bizarro que acompanhamos e podemos a cada 4 anos escolher os participantes da brincadeira. Dessa forma pudemos perceber o quão baixo é o nível intelectual e moral dos ocupantes da “casa do povo” e tendemos a acreditar que a cada legislatura o congresso eleito é o pior da história. Acredito que a diferença é que anteriormente não tínhamos esse acesso à informação para perceber que historicamente, sempre foi assim e o nível do congresso sempre foi deplorável.

Fiz todo esse permeio para concluir que o meu estado de desânimo pós domingo de esvaneceu. O resultado era esperado e foi apenas reflexo de todas as nossas mazelas enquanto sociedade. Temos muito para avançar e muito pelo qual continuar lutando para que o futuro possa ser um pouquinho melhor. E mais do que isso: acompanhando um pouco da reação da seita bolsonarista ao resultado das eleições, todos ficaram chocados e verdadeiramente sentidos com a vitória do Lula na eleição presidencial, resvalando na possibilidade de fechar já no primeiro turno, apesar de todas as pesquisas indicarem esta possibilidade como real.

O descolamento da realidade vivido por esse pessoal é tão grande que uma parte gigante deles acreditava verdadeiramente que o excremento da república iria vencer a eleição no primeiro turno e sentiram muito o golpe. São tão fascistas e adoradores da figura do lider infalível que não conseguem olhar para a realidade como um todo, e se interessam somente pelo resultado que afeta o seu lider. E justamente esse resultado foi o mais negativo que tiveram. Os 5 pontos percentuais que o capiroto ficou atrás de Lula, representando cerca de 6 milhões de votos os deixaram chocados e transtornados, pois finalmente perceberam que a possibilidade de perderem a eleição é muito real. E isso já se traduziu em um crescimento massivo no disparo de notícias falsas e insultos a Lula.

Por isso, a nós progressistas que estamos do lado certo da história (a quem ainda duvida disso, o tempo irá confirmar) cabe redobrar os esforços e colocar ainda mais energia na eleição de Lula presidente, para deixar os bolsominions transtornados e sem chão. O congresso é retrogrado? Azar. Lula já enfrentou algo assim no passado e se saiu muito bem. O congresso vai dificultar a vida e os projetos de governo de Lula? Pode ser, mas ao mesmo tempo, Lula, como chefe do executivo, poderá vetar todos os absurdos que o congresso insistir em seguir adiante. Os próximos anos poderão ser um grande cabo-de-guerra do poder? É possível, por isso é ainda mais importante garantir que teremos um lado com muita força para travar essa batalha contra o obscurantismo e conservadorismo do outro lado.

O congresso está eleito, os cargos estão todos definidos e para nós, o foco agora é total na eleição de Lula Presidente. É hora de lutar contra cada peça de desinformação que for lançada. É hora que conversar com os mais humildes para ajudá-los a entender a importância de votar em quem olha para os mais pobres. É hora que conversar as pessoas religiosas que estão verdadeiramente com medo de uma “ameaça comunista” que está chegando desde 1945 e nunca se materializa de fato. Concluindo, é hora de lutar contra a mentira usando a verdade.

É hora de ser aberto, inclusivo, construir pontes com os mais humildes, incluí-los no centro da discussão, quebrar resistências, desmentir absurdos. É hora de força total. Sentimos o baque no primeiro turno. Vamos sacudir a poeira, respirar fundo e continuar a lutar pois a nossa vitória será muito maior e muito mais gratificante. O bolsonarismo é fruto do ódio e da violência, por isso sentiram e sentirão ainda mais o golpe após a derrota final, pois ela virá do amor e da alegria, da esperança em um futuro melhor, apesar de tudo. Como bem disse Zeca Baleiro em sua canção “nossa vingança vai ser de doer, porque seremos felizes como eles não podem ser”, pois quem ressoa no ódio e na carnificina não consegue experimentar verdadeiramente a alegria.

Seguimos na luta, são mais 25 dias de batalha pelo nosso futuro, para que possamos dar um passo mais próximo do destino que queremos seguir, do país que queremos construir e do futuro que queremos preparar para as próximas gerações. Para que possamos sonhar que podemos ser grandes, que podemos ser felizes e que podemos ser verdadeiramente um país inclusivo e justo para todos. Para que possamos verdadeiramente ser a imagem de acolhedores, alegres e sociáveis que tanto tentamos divulgar para o mundo. Podemos ser melhores, podemos ser mais felizes, basta querermos.

Batemos na trave, gente! Mesmo após 10 anos de insultos e perseguição diária da mídia e do gabinete do ódio, contra a máquina estatal usada para fins eleitoreiros, Lula conseguiu a maior votação que um candidato já conseguiu para presidente da república na história do Brasil. Faltou 1,5% para ser eleito no primeiro turno. Sendo massacrado diariamente por todos os lados, ainda assim quase deu pra fechar no domingo. É seguir na pegada. É hora de ter esperança. É hora de acreditar que podemos ser felizes. Que temos direito a um país onde tenhamos paz, respeito, liberdade e inclusão. Podemos e merecemos acreditar que o Brasil pode ser melhor do que somente ódio, ofensas e armas. Merecemos sorrir, brincar e se alegrar! Falta pouco! É só querer, converse com todos, vamos construir uma grande onda de alegria e esperança, é isso que o Brasil precisa após tantos anos de trevas e luto! O amanhã há de ser melhor! Seguimos lutando!!

Infelizmente, perdemos.

Sei que várias pessoas poderão me censurar ou me condenar por estar sendo muito pessimista em um momento já crítico ou estar desistindo antes da hora, mas a única palavra que me vem à mente ao tentar traduzir a sensação de vazio na boca do estomago ao acordar hoje, na primeira manhã pós resultado das eleições de ontem, é essa: perdemos!

Triste país – imagem autor desconhecido (para créditos, entrar em contato)

E o uso do pronome “nós” aqui é utilizado não somente para se referir a nós, militantes progressistas situados mais à esquerda no espectro político. O nós aqui é utilizado para se referir a todos NÓS, cidadãos brasileiros que, após passar anos nos deslocando a pé por um campo minado, debaixo de chuva contra inimigos muito mais bem equipados e sem qualquer clemência, chegamos à beira de um precipício e ao invés de usarmos a ponte que nos ofereceram para chegarmos em segurança ao outro lado, optamos por tentar pular o precipício acreditando que de alguma forma conseguiremos alcançar o outro lado do desfiladeiro.

Está além da minha capacidade lógica e racional entender o que acontece com o Brasil e o brasileiro nos últimos anos. O resultado das eleições de ontem mostram um povo perdido que procura a salvação nas mãos de seus carrascos, como animais que seguem com docilidade o caminho indicado por seus algozes ao matadouro. E aqui não me refiro exclusivamente à expressiva votação da pústula necrosada que temos o desprazer de chamar de “presidente”, mas sim ao cenário geral no qual praticamente todos os representantes desse mal pulsante chamado “bolsonarismo” tiveram expressiva votação para os mais diversos cargos.

É desesperadamente assustador pensar que um resultado desses pôde acontecer após estes 4 anos que vivemos. Este governo foi, com sobras, o mais desconectado dos anseios e necessidades da grande massa populacional do nosso país e o mais focado em governar visando única e exclusivamente os objetivos próprios. Foi um governo inteiramente voltado para atender aos caprichos do presidente e entregar o país aos desejos dos financiadores de sua campanha, utilizando a máquina estatal para dobrar o Brasil à suas vontades, não importando o quão inconstitucional eram suas atitudes.

E mesmo assim, conseguiu obter uma votação ainda mais expressiva que em 2018. Não importaram as mortes por descaso na pandemia. Não importaram as mortes na miséria causadas pela fome. Não importaram as mortes causadas pela escalada da violência com o armamento massivo de pessoas incapazes de operarem funcionalmente um garfo e faca à mesa. Não importaram as mortes causadas pelo avanço do desmatamento em nossas florestas. Não importaram quaisquer mortes causadas por esse governo, direta ou indiretamente. Pior, todos os cúmplices do “presidente” nessa carnificina – sejam por ação direta ou por conivência – que se lançaram candidatos a algum cargo nestas eleições foram eleitos com margem considerável, validando e relativizando os absurdos diários que vivenciamos nestes últimos anos.

Duas frases que vi ontem nas redes sociais resumem muito bem o desamparo e o desespero que estamos experimentando hoje: “o pior congresso da história será substituído pelo pior congresso da história”, provando que o fundo do poço pode não ter fim quando se há disposição de muitos para continuar cavando; e “agora é mais desanimador que em 2018, uma vez que as pessoas puderam experimentar o horror e metade delas quer continuar nele”, mostrando o inexplicável desejo do brasileiro em proporcionar meios para o próprio sofrimento.

Então, me desculpem as pessoas que querem se manter otimistas: admiro vocês, a resiliência e a capacidade em se manterem positivos e animados diante deste cenário aterrador. Até concordo com vocês, ainda há muito o que fazer e devemos continuar lutando para eleger Lula presidente. Acredito até que devemos fazer isso com ainda mais afinco, pois no final de contas esta é a única tábua de salvação que nos restou, a única boia que poderá nos manter à superfície em um mar revolto e repleto de tubarões. Mas a realidade crua e nua é que serão anos ainda mais difíceis pela frente, pois mesmo que Lula vença (e estarei 100% focado em lutar por este objetivo) a realidade é que será muito difícil para ele conseguir governar da forma positiva e progressista que gostaríamos, pois terá que lutar contra um congresso assustadoramente conservador e uma população que valida os seus absurdos. É uma tênue luz que pode nos guiar em um corredor longo e angustiante que nunca foi tão sombrio.

Lamento muito soar tão desanimado, mas depois de ontem, infelizmente a sensação é que mesmo que possamos vencer a última eleição que resta, na verdade já perdemos. Perdemos enquanto nação, enquanto sociedade que optou por validar a violência, a misoginia, o racismo, a vulgaridade, o desprezo pela vida humana, a falta de educação e o desprezo pela ciência e a defesa do meio ambiente. Por mais triste que seja assumir isso, a verdade é que, independentemente do resultado em 30 de outubro, nós já perdemos. Sairemos deste processo ainda pior que entramos.

Sobre falsos padres, falsos debates e falsa universalidade democrática

Este será meu último texto antes das eleições deste domingo; meu planejamento era nem escrever mais sobre esse tema, mas o espetáculo escatológico que foi este último debate presidencial me força a expressar algumas palavras ante de me recolher ao silêncio. Como vou tratar de vários temas em um mesmo texto, vou separá-los em caixas a fim de não perder nenhum ponto importante e facilitar o entendimento das ideias.

Em primeiro lugar, é importante falar sobre a representatividade em debates políticos. Em outro momento podemos até discutir se o formato de debates como é hoje ainda é valido ou precisa ser reavaliado, mas aqui quero falar somente sobre a representatividade no evento. Entendo que a legislação eleitoral afirme que somente partidos com pelo menos 5 deputados no congresso possam participar de debates eleitorais, porém este modelo é altamente excludente, além de perpetuar o mesmo discurso e narrativa em todos os pleitos. Se é garantida a universalidade do processo eleitoral a todas as pessoas e partidos, ela deveria valer também para a representatividade nos debates. Por que razão é permitido a um extremista de direita como o tal falso padre aparecer no debate e ganhar espaço e visibilidade para suas ideias malucas enquanto a extremistas de esquerda não podem ter o mesmo direito? Por que outros partidos nanicos com percentual de intenção de votos igual ou maior ao falso padre não podem se apresentar ao grande publico e expor suas ideias para provocar discussões diferentes das que sempre são apresentadas? É urgente revisar este artigo da legislação eleitoral: ou se dá visibilidade a todos de forma igualitária para que a população conheça a todos os candidatos ou se cria outro mecanismo que somente os principais candidatos nas pesquisas de intenção de votos possam participar de votos, algo como somente quem tiver 5% ou mais de intenção de votos – portanto com uma parcela que pode impactar efetivamente no resultado da eleição – terá direito a participar de debates. Excludente, com certeza, porém mais justo que o modelo vigente, pois igualaria candidatos insignificantes da mesma forma. Neste cenário, basicamente, teríamos somente 3 candidatos participando do debate neste ciclo eleitoral e somente neste último a candidata palíndromo poderia participar, por ter atingido 5% de intenção de votos.

Aliás, sobre isso, é importante ressaltar que o debate presidencial nestas eleições(e em praticamente toda a história da democracia brasileira) é todo tomado pela narrativa da direita. Todos os candidatos, exceto Lula, são do espectro à direita do pêndulo político. É literalmente todos contra um na construção do diálogo. A narrativa e os temas abordados são todos pautados por esses interesses. O quão enriquecedor poderia ser o debate para a população brasileira se houvessem mais candidatos de esquerda para colocar em pautas temas como transporte público, combate à miséria, saneamento básico, direitos do trabalhador e criação de empregos formais, temas muito mais próximos e impactantes na vida da maior parte da população que o eterno e vazio discurso de combate à corrupção ou “o que o mercado acha disso ou daquilo”? Até quando a discussão política no Brasil será pautada única e exclusivamente pelos donos do poder e nunca pelo povo?

Outro ponto a se destacar é a covardia do atual excremento da República, sem coragem para confrontar diretamente seu principal e infinitamente e superior adversário que lidera as pesquisas, e se utilizar destes candidatos laranjas para que possam atacar por ele. Para quem fica diariamente se colocando como o machão cheio de virilidade, uma postura muito medrosa e fraca. Fica a curiosidade (que espero não ser sanada) de ver como se portaria em um eventual debate de segundo turno, tendo que tratar direta e exclusivamente com adversário único, muito mais preparado e superior em todos os quesitos.

Por fim, se o Brasil fosse um país realmente sério, após 4 anos de absurdos diários, violência, mortes, fracasso na economia, descaso na saúde, falência da educação e entreguismo na defesa do meio ambiente, um candidato como o atual excremente da república não deveria ter mais que 5% de intenção de votos, cota destinada aos lunáticos e sociopatas de todo o país. Com a máquina pública nas mãos ainda poderíamos acrescer outros 5 a 7% de votos, o que somaria um terço do que possui, o que demonstra a falência moral e educacional da maior parcela da população brasileira. Mais triste ainda é ver partidos historicamente relevantes e progressistas como PTB e PDT se sujeitarem a servir de escada para o crescimento de um personagem tão vil e sujo como o capiroto do planalto. Uma vergonha para a história. Getúlio e Brizola se contorcem no caixão.

EXTRA: chamar alguém que se autointitula padre, porém não é ordenado e sequer participa da igreja da qual diz ser representante de impostor e afirmar que está usando uma fantasia não é faltar com respeito nem ofender. É simplesmente relatar um fato. O tal padre surgiu claramente para fazer o trabalho sujo de atacar o Lula nos temas pseudocristãos e de zero relevância para a governança de um país para o que excremento da república possa ser considerado minimamente ponderado, sem ter que assumir a responsabilidade por estes ataques. Uma vergonha que a justiça eleitoral permita esse tipo de conchavo.

IMPORTANTE: eleitores de Ciro e Tebet, sei que vocês insistem na decisão de não apoiar a tal polarização que tanto criticam, mas ela está aí e continuará acontecendo ainda mais fortemente se houver um segundo turno entre os candidatos que vocês alegam repudiar. Portanto, o voto de vocês não terá relevância na redução da polarização se for mantido nestes candidatos. Mas terá EXTREMA relevância se optarem por deixar de lado essa isenção e votar no único candidato que pode ser eleito já no próximo domingo e que irá garantir aos seus preferidos o direito de tentar novamente a presidência daqui a 4 anos com melhores chances. Com Lula presidente já no primeiro turno evitamos, não somente uma escalada ainda maior na polarização e violência até o segundo turno, como garantimos uma mensagem de força da democracia necessária para que possam tentar eleger seus candidatos a presidente em 2026. Com Lula eu tenho certeza de que a democracia brasileira continuará existindo, inclusive com o direito à forte oposição. Com o excremento da república tendo chances de se reeleger, ele ganha força em sua escalada golpista e antidemocrática e tentará se perpetuar no poder, até porque, se sair, sabe que será preso. Vocês têm a oportunidade de verdadeiramente serem a diferença entre a civilização e a barbárie nestas eleições. Podem ser voz relevante no processo democrático ou irrelevância estatística. Sejam conscientes. Em 2018 por escolha eu queria votar em Boulos presidente no 1º turno, mas optei pelo voto útil em Ciro por acreditar que teria maior chance de vencer Bolsonaro e o antipetismo no 2º turno outrora. Agora é a vez de vocês fazerem este movimento em direção ao voto útil em Lula e na democraria. O Brasil conta com vocês! Sejam conscientes!

ADENDO AOS MINEIROS: estamos fazendo bonito nas pesquisas e dando quase 20 pontos de vantagem para Lula contra o excremento da república. Mas não podemos escolher Lula e votar em Zema ao mesmo tempo. Zema é um bolsonaro embalado pra presentes. Zema é o bolsonarismo que aprendeu a escovar os dentes. Não podemos permitir um filhote do bolsonarismo se manter no poder em Minas. Lula é Kalil e Kalil é Lula. Se lembrem disso!

Esqueçam o combate à corrupção

Combate à corrupção – Créditos na imagem

Estamos a menos de 10 dias do primeiro turno das eleições de 2022, as mais importantes desde a redemocratização do Brasil, por isso o momento é bastante oportuno para abordar algumas questões que venho refletindo há meses, com relação a temas relacionados à presumida “festa da democracia”.

E o tema escolhido para abrir esta série de textos que trarei daqui até as eleições não poderia ser outro senão o combate à corrupção, ou sendo mais enfático, a própria corrupção em si. Este é um tema constantemente em voga ao se tratar de política e se for feita uma pesquisa com os cidadãos brasileiros que dizem detestar a política, me arrisco a dizer que a corrupção será apontada como a principal razão de tal “ódio”. Mais do que isso, o atual “presidente” (sempre entre aspas porque o elemento que hoje ocupa o planalto não é digno de ser tratado como presidente de fato), em sua busca ensandecida para se manter no poder – a fim de evitar a prisão por todos os crimes cometidos nos últimos 3 anos e meio – insiste no tema ao tentar colar a imagem de corrupção como exclusiva aos governos do PT e, consequentemente ao presidente Lula.

Não vou aqui fazer uma defesa dos governos petistas, tampouco vou me estender falando dos inúmeros escândalos de corrupção no atual governo, e muito menos vou ceder à tentação de cair na celeuma da competição de quem é mais corrupto, ou quem roubou mais porque não vai levar a lugar nenhum. De forma alguma; aliás, meu objetivo aqui é outro: é de expor a minha ideia de que deveríamos esquecer essa conversa de combate à corrupção em debates eleitorais e muito menos estabelecer esse requisito como parâmetro na hora de escolher um candidato no dia 02 de outubro.

E não falo somente das eleições presidenciais, mas de todo o espectro de cargos e candidatos existentes no pleito atual. É urgente e imprescindível que deixemos de lado essa temática anticorrupção porque a corrupção não deixará de acontecer, independentemente dos candidatos que possamos escolher no início do próximo mês. A corrupção é um traço cultural brasileiro, me arrisco a ir até um pouco mais além e dizer que se trata de uma predisposição da própria raça humana. O homo sapiens, como animal que é, foi constituído biologicamente para garantir a sua sobrevivência e do seu grupo imediatamente ao redor, utilizando para isso de todos os mecanismos possíveis, principalmente o seu imenso cérebro altamente desenvolvido. As regras sociais que ditam que tal comportamento é corrupto foram criadas posteriormente à constituição humana, portanto são estranhas ao nosso comportamento animal, daí que em uma ocasião na qual possamos obter uma vantagem que nos traga uma realização pessoal, raramente deixamos de aproveitar esta oportunidade, ainda que socialmente possa ser vista como um comportamento corrupto.

Sejamos honestos: todos nós cometemos pequenos atos de corrupção constantemente quase sem perceber. Seja furar uma fila enorme porque há um conhecido lá na frente que nos oferece um lugar junto dele, ou então a tal “caixinha” de TV para obter os canais pagos de forma gratuita, ou ainda os “cafezinhos” ou brindes que oferecemos ou recebemos a fim de desenrolar um trabalho mais rapidamente que por vias formais e corretas. Fato é que a diferença entre o cidadão comum que vive a sua vida comum e obtém pequenas vantagens cotidianas vistas como algo normal, e o político no congresso que desvia milhões de verbas direcionadas à hospitais ou merenda escolar de crianças para uso pessoal é puramente a oportunidade apresentada. Qualquer um de nós, que estivesse em condições similares à do político corrupto dificilmente teria uma reação diferente.

“Ah, mas veja bem, você está generalizando, não são todas as pessoas que são assim, isso é um absurdo”, diriam alguns. É mesmo absurdo? Será que, mesmo que lustremos nossa consciência com um verniz de idoneidade e ética, lá no fundo do nosso cérebro, a ideia de obter um dinheiro fácil, quase sem riscos, que eu poderia usar para o que bem entender, não mexe conosco? Será que eu seria capaz de “ceder à tentação” de ter um ganho tão fácil e simples assim?

A questão é pertinente, não acham?

E aí eu chego ao meu argumento final: a corrupção nos governos irá acontecer de qualquer forma. Seja X, Y ou Z no poder, os esquemas continuarão ocorrendo, ainda que uma ou outra voz dissonante queira chamar a atenção para algum esquema em particular. Porque trata-se de uma roda gigantesca que gira independentemente de quem esteja movendo-a no momento. Seja por qualquer motivo, é muito difícil alguém entre no governo, em qualquer cargo que seja, e terá condições de verdadeiramente combater a corrupção.

Sejamos práticos, o discurso anticorrupção é tão velho quanto a própria república brasileira. Temos documento históricos de campanhas na velha republica prometendo o fim da corrupção. Temos a mítica canção do “varre varre vassourinha’ prometendo varrer a corrupção do governo. Temos o “caçador de marajás” que ia limpar o país dos corruptos e caiu justamente por denúncias de corrupção.

Poderia prosseguir por horas, mas o fato é que combate à corrupção deve ser a promessa de campanha mais comum na política brasileira, e por isso não deveria ser a régua utilizada para medir os candidatos. Olhem para o programa de governo de cada um deles, vejam o que propõem para melhorar a dignidade do cidadão brasileiro. Quais suas propostas para a saúde, como irá fomentar a educação, quais as estratégias para o combate à violência e a pobreza, como pretende preservar o meio ambiente, dentre outros temas. Estes deveriam ser os tópicos relevantes ao se escolher um candidato. Esqueçam o combate a corrupção. Nenhum candidato conseguirá de fato mexer com esse tema. Seja por medo de ser rechaçado por seus pares, por ameaças ou simplesmente pelo tamanho do desafio para de fato ter alguma mudança, essa é uma promessa que não será cumprida, então deixem de lado de uma vez por todas essa discussão vazia e cobre dos candidatos maior profundidade de discurso e soluções concretas para os maiores problemas do país.

A redução da corrupção será consequência de um conjunto de transformações socioculturais em nosso país, e não causa. Será preciso investir muito tempo, dinheiro e disposição em ética, cidadania e principalmente educação para que possamos chegar a um patamar de verdadeiramente perceber uma redução na corrupção nacional. Neste momento, não será possível, foquemos, pois, naquilo que está ao nosso alcance: a chance de proporcionar uma vida um pouco mais digna a todos.