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Reapresentação

Sejam todos muito bem vindos ao meu blog pessoal. Aqui é um espaço livre para falarmos de tudo aquilo que me interessar ou não, mas considerar pertinente compartilhar com vocês. A ideia de um blog não é nova. Para as (poucas) pessoas que chegarem a este texto e talvez me conhecessem há 10 anos atrás, eu tinha um espaço similar que perdurou de 2009 a 2014, onde eu falava dos meus assuntos de maior interesse. Foi um período bastante prolifico, talvez por falta do que fazer – saudades da tranquilidade da vida naquela época – mas o fato é que ficava bastante tempo interagindo no blog em um tempo que blogs ainda eram uma ferramenta amplamente utilizada na internet – infelizmente as redes sociais vieram e eclipsaram quase que inteiramente todas as demais mídias.

Aliás, sei muito bem que um blog escrito em 2022 é quase um contrassenso, mas a realidade é que a minha vontade é exatamente essa: que este espaço seja um local de resistência, onde a palavra escrita possa resistir e continuar a existir. Em um tempo de vídeos rápidos e uma enxurrada de informações, este blog se propõe exatamente ao contrário; para aqueles que aqui chegarem possam tirar um tempo para ler um texto, refletir e cordialmente expressar suas opiniões se sentir vontade. Não sei quanto a vocês, mas acho que esse excesso de vídeos a que somos expostos estão nos emburrecendo. O texto escrito é mais desafiador, exige mais atenção, mais foco, mais disponibilidade e interesse, além de maior capacidade cognitiva para processar a informação, entender o sentido e finalmente absorver o que está sendo dito. Sei que soa um tanto arrogante, mas não é esse o desejo e sim de colaborar para a continuidade da existência da informação escrita. Ao menos para mim, prefiro mil vezes ler um texto de 3 páginas do que ver um vídeo poucos minutos falando exatamente a mesma coisa.

Como mencionei no início, este blog existiu em uma outra jornada e cenário, de 2009 a 2014, mas que optei por descontinuar devido à escalada do ódio nas redes sociais – mal imaginava eu que isso era somente o embrião de situações ainda mais sinistras e assustadoras e que hoje – agosto de 2022 – sentiríamos saudades de como as coisas eram naquele já longínquo 2014. Em 2020, tentei retornar no mesmo formato, mas com a chegada da pandemia e a descoberta da gestação de minha filha, este projeto ficou em segundo plano. Em 2021 busquei recomeçar uma vez mais, e cheguei neste espaço que hoje vocês encontram. Com maior ou menor assiduidade, tentarei manter uma frequência de postagens, que podem variam conforme as exigências de minha agenda. Porém seguirei insistindo.

Este é um espaço quase terapêutico, onde me expresso com calma e de forma às vezes prolixa a respeito de temas que me incomodam, me inspiram, ou ideias que me ocorrem cotidianamente. Aqui também posto resenhas das leituras que faço, das séries que vejo, ou sobre quase tudo que eu sinta vontade de expressar a minha opinião. Falo sobre política e esportes, e também sobre religião. Ou seja, a santíssima trindade de temas que não se devia discutir serão frequentes por aqui, talvez por fazerem parte da minha formação pessoal.

Portanto aqui falo sobre o tudo e o nada. Na maior parte os temas parecerão que interessam somente a mim, mas se aprendi algo nesse tempo de conexão remota é que nunca temos um interesse exclusivamente nosso, sempre poderemos encontrar alguém que partilhe daquilo. Aqui poderemos conversar, compartilhar e quem sabe até crescer com a opinião do outro. Ainda que possamos falar sobre o ódio, aqui não há espaço para sua existência. Aos que já frequentaram aqui anteriormente, desculpem a repetição do tema, mas aos que chegaram aqui pela primeira vez, achei importante fazer uma reapresentação. Sejam muito bem vindos, sintam-se à vontade. A casa é minha, claro, mas vocês são meus convidados de honra. Um texto, uma conversa, e uma reflexão podem não resolver os problemas do mundo, mas podem fazer maravilhas para ajudar a nos sentir melhor. Ao menos para mim é assim, e espero de coração que possa ser assim para vocês também… Saudações! 

A construção da narrativa

Acredito que a maior parte das pessoas já tenha visto as notícias de agora à tarde em Uberlândia,onde um drone pulverizador sobrevoou o local do evento de lançamento da campanha conjunta do ex presidente Lula e do prefeito de BH, Alexandre Kalil, lançando excrementos nas pessoas que encontravam-se no local.

No momento em que escrevo este texto não há comprovação dos autores do fato,mandantes nem as motivações por detrás do ato, mas não surpreende de as impressões digitais bolsonaristas estejam impregnadas em todo o incidente.

Em primeiro lugar, trata-se de um drone pulverizador de plantações, instrumento pouco barato e utilizado em plantações do agronegócio, um dos pilares de sustentação do regime bolsonarista, tanto financeiro quanto ideológico. Em segundo lugar,o desrespeito à dignidade humana, em que, não contentes em derespeitar manifestações contrárias ao seu “credo”, se usam de um demonstração repugnante de poder,o de jogar excrementos em outro ser humano.

Claro que posso estar falando besteiras aqui, e pode-se comprovar que o fato foi obra de um lunático solitário que achou que seria divertido jogar m**** em pessoas durante um ato político,ou mesmo um militante extremista que quis usar de um artifício para incriminar o atual presidente de um ato vil bem a seu estilo. Não duvido de nada. O Brasil de hoje esta tão surreal que qualquer narrativa,por mais absurda que pareça,pode se provar real.

Mas é fato que o episódio se encaixa à perfeição dentro da narrativa bolsonarista pra eleição que está por vir. Por um lado há a incansável acusação sem provas do “presidente” em cima da segurança das urnas e de todo o processo eleitoral. De outro, a narrativa de que as pesquisas eleitorais que apontam uma potencial derrota do atual presidente ainda no primeiro turno estão erradas, porque os eventos dos adversários tem pouca gente.

O ato de hoje é mais um elemento na construção dessa narrativa,onde os apoiadores do presidente iniciam um processo continuo de truculência e intimidação nos eventos dos adversários,a fim de deixarem os militantes opositores com medo de participar e esvaziar cada manifestação pública do principal adversário do presidente. Com isso utilizam de sua poderosa máquina de disseminação de notícias falsas e desinformação para vender a ideia de que se não tem gente nos eventos do adversário,como ele lidera as pesquisas? E assim vão construindo todo o cenário para contestar o resultado das eleições quando fatalmente o atual presidente for derrotado nas urnas. Contestação essa que ele irá usar como subterfúgio para validar o seu golpe na frágil democracia brasileira.

É tão claro quanto óbvio e triste. A democracia brasileira, que há uma década atrás parecia inexoravelmente solidificada, e a sociedade brasileira destinada aí progresso, hoje encontram-se reféns do retrocesso, da truculência e da estupidez, com uma pequena e tênue chance de sobrevivência,mas com a faca dos fantasmas do passado firme em suas gargantas, prontas para o golpe final que condenarão o país, uma vez mais, a tempos sombrios e de infelicidade. Já diziam que a história é cíclica e só mudam os personagens…

Resenhando (#14)

Acabo de terminar o meu maior desafio literário de 2022: ler as mais de 1600 páginas de “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. Foi um processo longo, penoso, cheio de altos e baixos, mas com um resultado misto, de emoções diversas. Ou como dizem os falantes da língua inglesa, um tanto “bittersweet”.

O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas

Mas, vamos à análise. Conheci a história por conta do filme lançado há 20 anos. Na minha ingenuidade de menino do interior de Minas, não tinha muita noção da existência destes clássicos da literatura de mais de 200 anos atrás, por isso a minha primeira experiência foi com a película cinematográfica, de uma forma um tanto curiosa. Em uma viagem de escola, nos tempos de colegial, o organizador havia levado 2 filmes para assistirmos na viagem. Um era “O Terno de 6 bilhões de dólares”, com Jackie Chan e o outro, O Conde de Monte Cristo.  Havia visto o primeiro no cinema, e o segundo acabou me prendendo ainda mais. Achei a história bem cativante e interessante e, quando soube muitos anos depois que era um filme baseado em um romance literário, fiz uma anotação mental para me embrenhar na leitura assim que conseguisse colocar as mãos no romance de mais de 150 anos.

A oportunidade surgiu há alguns anos, quando encontrei o ebook disponível na internet e o coloquei em minha biblioteca. Fiquei namorando e buscando disposição para encarar o calhamaço de quase 2000 páginas e, finalmente neste 2022 resolvi encarar o desafio. Como a versão que tive acesso é uma versão estendida, com nova tradução e comentários, acabou sendo um pouco mais extenso que o romance original, com impressões de jornalistas sobre a vida e a obra do autor, que auxiliaram a compreender um pouco mais sobre a conjuntura na qual a obra foi escrita e o processo construtivo de todo o texto. Algumas novidades me chamaram a atenção logo de cara, que foi o fato de que o livro não foi lançado completo logo de cara, mas sim em diversas partes ao longo de meses, quase como uma série de diversos volumes que iam se interligando para construir todo o universo do romance. A segunda parte que me chamou a atenção foi a de que Dumas não escrevia sozinho os seus romances, tendo vários colaboradores que auxiliavam ao longo do texto, colocando as suas próprias ideias e impressões, o que pode ser sentido ao longo da obra, ainda que de forma sutil em que nada impacte no resultado.

Posto isso, vamos ao livro. A primeira coisa a se falar é que é uma leitura um tanto cansativa, logicamente pelo tamanho do livro, que se pode presumir uma riqueza excessiva de detalhes e um prolongamento da narrativa além do essencial para garantir o interesse e a riqueza da história. Como a minha primeira experiencia com o universo foi pelo filme, é inevitável traçar paralelos e fazer comparações entre a película e o livro, e são absolutamente diferentes. O trecho mais fiel no filme é o início da narrativa, mostrando como Edmond Dantes foi traído e condenado à prisão perpétua e o seu tempo no cativeiro, até a ousada fuga do Castelo de If. A partir daí, há uma constante separação entre o filme e o livro, optando por caminhos diversos para narrar os caminhos que o Conde de Monte Cristo segue para perpetrar a sua vingança àqueles que o traíram.

O ponto mais marcante sobre essas diferenças é que no livro, são essencialmente 3 os personagens que tramam a prisão de Dantés e o levam a alimentar desejos de vingança, enquanto no filme, talvez até para se enquadrar melhor no formato cinematográfico de mocinho x vilão, os 3 personagens tornam-se um só que é o responsável por todo o infortúnio do nosso herói

Um aspecto interessante e ao mesmo tempo cansativo do livro é que, todo o cenário de fundo que permeia os trechos iniciais da obra, e os seus eventuais desdobramentos refere-se ao período napoleônico e o seu exilio para a ilha de Elba, sua tentativa de retomada do poder e sua expulsão definitiva, o que, para fanáticos por história como eu, é bastante rico de detalhes e agrega muito à história, ao mesmo tempo que, a riqueza de discussões politicas e históricas torna a leitura um tanto cansativa e deixa a sensação de que a leitura seria mais impactante se não fosse tão extensa. Esse mesmo aspecto retorna em vários outros momentos da narrativa, onde, para chegar ao momento do ápice narrativo em um episódio, o autor retrocede a pontos muito antigos e relata detalhadamente como tudo aconteceu até se chegar ao momento realmente relevante para a história. Vou ilustrar esse ponto:  em um determinado ponto da história, o visconde Albert de Morcef (não vou dizer quem ele é na história, para não dar spoiler) é capturado por bandoleiros romanos sob o comando de Luigi Vampa. Para chegar neste ponto da história, o autor retrocede até antes do nascimento de Vampa, para explicar que havia um corso que aterrorizava determinada região da Itália, com assaltos e sequestros, passando pelo nascimento e infância de Vampa, até que Vampa se encontra com este corsário e o desafia para um duelo ao ter sua namorada sequestrada por ele, vencendo o duelo e se tornando o lider do bando e como eles mudam de ataques nas regiões campestres da Itália para se sediarem em Roma e daí se desdobrar ate o sequestro do visconde de Morcef.

Exemplos de saltos retrospectivos e narrativas amplamente descritivas de fatos pouco impactantes no desenrolar da história principal são comuns e acabam por cansar o leitor um pouco, deixando a sensação de que, com um romance mais enxuto, de cerca de 700 paginas a história poderia ser contada de forma muito mais objetiva e sem perder nenhum detalhe, mas sendo um volume muito mais eletrizante e cativante. Mesmo vindo em um ritmo de leitura bastante rápido, acabei levando 2 meses para concluir a obra, claro que também se considerando o tamanho do calhamaço, mas ainda assim, a minha sensação é de que uma narrativa mais objetiva poderia aumentar a capacidade de prender a atenção do leitor e dar aquela sensação de não querer deixar o livro de lado.

Entendo perfeitamente porém, que, na época em que foi escrito, este era o modelo vigente na literatura e ele foi escrito para as pessoas de seu tempo, por isso relativizo esta questão e contemporizo, pontuando com os meus olhos de leitor do século XXI mas, respeitando a tradição e o brilhantismo da obra, ao mesmo tempo em que avalio com base nos meus critérios e pensando em leitores do meu tempo que, porventura, leiam esta resenha ao decidirem se irão se embrenhar no emaranhado de intrigas, conspirações e jogos de aparência da Paris do século XIX.

Um outro ponto que gostaria de destacar antes de finalizar esta resenha é com relação ao final do romance. Ainda que eu não vá dar qualquer spoiler a respeito de como o livro é finalizado, a conclusão é de conhecimento de muitas pessoas, tendo em vista que foi lançado um filme hollywoodiano sobre a obra. E talvez influenciado por este filme, eu esperava um final diferente, que a meu ver foi concluído muito sem emoção e de uma forma um tanto acelerada, quase como se o autor, a escrever mais de 1600 páginas não soubesse como terminar de forma satisfatória o seu romance. É estranho, pois ficamos esperando aquele clímax da história, onde tudo é desvelado, somos impactados e no final, há somente umas páginas de conclusão e respiro para assimilar tudo o que aconteceu nas paginas anteriores. Neste livro não tive essa sensação, parece que tudo se encerra de forma muito sem clímax, somente com pequenas pinceladas de emoção e drama, mas sem aquele momento de “puxa vida” que adoramos na conclusão de uma história. É quase como se a história fosse esquentando, mas ao invés daquele momento de pegar fogo, ela voltasse a se esfriar e seguisse no máximo, morno até o final.

Foi gostoso viver essa experiência e estou feliz por ter me desafiado a encarar esta leitura, e agradecido por ter conhecido um clássico da literatura mundial, mas para meu gosto pessoal, foi uma leitura apenas mediana, sem o impacto avassalador que me fez apaixonar por literatura. Nota 3,5/5.

Resenhando (#13)

Acabo de finalizar a leitura mais demorada e trabalhosa nesse 2022. Não que fosse a obra mais longa e difícil que encarei neste inicio de ano, mas por algum motivo eu não consegui engajar tão facilmente neste “O Silêncio das Montanhas”, do autor afegão Khaled Hosseini. É a segunda obra do autor que leio, após o sucesso “O caçador de pipas”, que li há muitos anos atras.

Acredito que seja uma questão de gosto pessoal mesmo, mas não consigo me conectar tanto com as histórias escritas pelo autor. Não que sejam mal escritas, muito pelo contrário. O autor tem uma sensibilidade muito tocante ao escrever sobre a cultura afegã e este país tão sofrido e maltratado, que se tornou um joguete nas mãos das superpotências durante a guerra fria e depois.

Este, aliás, é o ponto que mais gosto neste livro: o autor aborda muitos detalhes sobre como era a vida dos afegãos antes, durante e depois dos acontecimentos dramáticos que jogaram o país no meio do conflito entre as superpotências no final da década de 70 do século XX e os posteriores desdobramentos, até nos trazer ao século XXI.

Falando sobre a obra, o autor retrata dois irmãos pequenos vivendo em uma pequena aldeia afegã no início dos anos 50 e os desdobramentos de suas vidas ao longo de meio século. Não vou retratar detalhes da história, mas um detalhe interessante que acabei apreciando, ainda que tenha achado um pouco confuso é o fato de o autor alternar entre diversos narradores sem uma cronologia específica e declarada. Não há aquele prefácio em cada capítulo, informando “cidade tal, dia tal, ano tal”. A narrativa inicia-se sem que você saiba quem é o narrador, onde ele está e nem em qual época. Tudo isso vai sendo desvelado aos poucos durante a leitura, até que se consiga fazer a conexão de onde está a história e como esse fato se conecta com o restante da narrativa.

Um outro ponto bastante legal, é que a narrativa avança sempre tendo como narrador um personagem pessoa diferente do personagem principal naquele momento. Quase sempre os detalhes da história são fornecidos por um personagem secundário e por muitas vezes sem uma conexão direta com a narrativa principal, quase como se ficasse sabendo das histórias por um terceiro que o informa.

Acho que um dos pontos que me pega um pouco nas histórias do autor é que há sempre uma melancolia latente em todos os personagens, com uma sensação de que ninguém pudesse ser de fato feliz, mesmo os personagens felizes na história. Talvez seja um reflexo do próprio autor, que explora em suas obras toda a tristeza e o sofrimento que se abate sobre o povo afegão, mas confesso que é uma sensação que mina bastante a minha empolgação com a leitura. Não consigo avançar por muito tempo na história, preciso de fazer pausas sucessivas, para não me deixar levar por essa energia melancólica, para respirar e não ficar também melancólico.

Mas não é um livro ruim, é uma leitura rica, cheia de detalhes, que dá uma dimensão da realidade vivida pelas pessoas no país, a tristeza, as circunstâncias que minam a capacidade do país em se estabilizar, e personagens cheios de nuances e facetas. Apesar de triste e melancólica, é uma leitura recomendada. Nota 3,5/5.

Políticos & Afins

Resolvi compartilhar com vocês uma história que tem rolado nos últimos meses de uns entreveros meus com um vereador aqui do município de Uberlândia. Não vou citar aqui o nome do vereador a fim de evitar potenciais problemas legais uma vez que a classe é bem volátil, e no Brasil de 2022 todo cuidado é pouco, não é mesmo?

Fato é que nessa legislatura é a primeira vez que conheço pessoalmente um vereador em exercício de mandato. Quando digo conhecer, me refiro ao fato que a minha vida cruzou com a da pessoa anteriormente à sua chegada ao poder. No caso em questão, conheço o vereador dos meios de convivência da igreja, grupos e pastorais nos quais participava e ocasionalmente cruzava com ele em encontros e eventos. Apesar de nunca termos sido amigos, nos tratávamos bem, ele era muito próximo a meus irmãos e por mais de uma vez chegou a frequentar a minha casa.

Desde muito jovem ele buscava um engajamento na política, tentando se associar a eventuais candidatos e tudo o mais. Acabou se lançando candidato a vereador em alguns pleitos anteriores, tendo votação irrisória. No ano de 2016 tentou novamente e apesar de ter tido uma votação um pouco melhor, não conseguiu se eleger, mas acabou beneficiado pelo escândalo ocorrido na Câmara Municipal onde quase toda a casa teve o mandato cassado. Acabou assumindo uma posição como vários dos suplentes e pôde fazer campanha em 2020 como vereador em exercício. Acabou sendo eleito com menos votos que muitos outros candidatos, graças àquele mistério insondável do coeficiente eleitoral, com base nas coligações partidárias.

Deixo claro que nunca votei nele. Em nenhuma das eleições que participou, e muito menos na que acabou eleito, da qual eu nem participei, por estar no meio de uma pandemia e há menos de 1 mês do nascimento de minha filha. Mas me alegrei com a sua eleição e acreditei se tratar do meu representante no poder. Por essa razão, decidi que iria acompanhar o seu mandato bem de perto, como deveríamos fazer com todos os políticos, mas infelizmente não fazemos.

Não cheguei a me surpreender com a sua postura enquanto vereador, mas confesso que me impactou negativamente. Para alguém que vinha de movimentos pastorais da Igreja, que pregava o amor ao próximo e a defesa dos pobres e oprimidos o seu mandato tem sido de uma irrelevância e de um posicionamento que, fosse comigo, me sentiria envergonhado. Em todo momento durante o exercício de seu mandato, o vereador se posicionou favoravelmente ao poder, defendendo interesses de ricos e poderosos e sempre se colocando contrário a pautas humanitárias ou em defesa do pobre ou da vida humana. Como estamos vivendo um contexto de pandemia, sempre se colocou do lado dos negacionistas, dos anti-ciência e dos que lutaram arduamente pela disseminação do vírus da covid 19.

Não satisfeito com essa postura vergonhosa, ainda quando havia projetos em defesa do meio ambiente, ou de projetos em prol da dignidade da vida dos pobres e da população marginalizada na cidade, se postava de forma contraria, sempre alinhado ao poder e ao elitismo. E o que há de pior no Brasil deste momento: alinhado ao Bolsonarismo.

Por conta dessa postura vergonhosa, na qual não me sinto de forma alguma representado, comecei a me posicionar contrário a ele. Passei a comentar as suas postagens nas redes sociais, cobrando uma postura mais coerente com a sua história de vida e com os valores que ele jurou defender. Como nunca recebia nenhum retorno, comecei a mandar mensagens no formulário inbox de suas redes sociais, tentando um posicionamento da parte dele. Inicialmente recebia respostas vazias do tipo “marque um horário em meu gabinete, venha conversar”, o que naturalmente era uma impossibilidade, dentro do contexto de pandemia que estávamos vivendo e no qual deixava minha casa única e exclusivamente para atividades essenciais. Como as respostas eram sempre genéricas, imaginei que se tratasse de um assessor fajuto que acompanhava suas redes sociais, até que me irmão comentou que ele passou a ligar para o meu irmão quando eu mandava alguma mensagem.

O objetivo dessa abordagem eu não entendi, uma vez que me irmão é uma pessoa totalmente diferente de mim e não tem qualquer responsabilidade sobre o que eu falei.  Em todo caso, continuei postando e cobrando posições mais cristãs (já que ele adora postar coisas religiosas em suas redes) e maior coerência entre o discurso que prega e a atuação parlamentar.

Confesso que sentia um pouco de prazer em ficar fazendo estas cobranças e provocações, pois sabia que ele lia todas, ainda que não respondesse sempre. Afinal, quem de nós brasileiros oprimidos não gostariam de ter uma linha direta com algum político para externalizar todas as frustrações e decepções com essa classe tão baixa e vil? Sim, eu gostava dessa ligação e podia expressar toda a minha irritação com um político em exercício de mandato, tão acostumado a ser somente bajulado e jamais contrariado.

Claro que como todo político vaidoso e que não tolera críticas, ele começou a se irritar comigo e ser um pouco menos polido nas respostas, até o momento em que ele foi coautor de um projeto na câmara de Uberlândia proibindo passaporte vacinal. Essa postura tão negacionista foi demais para mim e me posicionei duramente contra ele, acusando-o de fazer necropolitica e se alinhar ao que há de mais baixo na política nacional, e que deveria ter vergonha dessa postura que defende a morte. Ele se irritou e me acusou de não estar aberto ao diálogo e que não aceitava contestações em minhas posições. Retornei colocando o meu telefone e endereço na mensagem, o convidando a ligar para mim caso quisesse conversar, ou me visitando em minha casa, me colocando a disposição para ouvir o que ele tivesse a dizer, com a condição que pudesse ouvir também o que eu tivesse para falar.

Ele, claro, não se manifestou mais. Não me ligou e obviamente não apareceu em minha casa. Nesse meio tempo passei a confrontar toda postagem inútil que ele fazia nas redes sociais, especialmente aquelas que nada condizem com o seu mandato como parlamentar. Como na vez em que foi comentar sobre a decisão da justiça colombiana pela descriminalização do aborto naquele país, eu apareci falando “o que uma decisão da justiça colombiana influencia no mandato de um vereador de Uberlândia? Deixe de conversa e vá se preocupar com os problemas de nossa cidade”. Ou agora recentemente quando foi fazer vídeo de repudio sobre a falsa polemica do filme do Danilo Gentili. Aquele filme lançado há mais de 5 anos atrás e que foi aplaudido pelos bolsonaristas como “uma perola em defesa do politicamente incorreto”, ou “contra a ditadura do politicamente correto”, asneiras desse tipo. Agora que o governo é incapaz de combater a inflação galopante, buscou no filme do ex aliado e agora desafeto a distração necessária para afastar o povo das cobranças em cima do que é relevante.

E vem esse vereador fazer vídeo repudiando o filme, como se isso tivesse alguma relação com o seu mandato como parlamentar municipal. Mais uma vez, é claro, fui aos comentários falar que isso nada tem a ver com o seu cargo, que ele deveria deixar de dar ibope para essas cortinas de fumaça do governo federal e se preocupar em atuar pelo bem da população da cidade. E fui à mensagem direta cobrar dele a oportunidade de falarmos pessoalmente. Como ele não quis entrar em contato comigo, perguntei como fazia para marcar um horário no gabinete dele para conversar pessoalmente, agora que a pandemia está (finalmente) recuando, já me sinto seguro para sair e ter esse encontro pessoalmente.

Fui além e disse que queria encontrar pessoalmente para poder dizer olhando nos olhos dele o quanto considero o mandato dele uma decepção. Ahh, foi a deixa para ele encrespar. Acabei tocando em um ponto sensível. A vaidade é algo que mexe profundamente com um político, né. São seres tão acostumado a terem sempre diversos assessores os bajulando diariamente, e quando encontram com a população, são acostumados a serem tratados sempre com tantas mesuras e veneração que se ofendem quando um zé ninguém como eu não os trata com deferência, pelo contrário, ousa dizer que os considera uma decepção. Não faltei com respeito e nem o acusei de nada. Simplesmente disse que considerava o seu mandato uma decepção e um desperdício de uma excelente oportunidade de fazer a diferença na vida de muitas pessoas. Afinal de contas, um vereador, se quiser, pode criar projetos de leis que beneficiam muitas pessoas, ainda mais em uma cidade grande e com tantas pessoas em situação de vulnerabilidade, como é o caso de Uberlândia.

Mas o vereador se doeu como se eu tivesse o atacado pessoalmente. Me acusou de ser “tão assertivo com todos”, como se isso fosse uma ofensa (mal sabe ele que todo o meu processo terapêutico é essencialmente uma busca por assertividade constante) e que não “iria se sujeitar a algo tão baixo”. Eu o questionei sobre o que seria algo tão baixo, uma vez que ouvir críticas está no escopo de um servidor público que representa a população, como é um vereador. Ouvir críticas e sugestões deveria ser a primeira demanda de um político, não acham? Não é função dele ouvir o que a população tem a dizer, mesmo que seja contrário ao que ele ache correto? Um político que ouve somente aquilo que quer ouvir está verdadeiramente abrindo espaço para todos ou está somente alimentando o seu ego e inflando ainda mais a sua bolha? Um político que está realmente aberto a ouvir a população e buscar soluções que melhore a vida de todos não deveria estar receptivo às críticas para buscar crescer com a diferença? Um político em exercício de mandato não é representante de toda a população e jamais somente àqueles que o elegeram? Entendo que um político deva satisfações aos cidadãos que o elegeram, mas não deve jamais buscar governar somente para esses, e sim para toda a população. Sei que hoje é difícil entender isso, uma vez que o próprio presidente da república governa só em benefício próprio ou fazendo gracejos para os 25% que ainda o defendem, mas cabe a todos nós, cidadão esclarecidos os recordarem que uma vez que estão em um cargo público, são responsáveis por governar para a população, inclusive para aqueles que os criticam.

O nobre vereador a que me refiro nesse texto me intimou a buscar falar com todos os vereadores, sem distinção. E eu respondi que, em um mundo ideal, isso seria sim o melhor a se fazer, mas que é impossível e impraticável, primeiramente porque a maioria dos vereadores são inacessíveis e caso você não possua um vínculo direto, eles jamais abrirão espaço para conversar com quem quer que seja que não tenha poder ou influência, como é o meu caso. Então, nessa seara, já que é impossível falar com todos os vereadores, prefiro visitar e falar com aquele que conheço pessoalmente, aquele que já frequentou a minha casa, aquele já fez pregações em grupos de oração que tocaram o meu coração e aquele que eu imaginava que verdadeiramente poderia fazer a diferença em um cargo público. Vamos ver se ele terá a coragem de me conceder um espaço para conversar pessoalmente.

É impressionante como a classe política no Brasil é mal-formada, mal estruturada, e mal assessorada. E como os egos são inflados rapidamente e com pouquíssimo tempo de mandato eles passam a acreditar que são superiores à população que o elegeu, e passam a se colocar em um pedestal acima de todos, não aceitando críticas de quem pensa minimamente diferente deles. É um jogo de vaidades em que ficam se elogiando mutuamente, um corporativismo arraigado que não aceitam ser contrariados por quem quer que seja.

E vejam só, estou falando de um ínfimo vereador de uma cidade do interior do país, que, quando era um zé ninguém era cheio de simpatia, de disponibilidade, de vontade de acolher as pessoas. Agora, com um mínimo de poder, se coloca acima do bem e do mal, se acha no direito de julgar quem pensa diferente dele como “baixo”, e fica querendo diminuir a posição alheira e fugindo do debate com o diverso.

Não por acaso vivemos esse descaso e desilusão da população com a classe política. Quando acreditamos que alguém que é “gente como a gente” chega ao poder e poderá fazer a diferença, ele se esquece de suas origens e passa a agir exatamente como os que já estão lá há anos, perpetuando um modelo político baixo, vil, corporativista e vaidoso, que não acrescenta nada à vida do cidadão comum e possui um distanciamento absurdo da população, a ponto de não se identificar mais como um cidadão comum, exceto quando quer fazer politicagem barata.

Enquanto não mudarmos a sociedade para que saibamos cobrar os políticos, e aí tenham que verdadeiramente mudar a sua postura, estaremos condenados a repetir esse mesmo modelo instituído há mais de 100 anos e que não levará o país a lugar nenhum.

Resenhando (#12)

A leitura dessa semana foi o livro “Fortaleza Digital” de Dan Brown. Claro que todos que gostam de livros ou cinema conhecem o autor, que alcançou uma fama avassaladora com o premiadíssimo “O Código da Vinci”, que posteriormente virou filme com Ton Hanks e abalou toda a estrutura da Igreja Católica e gerou revolta nos tradicionalistas.

Fortaleza Digital – Primeiro lampejo do estilo Dan Brown

Mas voltando ao Fortaleza Digital, foi o primeiro romance escrito pelo autor, e não obteve muito sucesso quando foi lançado, mas depois do sucesso de “O Código da Vinci” teve uma saída muito melhor, com os fãs procurando conhecer as obras anteriores do autor. A verdade é que o livro me passa a sensação de ter sido escrito um pouco antes do tempo, com a temática de criptografia digital, segurança da informação e pirataria de segredos de estado. Talvez no mundo de 2022 ele teria uma repercussão muito maior, mas no final dos anos 90 quando foi lançado, este tema ainda não tinha tanto apelo com o grande público, daí talvez o sucesso não tenha chegado como se esperava.

Na realidade o livro é uma obra Dan Brown do início ao fim. Aliás, tanto esse quanto o livro seguinte “Ponto de Impacto”, que também não teve tanto sucesso, são obras com o mesmo DNA dos sucessos “O Código da Vinci” e “Anjos e Demônios”. Todos os elementos que compõem a narrativa de Dan Brown estão ali presentes: uma história eletrizante em ritmo acelerado, no qual há um problema urgente a ser resolvido em que o protagonista corre contra o tempo para solucionar o mistério e salvar a situação. Tem também a divisão entre duas frentes, há o mocinho correndo atrás no campo e um “guru” que o recrutou para a missão por detrás acompanhando a missão de longe, mas com uma relevância enorme no desenrolar da história. Há ainda a perspectiva do vilão, na qual acompanhamos o desenrolar de suas peripécias para frustrar os planos dos “mocinhos” na história, até o momento em que as duas narrativas sem cruzam no clímax da história.

É um livro muito bom, no final das contas. É cativante, prende o leitor do início ao fim e a narrativa acelerada instiga a chegar ao final da história o quanto antes. Talvez falte um protagonista carismático como Robert Langdon, e talvez por estar acostumado com a dinâmica dos livros que tem o professor de Harvard como protagonista, mas senti falta de uma explicação mais detalhada e até professoral de alguns temas abordados na obra. Isso enriquece a leitura, e ao menos para mim, torna ainda mais interessante, porém nada que atrapalhe no desenrolar do cerne da história.

Acredito que o autor ainda estava moldando o seu estilo nesse primeiro livro, daí a história parecer um tanto verde em comparação com as obras seguintes, mas é um livro muito interessante, com uma história legal que vale a pena a leitura e recomendo a quem queira um livro intenso, bem no estilo do autor. Nota 4/5.

Resenhando (#11)

Vou ser bem honesto com vocês: eu não tenho a menor ideia de como esse livro apareceu na minha biblioteca do Kindle. Não conheço a história do fantasma da Opera, nunca vi o musical, nem li o livro, e não tenho a menor noção do que se trata de fato. Então confesso que achei bem estranho quando vi que esse livro estava na minha biblioteca e por algum motivo eu havia o colocado em minha meta de leitura para 2022. Por um efêmero instante, eu quase o deletei e achei melhor seguir com alguma outra leitura que me parecesse mais auspiciosa. Mas, no final das contas, decidi dar um voto de confiança ao meu eu do passado que, por alguma razão, olhou para esse título e achou que seria interessante ler.

O Fantasma de Manhattan – Superficial e pouco marcante

Não é uma leitura ruim, de todo. A história é, basicamente, uma continuação da história do Fantasma da Ópera, livro obscuro do século XIX que ganhou notoriedade após a adaptação para o cinema e musical. Eu não sou muito ligado em musicais e ainda menos em ópera, então não é algo que me chamasse muito a atenção. Acho que pensei que se tratasse de algum suspense sobrenatural sobre algum fantasma na Manhattan do início do século XX. Mas não é esse o caso.

A história inicia-se em tese no final de “O Fantasma da Ópera”, e explica como o personagem mudou para a América do Norte e os desdobramentos a partir daí. Não é a narrativa mais emocionante e surpreendente, e a maioria dos fatos se desenrola de forma muito rápida, o que é normal para um livro de menos de 200 páginas, o que me causa sempre um desconforto, gosto de um pouco mais de detalhamento no desdobramento de cada caso. Porém isso é gosto pessoal, a história é bem encadeada e não deixa pontas soltas que possam causar chateação em que gosta de ter todas as respostas ao final do livro.

A construção textual é até bacana, ao invés de um único narrador explicando os fatos no presente, são utilizados vários narradores diversos, dando uma perspectiva diferente a cada capítulo, e quase sempre narrando a partir de lembranças do passado, o que deixa a narrativa interessante. O final é relativamente previsível, porém é satisfatório, dessa forma, ainda que uma leitura que não deixará muitas saudades, não foi desagradável. Simplesmente não é tão marcante, mas ainda rendeu momentos leves de distração. Razoável. Nota 2,5/5.

Um ode à leitura

Adoro ler. Desde sempre. Tenho lembranças de minha primeira infância na qual pegava livros emprestados na biblioteca da escola para ler em casa. Quando resgato minhas memorias, consigo visualizar vividamente o cartão da biblioteca onde se registravam os empréstimos. Pena não ter uma imagem da época, mas consigo lembrar claramente do prédio da biblioteca dessa época e me ver circulando entre as estantes, procurando aquele que seria o livreto escolhido para ler em casa. Me lembro de pelo menos 2 livros que peguei emprestado após a professora ler trechos em sala de aula, em um prenúncio rudimentar dos influenciadores de agora sugerindo leituras. Quando mais jovem, não possuía fonte de renda própria pra adquirir livros e não tinha nem contato com livrarias para escolher e pedir aos meus pais que comprassem esse ou aquele livro que me interessasse. Dessa forma, sempre lia o que conseguia ter às mãos: gibis das coleções dos primos, livros de histórias que apareciam em casa(provavelmente comprados juntos de alguma enciclopédia vendida de porta a porta), histórias da bíblia para crianças, além é claro, de algum volume da saudosa coleção Vaga Lume, geralmente adquirido para leitura dos irmãos mais velhos na escola, enfim, tudo o que desse pra ler conforme as circunstancias desse estagio da vida em cidades pequenas do interior de Minas na década de 90.

Minha pequena(por enquanto) biblioteca. Foto borrada, mas o que vale é o registro.

Com minha mudança para Uberlândia no início da adolescência, o acesso a livrarias foi imensamente facilitado, ainda que continuasse o impasse de não ter renda para adquirir livros. Me recordo do final de 2001, quando foi lançado o primeiro filme da saga Harry Potter. Ainda vou contar essa história completa, mas resumindo, comecei a ler os livros da saga porque com o sucesso do primeiro filme na mídia, minha mãe adquiriu o segundo o quarto livro da série para minha irmã ler, e na falta de algo novo em casa, peguem Harry Potter e a Câmara Secreta e me encantei pelo universo bruxo. A partir daí, com algum dinheiro entrando vez ou outra, comecei a comprar meus próprios livros, e também passei a ganhar mais livros, de presente de natal ou aniversário.
Nesse contexto, 2007 foi um marco, pois, com o lançamento do sétimo e último livro da saga Harry Potter, me senti ligeiramente “órfão” da saga e sem rumo sobre quais livros desejar e adquirir. Nessa época já estava trabalhando, então já poderia bancar meus gostos literários sem depender de ninguém. Foi nessa época que comecei a diversificar a minha leitura e considero o momento de mudança em que passei a olhar para livros “adultos”, desde romances literários mais sérios, como volumes sobre história, biografias e não-ficção.

Em outro momento que ainda vou relatar no blog, foi a descoberta do meu livro favorito, “A Sombra do Vento”, que me encantou em todos os aspectos, por se tratar acima de tudo de uma história de amor aos livros e ao poder da leitura em transformar vidas. Foi um arrebatamento tal que, desde então, é raro o ano em que passo sem fazer uma releitura da obra, mesmo já conhecendo de cor a obra, e ainda me encanto com as passagens mais inspiradas ou divertidas.

Com o passar dos anos e a aquisição de mais e mais livros, comecei a ter o problema de encontrar espaço para armazenar adequadamente a minha crescente coleção de livros. Nunca fui daqueles obsessivos que os livros devem permanecer intactos e imaculados. Pelo contrário, meus livros foram sempre muito bem usados e vários apresentam marcas de batalhas ao longo dos anos, desde marcas de comida, umidade (por falta de um local propicio para guardar), e “maus tratos”, inevitáveis pois eu sempre carreguei meus livros para onde fosse.

Enquanto morei com meus pais, meus livros permaneceram guardados onde era possível: cantos de guarda-roupas, caixas no quartinho de despejos, onde desse. Quando passei a ter minha própria casa, um dos meus maiores desejos era encontrar uma forma de armazenar meus livros de forma satisfatória e bela, apresentando minha pequena biblioteca com orgulho e reverência que os livros merecem. Nos últimos anos, tenho buscado construir esse “santuário”, e hoje, me encanto ao perceber que finalmente consegui um espaço digno para minha biblioteca. Com a pandemia e a chegada de minha filha, precisamos criar um espaço para trabalho em casa, e construímos um escritório em parte do pequeno quintal que possuíamos, e além de finalmente ter um espaço de trabalho em home office, quis desde o início que parte da decoração fosse composta por minha biblioteca, que está em permanente expansão. Hoje é um dia feliz: sinto muito orgulho e alegria ao ver meus livros ali expostos. Todo esse preâmbulo enorme foi feito simplesmente para compartilhar com vocês a imagem da minha biblioteca que ilustra essa postagem. Espero que gostem.

Com o passar dos anos, a minha relação com os livros e a literatura somente cresce e aprofunda, e sinto muita alegria que seja assim. E que possa continuar para sempre assim.

Resenhando (#10)

Minha sexta leitura deste ano de 2022 foi o livro “30 e poucos anos e uma máquina do tempo”, da autora Mo Daviau. É uma ficção científica sobre um ex músico que descobre um buraco de minhoca que o possibilita retornar ao passado e reviver shows de música antigos, e ele transforma isso em um negócio com o passar do tempo.

“30 e poucos anos e uma máquina do tempo” – Genérico e sem emoção

Não me lembro ao certo como esse livro apareceu para mim, mas me recordo de ler a sinopse e achar interessante, o que aliado ao bom preço me fez adquiri-lo para a minha biblioteca e iniciar a leitura. Já deixo claro que não esperava muito do livro, foi mais uma compra de oportunidade e, talvez uma pequena identificação com o título – por eu mesmo estar nos trinta e poucos anos e adorar a ideia de ter uma máquina do tempo para reviver shows de rock que não tive a oportunidade de acompanhar no passado – por isso eu tinha baixa expectativa, e era muito mais uma leitura de relaxamento após o livro anterior ter sido uma leitura muito densa.

Mesmo com tudo isso, infelizmente, a leitura foi menos cativante do que imaginava. Ao longo de toda a leitura eu já ficava pensando o que escrever ao término, tentando encontrar bons momentos para relatar, e ao final, essa sensação cresceu ainda mais ao saber que é o romance inaugural da autora. Fico muito sentido em fazer uma resenha negativa sobre um primeiro romance de um autor, porque imagino a frustração que deve ser lutar por muito tempo por uma história e as críticas não serem positivas, ainda que de um simples leitor do interior do Brasil, sem nenhuma influência.
Mas a realidade é que o livro é muito disperso. Questões muito grandes e profundas são abordadas de forma muito simplista e superficial. Normalmente, as histórias de ficção que já li e que envolvem viagem no tempo escolhem dois caminhos: uma explicação cientifica tão profunda e detalhada, como o caso de “Operação Cavalo de Troia”, ou então como uma simples causalidade, como se o portal estivesse sempre ali e fosse encontrado por acaso e não houvesse o que explicar, simplesmente desfrutar, como relatado em “Novembro de 63”, de Stephen King.

A autora, em seu romance, porém, escolheu o caminho do meio em que inicia uma explicação científica para o “buraco de minhoca”, mas parece que desiste no meio do caminho e em alguns momentos aborda como se o portal estivesse ali e pronto, sem muito a dizer. Outro ponto que me incomodou foi que os personagens viajam no tempo, conversam com seus eus passados ou futuros sem qualquer surpresa ou estranheza. Como se fosse extremamente normal você estar vivendo e de repente uma versão mais velha ou mais jovem de si mesmo aparecesse em sua frente, conversasse contigo e tudo fosse feito com extrema naturalidade e sem qualquer consequência para o futuro ou passado.

Sem falar nos desdobramentos emocionais da história, que são resolvidos em um piscar de olhos, sem profundidade ou sem lógica alguma. Em um momento as pessoas estão rompendo o relacionamento e, no momento seguinte e uma viagem no tempo após, se encontram e ficam juntos apaixonadamente, sem qualquer construção emocional que permita justificar aquele envolvimento.

Infelizmente, essa é uma história, na melhor das intenções, para passar o tempo de forma descompromissada, sem esperar muita coisa ou um envolvimento profundo com os cenários, o enredo ou os personagens. Fica como registro histórico, mas sem cativar o leitor em nenhum momento. Nota 2,5/5 mais por simpatia com a autora, por ser seu primeiro romance.

Resenhando (#9)

Estava tentando encontrar um jeito de iniciar essa resenha de uma forma diferente das demais, porém não tem como eu não começar dizendo que acabo de finalizar a leitura de mais um livro. “21 lições para o século XXI”, do historiador israelense Yuval Noah Harari. Este foi a minha quinta leitura encerrada neste ano, e, de longe a mais profunda, densa e desafiadora. O autor alcançou notoriedade mundial com sua obra “Sapiens”, que relata a história da humanidade e as construções histórico-sociais que permitiram à espécie humana dominar os demais animais e o ambiente. É um relato profundo, interessantíssimo e recomendado a todos. Este livro das 21 lições, por outro lado, é muito mais sombrio, ameaçador e provocante, pois nos coloca frente a frente com discussões e cenários assustadores sobre nossa existência e futuro enquanto espécie humana.

21 lições para o século XX1 – Provocante e reflexivo

O autor relata logo no início que a ideia para o livro surgiu de conversas com colegas, amigos e leitores de suas obras anteriores, que o abordam com questionamentos sobre a espécie humana e os rumos que ditarão o futuro do Homo Sapiens neste mundo, e até se haverá um mundo no futuro. De tantos e-mails, seminários, entrevistas e abordagens diretas, o autor optou por consolidar os principais temas em uma nova obra, com 21 temas desenvolvidos a serem considerados para o século XXI e o futuro a curto e médio prazo (considerando-se o histórico de existência da vida humana no planeta).

Esta foi a segunda vez que tentei engajar na leitura, sendo a primeira vez cerca de 2 anos atrás. Tenho por habito sempre colocar meu nome e a data de aquisição de novos livros na primeira página(sei que alguns apaixonados por livros consideram isso quase um sacrilégio, mas gosto de ter um registro histórico de quando o livro entrou em minha vida) e neste caso vi que a primeira vez que tentei ler foi em abril de 2020, quando o adquiri como presente de aniversário para mim mesmo. Comecei a ler a introdução e achei o livro pesado demais para o momento que estávamos vivendo. Lembrem-se bem: abril de 2020 foi o auge do momento de “quarentena” por conta da primeira onda de COVID 19 no Brasil. Foi a época em que tínhamos lives diárias de artistas, cheio de gente em casa fazendo pão caseiro e animadíssimos com a nova realidade de todos presos em casa. Com esse cenário acabei deixando o livro de lado até este ano, quando fui organizar minha meta de leituras para 2022 e decidi que era hora de resgatar a leitura e ver quais as lições que o autor propõe.

A obra está dividida em cinco partes, que o autor chama de desafios, cada qual composta por cerca de 4 ou 5 lições relacionadas àquele desafio. É um texto difícil, denso e por muitos momentos extremamente desafiador, com o autor fazendo conexões entre temas diversos, como meditação e revolução tecnológica. A provocação feita pelo autor é feita conscientemente e muito necessária, para que possamos refletir sobre os desafios que estão diante da espécie humana, que são únicos e maiores do que qualquer outro que tenhamos enfrentado no passado, desde que deixamos as savanas africanas e nos embrenhamos nas selvas de pedra do mundo moderno, com suas megacidades interconectadas mundialmente.

Não vou mentir para ninguém: é uma leitura difícil, tanto pela sua forma quanto pelo conteúdo. É o tipo de livro que raramente você consegue passar por mais de 2 ou 3 paginas sem fazer uma pausa para reflexão a respeito do que acabou de ler. Do contrário, você corre o risco de passar direto pela obra sem absorver quase nada. A reflexão profunda sobre o que é discutido é uma necessidade neste livro. Tanto que ao longo desde ano vinha em uma média de quase 60 páginas lidas diariamente, e para este livro, quase nunca consegui passar de 20 páginas. Por este motivo, foi o que me demandou mais tempo para finalizar e o que, com sobras, representou o maior desafio intelectual.

Mas, não descrevo este cenário para espantar eventuais novos leitores, pelo contrário, é somente um alerta sobre a discussão profundamente necessária que o autor propõe e por esse motivo o livro é recomendadíssimo. Uma leitura reflexiva que analisa o nosso passado, para auxiliar no entendimento do presente e conseguirmos nos preparar de alguma forma para o futuro assustador que se descortina perante nós. O autor consegue, uma vez mais, trazer temas tradicionais da seara acadêmica para um universo mais geral de leitores de uma forma didática e interessante. Nota 4/5.