
Desde que Bolsonaro assumiu a presidência da república, qualquer pessoa que seja razoável e não faça parte de sua seita de apoiadores, é assombrada diariamente com o questionamento: “como um ser tão desprezível pode ter se tornado presidente de um país”?
A realidade nos mostra, porém, que as chances de isso acontecer em nosso país são lamentavelmente altas, uma vez que a imensa maioria dos políticos brasileiros são, a exemplo de Bolsonaro, preconceituosos, misóginos, elitistas, traiçoeiros, oportunistas e corruptos. Seja na esfera federal, estadual ou municipal, o cenário político brasileiro está infestado de pessoas deste tipo. A diferença da imensa maioria para o presidente é que ele externaliza isso em voz alta aos quatro ventos, enquanto a maioria dos demais se restringe a mostrar suas cores verdadeiras somente em núcleos particulares, e se esforçam em vender ao mundo uma imagem de ponderação e sensatez.
Desde a ascensão de Bolsonaro ao poder, há um movimento crescente de outros políticos se apresentando da mesma forma, uma vez que o presidente normaliza e legitima este tipo de comportamento absurdo. E temos também a contribuição enorme das redes sociais que apresentam a todos o mundo “por detrás das câmeras” ou, no caso dos políticos, por detrás das assessorias de comunicação e imagem, que pasteurizam aquelas personalidades intragáveis para algo mais palatável ao mundo.
A percepção que temos hoje de que os políticos são piores é somente um encontro desagradável com a realidade, forçado pela hiperexposição causada pelas redes sociais. Realidade esta que sempre existiu, mas ficava escondida do grande público e agora é trazida à tona em tempo real pelas diversas redes sociais existentes, que transformam em público o que sempre foi particular.
A classe política sempre foi ruim e recheada de personagens nefastos e, assim como surgiu um Bolsonaro, poderão surgir outros no futuro tão ruins quanto ou ainda piores, pois além de serem deste tipo de perfil, os políticos de qualquer esfera são extremamente corporativistas e defendem a si mesmos, como forma de se perpetuarem no poder, e garantir à sua descendência os mesmos privilégios.
Um exemplo muito ilustrativo de como é a dinâmica entre os políticos carreiristas acontecem recentemente na câmara municipal aqui de Uberlândia. Um vereador bolsonarista propôs a homenagem ao presidente, declarando-o cidadão honorário uberlandense. A proposta foi aprovada com ampla maioria no plenário municipal, ainda que poucos vereadores se declaram abertamente bolsonaristas. Acontece também que é a primeira vez em minha vida adulta que tenho um contato direto com político que tenha conhecido de fato, frequentado a minha casa e que se elegeu vereador.
Esta pessoa foi um dos vereadores que votou favoravelmente à homenagem ao nefasto presidente. Ao questioná-lo, a resposta que ele deu foi – e cito aqui literalmente a sua fala “eu não tenho nada a ver com isso aí não, não tenho nada a ver com a ideia dessa homenagem, isso é uma proposta de um colega vereador que estou somente prestigiando”. Ou seja, ao invés de fazer uma análise crítica da situação proposta, avaliar qual seria a melhor abordagem, ele simplesmente concordou com a moção para “prestigiar” o colega. E assim acontece na maioria das vezes, os políticos apoiam-se mutualmente em questões menores sem qualquer senso crítico, para que tenham apoio em suas demandas da mesma forma. O corporativismo impera no meio para que possam se preservar mutuamente, uma vez que todos tem, como se diz popularmente “o rabo preso”.
A realidade é que na política brasileira é muito difícil de se fazer verdadeiramente uma renovação na forma de se fazer política, uma vez que se pode até conseguir uma eleição com este objetivo, porém a realidade diária é de que ou se joga o jogo já existente e passa a fazer parte da engrenagem que gira há décadas da mesma forma, ou se torna um pária do grupo, sem qualquer relevância ou chances de ser um personagem ativo no cenário existente.
Por isso a mudança deve ser real e profunda em toda a sociedade. Devemos transformar o modo de pensar e agir de todos a fim de transformarmos a realidade política do país, pois, do contrário, seremos sempre reféns desse modelo de perpetuação do corporativismo e hereditariedade dos personagens, sejam de pais para filhos ou de padrinhos políticos para apadrinhados.






