A construção da narrativa

Acredito que a maior parte das pessoas já tenha visto as notícias de agora à tarde em Uberlândia,onde um drone pulverizador sobrevoou o local do evento de lançamento da campanha conjunta do ex presidente Lula e do prefeito de BH, Alexandre Kalil, lançando excrementos nas pessoas que encontravam-se no local.

No momento em que escrevo este texto não há comprovação dos autores do fato,mandantes nem as motivações por detrás do ato, mas não surpreende de as impressões digitais bolsonaristas estejam impregnadas em todo o incidente.

Em primeiro lugar, trata-se de um drone pulverizador de plantações, instrumento pouco barato e utilizado em plantações do agronegócio, um dos pilares de sustentação do regime bolsonarista, tanto financeiro quanto ideológico. Em segundo lugar,o desrespeito à dignidade humana, em que, não contentes em derespeitar manifestações contrárias ao seu “credo”, se usam de um demonstração repugnante de poder,o de jogar excrementos em outro ser humano.

Claro que posso estar falando besteiras aqui, e pode-se comprovar que o fato foi obra de um lunático solitário que achou que seria divertido jogar m**** em pessoas durante um ato político,ou mesmo um militante extremista que quis usar de um artifício para incriminar o atual presidente de um ato vil bem a seu estilo. Não duvido de nada. O Brasil de hoje esta tão surreal que qualquer narrativa,por mais absurda que pareça,pode se provar real.

Mas é fato que o episódio se encaixa à perfeição dentro da narrativa bolsonarista pra eleição que está por vir. Por um lado há a incansável acusação sem provas do “presidente” em cima da segurança das urnas e de todo o processo eleitoral. De outro, a narrativa de que as pesquisas eleitorais que apontam uma potencial derrota do atual presidente ainda no primeiro turno estão erradas, porque os eventos dos adversários tem pouca gente.

O ato de hoje é mais um elemento na construção dessa narrativa,onde os apoiadores do presidente iniciam um processo continuo de truculência e intimidação nos eventos dos adversários,a fim de deixarem os militantes opositores com medo de participar e esvaziar cada manifestação pública do principal adversário do presidente. Com isso utilizam de sua poderosa máquina de disseminação de notícias falsas e desinformação para vender a ideia de que se não tem gente nos eventos do adversário,como ele lidera as pesquisas? E assim vão construindo todo o cenário para contestar o resultado das eleições quando fatalmente o atual presidente for derrotado nas urnas. Contestação essa que ele irá usar como subterfúgio para validar o seu golpe na frágil democracia brasileira.

É tão claro quanto óbvio e triste. A democracia brasileira, que há uma década atrás parecia inexoravelmente solidificada, e a sociedade brasileira destinada aí progresso, hoje encontram-se reféns do retrocesso, da truculência e da estupidez, com uma pequena e tênue chance de sobrevivência,mas com a faca dos fantasmas do passado firme em suas gargantas, prontas para o golpe final que condenarão o país, uma vez mais, a tempos sombrios e de infelicidade. Já diziam que a história é cíclica e só mudam os personagens…

Carta aberta a eleitores não bolsonaristas

Antes de qualquer colocação, gostaria de dar os meus parabéns. Parece fácil agora, diante do caos institucional, e era realmente simples de perceber que o governo de um candidato que não se deu ao trabalho de elaborar um plano de governo, ou de participar de debates para discutir os problemas mais essenciais do país seria um fracasso, mas, mesmo assim houve muita gente disposta a pagar para ver, e agora estamos pagando, literalmente, com nossas vidas o resultado dessas escolhas.

Mas, se você não foi um dos 57 milhões de brasileiros que escolheram o atual presidente conscientemente, eu aplaudo a sua sensatez e o seu posicionamento correto diante da maior ameaça à nossa frágil e jovem democracia. Significa que você entendeu o risco que seria colocar uma pessoa assim à frente do país, e fez o que estava a seu alcance para evitar o fato.

E olhe que aqui não estou sequer fazendo distinção entre quem votou no candidato derrotado e quem votou em branco, nulo ou se absteve. Ainda que, em última análise, a escolha destes 3 últimos grupos acabe por não contabilizar no resultado eleitoral, tornando a eleição de um candidato mais fácil por necessitar de menos votos válidos, estou considerado nesta carta que você quis expressar conscientemente que não considerava o atual presidente uma boa escolha, então, por este motivo, acredito que estamos todos sob a mesma bandeira.

Por esta razão escrevo a todos, ciente de que minha colocação é só mais uma em meio a tanto ruido que já se faz e se fará ainda mais em 2022, a medida em que se aproximem as eleições, mas acredito ser meu dever cívico e esclarecido de conclamar a todos para que façamos juntos uma militância ativa e implacável, mas adulta e consciente, a fim de reduzirmos cada vez mais até eliminarmos a ameaça de um novo governo do atual presidente.

Percebam que não me importo (neste momento) qual será a sua escolha de voto para 2022. Até mesmo porque nem sabemos de fato quais serão as cartas deste baralho que teremos para escolher daqui a pouco mais de um ano, porém o mais importante é desde já combater e enfraquecer ao máximo o bolsonarismo, para que perca força e influência, até que não seja mais uma sombra a ameaçar a democracia em nosso país.

Sei que o nosso grupo é muito heterogêneo e talvez existam mais diferenças que semelhanças entre nós, mas o fato é que aquilo que nos une é o mais nobre e importante dos objetivos: não haver um segundo mandato do atual presidente. E o quanto antes isso acontecer, melhor. Por isso é importante que possamos virar qualquer voto que ainda possa pender para o lado do presidente. Não deem ouvido a quem fale que o melhor é atacar a esquerda para tirar a sua força e emplacar um candidato de “terceira via” contra o presidente no segundo turno, e não escutem também quem é de esquerda e diz que o melhor para garantir a eleição de Lula (provável candidato petista e maior força da esquerda) seja enfrentar Bolsonaro.

A sombra do atual presidente é tão nociva e preocupante que não devemos adotar uma postura pragmática achando que ele está enfraquecido, portanto é o candidato ideal para deixar os cenários em banho maria para enfrentar em 2022, que a chance de quem quer que seja contra ele é maior. Não se esqueçam que as pesquisas em 2018 apontavam que todos os candidatos venceriam facilmente Bolsonaro no segundo turno, por isso pouco se fez para reduzir os seus votos no primeiro turno. O resultado todos conhecemos.  

Quanto antes Bolsonaro for alijado da disputa, melhor para a democracia. Melhor para o país, e melhor para a escolha de um bom governo, seja ele qual for. Enquanto o presidente estiver na disputa com um volume considerável de votos, ficaremos discutindo as mesmas questões estúpidas e vazias que discutimos em 2018: ficaremos falando de ideologia de gênero, kit gay, ameaça comunista e outros devaneios sem sentido que vira e mexe o presidente requenta quando precisa de uma cortina de fumaça para desviar os olhos da população dos problemas existentes em seu (não)governo.

Por isso, quando ele começar a esbravejar sobre estes assuntos, ou tentar sequestrar a narrativa falando qualquer outra baboseira do tipo, não vamos cair na esparrela de repostar seus devaneios em redes sociais comentando o quão absurdo isso é, ou quanto a sua postura não condiz com o cargo que ocupa. É isso que ele quer. Lembrem-se: sempre que postamos as loucuras do presidente para criticar, estamos amplificando o seu discurso e levando a sua insanidade a pessoas que talvez nem tivessem ciência do fato. E mesmo que façamos uma crítica maravilhosa sobre o absurdo da vez, o que vai ressoar mais na cabeça do brasileiro médio e mal informado é o discurso simplista e bravateiro do presidente. Foi assim que ele chegou aonde está.

Temos que focar a crítica nos assuntos relevantes à vida no país: a inflação galopante, a economia em recessão que não se recupera mesmo após N promessas do “super ministro” da economia, o crescimento da pobreza e da miséria, o fantasma da fome que voltou a assombrar o país, o desemprego recorde, a corrupção sistêmica em seu governo, o fracasso no combate à pandemia, os escândalos na compra das vacinas, o desgaste na imagem internacional do país, a destruição ambiental dos biomas nacionais, enfim, a piora na condição de vida da maioria da população brasileira.

Não devemos também cair na armadilha de tentarmos nos igualar a ele: há quem diga que devemos jogar o mesmo jogo, espalhando desinformação, notícias falsas, bravatas, ameaças etc. Não vai adiantar, em primeiro lugar porque estaríamos nos igualando a ele e dando margem para que digam “quando querem o poder, fazem exatamente como nos criticavam” e o mais importante, estaremos jogando o jogo no qual eles já são experts. Não há como ganhar da milicia digital do presidente no jogo deles. São anos de uma engrenagem que funciona a todo vapor sempre que há a necessidade de defender o presidente em um momento de baixa na popularidade.

Devemos focar o tempo todo no que é prático e palpável: o fracasso do seu governo. Incapaz de gerar condições para a melhoria do país, não há um único indicador econômico, social ou ambiental que esteja melhor hoje do que estava anteriormente a 2018. Temos que nos ater sempre a realidade. E a realidade é de ir ao supermercado e não conseguir encher um carrinho de compras. É de ir ao açougue e não conseguir comprar carne para a semana. É ir ao posto de combustíveis e não conseguir sequer encher meio tanque. É olhar para o que éramos a 10 anos atras e ver que todos somos mais infelizes hoje. É perceber as pesquisas que apontam que os jovens brasileiros são hoje os mais infelizes e que menos acreditam em um futuro melhor.

Não importa qual o seu viés político, social ou econômico. Importa que você não quer mais 4 anos de Bolsonaro no governo. Importa que você quer que o país volte a crescer e a ser feliz. Por isso temos que estar juntos do lado desta batalha. Depois disso, superada a ameaça bolsonarista, podemos voltar a divergir em nossas ideias e propostas, pois acredito que conseguiremos fazer isso de forma educada e cordial. As eleições municipais na cidade de São Paulo foram o exemplo de que se é possível ter um debate de ideias completamente opostas sem deixar a civilidade de lado. E nós perdemos isso com esse governo. E é isso que precisamos recuperar imediatamente. Pelo bem de nossos filhos, pelo bem de nosso meio ambiente, pelo bem de nosso país, enquanto ainda é tempo. Pode ser que não tenhamos essa oportunidade após mais 4 anos de Bolsonaro no poder.