Resenhando (#4)

Acabo de finalizar a leitura de “O primeiro home: a vida de Neil Armstrong”, biografia do famoso astronauta, eternizado como o primeiro homem a pisar na superfície lunar. Gosto muito de biografias e sempre me proponho a ler boas obras de personagens significativos na história. Não para buscar inspiração ou para ter alguma lição de moral para a vida, como alguns “coaches de coisa nenhuma” adoram replicar por aí, mas simplesmente pela curiosidade em torno do fato pelo qual o biografado tornou-se conhecido.

A dinâmica quase sempre é essa: o interesse pelo fato histórico é muito maior que os personagens envolvidos, mas adentrar na biografia de um deles permite um conhecimento ainda maior de tudo o que envolveu aquele fato. É assim com a chegada do homem à lua. É um tema que sempre chamou a minha atenção, desde criança ao folhear as enciclopédias que meus pais tinham em casa.

Esse interesse acentuou-se muito durante o ano de 2019(último ano de “normalidade” neste caos chamado planeta Terra), quando se celebrou os 50 anos do pouso da Apollo 11 no Mar da Tranquilidade, em julho de 1969. À época, diversos canais, especialmente History Chanel, Discovery Chanel e National Geographic fizeram uma programação especial com vários documentários sobre o tema, aumentando ainda mais a minha admiração pelo feito. Não que em certo momento eu não tenha duvidado do feito: sim, houve momentos em que eu fui meio negacionista e cheguei a desconfiar por um breve período que as teorias conspiratórias de que o homem nunca havia chegado à lua eram verdadeiras e tudo não passava de encenação.

Mas, como sou dotado de um cérebro operacional e funcionando plenamente, pude verificar que as provas existentes são contundentes e as teorias da conspiração não são nada além de especulação que tentam distorcer fatos científicos comprovados e comprováveis. Mas, vamos deixar essa discussão de lado e focar na biografia.

O livro é completíssimo e contempla toda a vida do famoso astronauta Neil Armstrong, desde antes de seu nascimento até após a sua morte, em 2012 aos 82 anos. Como o próprio autor destaca, o biografado fez questão de que fossem apresentadas as suas origens, desde as primeiras gerações de Armstrongs existentes na Escócia, até a migração para a América e chegando até o momento do nascimento de Neil.

Retrata também toda a sua formação, desde criança como escoteiro, passando por sua formação militar na Marinha Americana, sua atuação como piloto aéreo na guerra da Coreia até a chegada à NASA com a segunda turma de astronautas selecionada pelo programa espacial dos EUA, os chamados “New Nine”. A partir daí descreve todas as etapas do programa espacial até o pouso do modulo lunar na superfície da lua. Acompanha Armstrong por todos os anos subsequentes, em que lutou contra a fama provocada pelo seu feito, e os passos que seguiu profissionalmente até o final de sua vida.

O livro, provavelmente escrito e pensado para um publico estadunidense, ainda que Neil fosse uma personalidade mundial, destaca rica e exaustivamente todos os passos da carreira de Armstrong na marinha, depois nos programas de testes de aviação civil e no programa espacial, com descrições detalhadas de tempo de voo em todas as máquinas testadas pelo astronauta, quais armas utilizadas, e quais as condecorações recebidas. Para os norte-americanos, fascinados pela cultura militar parece fazer sentido, mas para mim, pouco afeito a esses aspectos, o texto torna-se um pouco maçante, ainda mais porque não possuímos qualquer conhecimento de todas as aeronaves ou embarcações porta aviões que são apresentadas.

Um outro aspecto que às vezes causa um certo embaraço na leitura é a descrição sistemática de Neil Armstrong como alguém excepcional, um fora de série, quase como um ser humano superior. Sério, às vezes o biografo carrega tanto nas tintas ao falar do astronauta que se torna um pouco cansativo, quase como se fosse um super-humano infalível. É uma forma de retratar um biografado que não vi sequer na biografia do genial Leonardo da Vinci, e que não condiz com a própria imagem que Neil faz de si mesmo, evitando os louros de seus feitos e sempre externalizando que não foi um feito individual seu, mas sim um esforço de mais de 400 mil pessoas para se chegar ao objetivo final.

Em nenhum momento Armstrong se refere como alguém excepcional, mas sempre com humildade e sensatez de que é somente um profissional dedicado ao trabalho e disposto a testar as possibilidades para se obter o resultado esperado. Um aspecto bastante interessante é que, apesar deste destaque às vezes exagerado das qualidades do biografado, em nenhum momento o livro adota um tom ufanista para celebrar os feitos dos EUA durante a guerra fira e a corrida espacial. Pelo contrário, até destaca as realizações soviéticas que vieram anteriormente às norte americanas, e trata essencialmente do desenvolvimento científico que possibilitou a chegada do homem à lua e coloca essa corrida espacial somente como o combustível extra que nutriu esse processo.

Considerando todos os fatos, é um livro muito bem escrito, rico em detalhes como uma biografia deve ser, e nos permite construir uma boa imagem acerca do biografado e os feitos históricos nos quais esteve envolvido. Um bom livro que vale a pena a leitura, especialmente para os entusiastas da exploração espacial. Garanto que a riqueza dos detalhes irá satisfazer a curiosidade e aumentar ainda mais a fascinação pelo espaço e a lua em particular. Recomendado!