O dia em que a esperança voltou

Ontem foi a cerimônia de posse de nosso novo(velho) presidente. Lula chega ao poder pela terceira vez e – tenho a certeza – continuará no poder enquanto quiser/puder. O homem perdeu 3 eleições na sequência, mas depois que ganhou a primeira, nunca mais perdeu. Porém, espero sinceramente que este seja o seu terceiro e último mandato como presidente da república. Já havia dito que ele não tem nada a ganhar e tudo a perder com esse retorno. Mas já que decidiu retornar, que possa redirecionar o país no caminho correto, reunificar a população em torno de um Brasil em comum e possa após os 4 anos de seu mandato seguir seu caminho para uma merecida aposentadoria.

Cerimônia de posse presidencial – Linda, plural e inclusiva. Um acerto gigantesco.

Antes de falar de seu mandato, entretanto, gostaria de falar um pouco a respeito da tarde/noite de ontem. Das sensações e percepções acerca da posse de um presidente de verdade após os últimos 6 anos de caos institucional. Sei que pessoas mais preparadas e capazes já publicaram colunas a respeito de ontem, fazendo análises aprofundadas da conjuntura atual e do que há por vir, e meu texto, não tem qualquer dessas pretensões, mas gostaria, humildemente, de compartilhar um pouco de minhas sensações ao acompanhar – somente pela TV, infelizmente – a cerimônia da posse.

A primeira percepção era a sensação de tensão explicita que envolvia a todos – quem acompanhava pela TV, os jornalistas que faziam a cobertura do evento e até mesmo dos participantes – devido ao receio de um eventual atentado terrorista, fruto da insanidade dos apoiados extremistas do ex-presidente. Havia uma dúvida no ar desde o início: irão tentar algo? A segurança foi bem planejada? Haverá algum traidor na equipe de segurança que vai facilitar algum atentado, a exemplo do que houve no Capitólio dos EUA?

A segunda percepção era a de que, apesar dessa tensão, havia uma felicidade incontida no timbre de voz de todos os jornalistas que cobriam o evento, de todas as emissoras. Ainda que não pudessem expressar abertamente a felicidade com o término do mandato anterior, e o início de novo mandato de Lula – na grande mídia brasileira, expressar simpatia por um governo de centro-esquerda é visto como insubordinação passível de demissão – era óbvio que todos apresentavam um maior ou menor grau de felicidade e alivio pelo país estar encerrando o ciclo nefasto e sombrio resultado do estilo e ações do último governo. 

Mesmo assim, a cerimônia de posse foi linda – ainda que menos catártica que em 2003, quando as pessoas invadiram os espelhos d’agua, se jogaram em cima de Lula, em um clima de celebração nunca visto. Este ano isso não seria possível, devido ao forte esquema de segurança. Ainda assim foi tudo lindo, desde a ousadia em desfilar em carro aberto, apesar de todas as ameaças; o tempo firme mesmo com toda a previsão de chuvas; a alegria e emoção no rosto de todos – até mesmo do vice-presidente, conhecido por não ser muito afeito a emoções – além é claro da presença maciça do povo brasileiro, que afluiu em grande número ao planalto central, apesar das ameaças de violência dos extremistas que ainda insistem em não aceitar a derrota nas urnas.

O momento ápice, claro, foi a cerimônia de subida à rampa do planalto e entrega da faixa presidencial – pela terceira vez – a Lula. Após semanas de especulações e debates, a opção escolhida de um pequeno grupo representativo de toda a pluralidade da população brasileira passar a faixa ao presidente foi linda e emocionante. O ex-presidente, ao se rebelar e fugir do país para não repassar o poder ao seu principal rival, sem querer, presenteou o Brasil com a mais bela cerimônia de posse da história. E convenhamos, as imagens foram muito mais emocionantes e belas sem a cara feia e carrancuda do ex-presidente presente. Minha opinião particular era de que poderiam ter incluído a presidente Dilma nessa passagem de faixa, simbolicamente representando que, após o golpe que a tirou do poder, ela retornava para entregar a faixa ao povo e esse ao seu eleito para governar. Mas, mesmo sem essa parte, a cerimônia foi linda e simbólica, passando uma imagem claríssima de que, após anos de um governo excludente, beligerante e avesso às minorias, o novo governo irá acolher e governar para todos, até mesmo para os que insistem em recusar a derrota e ofender o presidente.

Os desafios à frente do novo governo Lula, após 6 anos de governos nocivos ao povo e entreguistas ao extremo, servindo somente ao poder econômico e não ao país são enormes – talvez até maiores que os que enfrentou em 2003 ao chegar ao poder pela primeira vez – mas se o dito popular de que a primeira imagem é a que fica, o novo governo acertou em cheio e nos permite ter esperanças de que há mesmo uma luz ao final deste túnel sombrio que estivemos atravessando. Não será fácil, é claro, mas com muito esforço, trabalho e união, é possível reconstruir e voltar a sentir orgulho desse nosso tão sofrido e maltratado país. Vamos à luta.

Pós eleições e o futuro por vir

Finalmente acabaram as eleições. O período entre o primeiro e o segundo turno foi sofrível como imaginávamos. O resultado foi apertado como todos esperávamos, ainda que não quiséssemos acreditar. A negação dos derrotados em aceitar a derrota, previsível. Quem acompanhava meus textos por aqui deve ter percebido um decréscimo no volume de postagens na véspera das eleições em final de outubro e meu total silencio após o resultado final. Pois é, não era este o planejamento, mas faltou disposição. Estava resgatando minha base aqui e percebi que havia planejado publicar 8 textos na reta final das eleições, dos quais 5 já estavam escritos. Mas na correria do dia-a-dia, no cansaço com o acirramento insuportável das emoções e com diversos problemas pessoas acontecendo, faltou fôlego para conseguir colocar no ar tudo o que estava pensando.

Hora de seguir em frente e recuperar o atraso provocado pelos ultimos 4 anos.

Não fez falta, no final das contas, pois tudo o que queria falar eventualmente já havia sido dito por pessoas mais preparadas ou mais dispostas que eu. Pós eleições e com o eventual caos decorrente das manifestações golpista dos derrotados, optei pelo silencio. Preferi saborear a vitória tão difícil e sofrível, e talvez por isso, infinitamente mais doce que todas as anteriores. Entendo perfeitamente meus amigos e colegas que disseram que perdemos mesmo vencendo. Por diversos momentos a sensação era essa mesma. EU mesmo cheguei a relatar isso ao término do primeiro turno. Mas acabei mudando de ideia. É muito importante poder celebrar essa vitória. Pois não é uma vitória da soberba nem da arrogância. É uma vitória da sobrevivência. Como bem disse Gregório Duvivier em um belíssimo vídeo que viralizou após o termino da eleição, foram 6 anos que precisamos continuar lutando e sobrevivendo diariamente quando absurdos inimagináveis aconteciam, a sensação de impotência e falta de esperança no futuro ameaçando tomar conta de tudo. Foram anos dificílimos: todas as nossas crenças na inteligência, na ciência, na humanidade, na tolerância, na fraternidade e na democracia foram colocadas à prova e tínhamos que seguir lutando e acreditando que um dia coisas poderiam melhorar.

Não vou negar: houveram momentos em que acreditei que estávamos condenados. Os absurdos promovidos pelo governo e seus seguidores eram tão surreais para alguém que, como eu, nasceu às vésperas da redemocratização e viveu tempos de prosperidade, fé no futuro e no potencial gigantesco de nosso país que foi difícil conseguir encarar tudo o que estava acontecendo e acreditar que poderíamos superar o desmanche do país a olhos vistos e ousar manter a esperança de que as coisas um dia voltariam a melhorar. Mas vencemos. Derrotamos uma máquina de mentiras voraz e atuante como nunca antes houve no país. Derrotamos a compra de votos institucionalizada pelo governo, o impedimento por parte das forças policiais do país de cumprir uma obrigação constitucional do cidadão e a conivência e indiferença de milhões de brasileiros que não se importam com o que está acontecendo no país agora e no futuro, desde que a sua realidade e seus privilégios se mantenham intocados.

Para mim foi particularmente libertador o término das eleições com vitória de Lula para não ter que lidar com esse último grupo. De um tempo pra cá eu passei a chamá-los de “Os Relativistas”. São aquelas pessoas que dizem não concordar com as coisas que o Bolsonaro fala ou faz, mas relativizaram e encontraram uma forma de justificar todas as atitudes e atrocidades por ele cometidas nos últimos 4 anos em nome de um ódio de classes velado que se materializa com o ódio à figura do presidente Lula. Essa galera é aquela turminha que se vende como “progressista”, ou “isentões”, ou ainda mais comum, “liberais”, que acreditam em uma ilusão de livre mercado como a solução de todos os problemas do mundo. É uma galera que adora postar uma ação de caridade pra se promover como solidário, mas quer a diminuição radical de auxílios governamentais aos mais vulneráveis. Esse pessoal se diz esclarecido e humanista, mas em diversos momentos foram mais bolsonaristas do que os próprios seguidores do presidente derrotado. Em várias oportunidades eu os considerei ainda mais nocivo que os “minions” apaixonados. Porque esse grupo é um caso para estudos psicológicos nos próximos anos, tamanha a contaminação e cegueira pela “Verdade do zap” que construíram toda uma realidade paralela e acreditam firmemente que estão vivendo nela, portanto falta senso crítico e toques de realidade para que possam enxergar o absurdo que estão defendendo.

Mas, os relativistas, estes não. Eles até possuem senso de realidade. Conseguem perceber o quanto o governo atual foi absurdo. Foi desumano. Mas ainda assim relativizam tudo o que aconteceu, porque para eles, “é impossível votar no Lula ou no PT”.  O ódio por um determinado partido ou pessoa os impedem de olhar criticamente o cenário e fazer uma escolha democrática, ainda que pragmática. Aliás, sobre a democracia e a sociedade brasileira, fiquem ligados. Isso será tema de uma futura postagem. Mas retornando aos relativistas, no final das contas são pessoas centradas em si mesmas e olham somente para o que lhe diz respeito. Se milhões sofreram nos últimos 4 anos, se diversos grupos e minorias foram vítimas de perseguições, violência e morte por apoiadores do atual presidente e estimulados por ele, isso pouco lhes afeta, uma vez que não diz respeito às suas realidades. Essa dificuldade em se reconhecer privilegiado e entender que muitas vezes a escolha do governo impacta pouco em sua vida, mas pode afetar diretamente a vida de outros, tornou o diálogo e a convivência com os relativistas nos últimos meses muito difícil.

Hoje, infelizmente a história é muito mais compreensível. Por anos, mesmo estudando muito, não conseguia entender verdadeiramente como os movimentos fascistas da década de 30 obtiveram sucesso na Alemanha e Itália. Mas hoje a história faz muito mais sentido em minha cabeça. Não foi por conseguirem maioria nazifascista na população de seus países que Hitler e Mussolini chegaram ao poder e materializaram atrocidades inimagináveis. Mas foi pela indiferença de boa parte da sociedade, que optou por dar de ombros para as evidências autoritárias, violentas e inumanas de seus líderes e apoiadores, que chegamos ao cenário extremo de uma guerra mundial.

Sobre as manifestações ilegais e antidemocráticas que alguns apoiadores do presidente insistem em continuar fazendo mesmo um mês após as eleições, tenho pouco a falar. Exceto que essa galera está se manifestando por financiamento de empresários que faturaram alto com o entreguismo dos anos bolsonaristas, por conivência das policias, da sociedade e da mídia. Como foi comentado nas redes sociais, fossem professores protestando por melhores salários e condições de trabalho, teriam sido repelidos com truculência e violência, além de inúmeras reportagens negativas já no segundo dia. Reflexos de uma sociedade que ainda precisa avançar muito: pedir investimentos na educação é motivo para ser recebido com – perdão pelo comentário chulo e infame – “tiro, porrada e bomba”. Manifestações favoráveis à tortura, a violência, ao racismo e a homofobia, são recebidas com tapinhas nas costas e condescendência.

Foram difíceis as últimas semanas que antecederam as eleições, assim como estão sendo as que a sucederam e continuarão sendo até o país assimilar de fato que voltaremos a ter um presidente, um governo e um país em reconstrução. Eu precisava de um tempo para me recompor e reencontrar a energia e a disposição em escrever. Ainda tem muito a acontecer até a posse do presidente Lula, mas parece que já é possível vislumbrar e crer que ainda teremos um país em janeiro de 2023, tremendamente combalido e sucateado, precisando ser reconstruído, mas ainda assim um país. E isso já é motivo para muita celebração.
Aqui no blog a expectativa é que possamos retomar assuntos mais interessantes, diversos e enriquecedores que tratar somente de política, ainda que possa retornar a esse tema quando julgar necessário. O desejo é o de retomar um ritmo de postagens semanais, talvez até por duas vezes na semana. Como disse aqui em casa para minha esposa, é mais fácil ter energia e assunto para outras coisas quando não precisamos lutar diariamente contra o neofascismo. E é com essa alegria de acreditar que podemos novamente ter fé e esperança no futuro é que retomo este espaço. Seja bem vindo, futuro!

Infelizmente, perdemos.

Sei que várias pessoas poderão me censurar ou me condenar por estar sendo muito pessimista em um momento já crítico ou estar desistindo antes da hora, mas a única palavra que me vem à mente ao tentar traduzir a sensação de vazio na boca do estomago ao acordar hoje, na primeira manhã pós resultado das eleições de ontem, é essa: perdemos!

Triste país – imagem autor desconhecido (para créditos, entrar em contato)

E o uso do pronome “nós” aqui é utilizado não somente para se referir a nós, militantes progressistas situados mais à esquerda no espectro político. O nós aqui é utilizado para se referir a todos NÓS, cidadãos brasileiros que, após passar anos nos deslocando a pé por um campo minado, debaixo de chuva contra inimigos muito mais bem equipados e sem qualquer clemência, chegamos à beira de um precipício e ao invés de usarmos a ponte que nos ofereceram para chegarmos em segurança ao outro lado, optamos por tentar pular o precipício acreditando que de alguma forma conseguiremos alcançar o outro lado do desfiladeiro.

Está além da minha capacidade lógica e racional entender o que acontece com o Brasil e o brasileiro nos últimos anos. O resultado das eleições de ontem mostram um povo perdido que procura a salvação nas mãos de seus carrascos, como animais que seguem com docilidade o caminho indicado por seus algozes ao matadouro. E aqui não me refiro exclusivamente à expressiva votação da pústula necrosada que temos o desprazer de chamar de “presidente”, mas sim ao cenário geral no qual praticamente todos os representantes desse mal pulsante chamado “bolsonarismo” tiveram expressiva votação para os mais diversos cargos.

É desesperadamente assustador pensar que um resultado desses pôde acontecer após estes 4 anos que vivemos. Este governo foi, com sobras, o mais desconectado dos anseios e necessidades da grande massa populacional do nosso país e o mais focado em governar visando única e exclusivamente os objetivos próprios. Foi um governo inteiramente voltado para atender aos caprichos do presidente e entregar o país aos desejos dos financiadores de sua campanha, utilizando a máquina estatal para dobrar o Brasil à suas vontades, não importando o quão inconstitucional eram suas atitudes.

E mesmo assim, conseguiu obter uma votação ainda mais expressiva que em 2018. Não importaram as mortes por descaso na pandemia. Não importaram as mortes na miséria causadas pela fome. Não importaram as mortes causadas pela escalada da violência com o armamento massivo de pessoas incapazes de operarem funcionalmente um garfo e faca à mesa. Não importaram as mortes causadas pelo avanço do desmatamento em nossas florestas. Não importaram quaisquer mortes causadas por esse governo, direta ou indiretamente. Pior, todos os cúmplices do “presidente” nessa carnificina – sejam por ação direta ou por conivência – que se lançaram candidatos a algum cargo nestas eleições foram eleitos com margem considerável, validando e relativizando os absurdos diários que vivenciamos nestes últimos anos.

Duas frases que vi ontem nas redes sociais resumem muito bem o desamparo e o desespero que estamos experimentando hoje: “o pior congresso da história será substituído pelo pior congresso da história”, provando que o fundo do poço pode não ter fim quando se há disposição de muitos para continuar cavando; e “agora é mais desanimador que em 2018, uma vez que as pessoas puderam experimentar o horror e metade delas quer continuar nele”, mostrando o inexplicável desejo do brasileiro em proporcionar meios para o próprio sofrimento.

Então, me desculpem as pessoas que querem se manter otimistas: admiro vocês, a resiliência e a capacidade em se manterem positivos e animados diante deste cenário aterrador. Até concordo com vocês, ainda há muito o que fazer e devemos continuar lutando para eleger Lula presidente. Acredito até que devemos fazer isso com ainda mais afinco, pois no final de contas esta é a única tábua de salvação que nos restou, a única boia que poderá nos manter à superfície em um mar revolto e repleto de tubarões. Mas a realidade crua e nua é que serão anos ainda mais difíceis pela frente, pois mesmo que Lula vença (e estarei 100% focado em lutar por este objetivo) a realidade é que será muito difícil para ele conseguir governar da forma positiva e progressista que gostaríamos, pois terá que lutar contra um congresso assustadoramente conservador e uma população que valida os seus absurdos. É uma tênue luz que pode nos guiar em um corredor longo e angustiante que nunca foi tão sombrio.

Lamento muito soar tão desanimado, mas depois de ontem, infelizmente a sensação é que mesmo que possamos vencer a última eleição que resta, na verdade já perdemos. Perdemos enquanto nação, enquanto sociedade que optou por validar a violência, a misoginia, o racismo, a vulgaridade, o desprezo pela vida humana, a falta de educação e o desprezo pela ciência e a defesa do meio ambiente. Por mais triste que seja assumir isso, a verdade é que, independentemente do resultado em 30 de outubro, nós já perdemos. Sairemos deste processo ainda pior que entramos.

Resenhando (#2)

O Livro Obscuro do Descobrimento do Brasil, de Marcos Costa. Foto: Google

Quando me proponho a ler um livro de História (a ciência mesmo), sempre pesquiso antes para saber quem é o autor e se é um pesquisador sério e pode ser considerado como uma boa referência no assunto. Este cuidado vem desde que ganhei de presente um livro sobre fatos históricos, mas escrito por alguém que não tem compromisso com a pesquisa científica séria ao tratar destes fatos. Não vou citar qual o autor ou o livro, mas para qualquer pessoa que tenha pegado algum volume que se autointitula “politicamente incorreto” sabe do que estou falando.

Antes de mais nada é preciso deixar uma coisa bem clara: este é um livro de História. Não é um romance, ou uma ficção. Por essa razão, inicialmente é um livro que pode ser de difícil leitura para que não está acostumado com o estilo. O livro apresenta detalhamente diversos elementos que contribuíram direta e indiretamente com o “descobrimento” do novo mundo pelos europeus. E quando digo detalhadamente, não é uma figura de linguagem e sim uma constatação: em diversos trechos de sua narrativa, como forma de ilustrar um tema mais profundamente, o autor se utiliza de escritos históricos da época, cartas trocadas entre reis e papas, entre colonizadores e padres, e diversos outros relatos que, embora riquíssimos do ponto de vista histórico, acabam por deixar a leitura um pouco maçante e cansativa em alguns momentos.

Não que isso seja algo ruim, entendendo o perfil de historiador do autor, é mais do que compreensível o desejo de cercar-se de documentos seguros que possam contar detalhes da época relatada, porém por se tratar em grande parte de documentos do final da idade média (séculos XV e XVI), a forma da escrita é diferente do praticado atualmente, então requer mais atenção e interpretação para compreensão exata do que se está dizendo. É uma questão de gosto, claro, mas eu particularmente preferiria que fossem utilizados recortes menores, e feito uma paráfrase em outros momentos, de forma a deixar a leitura mais prazerosa para leitores que não são tão ligados assim em história. E digo isso como alguém que ama história e se delicia com obras como essa.

Falando da obra em si, o autor faz uma combinação de diversos elementos históricos que levam as nações europeias a se lançarem na aventura de navegarem rumo ao ocidente, desbravando o assustador (para a época) Oceano Atlântico. O autor nos mostra que o “descobrimento” do Brasil e das Américas foi muito mais que um mero “acidente de percurso” ao se tentar chegar às Índias por parte das nações ibéricas e que as datas “oficiais” da descoberta pouco tem relação com a chegada dos primeiros europeus no continente americano.

Eu gostei particularmente de o autor sanar uma dúvida antiga minha, desde os tempos escolares. Nunca entendi, em minha mente adolescente, por que razão os portugueses, ao tentar chegar à índia navegando ao redor do continente africano, acabaram vindo parar no Brasil. Sempre me pareceu um desvio um tanto desconexo, pois seria mais fácil margear e acompanhar a linha do continente africano. O autor explica, brilhantemente, que se trata de uma questão natural, uma vez que as correntes do atlântico propiciam uma navegação mais segura e rápida nesta direção, e seria mais fácil para as embarcações portuguesas se deixarem levar pela corrente ao invés de lutar com elas para se manterem próximas à costa africana.

O livro é muito rico, a leitura, apesar do que já pontuei acima, flui de forma natural e, para quem gosta de fatos históricos como eu, bastante instigante. Existem muito mais detalhes que ajudam a entender a construção da nação brasileira. Como, por exemplo, os impactos da inquisição espanhola nos destinos da colonização do Brasil, e a influência da Reforma Protestante e da Contrarreforma na ascensão e queda dos impérios Ibéricos. Dou uma nota 4,5 pelo conteúdo e um 3,5 pela construção do texto. Nota 4 no conjunto geral da obra. Recomendado a todos, e particularmente aos que se interessam por questões históricas.