
Estamos a menos de 10 dias do primeiro turno das eleições de 2022, as mais importantes desde a redemocratização do Brasil, por isso o momento é bastante oportuno para abordar algumas questões que venho refletindo há meses, com relação a temas relacionados à presumida “festa da democracia”.
E o tema escolhido para abrir esta série de textos que trarei daqui até as eleições não poderia ser outro senão o combate à corrupção, ou sendo mais enfático, a própria corrupção em si. Este é um tema constantemente em voga ao se tratar de política e se for feita uma pesquisa com os cidadãos brasileiros que dizem detestar a política, me arrisco a dizer que a corrupção será apontada como a principal razão de tal “ódio”. Mais do que isso, o atual “presidente” (sempre entre aspas porque o elemento que hoje ocupa o planalto não é digno de ser tratado como presidente de fato), em sua busca ensandecida para se manter no poder – a fim de evitar a prisão por todos os crimes cometidos nos últimos 3 anos e meio – insiste no tema ao tentar colar a imagem de corrupção como exclusiva aos governos do PT e, consequentemente ao presidente Lula.
Não vou aqui fazer uma defesa dos governos petistas, tampouco vou me estender falando dos inúmeros escândalos de corrupção no atual governo, e muito menos vou ceder à tentação de cair na celeuma da competição de quem é mais corrupto, ou quem roubou mais porque não vai levar a lugar nenhum. De forma alguma; aliás, meu objetivo aqui é outro: é de expor a minha ideia de que deveríamos esquecer essa conversa de combate à corrupção em debates eleitorais e muito menos estabelecer esse requisito como parâmetro na hora de escolher um candidato no dia 02 de outubro.
E não falo somente das eleições presidenciais, mas de todo o espectro de cargos e candidatos existentes no pleito atual. É urgente e imprescindível que deixemos de lado essa temática anticorrupção porque a corrupção não deixará de acontecer, independentemente dos candidatos que possamos escolher no início do próximo mês. A corrupção é um traço cultural brasileiro, me arrisco a ir até um pouco mais além e dizer que se trata de uma predisposição da própria raça humana. O homo sapiens, como animal que é, foi constituído biologicamente para garantir a sua sobrevivência e do seu grupo imediatamente ao redor, utilizando para isso de todos os mecanismos possíveis, principalmente o seu imenso cérebro altamente desenvolvido. As regras sociais que ditam que tal comportamento é corrupto foram criadas posteriormente à constituição humana, portanto são estranhas ao nosso comportamento animal, daí que em uma ocasião na qual possamos obter uma vantagem que nos traga uma realização pessoal, raramente deixamos de aproveitar esta oportunidade, ainda que socialmente possa ser vista como um comportamento corrupto.
Sejamos honestos: todos nós cometemos pequenos atos de corrupção constantemente quase sem perceber. Seja furar uma fila enorme porque há um conhecido lá na frente que nos oferece um lugar junto dele, ou então a tal “caixinha” de TV para obter os canais pagos de forma gratuita, ou ainda os “cafezinhos” ou brindes que oferecemos ou recebemos a fim de desenrolar um trabalho mais rapidamente que por vias formais e corretas. Fato é que a diferença entre o cidadão comum que vive a sua vida comum e obtém pequenas vantagens cotidianas vistas como algo normal, e o político no congresso que desvia milhões de verbas direcionadas à hospitais ou merenda escolar de crianças para uso pessoal é puramente a oportunidade apresentada. Qualquer um de nós, que estivesse em condições similares à do político corrupto dificilmente teria uma reação diferente.
“Ah, mas veja bem, você está generalizando, não são todas as pessoas que são assim, isso é um absurdo”, diriam alguns. É mesmo absurdo? Será que, mesmo que lustremos nossa consciência com um verniz de idoneidade e ética, lá no fundo do nosso cérebro, a ideia de obter um dinheiro fácil, quase sem riscos, que eu poderia usar para o que bem entender, não mexe conosco? Será que eu seria capaz de “ceder à tentação” de ter um ganho tão fácil e simples assim?
A questão é pertinente, não acham?
E aí eu chego ao meu argumento final: a corrupção nos governos irá acontecer de qualquer forma. Seja X, Y ou Z no poder, os esquemas continuarão ocorrendo, ainda que uma ou outra voz dissonante queira chamar a atenção para algum esquema em particular. Porque trata-se de uma roda gigantesca que gira independentemente de quem esteja movendo-a no momento. Seja por qualquer motivo, é muito difícil alguém entre no governo, em qualquer cargo que seja, e terá condições de verdadeiramente combater a corrupção.
Sejamos práticos, o discurso anticorrupção é tão velho quanto a própria república brasileira. Temos documento históricos de campanhas na velha republica prometendo o fim da corrupção. Temos a mítica canção do “varre varre vassourinha’ prometendo varrer a corrupção do governo. Temos o “caçador de marajás” que ia limpar o país dos corruptos e caiu justamente por denúncias de corrupção.
Poderia prosseguir por horas, mas o fato é que combate à corrupção deve ser a promessa de campanha mais comum na política brasileira, e por isso não deveria ser a régua utilizada para medir os candidatos. Olhem para o programa de governo de cada um deles, vejam o que propõem para melhorar a dignidade do cidadão brasileiro. Quais suas propostas para a saúde, como irá fomentar a educação, quais as estratégias para o combate à violência e a pobreza, como pretende preservar o meio ambiente, dentre outros temas. Estes deveriam ser os tópicos relevantes ao se escolher um candidato. Esqueçam o combate a corrupção. Nenhum candidato conseguirá de fato mexer com esse tema. Seja por medo de ser rechaçado por seus pares, por ameaças ou simplesmente pelo tamanho do desafio para de fato ter alguma mudança, essa é uma promessa que não será cumprida, então deixem de lado de uma vez por todas essa discussão vazia e cobre dos candidatos maior profundidade de discurso e soluções concretas para os maiores problemas do país.
A redução da corrupção será consequência de um conjunto de transformações socioculturais em nosso país, e não causa. Será preciso investir muito tempo, dinheiro e disposição em ética, cidadania e principalmente educação para que possamos chegar a um patamar de verdadeiramente perceber uma redução na corrupção nacional. Neste momento, não será possível, foquemos, pois, naquilo que está ao nosso alcance: a chance de proporcionar uma vida um pouco mais digna a todos.