Vamos falar sobre a corrupção do PT?

Acho que já é hora de falarmos sobre esse assunto, né? O assunto do momento no Brasil que está na boca do povo há tempos. Antes de mais nada, um aviso: se você espera encontrar aqui um texto defendendo a corrupção dos governos do PT, vai se decepcionar. Tampouco vou condenar ou demonizar como muita gente faz. Também não vou relativizar o assunto, mas procurarei contextualiza-lo. Logo, se você chegou aqui esperando uma defesa ou uma acusação apaixonada com relação a este tema, lamento frustrá-lo. Este não será o objetivo aqui. Recomendo que abandone a leitura aqui mesmo, para não perder o seu tempo.

Percepção da Corrupção – Créditos na imagem

Mas se você, assim como eu, acha que este é um tema extremamente complexo e que qualquer análise feita com o fígado pouco acrescenta para a discussão e especialmente para o objetivo de construir um país melhor, talvez encontre neste texto ideias que ressoem com os seus anseios. O objetivo aqui será fazer uma análise crítica deste tema tão complexo e tão profundo, sem qualquer desejo de propor respostas, mas apenas de levantar questões que possam contribuir com o enriquecimento da discussão.

Feito todo esse preâmbulo, vamos começar. O primeiro ponto a se discutir é que os governos do PT, de 2003 a 2014(os dois anos do segundo mandato de Dilma sequer podem ser considerados aqui, tamanha a disposição de diversos setores da sociedade e da politica em sabotá-la antes de sequer avaliar o que ela tinha a propor) foram os primeiros governos da história do Brasil a terem de lidar com a internet e as redes sociais. Ainda que em 2003 a internet estivesse longe de estar presente em todo o país, como hoje, já tínhamos uma boa parcela da população utilizando a rede. E mais do que isso, eram os primeiros passos das redes sociais, em especial com o surgimento do Orkut e MSN. Posteriormente vieram facebook, twitter, Instagram e todas as outras redes que surgem e desaparecem diariamente no mundo de hoje.

Mas o que isso tem a ver com a corrupção nos governos do PT? Tudo! Foi nessa época em que surgiram os grandes portais de notícias que repercutiam as denúncias de corrupção em tempo real, sem haver a necessidade de fechamento de uma edição diária, semanal ou mensal de jornal ou revista para publicação. Foi o início da era da informação imediata e da repercussão massiva nas redes sociais. Pense comigo: antes das redes sociais e da internet, as denúncias de corrupção chegavam ao grande publico somente via telejornais, especialmente o Jornal Nacional. A pessoa via as notícias do dia, se revoltava com as denúncias de corrupção, talvez repercutisse ali com as pessoas que habitavam a mesma casa, mas depois ia jantar, ver novela, acompanhar um filme na TV ou uma partida de futebol e depois ia pra cama. No outro dia, esse assunto, ainda que surgisse ao longo do dia, não estava no topo da lista dos pensamentos da pessoa. Com a internet e as redes sociais isso mudou. O volume de informações a que temos acesso, o tamanho, o alcance e a duração da repercussão tornou-se muito maior, o que nos leva à percepção de que o volume de denúncias é muito maior atualmente.

Ou seja: os governos do PT foram os primeiros que tiveram de lidar diária e exaustivamente com o escrutínio massivo de cada noticia na internet. E aí entra um segundo fator muito importante: foi a primeira vez que um partido de orientação política de esquerda governou nosso país. Os verdadeiros donos do poder ficaram muito sentidos com isso, ainda que tivessem sinalizado positivamente em um primeiro momento. Foi como se dissessem: “tudo bem, vamos deixar vocês governarem, mas estaremos de olho para massacrá-los ao menor deslize que cometerem”. A disposição para o superdimensionamento de cada denúncia feito durante os governos petistas já era muito maior que em qualquer outro governo anterior. Mesmo sem a massificação da internet, o PT já iria sofrer bastante com a mídia negativa em seu governo, pelo simples fato de serem um governo surgido das esferas mais humildes da população. Aqui entra outro componente bacana dessa equação: o ódio de classes. O PT não somente conseguiu alcançar o poder vindo da classe trabalhadora, como construiu uma máquina gigantesca que ousou se manter no poder, mandato após mandato. Então a hiperexposição de cada denuncia de corrupção, a manipulação da narrativa para que fossem apresentadas como as maiores já vistas no país, tudo isso contribuiu para essa visão disseminada entre muitos hoje que “nunca havia se roubado tanto” quanto durante o período do PT no poder.

Será mesmo? Vamos jogar uma luz sobre os principais escândalos de corrupção durante a Era PT no poder. O primeiro deles e que rendeu condenações a inúmeros personagens do alto escalão do governo petista foi o escândalo do mensalão. Minha nossa, que horrível! O governo tinha um orçamento mensal para distribuir entre parlamentares que votassem favoravelmente às medidas propostas pelo Executivo. Quais eram as principais medidas apresentadas à época? Sendo google free e puxando somente pela memória: Programa Fome Zero, Bolsa Família, Criação de Novas Universidades Federais e Ampliação do orçamento para reforma, infraestrutura e novas cursos e vagas para as já existentes, Programa de Aceleração do Crescimento, visando obras de infraestrutura em todo o país, PROUNI e Minha Casa Minha Vida.

Tudo bem, vamos deixar de lado as pautas e voltar para analise somente do fato: governo pagando “mesada” para parlamentares a fim de garantir maioria no congresso. À época foi alardeado como o “o maior esquema de corrupção da história”. Aí eu questiono: em que este esquema difere do esquema adotado pelo governo FHC na década de 90 por muito tempo para aprovação de projetos do governo e que veio à tona com denúncias quando houve a votação da emenda constitucional que permitiria a reeleição presidencial? Se buscar reportagens da época, todas tratavam da denúncia com muito mais permissividade, alegando que se tratava de algo questionável, mas compreensível. Hoje, 25 anos depois, a grande maioria da população sequer se recorda do fato que, em essência, trata-se exatamente do mesmo caso do Mensalão, que até hoje rende ao PT a alcunha de “partido de ladrões”.

Vamos falar agora do segundo escândalo de corrupção nos governos do PT que veio para substituir o anterior como “o maior esquema de corrupção da galáxia”: as investigações da Lava Jato sobre as negociatas entre empreiteiras e a Petrobrás. Na última década, este caso tornou-se o assunto mais falado em todos os telejornais e portais de internet do país – quem não se lembra da abertura diária do Jornal Nacional falando por 20 minutos sobre as delações do processo com aquele tubo enorme escorrendo nota de 100 reais às costas do Bonner?

Uma vez mais a história vem em nosso auxílio para lançar um olhar um pouco mais crítico a tudo o que aconteceu. Todas as empreiteiras citadas neste processo são empresas gigantescas e que prestaram e continuam prestando serviços de infraestrutura ao governo federal desde a década de 60, quando surgiram e enriqueceram. Alguém realmente acredita que as negociatas de superfaturamento, notas frias e favorecimentos em contratos públicos só ocorreram nos anos de governos do PT e todos os contratos realizados nos 40 anos anteriores possuem lisura e foram rigorosamente cumpridos sem qualquer desvio?

Como podemos avaliar as inúmeras obras faraônicas realizadas durante a Ditadura Militar que nos presenteou com uma lista enorme de elefantes brancos com pouco ou nenhuma utilidade pratica? Foram produzidas somente por conta do ufanismo militarista de mostrar um “Brasil Potência” ou foram enormes esquemas de corrupção e enriquecimento ilícito envolvendo o governo e empreiteiras intimamente ligadas à cúpula militar da época?

A respeito das denúncias da Operação Lava-Jato fia ainda uma outra questão: se o PT destruiu a Petrobras com os esquemas de corrupção, como que a empresa tem tido lucro liquido ano após ano? Pois é.

Olhando para a atualidade, como explicar o orçamento secreto? Por que não há diariamente nos jornais enormes reportagens a respeito desse repasse de verbas do Estado para parlamentares obscuros e para pagamento de notas de serviço altamente suspeitas em todo o país? E o já esquecido caso dos milhões de dinheiro publico repassado a prefeituras para pagamento de shows de cantores sertanejo por 3 ou 4 vezes o valor normal de um cachê cobrado por eles? O que tá acontecendo? Isso não é indício de corrupção aos olhos dos zelosos defensores da moral e críticos ferrenhos da era do PT no governo?

Para concluir – até porque o texto já ficou longo além da conta – façamos duas reflexões. A primeira é: se o PT é o partido mais corrupto da história do Brasil e foram eles que criaram a corrupção em nosso país, porque o partido sequer tem o maior número de políticos condenados por corrupção? Essa primazia cabe quase integralmente aos partidos do chamado “centrão” que hoje estão aí cheios de carícias, intimidade e alinhamento com o atual “presidente da república”, o príncipe anticorrupção, paladino da moral e lisura. O partido com o maior número de condenados – e com uma certa margem perante os demais – é o PP, coincidentemente o mesmo partido que abrigou o então parlamentar Bolsonaro por mais de 20 anos (e por toda carreira do coronelíssimo prefeito de Uberlândia). Outros destaques nessa lista impressionante são o PL – cujo presidente do partido, Valdemar da Costa Neto foi condenado e preço por corrupção, cumprindo prisão domiciliar por muitos anos e hoje abrigando, vejam só, o atual presidente da república – e o PTB, cujo presidente Roberto Jefferson não pôde se candidatar à presidência por estar impedido pela lei da ficha limpa(condenado por casos de corrupção) e que nos premiou com o falso padre surgido do submundo para tumultuar os debates presidenciais e servir de escada para o atual ocupante do planalto. Não é no mínimo curioso que partidos tão manchados por casos de corrupções em suas fileiras estarem todos alinhados ao governo que alega ter “acabado com a corrupção”?

Em segundo lugar, a reflexão final: corrupção é uma denúncia relativamente fácil de se fazer, porém muito complexa de se comprovar. Afinal de contas, entre tantas contas públicas, notas de serviço, licitações e concessões, como rastrear de onde vem o dinheiro e para onde vai para que se possam estabelecer provas confiáveis que houve desvio de dinheiro público para enriquecimento ilícito dos favorecidos, configurando-se assim o crime de corrupção de fato? Isso somente é possível se houver um investimento maciço em órgãos de fiscalização publica, como Ministério Público, Policia Federal e em toda a esfera judiciária. Com autonomia e infraestrutura para realização de um bom trabalho investigativo, as denúncias de corrupção surgirão aos montes – até porque, como já havia dito aqui – esse é um traço cultural inerente à sociedade brasileira.

O contrário também é verdadeiro, quanto menos autonomia e investimento houverem para investigações, menos denúncias e condenações por corrupção haverão. De novo, ao se olhar para os governos anteriores no Brasil, em qual momento da história foram criadas mais medidas para controle das contas públicas (como o Portal da Transparência, abandonado no governo Bolsonaro) e para liberdade investigativa do ministério publico e polícia federal no combater a corrupção? De 2003 a 2014, e quem estava no poder durante esse período? O PT.

Entendam de uma vez por todas: não acredito que não houve corrupção nos governos do PT; pelo contrário, sei que houve. Na realidade este é o meu maior ponto de crítica ao PT: para ser governo, deixaram de lado muito da identificação histórica do partido e se aproximaram com enorme semelhança às praticas adotadas historicamente em todos os governos anteriores, provando que, para conseguir governar no país, não importa se o partido é de esquerda ou direita, ele vai precisar aprender a jogar esse jogo obsceno de troca de favores com o congresso, do contrario passará ao rodapé da história como um governo fraco que não conseguiu levar adiante nenhuma politica autoral durante seu mandato.

Em outras palavras, o aspecto mais criticado nos governos do PT e aquele pelo qual é condenado veementemente como o mais imoral dos governos é o aspecto no qual ele mais se assemelhou aos governos de direita que vieram antes e depois da década em que o partido dos trabalhadores esteve no poder.  A grande diferença é que a hiperexposição de cada denuncia de corrupção por conta das redes sociais e internet existentes hoje e claro, a disposição da grande mídia – ressentida até hoje por um partido de origem popular ter chegado ao poder e ousado se manter lá – em querer massacrar a historia e o maior personagem do partido para que nunca mais ousassem ser governo no país. O projeto e o desejo não é só o de pregar de forma irremediável o rotulo de “bandido corrupto” em Lula e o PT. É o de massacrar as lideranças de esquerda para que nunca mais ousem ser governo no país.  O projeto em voga no país não é o de condenar e combater a corrupção, é o de construir uma narrativa na qual estes crimes só aconteceram e acontecem nos governos de esquerda, para que isso fique impregnado no imaginário popular e nunca mais consigam chegar ao poder.

O combate à corrupção talvez seja a mais inglória e difícil das batalhas a se promover no Brasil, pois como disse anteriormente, ela mexe com traços culturais nacionais e, por se tratar de uma pauta altamente moral, é facilmente distorcida com uma narrativa pseudo-religiosa e repleta de uma moralidade tacanha que não se atreve nunca a olhar de forma crítica a assuntos complexos, mantendo uma análise rasa e superficial do tema, pois assim é mais fácil de engajar e manipular o máximo de pessoas para aceitarem a narrativa estabelecida pelos verdadeiros donos do poder no Brasil. É difícil, complexo e exaustivo tentar ser critico nesta temática, mas somente insistindo no assunto é que poderemos um dia ver alguma mudança, ainda que marginal, nessa realidade.

Esqueçam o combate à corrupção

Combate à corrupção – Créditos na imagem

Estamos a menos de 10 dias do primeiro turno das eleições de 2022, as mais importantes desde a redemocratização do Brasil, por isso o momento é bastante oportuno para abordar algumas questões que venho refletindo há meses, com relação a temas relacionados à presumida “festa da democracia”.

E o tema escolhido para abrir esta série de textos que trarei daqui até as eleições não poderia ser outro senão o combate à corrupção, ou sendo mais enfático, a própria corrupção em si. Este é um tema constantemente em voga ao se tratar de política e se for feita uma pesquisa com os cidadãos brasileiros que dizem detestar a política, me arrisco a dizer que a corrupção será apontada como a principal razão de tal “ódio”. Mais do que isso, o atual “presidente” (sempre entre aspas porque o elemento que hoje ocupa o planalto não é digno de ser tratado como presidente de fato), em sua busca ensandecida para se manter no poder – a fim de evitar a prisão por todos os crimes cometidos nos últimos 3 anos e meio – insiste no tema ao tentar colar a imagem de corrupção como exclusiva aos governos do PT e, consequentemente ao presidente Lula.

Não vou aqui fazer uma defesa dos governos petistas, tampouco vou me estender falando dos inúmeros escândalos de corrupção no atual governo, e muito menos vou ceder à tentação de cair na celeuma da competição de quem é mais corrupto, ou quem roubou mais porque não vai levar a lugar nenhum. De forma alguma; aliás, meu objetivo aqui é outro: é de expor a minha ideia de que deveríamos esquecer essa conversa de combate à corrupção em debates eleitorais e muito menos estabelecer esse requisito como parâmetro na hora de escolher um candidato no dia 02 de outubro.

E não falo somente das eleições presidenciais, mas de todo o espectro de cargos e candidatos existentes no pleito atual. É urgente e imprescindível que deixemos de lado essa temática anticorrupção porque a corrupção não deixará de acontecer, independentemente dos candidatos que possamos escolher no início do próximo mês. A corrupção é um traço cultural brasileiro, me arrisco a ir até um pouco mais além e dizer que se trata de uma predisposição da própria raça humana. O homo sapiens, como animal que é, foi constituído biologicamente para garantir a sua sobrevivência e do seu grupo imediatamente ao redor, utilizando para isso de todos os mecanismos possíveis, principalmente o seu imenso cérebro altamente desenvolvido. As regras sociais que ditam que tal comportamento é corrupto foram criadas posteriormente à constituição humana, portanto são estranhas ao nosso comportamento animal, daí que em uma ocasião na qual possamos obter uma vantagem que nos traga uma realização pessoal, raramente deixamos de aproveitar esta oportunidade, ainda que socialmente possa ser vista como um comportamento corrupto.

Sejamos honestos: todos nós cometemos pequenos atos de corrupção constantemente quase sem perceber. Seja furar uma fila enorme porque há um conhecido lá na frente que nos oferece um lugar junto dele, ou então a tal “caixinha” de TV para obter os canais pagos de forma gratuita, ou ainda os “cafezinhos” ou brindes que oferecemos ou recebemos a fim de desenrolar um trabalho mais rapidamente que por vias formais e corretas. Fato é que a diferença entre o cidadão comum que vive a sua vida comum e obtém pequenas vantagens cotidianas vistas como algo normal, e o político no congresso que desvia milhões de verbas direcionadas à hospitais ou merenda escolar de crianças para uso pessoal é puramente a oportunidade apresentada. Qualquer um de nós, que estivesse em condições similares à do político corrupto dificilmente teria uma reação diferente.

“Ah, mas veja bem, você está generalizando, não são todas as pessoas que são assim, isso é um absurdo”, diriam alguns. É mesmo absurdo? Será que, mesmo que lustremos nossa consciência com um verniz de idoneidade e ética, lá no fundo do nosso cérebro, a ideia de obter um dinheiro fácil, quase sem riscos, que eu poderia usar para o que bem entender, não mexe conosco? Será que eu seria capaz de “ceder à tentação” de ter um ganho tão fácil e simples assim?

A questão é pertinente, não acham?

E aí eu chego ao meu argumento final: a corrupção nos governos irá acontecer de qualquer forma. Seja X, Y ou Z no poder, os esquemas continuarão ocorrendo, ainda que uma ou outra voz dissonante queira chamar a atenção para algum esquema em particular. Porque trata-se de uma roda gigantesca que gira independentemente de quem esteja movendo-a no momento. Seja por qualquer motivo, é muito difícil alguém entre no governo, em qualquer cargo que seja, e terá condições de verdadeiramente combater a corrupção.

Sejamos práticos, o discurso anticorrupção é tão velho quanto a própria república brasileira. Temos documento históricos de campanhas na velha republica prometendo o fim da corrupção. Temos a mítica canção do “varre varre vassourinha’ prometendo varrer a corrupção do governo. Temos o “caçador de marajás” que ia limpar o país dos corruptos e caiu justamente por denúncias de corrupção.

Poderia prosseguir por horas, mas o fato é que combate à corrupção deve ser a promessa de campanha mais comum na política brasileira, e por isso não deveria ser a régua utilizada para medir os candidatos. Olhem para o programa de governo de cada um deles, vejam o que propõem para melhorar a dignidade do cidadão brasileiro. Quais suas propostas para a saúde, como irá fomentar a educação, quais as estratégias para o combate à violência e a pobreza, como pretende preservar o meio ambiente, dentre outros temas. Estes deveriam ser os tópicos relevantes ao se escolher um candidato. Esqueçam o combate a corrupção. Nenhum candidato conseguirá de fato mexer com esse tema. Seja por medo de ser rechaçado por seus pares, por ameaças ou simplesmente pelo tamanho do desafio para de fato ter alguma mudança, essa é uma promessa que não será cumprida, então deixem de lado de uma vez por todas essa discussão vazia e cobre dos candidatos maior profundidade de discurso e soluções concretas para os maiores problemas do país.

A redução da corrupção será consequência de um conjunto de transformações socioculturais em nosso país, e não causa. Será preciso investir muito tempo, dinheiro e disposição em ética, cidadania e principalmente educação para que possamos chegar a um patamar de verdadeiramente perceber uma redução na corrupção nacional. Neste momento, não será possível, foquemos, pois, naquilo que está ao nosso alcance: a chance de proporcionar uma vida um pouco mais digna a todos.

Redes sociais e Corrupção – a percepção e a era PT

Redes Sociais e a manipulação da realidade – Charge Joana Afonso

O assunto da postagem anterior é bastante amplo, e gostaria de continuar abordando neste texto de hoje. Tenho refletido muito sobre como as redes sociais transformaram a nossa realidade a nossa forma de interagir com as demais pessoal e com o mundo em geral. É claro que transformaram também a nossa relação com a política.

Nunca fomos o povo mais atuante e participativo na vida política do país, raramente nos engajamos de forma ativa fora do período eleitoral e entendemos como política somente o processo de eleição dos representantes para os cargos eletivos. Como sempre deixamos esse assunto de lado por 2 anos até o próximo ciclo eleitoral, os nossos políticos são péssimos e se aproveitam imensamente da paralisia do povo com relação à política. Com as redes sociais passamos a ter uma falsa sensação de participação e acompanhamento, uma vez que podemos seguir os mais diversos políticos em suas redes. Mas, como somos mal preparados para lidar com esse tema, o escrutínio público e constante das redes sociais não trouxe o esperado grau de fiscalização e cobrança por melhores projetos e atitudes. Somente acirrou ainda mais os ânimos dos momentos de disputa eleitoral para uma guerra quase diária de opiniões diversas. Somos um povo historicamente mal preparados para discutir propostas e ações para melhoria da vida de toda a sociedade.

E, nesse contexto, o assunto mais mencionado e discutido sempre é a malfadada corrupção dos políticos. Esse é um dos assuntos mais antigos na política nacional e em todo ciclo eleitoral surge um candidato para prometer acabar com a corrupção, quase sempre se colocando como “a nova voz da política”, ou algo similar. Jânio Quadros, já na década de 60 chegou ao planalto com o mesmo discurso de “varrer” a corrupção da política. O atual presidente foi eleito com esse mesmo discurso, alegando ser a “nova política”, quando os fatos mostram que não é nada além de mais do mesmo. Estamos já na terceira década do século XXI e nada mudou, como se pode ver.

A corrupção é uma prática vigente no país desde os tempos de colônia. Sugiro a leitura do maravilhoso livro 1808, de Laurentino Gomes, que aborda como a corrupção foi essencial para o estabelecimento da Coroa Portuguesa em terras brasileiras. Com o advento das redes sociais, há uma percepção equivocada de que nunca se roubou tanto no Brasil como agora, ou nos últimos 20 anos. Os casos de corrupção pipocam diariamente à nossa frente e mal conseguimos acompanhar todas as denúncias.

A verdade é que antes, com a informação concentrada nas mãos de poucos veículos de comunicação, o que chegava à grande massa de pessoas era uma informação filtrada e tratada conforme os interesses de cada veículo, portanto tínhamos conhecimento de uma pequena parcela da realidade. Hoje, com o boom da internet e principalmente os smartphones, a informação está na palma de nossa mão e em tempo real, com isso a velocidade e frequência com que as denúncias e casos de corrupção chegam até nós é estonteante, nos dando a percepção de que isso está acontecendo em uma proporção maior.

E neste contexto, vivemos simultaneamente o primeiro governo de um partido de origem trabalhadora e de orientação política de esquerda, com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder. Somando-se a informação maciça ao ódio das classes econômicas dominantes pela chegada do PT ao poder, todo o cenário de corrupção foi potencializado para se dizer que nunca se roubou tanto quanto nos governos de esquerda. A realidade é que o PT foi o primeiro governo neste cenário em que qualquer desdobramento político é maciçamente escrutinado e discutido por muitas pessoas nas redes sociais, dando a visão de que se tornou algo maior do que realmente é. Foi o primeiro governo no Brasil a ter de lidar diariamente com a virulência das redes sociais, em que a informação chega a cada vez mais pessoas, porém carregadas de visões particulares de cada pessoa que a replica.

Junte-se a isso o ódio de classes fomentado pelos grupos econômicos dominantes do poder, frustrados pela chegada de um governo populista de esquerda, personificado na figura de um retirante nordestino forjado na metalurgia, que não somente tem a audácia de chegar ao poder, como de conseguir se reeleger sistematicamente, ficando um tempo surpreendentemente longo no poder. O discurso distorcido de corrupção recorde replicado nas redes sociais à exaustão é explorado diariamente nos telejornais que (ainda) são o veículo mais poderoso para chegar a todos os domicílios brasileiros, o que potencializa ainda mais a percepção que é distribuída.

A meu ver, o maior problema dos governos do PT e que é altamente passível de críticas foi o fato de que o partido que se vendia como um grupo que faria nova política tenha se igualado em muitos aspectos ao que todos os outros governantes fizeram antes deles, de se aliar a personagens nefastos da política nacional e negociar pastas e ministérios para se ter maioria no congresso e conseguir a tão sonhada governabilidade. Ainda que qualquer partido que ascenda ao poder tenha que se vender – em maior ou menor nível – à esta prática para conseguir colocar um mínimo de suas propostas de governo em prática.

Uma vez mais, ficamos discutindo os personagens, amando uns e odiando outros, quando deveríamos estar discutindo os meios de se fazer política no país, os métodos moralmente questionáveis e altamente prejudiciais ao povo de se conseguir apoio político no Brasil. As pessoas se vendem por muito pouco, deixando os seus valores e as bandeiras que defendem enquanto militantes inteiramente de lado.