Resenhando (#2)

O Livro Obscuro do Descobrimento do Brasil, de Marcos Costa. Foto: Google

Quando me proponho a ler um livro de História (a ciência mesmo), sempre pesquiso antes para saber quem é o autor e se é um pesquisador sério e pode ser considerado como uma boa referência no assunto. Este cuidado vem desde que ganhei de presente um livro sobre fatos históricos, mas escrito por alguém que não tem compromisso com a pesquisa científica séria ao tratar destes fatos. Não vou citar qual o autor ou o livro, mas para qualquer pessoa que tenha pegado algum volume que se autointitula “politicamente incorreto” sabe do que estou falando.

Antes de mais nada é preciso deixar uma coisa bem clara: este é um livro de História. Não é um romance, ou uma ficção. Por essa razão, inicialmente é um livro que pode ser de difícil leitura para que não está acostumado com o estilo. O livro apresenta detalhamente diversos elementos que contribuíram direta e indiretamente com o “descobrimento” do novo mundo pelos europeus. E quando digo detalhadamente, não é uma figura de linguagem e sim uma constatação: em diversos trechos de sua narrativa, como forma de ilustrar um tema mais profundamente, o autor se utiliza de escritos históricos da época, cartas trocadas entre reis e papas, entre colonizadores e padres, e diversos outros relatos que, embora riquíssimos do ponto de vista histórico, acabam por deixar a leitura um pouco maçante e cansativa em alguns momentos.

Não que isso seja algo ruim, entendendo o perfil de historiador do autor, é mais do que compreensível o desejo de cercar-se de documentos seguros que possam contar detalhes da época relatada, porém por se tratar em grande parte de documentos do final da idade média (séculos XV e XVI), a forma da escrita é diferente do praticado atualmente, então requer mais atenção e interpretação para compreensão exata do que se está dizendo. É uma questão de gosto, claro, mas eu particularmente preferiria que fossem utilizados recortes menores, e feito uma paráfrase em outros momentos, de forma a deixar a leitura mais prazerosa para leitores que não são tão ligados assim em história. E digo isso como alguém que ama história e se delicia com obras como essa.

Falando da obra em si, o autor faz uma combinação de diversos elementos históricos que levam as nações europeias a se lançarem na aventura de navegarem rumo ao ocidente, desbravando o assustador (para a época) Oceano Atlântico. O autor nos mostra que o “descobrimento” do Brasil e das Américas foi muito mais que um mero “acidente de percurso” ao se tentar chegar às Índias por parte das nações ibéricas e que as datas “oficiais” da descoberta pouco tem relação com a chegada dos primeiros europeus no continente americano.

Eu gostei particularmente de o autor sanar uma dúvida antiga minha, desde os tempos escolares. Nunca entendi, em minha mente adolescente, por que razão os portugueses, ao tentar chegar à índia navegando ao redor do continente africano, acabaram vindo parar no Brasil. Sempre me pareceu um desvio um tanto desconexo, pois seria mais fácil margear e acompanhar a linha do continente africano. O autor explica, brilhantemente, que se trata de uma questão natural, uma vez que as correntes do atlântico propiciam uma navegação mais segura e rápida nesta direção, e seria mais fácil para as embarcações portuguesas se deixarem levar pela corrente ao invés de lutar com elas para se manterem próximas à costa africana.

O livro é muito rico, a leitura, apesar do que já pontuei acima, flui de forma natural e, para quem gosta de fatos históricos como eu, bastante instigante. Existem muito mais detalhes que ajudam a entender a construção da nação brasileira. Como, por exemplo, os impactos da inquisição espanhola nos destinos da colonização do Brasil, e a influência da Reforma Protestante e da Contrarreforma na ascensão e queda dos impérios Ibéricos. Dou uma nota 4,5 pelo conteúdo e um 3,5 pela construção do texto. Nota 4 no conjunto geral da obra. Recomendado a todos, e particularmente aos que se interessam por questões históricas.