Pós eleições e o futuro por vir

Finalmente acabaram as eleições. O período entre o primeiro e o segundo turno foi sofrível como imaginávamos. O resultado foi apertado como todos esperávamos, ainda que não quiséssemos acreditar. A negação dos derrotados em aceitar a derrota, previsível. Quem acompanhava meus textos por aqui deve ter percebido um decréscimo no volume de postagens na véspera das eleições em final de outubro e meu total silencio após o resultado final. Pois é, não era este o planejamento, mas faltou disposição. Estava resgatando minha base aqui e percebi que havia planejado publicar 8 textos na reta final das eleições, dos quais 5 já estavam escritos. Mas na correria do dia-a-dia, no cansaço com o acirramento insuportável das emoções e com diversos problemas pessoas acontecendo, faltou fôlego para conseguir colocar no ar tudo o que estava pensando.

Hora de seguir em frente e recuperar o atraso provocado pelos ultimos 4 anos.

Não fez falta, no final das contas, pois tudo o que queria falar eventualmente já havia sido dito por pessoas mais preparadas ou mais dispostas que eu. Pós eleições e com o eventual caos decorrente das manifestações golpista dos derrotados, optei pelo silencio. Preferi saborear a vitória tão difícil e sofrível, e talvez por isso, infinitamente mais doce que todas as anteriores. Entendo perfeitamente meus amigos e colegas que disseram que perdemos mesmo vencendo. Por diversos momentos a sensação era essa mesma. EU mesmo cheguei a relatar isso ao término do primeiro turno. Mas acabei mudando de ideia. É muito importante poder celebrar essa vitória. Pois não é uma vitória da soberba nem da arrogância. É uma vitória da sobrevivência. Como bem disse Gregório Duvivier em um belíssimo vídeo que viralizou após o termino da eleição, foram 6 anos que precisamos continuar lutando e sobrevivendo diariamente quando absurdos inimagináveis aconteciam, a sensação de impotência e falta de esperança no futuro ameaçando tomar conta de tudo. Foram anos dificílimos: todas as nossas crenças na inteligência, na ciência, na humanidade, na tolerância, na fraternidade e na democracia foram colocadas à prova e tínhamos que seguir lutando e acreditando que um dia coisas poderiam melhorar.

Não vou negar: houveram momentos em que acreditei que estávamos condenados. Os absurdos promovidos pelo governo e seus seguidores eram tão surreais para alguém que, como eu, nasceu às vésperas da redemocratização e viveu tempos de prosperidade, fé no futuro e no potencial gigantesco de nosso país que foi difícil conseguir encarar tudo o que estava acontecendo e acreditar que poderíamos superar o desmanche do país a olhos vistos e ousar manter a esperança de que as coisas um dia voltariam a melhorar. Mas vencemos. Derrotamos uma máquina de mentiras voraz e atuante como nunca antes houve no país. Derrotamos a compra de votos institucionalizada pelo governo, o impedimento por parte das forças policiais do país de cumprir uma obrigação constitucional do cidadão e a conivência e indiferença de milhões de brasileiros que não se importam com o que está acontecendo no país agora e no futuro, desde que a sua realidade e seus privilégios se mantenham intocados.

Para mim foi particularmente libertador o término das eleições com vitória de Lula para não ter que lidar com esse último grupo. De um tempo pra cá eu passei a chamá-los de “Os Relativistas”. São aquelas pessoas que dizem não concordar com as coisas que o Bolsonaro fala ou faz, mas relativizaram e encontraram uma forma de justificar todas as atitudes e atrocidades por ele cometidas nos últimos 4 anos em nome de um ódio de classes velado que se materializa com o ódio à figura do presidente Lula. Essa galera é aquela turminha que se vende como “progressista”, ou “isentões”, ou ainda mais comum, “liberais”, que acreditam em uma ilusão de livre mercado como a solução de todos os problemas do mundo. É uma galera que adora postar uma ação de caridade pra se promover como solidário, mas quer a diminuição radical de auxílios governamentais aos mais vulneráveis. Esse pessoal se diz esclarecido e humanista, mas em diversos momentos foram mais bolsonaristas do que os próprios seguidores do presidente derrotado. Em várias oportunidades eu os considerei ainda mais nocivo que os “minions” apaixonados. Porque esse grupo é um caso para estudos psicológicos nos próximos anos, tamanha a contaminação e cegueira pela “Verdade do zap” que construíram toda uma realidade paralela e acreditam firmemente que estão vivendo nela, portanto falta senso crítico e toques de realidade para que possam enxergar o absurdo que estão defendendo.

Mas, os relativistas, estes não. Eles até possuem senso de realidade. Conseguem perceber o quanto o governo atual foi absurdo. Foi desumano. Mas ainda assim relativizam tudo o que aconteceu, porque para eles, “é impossível votar no Lula ou no PT”.  O ódio por um determinado partido ou pessoa os impedem de olhar criticamente o cenário e fazer uma escolha democrática, ainda que pragmática. Aliás, sobre a democracia e a sociedade brasileira, fiquem ligados. Isso será tema de uma futura postagem. Mas retornando aos relativistas, no final das contas são pessoas centradas em si mesmas e olham somente para o que lhe diz respeito. Se milhões sofreram nos últimos 4 anos, se diversos grupos e minorias foram vítimas de perseguições, violência e morte por apoiadores do atual presidente e estimulados por ele, isso pouco lhes afeta, uma vez que não diz respeito às suas realidades. Essa dificuldade em se reconhecer privilegiado e entender que muitas vezes a escolha do governo impacta pouco em sua vida, mas pode afetar diretamente a vida de outros, tornou o diálogo e a convivência com os relativistas nos últimos meses muito difícil.

Hoje, infelizmente a história é muito mais compreensível. Por anos, mesmo estudando muito, não conseguia entender verdadeiramente como os movimentos fascistas da década de 30 obtiveram sucesso na Alemanha e Itália. Mas hoje a história faz muito mais sentido em minha cabeça. Não foi por conseguirem maioria nazifascista na população de seus países que Hitler e Mussolini chegaram ao poder e materializaram atrocidades inimagináveis. Mas foi pela indiferença de boa parte da sociedade, que optou por dar de ombros para as evidências autoritárias, violentas e inumanas de seus líderes e apoiadores, que chegamos ao cenário extremo de uma guerra mundial.

Sobre as manifestações ilegais e antidemocráticas que alguns apoiadores do presidente insistem em continuar fazendo mesmo um mês após as eleições, tenho pouco a falar. Exceto que essa galera está se manifestando por financiamento de empresários que faturaram alto com o entreguismo dos anos bolsonaristas, por conivência das policias, da sociedade e da mídia. Como foi comentado nas redes sociais, fossem professores protestando por melhores salários e condições de trabalho, teriam sido repelidos com truculência e violência, além de inúmeras reportagens negativas já no segundo dia. Reflexos de uma sociedade que ainda precisa avançar muito: pedir investimentos na educação é motivo para ser recebido com – perdão pelo comentário chulo e infame – “tiro, porrada e bomba”. Manifestações favoráveis à tortura, a violência, ao racismo e a homofobia, são recebidas com tapinhas nas costas e condescendência.

Foram difíceis as últimas semanas que antecederam as eleições, assim como estão sendo as que a sucederam e continuarão sendo até o país assimilar de fato que voltaremos a ter um presidente, um governo e um país em reconstrução. Eu precisava de um tempo para me recompor e reencontrar a energia e a disposição em escrever. Ainda tem muito a acontecer até a posse do presidente Lula, mas parece que já é possível vislumbrar e crer que ainda teremos um país em janeiro de 2023, tremendamente combalido e sucateado, precisando ser reconstruído, mas ainda assim um país. E isso já é motivo para muita celebração.
Aqui no blog a expectativa é que possamos retomar assuntos mais interessantes, diversos e enriquecedores que tratar somente de política, ainda que possa retornar a esse tema quando julgar necessário. O desejo é o de retomar um ritmo de postagens semanais, talvez até por duas vezes na semana. Como disse aqui em casa para minha esposa, é mais fácil ter energia e assunto para outras coisas quando não precisamos lutar diariamente contra o neofascismo. E é com essa alegria de acreditar que podemos novamente ter fé e esperança no futuro é que retomo este espaço. Seja bem vindo, futuro!

O último apelo

Estamos a pouco mais de 24 horas do resultado das eleições presidenciais de 2022. Amanhã neste mesmo horário receberemos os primeiros números de apuração das urnas pelo Brasil e começaremos a celebrar ou lamentar. Tudo o que havia de ser dito já foi dito. Todos os pontos já foram colocados na mesa e discutidos exaustivamente. Nessa altura do campeonato, todos já estão com seu voto decidido para amanhã.

Minha passagem por aqui hoje é somente para fazer um último apelo. Peço a todos que apelem para a sua humanidade. Deixem de lado o que viram no WhatsApp. Deixem de lado os vídeos de “analistas” ou especialistas falando de previsões chocantes caso Lula seja eleito. Gente, sejam minimamente razoáveis. Se você está próximo dos 30 anos ou já passou dessa idade, você viveu conscientemente os anos de governo Lula no Brasil. Nunca viramos uma ditadura comunista, não passamos nem perto disso. Se você tinha 5 anos de idade em 2002 você se lembra de tudo o que aconteceu naqueles tempos, mesmo que fosse uma criança sem qualquer preocupação. O Brasil era um país feliz. Otimista. Esperançoso com o futuro. Racionalmente não há como você pensar que o Brasil dos últimos 4 anos está melhor que isso. Não tem como. Você pode ter escolhido acreditar nisso, mas no fundo de sua consciência você sabe que isso não é verdade.

Mas eu havia falado de humanidade. Gente, apelo para que sejam mais humanos. Os ataques a pessoas de Igrejas, toda a arruaça feita durante a festa da padroeira do Brasil. Todos os padres e pessoas que estão sofrendo ameaças de morte por simplesmente estarem pregando o evangelho de Jesus Cristo. Não é possível que não consigam perceber que as pessoas que estão se ofendendo e se exaltando durante homilias e sermões Brasil afora estão sentindo isso ao ouvirem literalmente a “palavra de Deus”. Isso é normal? Vocês realmente acham que é o PT ou Lula ou a esquerda quem estão provocando isso? Gente, Lula foi candidato à presidente por 6 vezes e em nenhuma das outras 5 vezes houve qualquer tipo de manifestações como essa, qualquer ataque a pessoas do clero ou quem quer que seja. Sério mesmo que vocês acreditam que o problema está no Lula ou na esquerda? Qual a única diferença nas eleições presidenciais que houveram antes de 2018 e de lá para cá? A violência, a truculência, a intimidação. Por qual motivo vocês acham que essas manifestações de violência estão acontecendo com maior frequência e agressividade neste momento?

Sejam humanos, gente. Deus nos dotou de um cérebro altamente capacitado para que pudéssemos pensar. Vamos utilizar esse presente! Sejamos críticos. Sejamos conscientes. E mais uma vez, sejamos humanos. Não é possível que tanta violência, tanta indiferença com a dor do outro, tanta falta de empatia e gentileza sejam normais. Passamos por uma pandemia que morreu quase meio milhões de pessoas por indiferença. Por descaso. Eu perdi um amigo queridíssimo que não pode sequer conhecer a minha filha. Que não poderá visitar a minha casa para um almoço de domingo. Por descaso. Por falta de humanidade de quem deveria zelar pela vida dos brasileiros. Não é possível que já se esqueceram disso. Não é possível que irão relevar isso. Não é isso que queremos para nosso país. Não é isso que queremos para nosso futuro. Se não querem pensar no mundo melhor agora, pensem no mundo que querem deixar para seus filhos e netos.

Apelo para a humanidade de cada um de vocês. Tenho uma filha de 2 anos, que está começando a descobrir o mundo, começando a experimentar de fato esta grande aventura que é a vida. Me ajudem a permitir a ela um mundo onde possa correr e brincar por ruas e praças sem medo de sofrer qualquer tipo de violência ou abuso. Permitam que ela possa ir para escola e brincar com os amiguinhos sem o receio de que algum deles possa ter pegado a arma do pai/tio/irmão e levado para mostrar aos coleguinhas na hora do recreio. Permitam que ela cresça consciente de sua força e capacidade e possa ter direito a todas as oportunidades de forma igualitária. Que ela possa nunca ser diminuída ou depreciada por ser mulher. Que ela possa ter condições de sonhar com um futuro em que haja abundância de água, alimento, saúde e educação.

Se você é pai ou mãe, sabe do que eu estou falando. Do quanto sonhamos e desejamos que nossos filhos possam ter uma vida feliz. Se você não é, certamente é tio, primo ou amigo de crianças e certamente quer o bem delas e quer que cresçam em um mundo com mais amor, com mais compaixão, com mais humanidade. E isso não será possível com nosso país vivendo como em um faroeste sem lei, com as pessoas raivosas e armadas por todo lado, buscando somente uma oportunidade para se mostrarem as mais fortes ou corajosas unicamente por terem uma arma na mão.

Pelo amor de Deus, o que está em jogo aqui é algo muito maior que somente o medo de um comunismo irreal que nunca existiu e nem existirá. O que está em jogo aqui é a oportunidade de tentarmos mais uma vez construir uma sociedade com maior humanidade, tolerância e paz. Não permitamos que um lunático violento com fetiche por armas desvirtue a nossa sociedade e nos torne um país cheio de ódio.

Você pode não gostar do Lula, é normal e legítimo. Mas infelizmente, ele é a única opção que restou para que possamos voltar a ter um mínimo de normalidade em nosso país. De ter um presidente que se responsabilize por seus atos. Que queira falar a todos os brasileiros, e não somente aos que o apoiam. Que queira construir pontes e dialogar e não somente agredir e subjugar aquele que é diferente, ou pensa diferente. Nós merecemos poder dialogar com todos. Mas é impossível fazer isso se alguns dos outros estiverem armados e prontos para tirar a nossa vida somente porque não concordam com as nossas escolhas.

Pensem em nossas crianças. Você se sentiria seguro se os professores de seus filhos estivessem armados na escola e lidando com os desafios de educar várias crianças inquietas? Você gostaria que o professor de natação do seu filho o xingasse e o chamasse de incapaz somente porque a criança não conseguiu fazer o exercício que ele pediu? Você se sentiria à vontade se o Uber que sua filha adolescente pegou para ir à festinha na casa da amiga olhasse com olhos lascivos para ela porque acha que pintou um clima somente porque a menina foi educada? Você acredita que o ambiente mais acolhedor para a família é uma igreja onde todos são raivosos e julgam cada pequeno detalhe da vida do outro, impondo regras e sofrimentos a quem não se enquadra no modelo que avaliam como certo?

Sejam humanos! A inteligência é o maior dom que recebemos de Deus e o que nos diferencia da maioria dos outros animais que andam por esta terra. Rogo esse apelo a todos que estiverem lendo este texto. Sejam humanos. Não se deixem contaminar pelo ódio ou pela estupidez. O mundo é complexo, é difícil, é injusto, mas somente com humanidade e harmonia teremos uma chance de prosperar. Sejam humanos. Escolham a humanidade amanhã. Deixei a irracionalidade de fora da sala de votação. Votem pela paz. Votem pela harmonia. Votem pelo respeito. Votem pelo amor. Quem ama não quer violência. E quem não quer violência não precisa de armas. Sejamos luz. Sejamos amor. Multipliquem o amor. O amor é dom de Deus. Não o ódio. Votem com amor! 

SEM MEDO DE SER FELIZ!!!

A hora da esperança

Na última segunda feira, fiz uma postagem a respeito do resultado das eleições gerais do Brasil em 2022. No texto, repleto de tristeza e desânimo, comentei que mais do que o resultado das eleições, perdemos enquanto sociedade que desperdiçou mais uma chance de ser um pouco melhor, de avançar um pouco mais.

Não vou negar, fiquei muito decepcionado com o resultado; foi muito triste atestar que uma grande parte da população, mesmo tendo sofrido perdas pessoais e materiais enormes nos últimos 4 anos, continua apoiando este terrível projeto de poder neofascista excludente e preconceituoso representado pelo atual ocupante da cadeira de presidente da república. Minha frustração maior foi constatar que, para além dessa figura repugnante, boa parte de seus apoiadores que se lançaram em candidaturas próprias obtiveram bons resultados. Certamente acreditei que após tanta tristeza, esse movimento perderia forças.

Assumo a minha ingenuidade. Apesar de sempre fazer uma análise crítica do perfil sociocultural do brasileiro, ainda relutava em aceitar que o brasileiro poderia ser assim tão conservador, preconceituoso e misógino como se apresentavam estes candidatos. Mas a realidade é que somos verdadeiramente assim mesmo, o Brasil é um país com os dois pés fincados na tradição e ainda que tenhamos bolhas de progressismo e liberdade em alguns locais (quase sempre nos maiores centros urbanos); na maior parte do país, especialmente no interior, o tradicionalismo é quase lei, estimulado pela herança religiosa sistematicamente. Seja na tradição católica que ainda possui muito espaço, especialmente nas pequenas cidades e no campo, ou com o crescimento do número de evangélicos no país, com destaque para as representações neopentecostais pouco sérias que possuem explícita e quase que exclusivamente um projeto de tomada de poder no país, antes mesmo de um objetivo de propagação da fé cristã.

É esse retrato de Brasil que emergiu das urnas no último domingo. Talvez por estar esperando um resultado alinhado à minha visão de mundo e dos fatos nos últimos anos, eu tenha ficado um pouco assustado com o que apareceu. Mas a realidade que vejo agora, passadas 48 horas e com a cabeça mais fria, é que este resultado era esperado. O congresso nacional foi e continuará sendo a partir da próxima legislatura o mesmo espaço de sempre: branco, elitista, latifundiário e conservador. Com raríssimas exceções pretas, pobres e progressistas que demonstram a pluralidade do povo brasileiro, que ainda permite a eleição de pessoas fora dos centros de poder contra todas as expectativas.

Tenho uma teoria de que o baque que sentimos é porque hoje temos muito mais acesso à informação e podemos acompanhar em tempo real o desempenho do congresso, coisa que não era possível há alguns anos. Com a massificação da internet e das redes sociais, temos na palma da mão amostras diárias dos posicionamentos de todos os congressistas, bem como todas as articulações que são feitas ali. É como um grande reality show bizarro que acompanhamos e podemos a cada 4 anos escolher os participantes da brincadeira. Dessa forma pudemos perceber o quão baixo é o nível intelectual e moral dos ocupantes da “casa do povo” e tendemos a acreditar que a cada legislatura o congresso eleito é o pior da história. Acredito que a diferença é que anteriormente não tínhamos esse acesso à informação para perceber que historicamente, sempre foi assim e o nível do congresso sempre foi deplorável.

Fiz todo esse permeio para concluir que o meu estado de desânimo pós domingo de esvaneceu. O resultado era esperado e foi apenas reflexo de todas as nossas mazelas enquanto sociedade. Temos muito para avançar e muito pelo qual continuar lutando para que o futuro possa ser um pouquinho melhor. E mais do que isso: acompanhando um pouco da reação da seita bolsonarista ao resultado das eleições, todos ficaram chocados e verdadeiramente sentidos com a vitória do Lula na eleição presidencial, resvalando na possibilidade de fechar já no primeiro turno, apesar de todas as pesquisas indicarem esta possibilidade como real.

O descolamento da realidade vivido por esse pessoal é tão grande que uma parte gigante deles acreditava verdadeiramente que o excremento da república iria vencer a eleição no primeiro turno e sentiram muito o golpe. São tão fascistas e adoradores da figura do lider infalível que não conseguem olhar para a realidade como um todo, e se interessam somente pelo resultado que afeta o seu lider. E justamente esse resultado foi o mais negativo que tiveram. Os 5 pontos percentuais que o capiroto ficou atrás de Lula, representando cerca de 6 milhões de votos os deixaram chocados e transtornados, pois finalmente perceberam que a possibilidade de perderem a eleição é muito real. E isso já se traduziu em um crescimento massivo no disparo de notícias falsas e insultos a Lula.

Por isso, a nós progressistas que estamos do lado certo da história (a quem ainda duvida disso, o tempo irá confirmar) cabe redobrar os esforços e colocar ainda mais energia na eleição de Lula presidente, para deixar os bolsominions transtornados e sem chão. O congresso é retrogrado? Azar. Lula já enfrentou algo assim no passado e se saiu muito bem. O congresso vai dificultar a vida e os projetos de governo de Lula? Pode ser, mas ao mesmo tempo, Lula, como chefe do executivo, poderá vetar todos os absurdos que o congresso insistir em seguir adiante. Os próximos anos poderão ser um grande cabo-de-guerra do poder? É possível, por isso é ainda mais importante garantir que teremos um lado com muita força para travar essa batalha contra o obscurantismo e conservadorismo do outro lado.

O congresso está eleito, os cargos estão todos definidos e para nós, o foco agora é total na eleição de Lula Presidente. É hora de lutar contra cada peça de desinformação que for lançada. É hora que conversar com os mais humildes para ajudá-los a entender a importância de votar em quem olha para os mais pobres. É hora que conversar as pessoas religiosas que estão verdadeiramente com medo de uma “ameaça comunista” que está chegando desde 1945 e nunca se materializa de fato. Concluindo, é hora de lutar contra a mentira usando a verdade.

É hora de ser aberto, inclusivo, construir pontes com os mais humildes, incluí-los no centro da discussão, quebrar resistências, desmentir absurdos. É hora de força total. Sentimos o baque no primeiro turno. Vamos sacudir a poeira, respirar fundo e continuar a lutar pois a nossa vitória será muito maior e muito mais gratificante. O bolsonarismo é fruto do ódio e da violência, por isso sentiram e sentirão ainda mais o golpe após a derrota final, pois ela virá do amor e da alegria, da esperança em um futuro melhor, apesar de tudo. Como bem disse Zeca Baleiro em sua canção “nossa vingança vai ser de doer, porque seremos felizes como eles não podem ser”, pois quem ressoa no ódio e na carnificina não consegue experimentar verdadeiramente a alegria.

Seguimos na luta, são mais 25 dias de batalha pelo nosso futuro, para que possamos dar um passo mais próximo do destino que queremos seguir, do país que queremos construir e do futuro que queremos preparar para as próximas gerações. Para que possamos sonhar que podemos ser grandes, que podemos ser felizes e que podemos ser verdadeiramente um país inclusivo e justo para todos. Para que possamos verdadeiramente ser a imagem de acolhedores, alegres e sociáveis que tanto tentamos divulgar para o mundo. Podemos ser melhores, podemos ser mais felizes, basta querermos.

Batemos na trave, gente! Mesmo após 10 anos de insultos e perseguição diária da mídia e do gabinete do ódio, contra a máquina estatal usada para fins eleitoreiros, Lula conseguiu a maior votação que um candidato já conseguiu para presidente da república na história do Brasil. Faltou 1,5% para ser eleito no primeiro turno. Sendo massacrado diariamente por todos os lados, ainda assim quase deu pra fechar no domingo. É seguir na pegada. É hora de ter esperança. É hora de acreditar que podemos ser felizes. Que temos direito a um país onde tenhamos paz, respeito, liberdade e inclusão. Podemos e merecemos acreditar que o Brasil pode ser melhor do que somente ódio, ofensas e armas. Merecemos sorrir, brincar e se alegrar! Falta pouco! É só querer, converse com todos, vamos construir uma grande onda de alegria e esperança, é isso que o Brasil precisa após tantos anos de trevas e luto! O amanhã há de ser melhor! Seguimos lutando!!

Infelizmente, perdemos.

Sei que várias pessoas poderão me censurar ou me condenar por estar sendo muito pessimista em um momento já crítico ou estar desistindo antes da hora, mas a única palavra que me vem à mente ao tentar traduzir a sensação de vazio na boca do estomago ao acordar hoje, na primeira manhã pós resultado das eleições de ontem, é essa: perdemos!

Triste país – imagem autor desconhecido (para créditos, entrar em contato)

E o uso do pronome “nós” aqui é utilizado não somente para se referir a nós, militantes progressistas situados mais à esquerda no espectro político. O nós aqui é utilizado para se referir a todos NÓS, cidadãos brasileiros que, após passar anos nos deslocando a pé por um campo minado, debaixo de chuva contra inimigos muito mais bem equipados e sem qualquer clemência, chegamos à beira de um precipício e ao invés de usarmos a ponte que nos ofereceram para chegarmos em segurança ao outro lado, optamos por tentar pular o precipício acreditando que de alguma forma conseguiremos alcançar o outro lado do desfiladeiro.

Está além da minha capacidade lógica e racional entender o que acontece com o Brasil e o brasileiro nos últimos anos. O resultado das eleições de ontem mostram um povo perdido que procura a salvação nas mãos de seus carrascos, como animais que seguem com docilidade o caminho indicado por seus algozes ao matadouro. E aqui não me refiro exclusivamente à expressiva votação da pústula necrosada que temos o desprazer de chamar de “presidente”, mas sim ao cenário geral no qual praticamente todos os representantes desse mal pulsante chamado “bolsonarismo” tiveram expressiva votação para os mais diversos cargos.

É desesperadamente assustador pensar que um resultado desses pôde acontecer após estes 4 anos que vivemos. Este governo foi, com sobras, o mais desconectado dos anseios e necessidades da grande massa populacional do nosso país e o mais focado em governar visando única e exclusivamente os objetivos próprios. Foi um governo inteiramente voltado para atender aos caprichos do presidente e entregar o país aos desejos dos financiadores de sua campanha, utilizando a máquina estatal para dobrar o Brasil à suas vontades, não importando o quão inconstitucional eram suas atitudes.

E mesmo assim, conseguiu obter uma votação ainda mais expressiva que em 2018. Não importaram as mortes por descaso na pandemia. Não importaram as mortes na miséria causadas pela fome. Não importaram as mortes causadas pela escalada da violência com o armamento massivo de pessoas incapazes de operarem funcionalmente um garfo e faca à mesa. Não importaram as mortes causadas pelo avanço do desmatamento em nossas florestas. Não importaram quaisquer mortes causadas por esse governo, direta ou indiretamente. Pior, todos os cúmplices do “presidente” nessa carnificina – sejam por ação direta ou por conivência – que se lançaram candidatos a algum cargo nestas eleições foram eleitos com margem considerável, validando e relativizando os absurdos diários que vivenciamos nestes últimos anos.

Duas frases que vi ontem nas redes sociais resumem muito bem o desamparo e o desespero que estamos experimentando hoje: “o pior congresso da história será substituído pelo pior congresso da história”, provando que o fundo do poço pode não ter fim quando se há disposição de muitos para continuar cavando; e “agora é mais desanimador que em 2018, uma vez que as pessoas puderam experimentar o horror e metade delas quer continuar nele”, mostrando o inexplicável desejo do brasileiro em proporcionar meios para o próprio sofrimento.

Então, me desculpem as pessoas que querem se manter otimistas: admiro vocês, a resiliência e a capacidade em se manterem positivos e animados diante deste cenário aterrador. Até concordo com vocês, ainda há muito o que fazer e devemos continuar lutando para eleger Lula presidente. Acredito até que devemos fazer isso com ainda mais afinco, pois no final de contas esta é a única tábua de salvação que nos restou, a única boia que poderá nos manter à superfície em um mar revolto e repleto de tubarões. Mas a realidade crua e nua é que serão anos ainda mais difíceis pela frente, pois mesmo que Lula vença (e estarei 100% focado em lutar por este objetivo) a realidade é que será muito difícil para ele conseguir governar da forma positiva e progressista que gostaríamos, pois terá que lutar contra um congresso assustadoramente conservador e uma população que valida os seus absurdos. É uma tênue luz que pode nos guiar em um corredor longo e angustiante que nunca foi tão sombrio.

Lamento muito soar tão desanimado, mas depois de ontem, infelizmente a sensação é que mesmo que possamos vencer a última eleição que resta, na verdade já perdemos. Perdemos enquanto nação, enquanto sociedade que optou por validar a violência, a misoginia, o racismo, a vulgaridade, o desprezo pela vida humana, a falta de educação e o desprezo pela ciência e a defesa do meio ambiente. Por mais triste que seja assumir isso, a verdade é que, independentemente do resultado em 30 de outubro, nós já perdemos. Sairemos deste processo ainda pior que entramos.

Sobre falsos padres, falsos debates e falsa universalidade democrática

Este será meu último texto antes das eleições deste domingo; meu planejamento era nem escrever mais sobre esse tema, mas o espetáculo escatológico que foi este último debate presidencial me força a expressar algumas palavras ante de me recolher ao silêncio. Como vou tratar de vários temas em um mesmo texto, vou separá-los em caixas a fim de não perder nenhum ponto importante e facilitar o entendimento das ideias.

Em primeiro lugar, é importante falar sobre a representatividade em debates políticos. Em outro momento podemos até discutir se o formato de debates como é hoje ainda é valido ou precisa ser reavaliado, mas aqui quero falar somente sobre a representatividade no evento. Entendo que a legislação eleitoral afirme que somente partidos com pelo menos 5 deputados no congresso possam participar de debates eleitorais, porém este modelo é altamente excludente, além de perpetuar o mesmo discurso e narrativa em todos os pleitos. Se é garantida a universalidade do processo eleitoral a todas as pessoas e partidos, ela deveria valer também para a representatividade nos debates. Por que razão é permitido a um extremista de direita como o tal falso padre aparecer no debate e ganhar espaço e visibilidade para suas ideias malucas enquanto a extremistas de esquerda não podem ter o mesmo direito? Por que outros partidos nanicos com percentual de intenção de votos igual ou maior ao falso padre não podem se apresentar ao grande publico e expor suas ideias para provocar discussões diferentes das que sempre são apresentadas? É urgente revisar este artigo da legislação eleitoral: ou se dá visibilidade a todos de forma igualitária para que a população conheça a todos os candidatos ou se cria outro mecanismo que somente os principais candidatos nas pesquisas de intenção de votos possam participar de votos, algo como somente quem tiver 5% ou mais de intenção de votos – portanto com uma parcela que pode impactar efetivamente no resultado da eleição – terá direito a participar de debates. Excludente, com certeza, porém mais justo que o modelo vigente, pois igualaria candidatos insignificantes da mesma forma. Neste cenário, basicamente, teríamos somente 3 candidatos participando do debate neste ciclo eleitoral e somente neste último a candidata palíndromo poderia participar, por ter atingido 5% de intenção de votos.

Aliás, sobre isso, é importante ressaltar que o debate presidencial nestas eleições(e em praticamente toda a história da democracia brasileira) é todo tomado pela narrativa da direita. Todos os candidatos, exceto Lula, são do espectro à direita do pêndulo político. É literalmente todos contra um na construção do diálogo. A narrativa e os temas abordados são todos pautados por esses interesses. O quão enriquecedor poderia ser o debate para a população brasileira se houvessem mais candidatos de esquerda para colocar em pautas temas como transporte público, combate à miséria, saneamento básico, direitos do trabalhador e criação de empregos formais, temas muito mais próximos e impactantes na vida da maior parte da população que o eterno e vazio discurso de combate à corrupção ou “o que o mercado acha disso ou daquilo”? Até quando a discussão política no Brasil será pautada única e exclusivamente pelos donos do poder e nunca pelo povo?

Outro ponto a se destacar é a covardia do atual excremento da República, sem coragem para confrontar diretamente seu principal e infinitamente e superior adversário que lidera as pesquisas, e se utilizar destes candidatos laranjas para que possam atacar por ele. Para quem fica diariamente se colocando como o machão cheio de virilidade, uma postura muito medrosa e fraca. Fica a curiosidade (que espero não ser sanada) de ver como se portaria em um eventual debate de segundo turno, tendo que tratar direta e exclusivamente com adversário único, muito mais preparado e superior em todos os quesitos.

Por fim, se o Brasil fosse um país realmente sério, após 4 anos de absurdos diários, violência, mortes, fracasso na economia, descaso na saúde, falência da educação e entreguismo na defesa do meio ambiente, um candidato como o atual excremente da república não deveria ter mais que 5% de intenção de votos, cota destinada aos lunáticos e sociopatas de todo o país. Com a máquina pública nas mãos ainda poderíamos acrescer outros 5 a 7% de votos, o que somaria um terço do que possui, o que demonstra a falência moral e educacional da maior parcela da população brasileira. Mais triste ainda é ver partidos historicamente relevantes e progressistas como PTB e PDT se sujeitarem a servir de escada para o crescimento de um personagem tão vil e sujo como o capiroto do planalto. Uma vergonha para a história. Getúlio e Brizola se contorcem no caixão.

EXTRA: chamar alguém que se autointitula padre, porém não é ordenado e sequer participa da igreja da qual diz ser representante de impostor e afirmar que está usando uma fantasia não é faltar com respeito nem ofender. É simplesmente relatar um fato. O tal padre surgiu claramente para fazer o trabalho sujo de atacar o Lula nos temas pseudocristãos e de zero relevância para a governança de um país para o que excremento da república possa ser considerado minimamente ponderado, sem ter que assumir a responsabilidade por estes ataques. Uma vergonha que a justiça eleitoral permita esse tipo de conchavo.

IMPORTANTE: eleitores de Ciro e Tebet, sei que vocês insistem na decisão de não apoiar a tal polarização que tanto criticam, mas ela está aí e continuará acontecendo ainda mais fortemente se houver um segundo turno entre os candidatos que vocês alegam repudiar. Portanto, o voto de vocês não terá relevância na redução da polarização se for mantido nestes candidatos. Mas terá EXTREMA relevância se optarem por deixar de lado essa isenção e votar no único candidato que pode ser eleito já no próximo domingo e que irá garantir aos seus preferidos o direito de tentar novamente a presidência daqui a 4 anos com melhores chances. Com Lula presidente já no primeiro turno evitamos, não somente uma escalada ainda maior na polarização e violência até o segundo turno, como garantimos uma mensagem de força da democracia necessária para que possam tentar eleger seus candidatos a presidente em 2026. Com Lula eu tenho certeza de que a democracia brasileira continuará existindo, inclusive com o direito à forte oposição. Com o excremento da república tendo chances de se reeleger, ele ganha força em sua escalada golpista e antidemocrática e tentará se perpetuar no poder, até porque, se sair, sabe que será preso. Vocês têm a oportunidade de verdadeiramente serem a diferença entre a civilização e a barbárie nestas eleições. Podem ser voz relevante no processo democrático ou irrelevância estatística. Sejam conscientes. Em 2018 por escolha eu queria votar em Boulos presidente no 1º turno, mas optei pelo voto útil em Ciro por acreditar que teria maior chance de vencer Bolsonaro e o antipetismo no 2º turno outrora. Agora é a vez de vocês fazerem este movimento em direção ao voto útil em Lula e na democraria. O Brasil conta com vocês! Sejam conscientes!

ADENDO AOS MINEIROS: estamos fazendo bonito nas pesquisas e dando quase 20 pontos de vantagem para Lula contra o excremento da república. Mas não podemos escolher Lula e votar em Zema ao mesmo tempo. Zema é um bolsonaro embalado pra presentes. Zema é o bolsonarismo que aprendeu a escovar os dentes. Não podemos permitir um filhote do bolsonarismo se manter no poder em Minas. Lula é Kalil e Kalil é Lula. Se lembrem disso!

Esqueçam o combate à corrupção

Combate à corrupção – Créditos na imagem

Estamos a menos de 10 dias do primeiro turno das eleições de 2022, as mais importantes desde a redemocratização do Brasil, por isso o momento é bastante oportuno para abordar algumas questões que venho refletindo há meses, com relação a temas relacionados à presumida “festa da democracia”.

E o tema escolhido para abrir esta série de textos que trarei daqui até as eleições não poderia ser outro senão o combate à corrupção, ou sendo mais enfático, a própria corrupção em si. Este é um tema constantemente em voga ao se tratar de política e se for feita uma pesquisa com os cidadãos brasileiros que dizem detestar a política, me arrisco a dizer que a corrupção será apontada como a principal razão de tal “ódio”. Mais do que isso, o atual “presidente” (sempre entre aspas porque o elemento que hoje ocupa o planalto não é digno de ser tratado como presidente de fato), em sua busca ensandecida para se manter no poder – a fim de evitar a prisão por todos os crimes cometidos nos últimos 3 anos e meio – insiste no tema ao tentar colar a imagem de corrupção como exclusiva aos governos do PT e, consequentemente ao presidente Lula.

Não vou aqui fazer uma defesa dos governos petistas, tampouco vou me estender falando dos inúmeros escândalos de corrupção no atual governo, e muito menos vou ceder à tentação de cair na celeuma da competição de quem é mais corrupto, ou quem roubou mais porque não vai levar a lugar nenhum. De forma alguma; aliás, meu objetivo aqui é outro: é de expor a minha ideia de que deveríamos esquecer essa conversa de combate à corrupção em debates eleitorais e muito menos estabelecer esse requisito como parâmetro na hora de escolher um candidato no dia 02 de outubro.

E não falo somente das eleições presidenciais, mas de todo o espectro de cargos e candidatos existentes no pleito atual. É urgente e imprescindível que deixemos de lado essa temática anticorrupção porque a corrupção não deixará de acontecer, independentemente dos candidatos que possamos escolher no início do próximo mês. A corrupção é um traço cultural brasileiro, me arrisco a ir até um pouco mais além e dizer que se trata de uma predisposição da própria raça humana. O homo sapiens, como animal que é, foi constituído biologicamente para garantir a sua sobrevivência e do seu grupo imediatamente ao redor, utilizando para isso de todos os mecanismos possíveis, principalmente o seu imenso cérebro altamente desenvolvido. As regras sociais que ditam que tal comportamento é corrupto foram criadas posteriormente à constituição humana, portanto são estranhas ao nosso comportamento animal, daí que em uma ocasião na qual possamos obter uma vantagem que nos traga uma realização pessoal, raramente deixamos de aproveitar esta oportunidade, ainda que socialmente possa ser vista como um comportamento corrupto.

Sejamos honestos: todos nós cometemos pequenos atos de corrupção constantemente quase sem perceber. Seja furar uma fila enorme porque há um conhecido lá na frente que nos oferece um lugar junto dele, ou então a tal “caixinha” de TV para obter os canais pagos de forma gratuita, ou ainda os “cafezinhos” ou brindes que oferecemos ou recebemos a fim de desenrolar um trabalho mais rapidamente que por vias formais e corretas. Fato é que a diferença entre o cidadão comum que vive a sua vida comum e obtém pequenas vantagens cotidianas vistas como algo normal, e o político no congresso que desvia milhões de verbas direcionadas à hospitais ou merenda escolar de crianças para uso pessoal é puramente a oportunidade apresentada. Qualquer um de nós, que estivesse em condições similares à do político corrupto dificilmente teria uma reação diferente.

“Ah, mas veja bem, você está generalizando, não são todas as pessoas que são assim, isso é um absurdo”, diriam alguns. É mesmo absurdo? Será que, mesmo que lustremos nossa consciência com um verniz de idoneidade e ética, lá no fundo do nosso cérebro, a ideia de obter um dinheiro fácil, quase sem riscos, que eu poderia usar para o que bem entender, não mexe conosco? Será que eu seria capaz de “ceder à tentação” de ter um ganho tão fácil e simples assim?

A questão é pertinente, não acham?

E aí eu chego ao meu argumento final: a corrupção nos governos irá acontecer de qualquer forma. Seja X, Y ou Z no poder, os esquemas continuarão ocorrendo, ainda que uma ou outra voz dissonante queira chamar a atenção para algum esquema em particular. Porque trata-se de uma roda gigantesca que gira independentemente de quem esteja movendo-a no momento. Seja por qualquer motivo, é muito difícil alguém entre no governo, em qualquer cargo que seja, e terá condições de verdadeiramente combater a corrupção.

Sejamos práticos, o discurso anticorrupção é tão velho quanto a própria república brasileira. Temos documento históricos de campanhas na velha republica prometendo o fim da corrupção. Temos a mítica canção do “varre varre vassourinha’ prometendo varrer a corrupção do governo. Temos o “caçador de marajás” que ia limpar o país dos corruptos e caiu justamente por denúncias de corrupção.

Poderia prosseguir por horas, mas o fato é que combate à corrupção deve ser a promessa de campanha mais comum na política brasileira, e por isso não deveria ser a régua utilizada para medir os candidatos. Olhem para o programa de governo de cada um deles, vejam o que propõem para melhorar a dignidade do cidadão brasileiro. Quais suas propostas para a saúde, como irá fomentar a educação, quais as estratégias para o combate à violência e a pobreza, como pretende preservar o meio ambiente, dentre outros temas. Estes deveriam ser os tópicos relevantes ao se escolher um candidato. Esqueçam o combate a corrupção. Nenhum candidato conseguirá de fato mexer com esse tema. Seja por medo de ser rechaçado por seus pares, por ameaças ou simplesmente pelo tamanho do desafio para de fato ter alguma mudança, essa é uma promessa que não será cumprida, então deixem de lado de uma vez por todas essa discussão vazia e cobre dos candidatos maior profundidade de discurso e soluções concretas para os maiores problemas do país.

A redução da corrupção será consequência de um conjunto de transformações socioculturais em nosso país, e não causa. Será preciso investir muito tempo, dinheiro e disposição em ética, cidadania e principalmente educação para que possamos chegar a um patamar de verdadeiramente perceber uma redução na corrupção nacional. Neste momento, não será possível, foquemos, pois, naquilo que está ao nosso alcance: a chance de proporcionar uma vida um pouco mais digna a todos.

Carta aberta a leitores arrependidos de Bolsonaro

Em primeiro lugar, gostaria de deixar bem claro que não me importa mais que você tenha votado em Bolsonaro em 2018. E me importa ainda menos as razões que tenham te levado a votar em Bolsonaro em 2018. A única coisa que me importa neste momento é que você está arrependido desta decisão e disposto a corrigir o seu erro de anos atrás. Aplaudo a sua coragem de assumir que errou: não é fácil, ainda mais neste mundo de hoje em que dar o braço a torcer e assumir que cometeu um equívoco é visto com muita desconfiança e até como sinal de fraqueza.

Acredito, porém, que é uma força imensa e demonstração de caráter e, por esta razão, hoje me dirijo a você. O seu arrependimento com a escolha em 2018 será o diferencial para evitar que o país cometa o mesmo erro em 2022. Sei que se você está arrependido, é porque reconheceu que este é um governo incapaz de produzir qualquer coisa que seja minimamente útil para o país, e por isso, estamos agora do mesmo lado na batalha e, somente com a união de nossas forças, é que poderemos evitar 4 anos de nova tragédia.

Ressalto que o “governo” Bolsonaro não possui nenhum plano, não existem propostas concretas a respeito do que fazer para melhorar o Brasil e, mais importante ainda, como fazer para tornar as propostas realidade. Por isso, tão certo quanto a garantia de que o presidente dirá alguma mentira amanhã, é a convicção de que seu plano de “governo” para a reeleição será um deserto similar de ideias. Por esta razão, não há, sob qualquer viés que se queira adotar, a convicção ou expectativa de que ele possa vir a fazer um segundo governo bom. Ele simplesmente não sabe ser governo, portanto, não merece nova oportunidade de governar, tampouco de angariar votos para que seja uma ameaça nas eleições.

Por isso eu acredito fortemente de que o depoimento e posicionamento sincero e frequente de vocês fará toda a diferença para evitar que ele seja reeleito. É importantíssimo que iniciem desde já um movimento explicando os motivos pelos quais se arrependeram da escolha de 2018 e por que motivos não irão repetir a escolha em 2022. Não se preocupem que possam aparecer pessoas de esquerda fazendo piadas ou desmerecendo o depoimento de vocês – eles ainda não entenderam a gravidade da situação e o quanto é importante lutar com todas as armas para cortar o mal que é Bolsonaro no poder pela raiz.

Acho que podem fazer uma diferença gigantesca e evitar mais 4 anos de Bolsonaro. Ah, vocês não gostam de que o candidato lider nas pesquisas neste momento seja o ex-presidente Lula? Sem problemas. Trabalhem com ainda mais afinco para tirar votos de Bolsonaro, de forma que ele nem chegue no segundo turno. Aí sim, com ele fora da disputa, vocês podem ficar à vontade para fazer campanha contra o ex-presidente Lula (ou quem quer que seja da esquerda que esteja no segundo turno) sem nenhum problema.

Sei que temos aqui nossas diferenças de visão do mundo, do que é melhor para o país, mas acredito que podemos discutir racional e cordialmente estes tópicos com o retorno do país à normalidade de um governo que busque pelo menos tentar melhorar a vida de sua população, ao invés de ficar o tempo todo em permanente conflito contra tudo e todos e governando somente em benefício próprio. Precisamos retornar à normalidade democrática, chega de ser refém de um governo vil, mesquinho e incapaz de abordar qualquer questão minimamente importante de forma realista e verdadeira.

Precisamos muito recuperar a dignidade de nosso país, a defesa de bandeiras realmente importantes, como a preservação ambiental, o combate à fome e à miséria e a busca por justiça social e igualdade. Além do respeito a todos, independentemente de raça, sexualidade, gênero, condição social e visão de mundo. E só conseguiremos tudo isso se unirmos forças contra Bolsonaro que é a antítese a tudo isso. Vamos juntos!