Finalmente acabaram as eleições. O período entre o primeiro e o segundo turno foi sofrível como imaginávamos. O resultado foi apertado como todos esperávamos, ainda que não quiséssemos acreditar. A negação dos derrotados em aceitar a derrota, previsível. Quem acompanhava meus textos por aqui deve ter percebido um decréscimo no volume de postagens na véspera das eleições em final de outubro e meu total silencio após o resultado final. Pois é, não era este o planejamento, mas faltou disposição. Estava resgatando minha base aqui e percebi que havia planejado publicar 8 textos na reta final das eleições, dos quais 5 já estavam escritos. Mas na correria do dia-a-dia, no cansaço com o acirramento insuportável das emoções e com diversos problemas pessoas acontecendo, faltou fôlego para conseguir colocar no ar tudo o que estava pensando.

Não fez falta, no final das contas, pois tudo o que queria falar eventualmente já havia sido dito por pessoas mais preparadas ou mais dispostas que eu. Pós eleições e com o eventual caos decorrente das manifestações golpista dos derrotados, optei pelo silencio. Preferi saborear a vitória tão difícil e sofrível, e talvez por isso, infinitamente mais doce que todas as anteriores. Entendo perfeitamente meus amigos e colegas que disseram que perdemos mesmo vencendo. Por diversos momentos a sensação era essa mesma. EU mesmo cheguei a relatar isso ao término do primeiro turno. Mas acabei mudando de ideia. É muito importante poder celebrar essa vitória. Pois não é uma vitória da soberba nem da arrogância. É uma vitória da sobrevivência. Como bem disse Gregório Duvivier em um belíssimo vídeo que viralizou após o termino da eleição, foram 6 anos que precisamos continuar lutando e sobrevivendo diariamente quando absurdos inimagináveis aconteciam, a sensação de impotência e falta de esperança no futuro ameaçando tomar conta de tudo. Foram anos dificílimos: todas as nossas crenças na inteligência, na ciência, na humanidade, na tolerância, na fraternidade e na democracia foram colocadas à prova e tínhamos que seguir lutando e acreditando que um dia coisas poderiam melhorar.
Não vou negar: houveram momentos em que acreditei que estávamos condenados. Os absurdos promovidos pelo governo e seus seguidores eram tão surreais para alguém que, como eu, nasceu às vésperas da redemocratização e viveu tempos de prosperidade, fé no futuro e no potencial gigantesco de nosso país que foi difícil conseguir encarar tudo o que estava acontecendo e acreditar que poderíamos superar o desmanche do país a olhos vistos e ousar manter a esperança de que as coisas um dia voltariam a melhorar. Mas vencemos. Derrotamos uma máquina de mentiras voraz e atuante como nunca antes houve no país. Derrotamos a compra de votos institucionalizada pelo governo, o impedimento por parte das forças policiais do país de cumprir uma obrigação constitucional do cidadão e a conivência e indiferença de milhões de brasileiros que não se importam com o que está acontecendo no país agora e no futuro, desde que a sua realidade e seus privilégios se mantenham intocados.
Para mim foi particularmente libertador o término das eleições com vitória de Lula para não ter que lidar com esse último grupo. De um tempo pra cá eu passei a chamá-los de “Os Relativistas”. São aquelas pessoas que dizem não concordar com as coisas que o Bolsonaro fala ou faz, mas relativizaram e encontraram uma forma de justificar todas as atitudes e atrocidades por ele cometidas nos últimos 4 anos em nome de um ódio de classes velado que se materializa com o ódio à figura do presidente Lula. Essa galera é aquela turminha que se vende como “progressista”, ou “isentões”, ou ainda mais comum, “liberais”, que acreditam em uma ilusão de livre mercado como a solução de todos os problemas do mundo. É uma galera que adora postar uma ação de caridade pra se promover como solidário, mas quer a diminuição radical de auxílios governamentais aos mais vulneráveis. Esse pessoal se diz esclarecido e humanista, mas em diversos momentos foram mais bolsonaristas do que os próprios seguidores do presidente derrotado. Em várias oportunidades eu os considerei ainda mais nocivo que os “minions” apaixonados. Porque esse grupo é um caso para estudos psicológicos nos próximos anos, tamanha a contaminação e cegueira pela “Verdade do zap” que construíram toda uma realidade paralela e acreditam firmemente que estão vivendo nela, portanto falta senso crítico e toques de realidade para que possam enxergar o absurdo que estão defendendo.
Mas, os relativistas, estes não. Eles até possuem senso de realidade. Conseguem perceber o quanto o governo atual foi absurdo. Foi desumano. Mas ainda assim relativizam tudo o que aconteceu, porque para eles, “é impossível votar no Lula ou no PT”. O ódio por um determinado partido ou pessoa os impedem de olhar criticamente o cenário e fazer uma escolha democrática, ainda que pragmática. Aliás, sobre a democracia e a sociedade brasileira, fiquem ligados. Isso será tema de uma futura postagem. Mas retornando aos relativistas, no final das contas são pessoas centradas em si mesmas e olham somente para o que lhe diz respeito. Se milhões sofreram nos últimos 4 anos, se diversos grupos e minorias foram vítimas de perseguições, violência e morte por apoiadores do atual presidente e estimulados por ele, isso pouco lhes afeta, uma vez que não diz respeito às suas realidades. Essa dificuldade em se reconhecer privilegiado e entender que muitas vezes a escolha do governo impacta pouco em sua vida, mas pode afetar diretamente a vida de outros, tornou o diálogo e a convivência com os relativistas nos últimos meses muito difícil.
Hoje, infelizmente a história é muito mais compreensível. Por anos, mesmo estudando muito, não conseguia entender verdadeiramente como os movimentos fascistas da década de 30 obtiveram sucesso na Alemanha e Itália. Mas hoje a história faz muito mais sentido em minha cabeça. Não foi por conseguirem maioria nazifascista na população de seus países que Hitler e Mussolini chegaram ao poder e materializaram atrocidades inimagináveis. Mas foi pela indiferença de boa parte da sociedade, que optou por dar de ombros para as evidências autoritárias, violentas e inumanas de seus líderes e apoiadores, que chegamos ao cenário extremo de uma guerra mundial.
Sobre as manifestações ilegais e antidemocráticas que alguns apoiadores do presidente insistem em continuar fazendo mesmo um mês após as eleições, tenho pouco a falar. Exceto que essa galera está se manifestando por financiamento de empresários que faturaram alto com o entreguismo dos anos bolsonaristas, por conivência das policias, da sociedade e da mídia. Como foi comentado nas redes sociais, fossem professores protestando por melhores salários e condições de trabalho, teriam sido repelidos com truculência e violência, além de inúmeras reportagens negativas já no segundo dia. Reflexos de uma sociedade que ainda precisa avançar muito: pedir investimentos na educação é motivo para ser recebido com – perdão pelo comentário chulo e infame – “tiro, porrada e bomba”. Manifestações favoráveis à tortura, a violência, ao racismo e a homofobia, são recebidas com tapinhas nas costas e condescendência.
Foram difíceis as últimas semanas que antecederam as eleições, assim como estão sendo as que a sucederam e continuarão sendo até o país assimilar de fato que voltaremos a ter um presidente, um governo e um país em reconstrução. Eu precisava de um tempo para me recompor e reencontrar a energia e a disposição em escrever. Ainda tem muito a acontecer até a posse do presidente Lula, mas parece que já é possível vislumbrar e crer que ainda teremos um país em janeiro de 2023, tremendamente combalido e sucateado, precisando ser reconstruído, mas ainda assim um país. E isso já é motivo para muita celebração.
Aqui no blog a expectativa é que possamos retomar assuntos mais interessantes, diversos e enriquecedores que tratar somente de política, ainda que possa retornar a esse tema quando julgar necessário. O desejo é o de retomar um ritmo de postagens semanais, talvez até por duas vezes na semana. Como disse aqui em casa para minha esposa, é mais fácil ter energia e assunto para outras coisas quando não precisamos lutar diariamente contra o neofascismo. E é com essa alegria de acreditar que podemos novamente ter fé e esperança no futuro é que retomo este espaço. Seja bem vindo, futuro!


