Resenhando #26

Dando sequência as resenhas de livros queridos da minha biblioteca, hoje sigo falando sobre o autor suíço Joel Dicker. Falo hoje de seu segundo livro do universo do escritor Marcus Goldman, chamado “O Livro dos Baltimore”. Para essa resenha, eu vou abordar o livro de uma forma um pouquinho diferente. Vou falar na primeira parte sobre os pontos positivos do livro, e na segunda parte vou abordar exclusivamente os aspectos negativos da obra.

Como mencionei anteriormente, esse livro trata-se de uma sequência do universo apresentado pelo autor em “A Verdade sobre o caso Harry Quebert”, primeiro livro e primeiro grande sucesso do escritor. N’O Livro dos Baltimore nos reencontramos com Marcus Goldman, escritor jovem e bem sucedido que tem uma vida de dar inveja em todas as pessoas. Mas, assim como no primeiro livro, logo percebemos que a vida de Marcus não é assim tão maravilhosa e, como qualquer pessoa, existem aspectos não tão memoráveis em sua história, bem como passagens um tanto questionáveis. Neste livro, essencialmente, ainda que toda a narrativa aconteça no presente, e existam desdobramentos referentes a isso, toda o olhar é voltado para o passado, com o narrador/personagem principal relembrando fatos de sua infância e adolescência em boa parte vividos na casa de seus tios, os bem-sucedidos “Goldman de Baltimore”, daí o título bem sugestivo.

Não é meu objetivo me aprofundar nos detalhes da narrativa, acho muito mais válido falar de sensações e impressões durante a leitura. Sob esse prisma, o primeiro comentário positivo é que o livro é muito bom de ler. Bem no estilo Dicker, o livro é rápido, intenso e prende a atenção do início ao fim. O autor tem um talento natural em produzir uma narrativa poderosa e que nos deixa em constante suspense, ansiosos pelo próximo desdobramento. Além disso, ele consegue ser descritivo na medida certa, sem se perder em páginas e mais páginas discorrendo sobre ambientes, cenários, personagens e fatores climáticos. Sempre há um meio termo bastante aceitável entre a descrição detalhada o suficiente para se ter a dimensão perfeita do cenário e a margem para que a nossa imaginação faça o seu próprio trabalho de construir em nossa mente os detalhes mais relevantes para tornar a história ainda mais instigante para mim.

Porém, como nem tudo são flores, é preciso falar também sobre os aspectos negativos do livro. Ainda que não seja nenhum detalhe absolutamente desgostoso ou que desabone a boa experiência de leitura, existem algumas críticas a serem feitas, especialmente se você é um leitor que chega a esse livro após ter lido “A verdade sobre o caso Harry Quebert”. Não se assuste, porém, se você nunca leu esse primeiro livro. São duas histórias completamente independentes e a não leitura do livro anterior em nada atrapalha a leitura desse. Mas como são duas histórias que se passam no mesmo universo, há um desconforto claro quando se pensa na linha do tempo das duas histórias. Ainda não que esteja explicito, entende-se que a história d’O Livro dos Baltimore se passa após os acontecimentos de “A verdade sobre o caso Harry Quebert”. Nesse livro, Marcus é um autor recém saído de seu primeiro livro de sucesso que enfrenta uma crise de ideias que o impedem de escrever um novo romance, daí, ao tentar vencer esse bloqueio, vai se refugiar na casa de seu tutor e amigo Harry Quebert. Dessa forma, só é possível imaginar que a trama de “O Livro dos Baltimore” se passe após esses acontecimentos. Por esse motivo é muito estranho que os personagens apresentados nesse livro, que foram tão importantes ao personagem principal são sequer mencionados no primeiro livro. Mais do que isso, ainda que no primeiro ele se atenha principalmente em seu relacionamento universitário com Harry, ele aborda passagens de sua infância e adolescência sendo “o admirável”, jovem com larga carreira esportiva e acadêmica que dedica muito tempo de sua vida a isso.

Daí o confronto entre essa narrativa e a do segundo livro, onde Marcus explica que passava virtualmente quase todo o tempo disponível indo a Baltimore para estar com seus tios e primos e passar com eles o máximo de tempo disponível. Simplesmente não é plausível – não sem entrar nos terrenos da fantasia – que um jovem que passava tanto tempo no deslocamento entre Baltimore e Nova Jersey tivesse ainda tanto tempo disponível para ser um fenômeno esportivo e aluno exemplar de sua escola. Mais ainda, durante suas longas discussões com Harry no primeiro livro, Marcus é questionado sobre ter um grande amor, onde responde negativamente, alegando nunca ter vivido algo assim. Porém no segundo, boa parte da narrativa é pra descrever o seu amor juvenil e avassalador por Alexandra, jovem vizinha encantadora de Baltimore, com quem Marcus vive um romance.

Enfim, o livro é muito bom, ainda que uma das maiores críticas de outros leitores seja toda a narrativa em volta d’ O Grande Drama que é mencionado constantemente e ao final não é algo assim tão impressionante ou surpreendente, pelo contrário, até previsível. Mas a forma como o autor coloca todo o suspense em jogo, nos deixando ansiosos para saber logo o que é o tal drama é muito cativante e vale pena – ressalto mais uma vez – a leitura. O ponto da cronologia dos fatos entre os dois livros do autor são pontos de desconforto, assumo, especialmente para leitores como eu, que são mais atentos e costumam guardar detalhes e cronologia de outros livros queridos, especialmente do mesmo autor, mas em nada desabonam a aventura de um novo leitor que está somente ansiando por uma leitura divertida, cativante e estimulante. Apesar de tudo, ainda recomendo amplamente essa leitura. Nota 4/5.

Resenhando #25

Durante o processo de releitura de algum livro, sempre acontece de eu gostar ainda de algumas histórias e um pouco menos de outras. Felizmente, nesse caso, “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert” pertence à primeira categoria. Esse romance havia despertado meu interesse há um tempo atrás e acabei me decidindo adquirir por conta da belíssima capa que apresenta uma cena bucólica em uma rua qualquer.

O livro conta a história do jovem escritor Marcus Goldman que, após um estrondoso sucesso de seu romance de estreia, tinha dificuldades para engatar um novo livro. Sendo pressionado por seus editores, pelo público e por si mesmo, ele decidiu fazer um último movimento desesperado; vai se hospedar na casa de seu amigo e mentor Harry Quebert, autor de sucesso na década de 70 e seu professor na universidade. Harry, que mora em uma bela mansão à beira mar de uma bucólica e pequena cidade dos EUA desde a época de seu grande sucesso literário, acolhe o rapaz em busca de ajuda-lo.

Durante a estadia de Marcus no local, descobre-se o corpo de uma jovem desaparecida há décadas enterrada no quintal da casa de Harry e ele é imediatamente preso e acusado do assassinato, devido principalmente à uma prova substancial encontrada junto ao corpo da menina: um exemplar manuscrito do livro de sucesso de Harry. Daí em diante o livro se torna uma correria imensa de Marcus Goldman em buscar de provar a inocência de seu amigo. Durante esse processo de busca de provas para salvar Harry, Marcus acaba encarando um emaranho de histórias do passado muito mais complexas e profundas do que imaginava.

Todo este processo ocorre simultaneamente à sua busca por escrever um novo romance, quando decide escrever um livro para provar a inocência de Harry. E aqui encerro o detalhamento do romance, em primeiro lugar para não estender demais essa resenha, mas em segundo e principal lugar, por gostar sempre de deixar espaço para a descoberta da história por cada novo leitor que possa se deparar com essa resenha – como já falado em outros momentos, prefiro muito mais em minhas resenhas tratar das sensações que essa obra provocou em mim, pois acredito ser uma impressão mais honesta a respeito do impacto que o livro teve para mim.

Por esse motivo, eu afirmo sem o maior medo de parecer exagerado: A verdade sobre o caso Harry Quebert é um livro maravilho. Trata de diversos temas simultaneamente de forma brilhante, sem parecer superficial em nenhum momento, ainda que não seja o objetivo do autor aprofundar as discussões acerca de cada tema. Trabalha com fatos no presente bem como de flashbacks muito bem descritos de passado, que enriquecem a história e deixa no ar um suspense delicioso durante toda a leitura que nos leva a passar páginas e mais páginas sem sequer perceber. É um livro de 500 páginas que pode ser lido em 1 ou 2 dias facilmente, dependendo da disponibilidade do leitor. Não cansa e a cada novo desdobramento e reviravolta ficamos embasbacados imaginando se o autor irá verdadeiramente encontrar uma elucidação para o crime do assassinato da jovem, que, podia até ser jovem, mas nem um pouco inocente.

É um livro falando de livros também – todos os capítulos se iniciam com conversas entre Marcus e Harry nos tempos de universitário do primeiro a respeito de todas as etapas necessárias para se escrever um grande romance. E todo livro assim imediatamente atrai a minha simpatia e interesse, pois são grandes provas de amor à literatura e acho esse gancho maravilhosamente saboroso. Tudo isso misturado a um elenco de personagens da mais alta qualidade e heterogeneidade, os quais em determinado momento da leitura, podem todos ser considerados suspeitos de terem cometido o crime.

“A Verdade sobre o caso Harry Quebert” é o romance de estreia do autor suíço Joel Dicker e nada melhor do que um sucesso avassalador como esse para iniciar a carreira. Este livro foi o responsável por me fazer comprar todos os outros quatro romances do autor lançados posteriormente e fazendo com que ele se tornasse um de meus autores contemporâneos favoritos. Para quem gosta de suspense investigativo, é um prato cheio. Para quem gosta de romances policialescos, também. Para quem prefere uma história de amor proibido, em que tudo conspira contra o casal, idem. É um livro arrebatador. Vale muito a pena a leitura e garanto que irá desfrutar imensamente. Nota 4,5/5.