Um ode à leitura

Adoro ler. Desde sempre. Tenho lembranças de minha primeira infância na qual pegava livros emprestados na biblioteca da escola para ler em casa. Quando resgato minhas memorias, consigo visualizar vividamente o cartão da biblioteca onde se registravam os empréstimos. Pena não ter uma imagem da época, mas consigo lembrar claramente do prédio da biblioteca dessa época e me ver circulando entre as estantes, procurando aquele que seria o livreto escolhido para ler em casa. Me lembro de pelo menos 2 livros que peguei emprestado após a professora ler trechos em sala de aula, em um prenúncio rudimentar dos influenciadores de agora sugerindo leituras. Quando mais jovem, não possuía fonte de renda própria pra adquirir livros e não tinha nem contato com livrarias para escolher e pedir aos meus pais que comprassem esse ou aquele livro que me interessasse. Dessa forma, sempre lia o que conseguia ter às mãos: gibis das coleções dos primos, livros de histórias que apareciam em casa(provavelmente comprados juntos de alguma enciclopédia vendida de porta a porta), histórias da bíblia para crianças, além é claro, de algum volume da saudosa coleção Vaga Lume, geralmente adquirido para leitura dos irmãos mais velhos na escola, enfim, tudo o que desse pra ler conforme as circunstancias desse estagio da vida em cidades pequenas do interior de Minas na década de 90.

Minha pequena(por enquanto) biblioteca. Foto borrada, mas o que vale é o registro.

Com minha mudança para Uberlândia no início da adolescência, o acesso a livrarias foi imensamente facilitado, ainda que continuasse o impasse de não ter renda para adquirir livros. Me recordo do final de 2001, quando foi lançado o primeiro filme da saga Harry Potter. Ainda vou contar essa história completa, mas resumindo, comecei a ler os livros da saga porque com o sucesso do primeiro filme na mídia, minha mãe adquiriu o segundo o quarto livro da série para minha irmã ler, e na falta de algo novo em casa, peguem Harry Potter e a Câmara Secreta e me encantei pelo universo bruxo. A partir daí, com algum dinheiro entrando vez ou outra, comecei a comprar meus próprios livros, e também passei a ganhar mais livros, de presente de natal ou aniversário.
Nesse contexto, 2007 foi um marco, pois, com o lançamento do sétimo e último livro da saga Harry Potter, me senti ligeiramente “órfão” da saga e sem rumo sobre quais livros desejar e adquirir. Nessa época já estava trabalhando, então já poderia bancar meus gostos literários sem depender de ninguém. Foi nessa época que comecei a diversificar a minha leitura e considero o momento de mudança em que passei a olhar para livros “adultos”, desde romances literários mais sérios, como volumes sobre história, biografias e não-ficção.

Em outro momento que ainda vou relatar no blog, foi a descoberta do meu livro favorito, “A Sombra do Vento”, que me encantou em todos os aspectos, por se tratar acima de tudo de uma história de amor aos livros e ao poder da leitura em transformar vidas. Foi um arrebatamento tal que, desde então, é raro o ano em que passo sem fazer uma releitura da obra, mesmo já conhecendo de cor a obra, e ainda me encanto com as passagens mais inspiradas ou divertidas.

Com o passar dos anos e a aquisição de mais e mais livros, comecei a ter o problema de encontrar espaço para armazenar adequadamente a minha crescente coleção de livros. Nunca fui daqueles obsessivos que os livros devem permanecer intactos e imaculados. Pelo contrário, meus livros foram sempre muito bem usados e vários apresentam marcas de batalhas ao longo dos anos, desde marcas de comida, umidade (por falta de um local propicio para guardar), e “maus tratos”, inevitáveis pois eu sempre carreguei meus livros para onde fosse.

Enquanto morei com meus pais, meus livros permaneceram guardados onde era possível: cantos de guarda-roupas, caixas no quartinho de despejos, onde desse. Quando passei a ter minha própria casa, um dos meus maiores desejos era encontrar uma forma de armazenar meus livros de forma satisfatória e bela, apresentando minha pequena biblioteca com orgulho e reverência que os livros merecem. Nos últimos anos, tenho buscado construir esse “santuário”, e hoje, me encanto ao perceber que finalmente consegui um espaço digno para minha biblioteca. Com a pandemia e a chegada de minha filha, precisamos criar um espaço para trabalho em casa, e construímos um escritório em parte do pequeno quintal que possuíamos, e além de finalmente ter um espaço de trabalho em home office, quis desde o início que parte da decoração fosse composta por minha biblioteca, que está em permanente expansão. Hoje é um dia feliz: sinto muito orgulho e alegria ao ver meus livros ali expostos. Todo esse preâmbulo enorme foi feito simplesmente para compartilhar com vocês a imagem da minha biblioteca que ilustra essa postagem. Espero que gostem.

Com o passar dos anos, a minha relação com os livros e a literatura somente cresce e aprofunda, e sinto muita alegria que seja assim. E que possa continuar para sempre assim.

Resenhando (#5)

Em primeiro lugar, um feliz 2022 a todos. Nas últimas semanas de 2021 negligenciei o blog devido a outros projetos que estava desenvolvendo paralelamente, mas agora é o momento certo de retomar este espaço que me é tão querido. No mês de dezembro, ao invés de iniciar nova leitura, acabei me rendendo ao espírito de retrospectivas que sempre acontecem nessa época do ano e me voltei para releitura de livros queridos, dos quais nunca fiz uma resenha digna e que representassem de fato o tamanho do impacto que tiveram em minha vida. Ao longo do mês acabei relendo 4 dos meus livros favoritos e em outra postagem vou me arriscar a rascunhar algumas palavras acerca de cada um deles.

Polêmico e Sensível – Bela obra de JJ Benitez

Mas neste texto de hoje eu quero falar é do primeiro livro que li neste ano de 2022. Aliás, reli, por se tratar também da releitura de uma obra que já havia conhecido há muitos anos, mas que devido ao impacto do tempo e principalmente de minha transformação enquanto pessoa nos últimos anos, achei válido revisitar e me propor a uma releitura das mesmas páginas que tiveram um sabor de novo encontro.

Refiro-me ao ilustre e polêmico livro “Operação Cavalo de Tróia 1 – Jerusalém”. Polêmico pois o próprio autor J.J. Benitez destaca suas agruras com diversas pessoas e principalmente com a Igreja Católica desde a publicação de sua obra. Como trata-se de um livro já antigo (foi lançado originalmente em 1984, e chegou ao Brasil em sua primeira versão em 1987), não vou me preocupar com eventuais spoilers ao longo dessa resenha. Até mesmo por tratar da história mais contata da humanidade, seria paradoxal se eu tivesse alguma preocupação em não entregar qual o final da história.

Mas, resumidamente para melhor situar o leitor, a obra trata dos relatos de um major da Força Aérea norte americana que esteve envolvido em um projeto ultrassecreto do órgão, que durante pesquisas científico-militares, encontra uma forma de viajar no tempo. E escolhem como objeto da primeira grande “viagem” a Palestina do século I para observarem os dias dramáticos da Paixão e Morte de Jesus Cristo e sua ressurreição.  Não vou me deter a narrar os fatos do desenrolar da história, até mesmo porque todos já os conhecem amplamente, mas gostaria de ressaltar alguns pontos que achei interessante.

A parte inicial da obra, na qual o autor se coloca como personagem de sua própria história, descrevendo suas desventuras ao se encontrar com o Major e tudo o que precisou fazer para finalmente ter acesso ao diário do militar, descrevendo suas memórias do projeto. Ao se colocar dessa forma, o autor dá uma grande contribuição à credibilidade de sua história. Acredito que se tivesse somente apresentado a história do salto ao passado, sem este preâmbulo de como se apoderou da história que apresenta, todo o relato do major seria considerado amplamente inverossímil e perderia em muito o caráter de relato científico que o autor busca. Mas, ao construir a narrativa dessa forma, nos envolvemos com a história e sem que percebamos, a transição entre sua narrativa e os relatos do major se dá de forma sutil e continuamos a “ouvir” a história com naturalidade e sem que se perceba, estamos aceitando o relato do major como uma verdade.

Entendo perfeitamente o cisma da Igreja Católica com a história – há vários trechos nos quais são descritos como uma negação aos ensinamentos do dogma religioso e há principalmente, criticas contumazes a diversos aspectos da religião e da fé cristã, daí a polemica, mas em outros momentos há um relato emocionante dos ensinamentos de Jesus de Nazaré e uma alma disposta a refletir sobre a profundidade da mensagem do Mestre sem as amarras religiosas de qualquer igreja, são passagens de grande emoção e sensibilidade.

Como cresci em um meio católico fervoroso, em um primeiro momento o relato me causa estranheza e algum repúdio. Mas, ao avançar na história, ao me abrir um pouco mais para a reflexão de diversos trechos, percebo que há uma beleza e uma verdade nas palavras, especialmente nos trechos em que se propõe a falar que Deus é amor, e que praticamos a religiosidade a expressarmos o amor a todos.

Além disso, o texto é inteiramente construído como um relato amplamente científico – com o providencial acréscimo de diversas notas de rodapé e referências a diversos pontos do texto, quase como um artigo científico submetido ao escrutínio de uma banca avaliadora. Esta construção textual, ainda que um tanto maçante e cansativa em diversos pontos – especialmente para quem não tem tanto apreço por descrições técnicos e cientificas – tem um efeito impressionante de causar uma sensação de credibilidade e verdade ao relato. Por diversos momentos durante a leitura, você se esquece de que se trata de uma obra de ficção científica e passa a aceitar verdadeiramente que o Major esteve na Jerusalém do ano 30 do século I e foi testemunha ocular dos dramáticos eventos acontecidos durante a festa da Páscoa.

Ao menos para mim, um seguidor da doutrina cristã, mas que possui um profundo respeito e confiança no método científico e na construção do conhecimento, o livro foi profundamente enriquecedor. Além de propor reflexões que me permitiram aprofundar nas questões da fé, na virtude e na mensagem de Jesus Cristo, sacia a minha curiosidade científica com tantas referências técnicas, quase que me fazendo acreditar que é possível realizar a viagem proposta na obra.

O livro é extenso, são quase 600 páginas, mas que saboreei rapidamente ao longo dos primeiros 10 dias desse ano. Não avalio ainda mais positivamente pois há momentos em que o excesso de informações técnicas acaba por atravancar um pouco o avanço da história, mas no geral é uma obra brilhante e que recomendo a leitura a todos, desde o cético ateu que não tem fé ao cristão mais fervoroso. Ainda que não promova reflexões mais profundas, pelo menos permanece como uma grande peça de literatura. Nota 4/5.