Acabo de finalizar a leitura mais demorada e trabalhosa nesse 2022. Não que fosse a obra mais longa e difícil que encarei neste inicio de ano, mas por algum motivo eu não consegui engajar tão facilmente neste “O Silêncio das Montanhas”, do autor afegão Khaled Hosseini. É a segunda obra do autor que leio, após o sucesso “O caçador de pipas”, que li há muitos anos atras.
Acredito que seja uma questão de gosto pessoal mesmo, mas não consigo me conectar tanto com as histórias escritas pelo autor. Não que sejam mal escritas, muito pelo contrário. O autor tem uma sensibilidade muito tocante ao escrever sobre a cultura afegã e este país tão sofrido e maltratado, que se tornou um joguete nas mãos das superpotências durante a guerra fria e depois.
Este, aliás, é o ponto que mais gosto neste livro: o autor aborda muitos detalhes sobre como era a vida dos afegãos antes, durante e depois dos acontecimentos dramáticos que jogaram o país no meio do conflito entre as superpotências no final da década de 70 do século XX e os posteriores desdobramentos, até nos trazer ao século XXI.
Falando sobre a obra, o autor retrata dois irmãos pequenos vivendo em uma pequena aldeia afegã no início dos anos 50 e os desdobramentos de suas vidas ao longo de meio século. Não vou retratar detalhes da história, mas um detalhe interessante que acabei apreciando, ainda que tenha achado um pouco confuso é o fato de o autor alternar entre diversos narradores sem uma cronologia específica e declarada. Não há aquele prefácio em cada capítulo, informando “cidade tal, dia tal, ano tal”. A narrativa inicia-se sem que você saiba quem é o narrador, onde ele está e nem em qual época. Tudo isso vai sendo desvelado aos poucos durante a leitura, até que se consiga fazer a conexão de onde está a história e como esse fato se conecta com o restante da narrativa.
Um outro ponto bastante legal, é que a narrativa avança sempre tendo como narrador um personagem pessoa diferente do personagem principal naquele momento. Quase sempre os detalhes da história são fornecidos por um personagem secundário e por muitas vezes sem uma conexão direta com a narrativa principal, quase como se ficasse sabendo das histórias por um terceiro que o informa.
Acho que um dos pontos que me pega um pouco nas histórias do autor é que há sempre uma melancolia latente em todos os personagens, com uma sensação de que ninguém pudesse ser de fato feliz, mesmo os personagens felizes na história. Talvez seja um reflexo do próprio autor, que explora em suas obras toda a tristeza e o sofrimento que se abate sobre o povo afegão, mas confesso que é uma sensação que mina bastante a minha empolgação com a leitura. Não consigo avançar por muito tempo na história, preciso de fazer pausas sucessivas, para não me deixar levar por essa energia melancólica, para respirar e não ficar também melancólico.
Mas não é um livro ruim, é uma leitura rica, cheia de detalhes, que dá uma dimensão da realidade vivida pelas pessoas no país, a tristeza, as circunstâncias que minam a capacidade do país em se estabilizar, e personagens cheios de nuances e facetas. Apesar de triste e melancólica, é uma leitura recomendada. Nota 3,5/5.
Finalizei a poucos dias a leitura – ou melhor dizendo, a releitura – da obra “Operação Cavalo de Tróia 2 – Massada”. Há alguns anos, por indicação de um primo li por acaso os dois primeiros livros da saga e, por fazer muito tempo, não me recordava de todos os detalhes de cada um dos livros, qual fato era de cada, havia uma confusão na minha cabeça, daí agora que resolvi retomar e ler toda a saga, achei melhor reler tudo desde o inicio para me familiarizar novamente com toda a narrativa e fazer a conexão mental com toda a história.
Cavalo de Troia 2 – Massada: Bom, mas podia ser melhor.
Posto isso, vou falar propriamente do segundo livro. Operação Cavalo de Troia 2 – Massada é uma história que se passa exatamente no momento em que finaliza a primeira aventura de Jasão e Eliseu, na Jerusalém do século 1. O livro é basicamente uma continuação dos fatos, narrados sequencialmente até o desenrolar da segunda aventura.
Confesso que achei essa segunda leitura muito mais cansativa e menos inspiradora que a primeira. Ainda que a primeira parte dos acontecimentos, toda a escolha de um novo local para o desenrolar do projeto, e principalmente o desenrolar geopolítico narrado e que permeia diversas decisões da história é muito interessante para alguém, como eu, que adora fatos históricos e geopolíticos.
Porém, ao entrar na aventura propriamente dita – o segundo salto no tempo para retornar ao tempo de Jesus e investigar os fatos pós crucificação – a sensação que fica é que o autor J.J.Benitez foi tomado mais pelo desejo de confrontar mais diretamente as religiões cristãs, especialmente a igreja católica, do que desenvolver de forma mais cativante a história, a exemplo da primeira aventura.
Ainda que a narrativa tenha momentos inspiradores e tocantes, que proporcionam reflexões bacanas, no geral a sensação é de que boa parte do tempo é desperdiçado para ficar reforçando que os evangelistas se esqueceram de narrar determinado fato, ou foram omissos em outra passagem, ou que negligenciaram personagens relevantes. De modo geral, o texto se torna mais truncado e cansativo com essa retorica insistente de apontar falhas, ao invés de seguir na descrição da aventura. É um livro interessante, vale a pena a leitura, mas, por se tratar de uma continuação de uma obra inspiradora, esperava um desenvolvimento mais uniforme e cativante. A sensação que fica é de que poderia ser muito mais do que foi, ainda que dê abertura para a continuidade da saga. Porém, vendo a forma que esse livro se desenvolveu, fiquei com a pulga atrás da orelha sobre como a saga continuará, ainda mais sabendo que serão 9 livros até o final, sendo que no segundo já há alguns sinais de cansaço da narrativa. A ver. Nota 3/5.
O Livro Obscuro do Descobrimento do Brasil, de Marcos Costa. Foto: Google
Quando me proponho a ler um livro de História (a ciência mesmo), sempre pesquiso antes para saber quem é o autor e se é um pesquisador sério e pode ser considerado como uma boa referência no assunto. Este cuidado vem desde que ganhei de presente um livro sobre fatos históricos, mas escrito por alguém que não tem compromisso com a pesquisa científica séria ao tratar destes fatos. Não vou citar qual o autor ou o livro, mas para qualquer pessoa que tenha pegado algum volume que se autointitula “politicamente incorreto” sabe do que estou falando.
Antes de mais nada é preciso deixar uma coisa bem clara: este é um livro de História. Não é um romance, ou uma ficção. Por essa razão, inicialmente é um livro que pode ser de difícil leitura para que não está acostumado com o estilo. O livro apresenta detalhamente diversos elementos que contribuíram direta e indiretamente com o “descobrimento” do novo mundo pelos europeus. E quando digo detalhadamente, não é uma figura de linguagem e sim uma constatação: em diversos trechos de sua narrativa, como forma de ilustrar um tema mais profundamente, o autor se utiliza de escritos históricos da época, cartas trocadas entre reis e papas, entre colonizadores e padres, e diversos outros relatos que, embora riquíssimos do ponto de vista histórico, acabam por deixar a leitura um pouco maçante e cansativa em alguns momentos.
Não que isso seja algo ruim, entendendo o perfil de historiador do autor, é mais do que compreensível o desejo de cercar-se de documentos seguros que possam contar detalhes da época relatada, porém por se tratar em grande parte de documentos do final da idade média (séculos XV e XVI), a forma da escrita é diferente do praticado atualmente, então requer mais atenção e interpretação para compreensão exata do que se está dizendo. É uma questão de gosto, claro, mas eu particularmente preferiria que fossem utilizados recortes menores, e feito uma paráfrase em outros momentos, de forma a deixar a leitura mais prazerosa para leitores que não são tão ligados assim em história. E digo isso como alguém que ama história e se delicia com obras como essa.
Falando da obra em si, o autor faz uma combinação de diversos elementos históricos que levam as nações europeias a se lançarem na aventura de navegarem rumo ao ocidente, desbravando o assustador (para a época) Oceano Atlântico. O autor nos mostra que o “descobrimento” do Brasil e das Américas foi muito mais que um mero “acidente de percurso” ao se tentar chegar às Índias por parte das nações ibéricas e que as datas “oficiais” da descoberta pouco tem relação com a chegada dos primeiros europeus no continente americano.
Eu gostei particularmente de o autor sanar uma dúvida antiga minha, desde os tempos escolares. Nunca entendi, em minha mente adolescente, por que razão os portugueses, ao tentar chegar à índia navegando ao redor do continente africano, acabaram vindo parar no Brasil. Sempre me pareceu um desvio um tanto desconexo, pois seria mais fácil margear e acompanhar a linha do continente africano. O autor explica, brilhantemente, que se trata de uma questão natural, uma vez que as correntes do atlântico propiciam uma navegação mais segura e rápida nesta direção, e seria mais fácil para as embarcações portuguesas se deixarem levar pela corrente ao invés de lutar com elas para se manterem próximas à costa africana.
O livro é muito rico, a leitura, apesar do que já pontuei acima, flui de forma natural e, para quem gosta de fatos históricos como eu, bastante instigante. Existem muito mais detalhes que ajudam a entender a construção da nação brasileira. Como, por exemplo, os impactos da inquisição espanhola nos destinos da colonização do Brasil, e a influência da Reforma Protestante e da Contrarreforma na ascensão e queda dos impérios Ibéricos. Dou uma nota 4,5 pelo conteúdo e um 3,5 pela construção do texto. Nota 4 no conjunto geral da obra. Recomendado a todos, e particularmente aos que se interessam por questões históricas.
Guerra dos Tronos – Livro 1: Bom, “pero no mucho”.
Vou iniciar uma nova seção aqui no blog. Estou sempre lendo um livro, foi um hábito adquirido ao longo dos anos que mantenho com muito prazer. De uns tempos para cá, estou participando dos desafios Skoob lá na plataforma, e um dos desafios é o de sempre fazer a resenha de um livro lido. Vou começar a trazer aqui no blog também uma resenha dos livros que leio, quem sabe posso estimular alguém a ler novos livros, não é mesmo? Será uma seção fixa, e sempre que finalizar uma leitura, vou trazer a minha percepção aqui para que possamos falar sobre o delicioso hábito da leitura. Pois bem, vamos lá ao que realmente interessa:
Decepcionante. Esta é a palavra que melhor define o meu sentimento ao finalizar a leitura deste livro. Calma, não me julguem. Leiam até o final que eu explico o motivo de usar este adjetivo. Conheço a fama da saga criada pelo autor, e mais ainda, acompanhei toda a repercussão da série derivada da obra. Por isso a minha expectativa era alta com esse livro. Aliás, altíssima, pois além de todo o zum, zum, zum, tive recomendações de duas pessoas que são leitores tão ávidos quanto eu e ambos me recomendaram enfaticamente a leitura desta obra. Então cheguei já esperando um enredo arrasa-quarteirão e avassalador. Claro que quando esperamos tanto de algo, pode ser que a realidade não corresponda à nossa expectativa imaginada, mas por muitas vezes ainda é algo gratificante. Com livros isso acontece constantemente, não era tudo aquilo que eu esperava, mas ainda me rendeu uma boa leitura. E é o caso de “A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo – Livro 1”, ainda que, se fosse localizá-lo numa escala de 0 a 100, sendo 100 o indicador para ter atendido e até superado as minhas expectativas, penso que o colocaria próximo à metade da escala, talvez até um pouco abaixo.
Fiquei realmente frustrado com a leitura. O livro é um calhamaço de quase mil páginas, mas que certamente metade ou menos que isso daria conta de contar a história sem divagar tanto em descrições. O livro perde muito da ação por conta da opção do autor por descrever rica e exaustivamente cada peça de figurino e cenário de cada um dos personagens que vão aparecendo ao longo da história. Sério, não estou brincando. Em determinados momentos o autor usa 2 ou 3 páginas para descrever o modo como cavaleiro tal está vestido, com a armadura assim, o elmo assado, o manto de tal jeito com bordados de não sei o que e coisa e tal. Sei que na escrita literária, a descrição rica de personagens e cenários é essencial para o envolvimento com a história e o despertar da imaginação para o que se lê, mas acho que o autor abusou um tiquinho demais desse recurso e deixa o livro cansativo e pesado desnecessariamente.
Em contraponto, fiquei com a sensação de que os momentos de ação da história que possuem relevância direta para o fechamento do primeiro volume são contados de forma acelerada e simplista, quando poderiam ser mais bem exploradas, especialmente se considerando o tempo e energia dedicados à descrição de vestimentas. Por exemplo, (aqui solto um breve spoiler, se ainda não leu o livro e espera ler no futuro, e não gosta de saber nada antecipadamente, recomendo pular o restante deste parágrafo e seguir a leitura no parágrafo seguinte), o episódio do embate entre o Regicida e seus asseclas contra Lorde Eddard Stark, que resulta na perna quebrada e total mudança de planos deste, acontece de forma tão rápida que não entendi muito bem como se deu de fato a queda que ocasionou a lesão na perna do senhor de Winterfell. Acho que um fato tão relevante para o direcionamento da história poderia ser mais bem explorado.
Além disso, para um livro tão extenso, a sensação de que nada de realmente relevante acontece na história deixa um gostinho de “enganação” no leitor. Não enganação de fato, de se sentir traído pelo autor, mas uma enganação no sentido figurado, de se pensar que com quase mil páginas, existiriam acontecimentos mais marcantes ao longo da trama e mais perguntas respondidas ao término da leitura. Sei que o autor escreveu o livro pensando-o como parte de um enredo ainda mais extenso, quase que como somente a introdução do universo fantasioso que criou, para realmente explorar os desdobramentos ao longo dos volumes futuros, mas é possível um livro que seja parte de uma coleção maior ter mais respostas e uma história independente da trama geral (aí está o universo Harry Potter e seus sete livros que não me deixam mentir).
Durante a leitura, fui observando que o universo criado pelo autor possui muitas semelhanças com o universo fantasioso de Eragon, como as intrigas antigas do reino, a história de dragões desaparecidos que retornam à vida, diversas criaturas místicas e um mundo vasto e perigoso. Posteriormente, ao pesquisar, vi que o primeiro livro da saga Game Of Thrones foi lançado em 1996 e Eragon em 2002, portanto pode ser até que o autor Christopher Paolini (de Eragon) fosse um fã do universo criado por George R.R. Martin e tenha se inspirado diretamente em sua obra para criar os cenários de sua própria história.
Mas não achem que eu detestei o livro. Pelo contrário, achei até uma boa leitura, somente cansativa por conta do excesso de descrições como já mencionei, mas ainda assim é uma leitura que prende e desperta a atenção e provavelmente irei ler os demais volumes da saga, até para saber como o autor irá encerrar a batalha pelo trono de ferro. O recurso do autor de não haver um narrador fixo, mas vários olhares diferentes sobre os acontecimentos, contados capítulo a capítulo pelos olhos de cada personagem, nos possibilitando vários pontos de vistas sobre o que acontece em diferentes locações da história torna a leitura estimulante e compensa o ritmo lento pelo excesso de descrição dos cenários. Especialmente quando o capítulo narrado por determinado personagem começa a ficar mais envolvente e ficamos na expectativa do desenrolar da história, mas aí o capítulo se encerra, e a narrativa passa para outro personagem, que está seguindo uma linha do tempo distinta e destacando fatos que considera mais relevantes, sem porém qualquer ligação direta com o desenrolar no capítulo anterior, ficamos ansiosos para retomar o ponto anterior e com isso a leitura avança mais rápida.
Peço que me perdoem pela resenha majoritariamente negativa. Talvez ainda esteja levemente chateado por esperar muito mais da história. Possivelmente essa sensação possa melhorar ao ler as obras seguintes e o cenário geral ganhar mais corpo e profundidade. A primeira impressão pode não ter sido das melhores, mas certamente darei nova chance ao universo do autor e irei retornar aos Sete Reinos e, quem sabe, com a expectativa menor, possa vir a ser arrebatado como milhões de pessoas ao redor do mundo. Nota 2,5 de 5 considerando todos os fatores.