Resenhando (#7)

A terceira leitura do ano foi esse “Dez Argumentos para você deletar agora suas redes sociais”, de Jaron Lanier. Como o autor propõe uma ideia altamente transgressora para os dias atuais, fui procurar saber quem ela era e vi que realmente ele possui histórico e respaldo suficiente para falar do assunto e sua opinião deve ser levada em consideração.

Tive essa preocupação de fazer a pesquisa sobre o autor porque raramente leio esse tipo de livro que traz uma ordem ou um objetivo final da leitura, soando muito com os livros de gestão ou autoajuda que tanto detesto. Mas como se tratava de um tema intrigante e uma reflexão pessoal que já tenho feito, fiquei curioso para saber mais sobre os tais “argumentos” propostos pelo autor.

Livro da vez – interessante e reflexivo

Não é a primeira vez que me deparava com o livro – tive o primeiro contato com ele e tentei iniciar a leitura no final de 2020 – mas o combo pandemia + nascimento da minha filha + cirurgia no ombro foi muito avassalador para conseguir aprofundar em uma leitura como essa, que indiscutivelmente exige muita reflexão pessoal, além de paciência e atenção para entender a fundo os argumentos do autor.

Fato é que deixei o livro um pouco de lado até o momento em que estava definindo a minha meta de leitura para 2022. Aliás, recomendo a todos que façam o mesmo, além de ser um exercício gratificante, ajuda a estimular o hábito da leitura, especialmente para aqueles que estão com o objetivo de lerem mais.

Falando do livro agora, é uma obra curta(são menos de 200 páginas) e escrito de uma forma objetiva e direta, mas que ainda assim soa um pouco difícil de se entender em um primeiro momento, especialmente para alguém como eu, que não é um cientista da computação ou tem lá muita familiaridade com a terminologia utilizada nos escritórios do Vale do Silício e da galera que está sistematicamente nas redes sociais.

Ainda que reconheça o esforço do autor em tentar trazer as suas ideias e argumentos para uma realidade e publico mais abrangentes, em determinados momentos ainda fica uma pequena sensação de deslocamento para quem não acostumado aos jargões do meio. Porém, o meu conselho é: persista. Ainda que em algum momento possa ter a sensação de que você não está exatamente entendendo o que ele está falando, o autor constrói a obra de forma a que no final você tenha entendido a mensagem geral que ele quer passar, ainda que possa ter escapado um ou outro conceito ao longo do texto.

De todos os argumentos, o que soa com mais estranheza para mim é justamente o décimo e último, talvez por ser aquele em que o autor mais se arrisca a falar de algo metafísico e filosófico, um pouco mais distante de seu universo profissional, e mesmo que muito sutilmente, passa a soar um pouco mais messiânico ou como texto de auto ajuda.

No geral, achei uma leitura bacana, que propõe reflexões importantes (muitas das quais eu já estou fazendo há algum tempo, tanto que estou vivendo novo período de autoexílio das redes sociais), mas que talvez ainda soe um tanto técnico demais ou difícil ao grande público que hoje povoa as redes sociais. Além, é claro, da própria premissa do livro, de sugerir algo que é quase uma blasfêmia aos olhos do povo hiper conectado de hoje.

Acho que ninguém deva considerar este livro como uma obra de autoajuda ou um guia com respostas às questões que propõe, e nem ter um direcionamento profundo e concreto do que se deve ou não fazer com relação às suas redes sociais. O autor propõe simplesmente uma reflexão a respeito de uma opinião que ele possui e expõe argumentos pertinentes com base em sua história de vida e realidade profissional. Como ele mesmo disse no livro, existem diversos outros argumentos que podem ser utilizados para convencer alguém a deixar de lado as redes sociais, ele se ateve única e exclusivamente aos dez que considerou possuir maior conhecimento e propriedade para abordar.

Gostei bastante da reflexão, dos argumentos apresentados e me fizeram aprofundar em pensamentos que já venho ruminando há meses, portanto, me foi muito esclarecedor e produtivo a leitura, ainda que eu entenda os motivos de algumas resenhas não tão positivas existentes na internet sobre a obra. Eu recomendo a leitura a todos. Nota 4/5.

Resenhando (#6)

Finalizei a poucos dias a leitura – ou melhor dizendo, a releitura – da obra “Operação Cavalo de Tróia 2 – Massada”. Há alguns anos, por indicação de um primo li por acaso os dois primeiros livros da saga e, por fazer muito tempo, não me recordava de todos os detalhes de cada um dos livros, qual fato era de cada, havia uma confusão na minha cabeça, daí agora que resolvi retomar e ler toda a saga, achei melhor reler tudo desde o inicio para me familiarizar novamente com toda a narrativa e fazer a conexão mental com toda a história.

Cavalo de Troia 2 – Massada: Bom, mas podia ser melhor.

Posto isso, vou falar propriamente do segundo livro. Operação Cavalo de Troia 2 – Massada é uma história que se passa exatamente no momento em que finaliza a primeira aventura de Jasão e Eliseu, na Jerusalém do século 1. O livro é basicamente uma continuação dos fatos, narrados sequencialmente até o desenrolar da segunda aventura.

Confesso que achei essa segunda leitura muito mais cansativa e menos inspiradora que a primeira. Ainda que a primeira parte dos acontecimentos, toda a escolha de um novo local para o desenrolar do projeto, e principalmente o desenrolar geopolítico narrado e que permeia diversas decisões da história é muito interessante para alguém, como eu, que adora fatos históricos e geopolíticos.

Porém, ao entrar na aventura propriamente dita – o segundo salto no tempo para retornar ao tempo de Jesus e investigar os fatos pós crucificação – a sensação que fica é que o autor J.J.Benitez foi tomado mais pelo desejo de confrontar mais diretamente as religiões cristãs, especialmente a igreja católica, do que desenvolver de forma mais cativante a história, a exemplo da primeira aventura.

Ainda que a narrativa tenha momentos inspiradores e tocantes, que proporcionam reflexões bacanas, no geral a sensação é de que boa parte do tempo é desperdiçado para ficar reforçando que os evangelistas se esqueceram de narrar determinado fato, ou foram omissos em outra passagem, ou que negligenciaram personagens relevantes. De modo geral, o texto se torna mais truncado e cansativo com essa retorica insistente de apontar falhas, ao invés de seguir na descrição da aventura. É um livro interessante, vale a pena a leitura, mas, por se tratar de uma continuação de uma obra inspiradora, esperava um desenvolvimento mais uniforme e cativante. A sensação que fica é de que poderia ser muito mais do que foi, ainda que dê abertura para a continuidade da saga. Porém, vendo a forma que esse livro se desenvolveu, fiquei com a pulga atrás da orelha sobre como a saga continuará, ainda mais sabendo que serão 9 livros até o final, sendo que no segundo já há alguns sinais de cansaço da narrativa. A ver. Nota 3/5.

Resenhando (#5)

Em primeiro lugar, um feliz 2022 a todos. Nas últimas semanas de 2021 negligenciei o blog devido a outros projetos que estava desenvolvendo paralelamente, mas agora é o momento certo de retomar este espaço que me é tão querido. No mês de dezembro, ao invés de iniciar nova leitura, acabei me rendendo ao espírito de retrospectivas que sempre acontecem nessa época do ano e me voltei para releitura de livros queridos, dos quais nunca fiz uma resenha digna e que representassem de fato o tamanho do impacto que tiveram em minha vida. Ao longo do mês acabei relendo 4 dos meus livros favoritos e em outra postagem vou me arriscar a rascunhar algumas palavras acerca de cada um deles.

Polêmico e Sensível – Bela obra de JJ Benitez

Mas neste texto de hoje eu quero falar é do primeiro livro que li neste ano de 2022. Aliás, reli, por se tratar também da releitura de uma obra que já havia conhecido há muitos anos, mas que devido ao impacto do tempo e principalmente de minha transformação enquanto pessoa nos últimos anos, achei válido revisitar e me propor a uma releitura das mesmas páginas que tiveram um sabor de novo encontro.

Refiro-me ao ilustre e polêmico livro “Operação Cavalo de Tróia 1 – Jerusalém”. Polêmico pois o próprio autor J.J. Benitez destaca suas agruras com diversas pessoas e principalmente com a Igreja Católica desde a publicação de sua obra. Como trata-se de um livro já antigo (foi lançado originalmente em 1984, e chegou ao Brasil em sua primeira versão em 1987), não vou me preocupar com eventuais spoilers ao longo dessa resenha. Até mesmo por tratar da história mais contata da humanidade, seria paradoxal se eu tivesse alguma preocupação em não entregar qual o final da história.

Mas, resumidamente para melhor situar o leitor, a obra trata dos relatos de um major da Força Aérea norte americana que esteve envolvido em um projeto ultrassecreto do órgão, que durante pesquisas científico-militares, encontra uma forma de viajar no tempo. E escolhem como objeto da primeira grande “viagem” a Palestina do século I para observarem os dias dramáticos da Paixão e Morte de Jesus Cristo e sua ressurreição.  Não vou me deter a narrar os fatos do desenrolar da história, até mesmo porque todos já os conhecem amplamente, mas gostaria de ressaltar alguns pontos que achei interessante.

A parte inicial da obra, na qual o autor se coloca como personagem de sua própria história, descrevendo suas desventuras ao se encontrar com o Major e tudo o que precisou fazer para finalmente ter acesso ao diário do militar, descrevendo suas memórias do projeto. Ao se colocar dessa forma, o autor dá uma grande contribuição à credibilidade de sua história. Acredito que se tivesse somente apresentado a história do salto ao passado, sem este preâmbulo de como se apoderou da história que apresenta, todo o relato do major seria considerado amplamente inverossímil e perderia em muito o caráter de relato científico que o autor busca. Mas, ao construir a narrativa dessa forma, nos envolvemos com a história e sem que percebamos, a transição entre sua narrativa e os relatos do major se dá de forma sutil e continuamos a “ouvir” a história com naturalidade e sem que se perceba, estamos aceitando o relato do major como uma verdade.

Entendo perfeitamente o cisma da Igreja Católica com a história – há vários trechos nos quais são descritos como uma negação aos ensinamentos do dogma religioso e há principalmente, criticas contumazes a diversos aspectos da religião e da fé cristã, daí a polemica, mas em outros momentos há um relato emocionante dos ensinamentos de Jesus de Nazaré e uma alma disposta a refletir sobre a profundidade da mensagem do Mestre sem as amarras religiosas de qualquer igreja, são passagens de grande emoção e sensibilidade.

Como cresci em um meio católico fervoroso, em um primeiro momento o relato me causa estranheza e algum repúdio. Mas, ao avançar na história, ao me abrir um pouco mais para a reflexão de diversos trechos, percebo que há uma beleza e uma verdade nas palavras, especialmente nos trechos em que se propõe a falar que Deus é amor, e que praticamos a religiosidade a expressarmos o amor a todos.

Além disso, o texto é inteiramente construído como um relato amplamente científico – com o providencial acréscimo de diversas notas de rodapé e referências a diversos pontos do texto, quase como um artigo científico submetido ao escrutínio de uma banca avaliadora. Esta construção textual, ainda que um tanto maçante e cansativa em diversos pontos – especialmente para quem não tem tanto apreço por descrições técnicos e cientificas – tem um efeito impressionante de causar uma sensação de credibilidade e verdade ao relato. Por diversos momentos durante a leitura, você se esquece de que se trata de uma obra de ficção científica e passa a aceitar verdadeiramente que o Major esteve na Jerusalém do ano 30 do século I e foi testemunha ocular dos dramáticos eventos acontecidos durante a festa da Páscoa.

Ao menos para mim, um seguidor da doutrina cristã, mas que possui um profundo respeito e confiança no método científico e na construção do conhecimento, o livro foi profundamente enriquecedor. Além de propor reflexões que me permitiram aprofundar nas questões da fé, na virtude e na mensagem de Jesus Cristo, sacia a minha curiosidade científica com tantas referências técnicas, quase que me fazendo acreditar que é possível realizar a viagem proposta na obra.

O livro é extenso, são quase 600 páginas, mas que saboreei rapidamente ao longo dos primeiros 10 dias desse ano. Não avalio ainda mais positivamente pois há momentos em que o excesso de informações técnicas acaba por atravancar um pouco o avanço da história, mas no geral é uma obra brilhante e que recomendo a leitura a todos, desde o cético ateu que não tem fé ao cristão mais fervoroso. Ainda que não promova reflexões mais profundas, pelo menos permanece como uma grande peça de literatura. Nota 4/5.

Resenhando (#4)

Acabo de finalizar a leitura de “O primeiro home: a vida de Neil Armstrong”, biografia do famoso astronauta, eternizado como o primeiro homem a pisar na superfície lunar. Gosto muito de biografias e sempre me proponho a ler boas obras de personagens significativos na história. Não para buscar inspiração ou para ter alguma lição de moral para a vida, como alguns “coaches de coisa nenhuma” adoram replicar por aí, mas simplesmente pela curiosidade em torno do fato pelo qual o biografado tornou-se conhecido.

A dinâmica quase sempre é essa: o interesse pelo fato histórico é muito maior que os personagens envolvidos, mas adentrar na biografia de um deles permite um conhecimento ainda maior de tudo o que envolveu aquele fato. É assim com a chegada do homem à lua. É um tema que sempre chamou a minha atenção, desde criança ao folhear as enciclopédias que meus pais tinham em casa.

Esse interesse acentuou-se muito durante o ano de 2019(último ano de “normalidade” neste caos chamado planeta Terra), quando se celebrou os 50 anos do pouso da Apollo 11 no Mar da Tranquilidade, em julho de 1969. À época, diversos canais, especialmente History Chanel, Discovery Chanel e National Geographic fizeram uma programação especial com vários documentários sobre o tema, aumentando ainda mais a minha admiração pelo feito. Não que em certo momento eu não tenha duvidado do feito: sim, houve momentos em que eu fui meio negacionista e cheguei a desconfiar por um breve período que as teorias conspiratórias de que o homem nunca havia chegado à lua eram verdadeiras e tudo não passava de encenação.

Mas, como sou dotado de um cérebro operacional e funcionando plenamente, pude verificar que as provas existentes são contundentes e as teorias da conspiração não são nada além de especulação que tentam distorcer fatos científicos comprovados e comprováveis. Mas, vamos deixar essa discussão de lado e focar na biografia.

O livro é completíssimo e contempla toda a vida do famoso astronauta Neil Armstrong, desde antes de seu nascimento até após a sua morte, em 2012 aos 82 anos. Como o próprio autor destaca, o biografado fez questão de que fossem apresentadas as suas origens, desde as primeiras gerações de Armstrongs existentes na Escócia, até a migração para a América e chegando até o momento do nascimento de Neil.

Retrata também toda a sua formação, desde criança como escoteiro, passando por sua formação militar na Marinha Americana, sua atuação como piloto aéreo na guerra da Coreia até a chegada à NASA com a segunda turma de astronautas selecionada pelo programa espacial dos EUA, os chamados “New Nine”. A partir daí descreve todas as etapas do programa espacial até o pouso do modulo lunar na superfície da lua. Acompanha Armstrong por todos os anos subsequentes, em que lutou contra a fama provocada pelo seu feito, e os passos que seguiu profissionalmente até o final de sua vida.

O livro, provavelmente escrito e pensado para um publico estadunidense, ainda que Neil fosse uma personalidade mundial, destaca rica e exaustivamente todos os passos da carreira de Armstrong na marinha, depois nos programas de testes de aviação civil e no programa espacial, com descrições detalhadas de tempo de voo em todas as máquinas testadas pelo astronauta, quais armas utilizadas, e quais as condecorações recebidas. Para os norte-americanos, fascinados pela cultura militar parece fazer sentido, mas para mim, pouco afeito a esses aspectos, o texto torna-se um pouco maçante, ainda mais porque não possuímos qualquer conhecimento de todas as aeronaves ou embarcações porta aviões que são apresentadas.

Um outro aspecto que às vezes causa um certo embaraço na leitura é a descrição sistemática de Neil Armstrong como alguém excepcional, um fora de série, quase como um ser humano superior. Sério, às vezes o biografo carrega tanto nas tintas ao falar do astronauta que se torna um pouco cansativo, quase como se fosse um super-humano infalível. É uma forma de retratar um biografado que não vi sequer na biografia do genial Leonardo da Vinci, e que não condiz com a própria imagem que Neil faz de si mesmo, evitando os louros de seus feitos e sempre externalizando que não foi um feito individual seu, mas sim um esforço de mais de 400 mil pessoas para se chegar ao objetivo final.

Em nenhum momento Armstrong se refere como alguém excepcional, mas sempre com humildade e sensatez de que é somente um profissional dedicado ao trabalho e disposto a testar as possibilidades para se obter o resultado esperado. Um aspecto bastante interessante é que, apesar deste destaque às vezes exagerado das qualidades do biografado, em nenhum momento o livro adota um tom ufanista para celebrar os feitos dos EUA durante a guerra fira e a corrida espacial. Pelo contrário, até destaca as realizações soviéticas que vieram anteriormente às norte americanas, e trata essencialmente do desenvolvimento científico que possibilitou a chegada do homem à lua e coloca essa corrida espacial somente como o combustível extra que nutriu esse processo.

Considerando todos os fatos, é um livro muito bem escrito, rico em detalhes como uma biografia deve ser, e nos permite construir uma boa imagem acerca do biografado e os feitos históricos nos quais esteve envolvido. Um bom livro que vale a pena a leitura, especialmente para os entusiastas da exploração espacial. Garanto que a riqueza dos detalhes irá satisfazer a curiosidade e aumentar ainda mais a fascinação pelo espaço e a lua em particular. Recomendado!

Resenhando (#3)

As Espiãs do Dia D – Ken Follett – Imagem: google

Acabo de finalizar a leitura desse delicioso romance histórico. Levei um pouco mais de tempo que o normal porque o meu leitor de livros digital sofreu uma avaria que infelizmente encurtou sua vida útil e precisei encontrar alternativas para seguir com a leitura. Mas, ao final deu tudo certo e pude apreciar o romance sem problemas.

Falando do livro, trata-se da segunda ou terceira obra que leio do autor, bastante famoso e conhecido especialmente pelo sucesso Queda de Gigantes (que está em minha lista e devo ler no ano que vem, junto de toda a Trilogia do Século), e como a maioria de seus livros, este também se utiliza de um fato histórico real como pano de fundo para desenrolar de seu romance. No caso de “As Espiãs do dia D”, o autor narra a tensão existente nos dias que antecederam a invasão aliada na França e a consequente virada na guerra, culminando com a derrota dos países do Eixo.

Romances tendo como cenário histórico a segunda guerra mundial não são novidades, este (infeliz) fato histórico é provavelmente o tema mais utilizado em livros, filmes, series e documentários desde então, mas a capacidade do autor Ken Follett em ambientar detalhadamente os seus personagens neste recorte histórico é de se aplaudir. A história flui perfeitamente no meio dos fatos históricos apresentados, dando uma perspectiva humana e mais próxima do que foi verdadeiramente aquele momento, permitindo a pessoas que, como eu, nascidas mais de 50 anos após o término do conflito possam entender o que de fato foi uma guerra mundial e todo o sofrimento envolvido.

Além de tudo, a forma utilizada pelo autor para narrar a história, ora na perspectiva de uma espiã inglesa que dá apoio militar e logístico à resistência francesa no combate aos nazistas em território francês, e ora vemos os fatos pelos olhos de um oficial nazista responsável por identificar e desabilitar todas as células da resistência francesa, utilizando-se de técnicas de tortura e intimidação, mas também muita inteligência e perspicácia. É bastante interessante como as duas narrativas são entrelaçadas e vão se desenvolvendo até o momento em que se encontram. Temos ainda o fato de tocar em um ponto extremamente sensível ainda nos dias de hoje: a igualdade de gênero e o respeito às habilidades das mulheres, personagens essenciais em todos os momentos da história, mas constantemente desprezadas ou esquecidas nos registros oficiais. A equipe de espiãs descritas pelo autor é diversa, dinâmica e inteligente, contando com personalidades distintas, indo desde uma aristocrata inglesa, passando por uma presidiária assassina e inteligentíssima, até uma travesti alemã buscando vingança pessoal contra os nazistas. Todas a seu modo contribuem diretamente para a realização da missão que foi apresentada: explodir uma central telefônica nazista na França para dificultar a reação alemã à invasão aliada.

Um romance longo (são quase 500 páginas) do jeito que eu gosto: muito bem escrito, dinâmico, instigante, que nos prende e nos faz identificar com os personagens e proporciona uma imersão no cenário quase como se tivéssemos vivido aquele tempo. Eu particularmente nunca havia me tocado realmente para as questões como racionamento de comida e bebida nos tempos de guerra e os impactos para a população civil destas restrições durante a batalha. Meu olhar quase sempre foi para os horrores do nazifascismo e seus campos de concentração, ou na destruição causada pela bomba atômica e os seus impactos na geopolítica mundial. Este aspecto mais humano e rotineiro foi sempre deixado um pouco de lado e o autor me permitiu conectar com este ponto tão importante em um conflito dessas proporções, me fazendo refletir verdadeiramente como seria viver um momento tão intenso e extremo como foi a Segunda Guerra mundial. Um romance irrepreensível e indicado a todos, particularmente a quem se interessa por suspense e história mundial. Nota 4,5 de 5. Não ganha nota máxima porque essa só reservo aos meus livros favoritos, mas este mereceu a nota máxima disponível em meu ranking.

Resenhando (#2)

O Livro Obscuro do Descobrimento do Brasil, de Marcos Costa. Foto: Google

Quando me proponho a ler um livro de História (a ciência mesmo), sempre pesquiso antes para saber quem é o autor e se é um pesquisador sério e pode ser considerado como uma boa referência no assunto. Este cuidado vem desde que ganhei de presente um livro sobre fatos históricos, mas escrito por alguém que não tem compromisso com a pesquisa científica séria ao tratar destes fatos. Não vou citar qual o autor ou o livro, mas para qualquer pessoa que tenha pegado algum volume que se autointitula “politicamente incorreto” sabe do que estou falando.

Antes de mais nada é preciso deixar uma coisa bem clara: este é um livro de História. Não é um romance, ou uma ficção. Por essa razão, inicialmente é um livro que pode ser de difícil leitura para que não está acostumado com o estilo. O livro apresenta detalhamente diversos elementos que contribuíram direta e indiretamente com o “descobrimento” do novo mundo pelos europeus. E quando digo detalhadamente, não é uma figura de linguagem e sim uma constatação: em diversos trechos de sua narrativa, como forma de ilustrar um tema mais profundamente, o autor se utiliza de escritos históricos da época, cartas trocadas entre reis e papas, entre colonizadores e padres, e diversos outros relatos que, embora riquíssimos do ponto de vista histórico, acabam por deixar a leitura um pouco maçante e cansativa em alguns momentos.

Não que isso seja algo ruim, entendendo o perfil de historiador do autor, é mais do que compreensível o desejo de cercar-se de documentos seguros que possam contar detalhes da época relatada, porém por se tratar em grande parte de documentos do final da idade média (séculos XV e XVI), a forma da escrita é diferente do praticado atualmente, então requer mais atenção e interpretação para compreensão exata do que se está dizendo. É uma questão de gosto, claro, mas eu particularmente preferiria que fossem utilizados recortes menores, e feito uma paráfrase em outros momentos, de forma a deixar a leitura mais prazerosa para leitores que não são tão ligados assim em história. E digo isso como alguém que ama história e se delicia com obras como essa.

Falando da obra em si, o autor faz uma combinação de diversos elementos históricos que levam as nações europeias a se lançarem na aventura de navegarem rumo ao ocidente, desbravando o assustador (para a época) Oceano Atlântico. O autor nos mostra que o “descobrimento” do Brasil e das Américas foi muito mais que um mero “acidente de percurso” ao se tentar chegar às Índias por parte das nações ibéricas e que as datas “oficiais” da descoberta pouco tem relação com a chegada dos primeiros europeus no continente americano.

Eu gostei particularmente de o autor sanar uma dúvida antiga minha, desde os tempos escolares. Nunca entendi, em minha mente adolescente, por que razão os portugueses, ao tentar chegar à índia navegando ao redor do continente africano, acabaram vindo parar no Brasil. Sempre me pareceu um desvio um tanto desconexo, pois seria mais fácil margear e acompanhar a linha do continente africano. O autor explica, brilhantemente, que se trata de uma questão natural, uma vez que as correntes do atlântico propiciam uma navegação mais segura e rápida nesta direção, e seria mais fácil para as embarcações portuguesas se deixarem levar pela corrente ao invés de lutar com elas para se manterem próximas à costa africana.

O livro é muito rico, a leitura, apesar do que já pontuei acima, flui de forma natural e, para quem gosta de fatos históricos como eu, bastante instigante. Existem muito mais detalhes que ajudam a entender a construção da nação brasileira. Como, por exemplo, os impactos da inquisição espanhola nos destinos da colonização do Brasil, e a influência da Reforma Protestante e da Contrarreforma na ascensão e queda dos impérios Ibéricos. Dou uma nota 4,5 pelo conteúdo e um 3,5 pela construção do texto. Nota 4 no conjunto geral da obra. Recomendado a todos, e particularmente aos que se interessam por questões históricas.

Resenhando

Guerra dos Tronos – Livro 1: Bom, “pero no mucho”.

Vou iniciar uma nova seção aqui no blog. Estou sempre lendo um livro, foi um hábito adquirido ao longo dos anos que mantenho com muito prazer. De uns tempos para cá, estou participando dos desafios Skoob lá na plataforma, e um dos desafios é o de sempre fazer a resenha de um livro lido. Vou começar a trazer aqui no blog também uma resenha dos livros que leio, quem sabe posso estimular alguém a ler novos livros, não é mesmo? Será uma seção fixa, e sempre que finalizar uma leitura, vou trazer a minha percepção aqui para que possamos falar sobre o delicioso hábito da leitura. Pois bem, vamos lá ao que realmente interessa:

Decepcionante. Esta é a palavra que melhor define o meu sentimento ao finalizar a leitura deste livro. Calma, não me julguem. Leiam até o final que eu explico o motivo de usar este adjetivo. Conheço a fama da saga criada pelo autor, e mais ainda, acompanhei toda a repercussão da série derivada da obra. Por isso a minha expectativa era alta com esse livro. Aliás, altíssima, pois além de todo o zum, zum, zum, tive recomendações de duas pessoas que são leitores tão ávidos quanto eu e ambos me recomendaram enfaticamente a leitura desta obra. Então cheguei já esperando um enredo arrasa-quarteirão e avassalador. Claro que quando esperamos tanto de algo, pode ser que a realidade não corresponda à nossa expectativa imaginada, mas por muitas vezes ainda é algo gratificante. Com livros isso acontece constantemente, não era tudo aquilo que eu esperava, mas ainda me rendeu uma boa leitura. E é o caso de “A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo – Livro 1”, ainda que, se fosse localizá-lo numa escala de 0 a 100, sendo 100 o indicador para ter atendido e até superado as minhas expectativas, penso que o colocaria próximo à metade da escala, talvez até um pouco abaixo.

Fiquei realmente frustrado com a leitura. O livro é um calhamaço de quase mil páginas, mas que certamente metade ou menos que isso daria conta de contar a história sem divagar tanto em descrições. O livro perde muito da ação por conta da opção do autor por descrever rica e exaustivamente cada peça de figurino e cenário de cada um dos personagens que vão aparecendo ao longo da história. Sério, não estou brincando. Em determinados momentos o autor usa 2 ou 3 páginas para descrever o modo como cavaleiro tal está vestido, com a armadura assim, o elmo assado, o manto de tal jeito com bordados de não sei o que e coisa e tal. Sei que na escrita literária, a descrição rica de personagens e cenários é essencial para o envolvimento com a história e o despertar da imaginação para o que se lê, mas acho que o autor abusou um tiquinho demais desse recurso e deixa o livro cansativo e pesado desnecessariamente.

Em contraponto, fiquei com a sensação de que os momentos de ação da história que possuem relevância direta para o fechamento do primeiro volume são contados de forma acelerada e simplista, quando poderiam ser mais bem exploradas, especialmente se considerando o tempo e energia dedicados à descrição de vestimentas. Por exemplo, (aqui solto um breve spoiler, se ainda não leu o livro e espera ler no futuro, e não gosta de saber nada antecipadamente, recomendo pular o restante deste parágrafo e seguir a leitura no parágrafo seguinte), o episódio do embate entre o Regicida e seus asseclas contra Lorde Eddard Stark, que resulta na perna quebrada e total mudança de planos deste, acontece de forma tão rápida que não entendi muito bem como se deu de fato a queda que ocasionou a lesão na perna do senhor de Winterfell. Acho que um fato tão relevante para o direcionamento da história poderia ser mais bem explorado.

Além disso, para um livro tão extenso, a sensação de que nada de realmente relevante acontece na história deixa um gostinho de “enganação” no leitor. Não enganação de fato, de se sentir traído pelo autor, mas uma enganação no sentido figurado, de se pensar que com quase mil páginas, existiriam acontecimentos mais marcantes ao longo da trama e mais perguntas respondidas ao término da leitura. Sei que o autor escreveu o livro pensando-o como parte de um enredo ainda mais extenso, quase que como somente a introdução do universo fantasioso que criou, para realmente explorar os desdobramentos ao longo dos volumes futuros, mas é possível um livro que seja parte de uma coleção maior ter mais respostas e uma história independente da trama geral (aí está o universo Harry Potter e seus sete livros que não me deixam mentir).

Durante a leitura, fui observando que o universo criado pelo autor possui muitas semelhanças com o universo fantasioso de Eragon, como as intrigas antigas do reino, a história de dragões desaparecidos que retornam à vida, diversas criaturas místicas e um mundo vasto e perigoso. Posteriormente, ao pesquisar, vi que o primeiro livro da saga Game Of Thrones foi lançado em 1996 e Eragon em 2002, portanto pode ser até que o autor Christopher Paolini (de Eragon) fosse um fã do universo criado por George R.R. Martin e tenha se inspirado diretamente em sua obra para criar os cenários de sua própria história.

Mas não achem que eu detestei o livro. Pelo contrário, achei até uma boa leitura, somente cansativa por conta do excesso de descrições como já mencionei, mas ainda assim é uma leitura que prende e desperta a atenção e provavelmente irei ler os demais volumes da saga, até para saber como o autor irá encerrar a batalha pelo trono de ferro. O recurso do autor de não haver um narrador fixo, mas vários olhares diferentes sobre os acontecimentos, contados capítulo a capítulo pelos olhos de cada personagem, nos possibilitando vários pontos de vistas sobre o que acontece em diferentes locações da história torna a leitura estimulante e compensa o ritmo lento pelo excesso de descrição dos cenários. Especialmente quando o capítulo narrado por determinado personagem começa a ficar mais envolvente e ficamos na expectativa do desenrolar da história, mas aí o capítulo se encerra, e a narrativa passa para outro personagem, que está seguindo uma linha do tempo distinta e destacando fatos que considera mais relevantes, sem porém qualquer ligação direta com o desenrolar no capítulo anterior, ficamos ansiosos para retomar o ponto anterior e com isso a leitura avança mais rápida.

Peço que me perdoem pela resenha majoritariamente negativa. Talvez ainda esteja levemente chateado por esperar muito mais da história. Possivelmente essa sensação possa melhorar ao ler as obras seguintes e o cenário geral ganhar mais corpo e profundidade. A primeira impressão pode não ter sido das melhores, mas certamente darei nova chance ao universo do autor e irei retornar aos Sete Reinos e, quem sabe, com a expectativa menor, possa vir a ser arrebatado como milhões de pessoas ao redor do mundo. Nota 2,5 de 5 considerando todos os fatores.