Uma de minhas leituras mais agradavelmente surpreendentes de 2022 foi este livro chamado “18 dias – Quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush”, que trata, obviamente, do período de transição entre o final do governo FHC e o início do primeiro governo Lula, e os naturais desafios da mudança de um governo de centro direita para um governo de centro-esquerda, mas mais do que isso, faz um apanhado histórico do posicionamento diplomático brasileiro nos últimos 50 anos.
O principal objetivo com essa aliança durante o período de transição governamental entre dois partidos historicamente adversários, como o próprio subtítulo deixa explícito, consistia no objetivo de convencer os EUA – à época o maior parceiro comercial brasileiro e maior superpotência global inconteste – em acreditar e apoiar o Brasil, deixando de lado o seu tradicional posicionamento aversivo a qualquer governo de orientação política de esquerda surgido na América Latina. Não era uma tarefa fácil, alias. A história americana está repleta de exemplos em que os EUA utilizaram de sua posição econômico-militar e sua peculiar visão de observar a América Latina como um quintal de seus interesses para sistematicamente saquear, desestabilizar, intimidar, sabotar e derrubar qualquer governo minimamente resistente aos interesses imperialistas estadunidenses.
Mas digo que o livro foi agradavelmente surpreendente por trazer muito mais que somente isso. O livro faz um resumo dos anos anteriores ao governo FHC e traz bastante elementos referentes às suas políticas e posicionamentos durante os 8 anos de duração de seu mandato, os sucessos e insucessos, especialmente destacando o viés diplomático e o desgaste natural do governo ao término do período, tanto com a população, a imprensa e demais países e parceiros. O texto do autor aborda também – ainda que de maneira mais breve e sem tanto aprofundamento – as relações diplomáticas brasileiras com outros países relevantes, como a China (que ainda não era a superpotência atual, mas já se encontrava em vias de vir a se tornar), a Argentina, que (apesar do que acham algumas pessoas) é um grande parceiro comercial do Brasil, e também com nações do Bloco Econômico Europeu.
Existem dois pontos principais interessantíssimos a ressaltar: o primeiro é que – como já mencionei anteriormente – o livro aborda muito a questão diplomática e para quem se interessar pelo assunto, essa obra é um prato cheio, abordando a diplomacia brasileira desde meados da década de 50, passando pelo final do período Vargas, a ditadura militar e chegando à redemocratização e os desafios para o futuro pensados naquele já longínquo ano de 2002. Trata de momentos importantes da diplomacia mundial, períodos de crise e desafios enormes, especialmente ao se considerar todo o intrincado e complexo pano de fundo da guerra fria acontecendo, apresentando técnicas e abordagens dos governos e diplomatas brasileiros nesse período. Trata-se de um relato impressionante e cheio de detalhes que cativa com uma escrita profissional e nem um pouco cansativa.
O segundo e mais importante ponto, especialmente ao olhar para o Brasil agora, 20 anos depois, é o quanto impressiona a colaboração existentes entre dois partidos fundamentalmente rivais. PT e PSDB haviam disputado até aquele momento 4 eleições presidenciais e eram vistos como posicionados em lados diametralmente opostos no espectro político brasileiro. Ainda assim, porém colaboraram mutuamente, com o governo tucano abrindo as portas para todos os líderes petistas e os apresentando todos os aspectos do governo, contribuindo ativamente para que o país continuasse progredindo, incluindo aí o período de preparação e aproximação com os EUA que constituem os 18 dias que serviram de base para o título do livro, no qual os ministros e o próprio FHC não somente convidaram como trabalharam próximos aos principais integrantes do futuro governo petista durante essa aproximação e abordagem junto aos americanos . Parece uma atitude inexplicavelmente desapegada ou pouco preocupada em expor a um grupo adversário os meandros do tortuoso rio que é a governança de um país grande e complexo como o Brasil, mas, na realidade é o mínimo que se espera em um momento de transição governamental. Nós, com os olhos de 2023 enxergamos com estranheza devido a radicalização da polarização atual, e vendo como foi o processo de transição governamental no final do ano passado (ainda que muito menos dramático e atravancado como se imaginava anteriormente às eleições), é de se admirar a civilidade e a seriedade com que os envolvidos abordaram esse processo em 2002. Aqueles personagens – todos eles – foram verdadeiros patriotas que pensaram no bem do país. Deixaram as diferenças partidárias e ideológicas de lado para se portarem como democratas que visam somente servir de forma correta e produtiva a seu país. Li em uma resenha sobre esse livro que este foi o melhor período da democracia brasileira, e tendo a concordar fortemente, ainda que fosse à época um adolescente com hormônios em ebulição. Foi um período muito especial da política brasileira, em que se olhava para o futuro do país de forma conjunta e todos os lados políticos almejavam somente o desenvolvimento do Brasil. Um exemplo a ser resgatado. Pena que o PSDB da época, tão necessário e relevante para o bom funcionamento da democracia brasileira foi corroído por vaidades e intrigas pessoais internas e hoje encontra-se moribundo, se apegando ao extremismo golpista para tentar sobreviver.
Uma frase em especial, presente no livro, merece ser destacada ao final dessa resenha, por resumir bem o sentimento que o livro – e o período vivido à época:
“Quando Fernando Henrique Cardoso passou a faixa presidencial a Lula, foi a primeira vez que um presidente eleito pelo povo empossou um sucessor de oposição, também escolhido nas urnas, e este, por sua vez, completou o mandato sem morrer, renunciar ou ser derrubado por um golpe”.
Triste é pensar que, passados 20 anos desse momento, este ainda continua sendo o exemplo único dessa civilidade democrática tão necessária para o crescimento e desenvolvimento da nação. Nota 4,5/5.
Ontem foi a cerimônia de posse de nosso novo(velho) presidente. Lula chega ao poder pela terceira vez e – tenho a certeza – continuará no poder enquanto quiser/puder. O homem perdeu 3 eleições na sequência, mas depois que ganhou a primeira, nunca mais perdeu. Porém, espero sinceramente que este seja o seu terceiro e último mandato como presidente da república. Já havia dito que ele não tem nada a ganhar e tudo a perder com esse retorno. Mas já que decidiu retornar, que possa redirecionar o país no caminho correto, reunificar a população em torno de um Brasil em comum e possa após os 4 anos de seu mandato seguir seu caminho para uma merecida aposentadoria.
Cerimônia de posse presidencial – Linda, plural e inclusiva. Um acerto gigantesco.
Antes de falar de seu mandato, entretanto, gostaria de falar um pouco a respeito da tarde/noite de ontem. Das sensações e percepções acerca da posse de um presidente de verdade após os últimos 6 anos de caos institucional. Sei que pessoas mais preparadas e capazes já publicaram colunas a respeito de ontem, fazendo análises aprofundadas da conjuntura atual e do que há por vir, e meu texto, não tem qualquer dessas pretensões, mas gostaria, humildemente, de compartilhar um pouco de minhas sensações ao acompanhar – somente pela TV, infelizmente – a cerimônia da posse.
A primeira percepção era a sensação de tensão explicita que envolvia a todos – quem acompanhava pela TV, os jornalistas que faziam a cobertura do evento e até mesmo dos participantes – devido ao receio de um eventual atentado terrorista, fruto da insanidade dos apoiados extremistas do ex-presidente. Havia uma dúvida no ar desde o início: irão tentar algo? A segurança foi bem planejada? Haverá algum traidor na equipe de segurança que vai facilitar algum atentado, a exemplo do que houve no Capitólio dos EUA?
A segunda percepção era a de que, apesar dessa tensão, havia uma felicidade incontida no timbre de voz de todos os jornalistas que cobriam o evento, de todas as emissoras. Ainda que não pudessem expressar abertamente a felicidade com o término do mandato anterior, e o início de novo mandato de Lula – na grande mídia brasileira, expressar simpatia por um governo de centro-esquerda é visto como insubordinação passível de demissão – era óbvio que todos apresentavam um maior ou menor grau de felicidade e alivio pelo país estar encerrando o ciclo nefasto e sombrio resultado do estilo e ações do último governo.
Mesmo assim, a cerimônia de posse foi linda – ainda que menos catártica que em 2003, quando as pessoas invadiram os espelhos d’agua, se jogaram em cima de Lula, em um clima de celebração nunca visto. Este ano isso não seria possível, devido ao forte esquema de segurança. Ainda assim foi tudo lindo, desde a ousadia em desfilar em carro aberto, apesar de todas as ameaças; o tempo firme mesmo com toda a previsão de chuvas; a alegria e emoção no rosto de todos – até mesmo do vice-presidente, conhecido por não ser muito afeito a emoções – além é claro da presença maciça do povo brasileiro, que afluiu em grande número ao planalto central, apesar das ameaças de violência dos extremistas que ainda insistem em não aceitar a derrota nas urnas.
O momento ápice, claro, foi a cerimônia de subida à rampa do planalto e entrega da faixa presidencial – pela terceira vez – a Lula. Após semanas de especulações e debates, a opção escolhida de um pequeno grupo representativo de toda a pluralidade da população brasileira passar a faixa ao presidente foi linda e emocionante. O ex-presidente, ao se rebelar e fugir do país para não repassar o poder ao seu principal rival, sem querer, presenteou o Brasil com a mais bela cerimônia de posse da história. E convenhamos, as imagens foram muito mais emocionantes e belas sem a cara feia e carrancuda do ex-presidente presente. Minha opinião particular era de que poderiam ter incluído a presidente Dilma nessa passagem de faixa, simbolicamente representando que, após o golpe que a tirou do poder, ela retornava para entregar a faixa ao povo e esse ao seu eleito para governar. Mas, mesmo sem essa parte, a cerimônia foi linda e simbólica, passando uma imagem claríssima de que, após anos de um governo excludente, beligerante e avesso às minorias, o novo governo irá acolher e governar para todos, até mesmo para os que insistem em recusar a derrota e ofender o presidente.
Os desafios à frente do novo governo Lula, após 6 anos de governos nocivos ao povo e entreguistas ao extremo, servindo somente ao poder econômico e não ao país são enormes – talvez até maiores que os que enfrentou em 2003 ao chegar ao poder pela primeira vez – mas se o dito popular de que a primeira imagem é a que fica, o novo governo acertou em cheio e nos permite ter esperanças de que há mesmo uma luz ao final deste túnel sombrio que estivemos atravessando. Não será fácil, é claro, mas com muito esforço, trabalho e união, é possível reconstruir e voltar a sentir orgulho desse nosso tão sofrido e maltratado país. Vamos à luta.
No último final de semana, enquanto as redes sociais se fervilhavam de postagens celebrando o Natal e as festas de final de ano, uma publicação me chamou a atenção. Estava eu rolando aquele “Explorar” do Instagram, gastando meu tempo olhando inúmeras postagens sugeridas para mim, sendo, porém 90% sem qualquer relevância, quando me deparo com uma publicação que destacava em letras garrafais que “Bolsonaro cumpriu somente 15% das promessas de campanha”, e alardeando como o governo dos últimos 4 anos foi um fracasso por não conseguir atender às expectativas criadas por seus eleitores.
Tal postagem me fez lembrar de um texto que havia pensado em escrever às vésperas das eleições para tentar reverter alguns votos de indecisos que se inclinavam para o inominável. Decidi aproveitar alguns trechos para fazer este último post de 2022 para celebrar o término destes 4 anos terríveis com este “governo” comandando a nação e ansiando para que seja a última vez que menciono este personagem nefasto que tivemos que aceitar como “presidente” nos últimos anos.
Eu entendo a tentação de querer afirmar que este “governo” foi um fracasso, especialmente entre pessoas que, como eu, repudiaram sistematicamente todas as atitudes e políticas adotadas desde 2018. Mas essa é uma afirmação muito mais emocional que racional. É o nosso desejo de expressar em palavras o quão ruim foi este período. Mas racionalmente falando, ao observar com distanciamento emocional os 4 anos de “governo” Bolsonaro, facilmente podemos afirmar que foi um governo de sucesso como poucas vezes visto na história do nosso país.
Assusta um pouco essa afirmação, não é mesmo? Porém o sucesso é determinado com base nos objetivos que se queria atingir ao iniciar um projeto, portanto, ao analisar os anos Bolsonaro, é claro perceber que foi um governo de fenomenal e avassalador sucesso para atingir os objetivos a que se propunha, como poucos conseguiram na história do país.
Não sejamos ingênuos. Nunca foi objetivo de Bolsonaro e seus apoiadores um projeto de pais que trouxesse crescimento e desenvolvimento à nação. Estava muito claro desde sempre que o objetivo era entregar o país aos desejos de quem financiava o seu projeto de poder. Nunca houve interesse em fomentar um projeto de governo para trazer ganho e crescimento à nação e aos seus cidadãos. Daí o desejo de comprar ferrenhamente brigas em searas ideológicas e subjetivas (como todas as temáticas ligadas à religião) e o pouco ou nenhum interesse em tratar com projetos viáveis de assuntos sérios e críticos à população, tais como saúde, educação, segurança pública, transportes e mobilidade urbana. Desde sempre Bolsonaro quis ser presidente somente para consolidar seu projeto de poder, tão limitado e obtuso que acreditava que um presidente teria poderes ilimitados, tal qual um ditador autocrata. O Estado Brasileiro e a máquina pública foram utilizados única e exclusivamente para tentar sujeitar todos à sua visão distorcida e odiosa do mundo, distorcendo narrativas e negando verdades palpáveis e históricas, a fim de perpetuar preconceitos e privilégios, gerar ainda mais divisão e justificar o uso indiscriminado da violência para eliminar quem se opunha a esta visão.
A escolha de um ‘outsider’ da política lá em 2018 condenou o brasil há anos de trevas, como os que vivemos e ainda serão os que virão pela frente, para tentarmos resgatar tudo aquilo que foi destruído ou se perdeu por negligência e incompetência. Por isso é impossível considerar esse “governo” como um fracasso. Ele se propôs ferrenhamente a entregar exatamente aquilo que se esperava dele: destruir, destruir, destruir. Não há um único indicador deste governo que seja positivo, não há um único aspecto relevante à qualidade de vida da população e da consolidação do bem-estar de um país que esteja melhor hoje do que estava em 2018: a educação piorou, a saúde está em frangalhos, a preservação do meio ambiente foi abandonada e passou a se estimular a devastação, a economia naufraga a olhos vistos, mesmo com o “posto Ipiranga” prometendo crescimento há 4 anos. Incentivos à melhoria do transporte público e mobilidade urbana? O assunto nunca foi sequer mencionado. Inflação a níveis de 30 anos atrás. Povo sem poder de compra algum. A população está visivelmente mais ansiosa, mais cansada, mais pessimista, mais triste.
Apesar de todo esse legado nefasto, o atual “governo” entra em sua última semana tendo estado a 2% de ter sido reeleito. Mesmo tendo sido o mais incapaz e incompetente de todas as pessoas a ter ocupado a cadeira da presidência da república, Bolsonaro conseguiu convencer cerca de 30% das pessoas do país de que ele é um semideus imaculado incapaz de fazer algo errado e que deve ser seguido religiosa e cegamente. Apesar de ter se vendido como o paladino da “antipolítica tradicional”, se sujeitou aos jogos de interesses políticos de uma forma nunca vista, chafurdando na lama do toma-lá-dá-cá político na forma do tal “orçamento secreto” – também conhecido como corrupção institucionalizada.
Foi um presidente que se vendeu como o defensor da vida aos fundamentalistas religiosos cristãos – não se enganem, fundamentalismo religioso não é exclusividade das religiões orientais. Porém ao se deparar com o maior desafio sanitário dos últimos 100 anos, ao invés de defender a vida, ele optou por banalizá-la. Diante da morte de quase 1 milhão de pessoas (sabemos que as mortes por covid foram em número muito maior que as 700 mil “oficiais”) durante a pandemia, ele optou por dar risada e debochar do sofrimento alheio. E mesmo assim, 45% dos brasileiros acharam que seria viável mantê-lo por mais 4 anos governando o país. Nunca tivemos um governo comprovadamente tão ruim em nosso país e mesmo assim uma parcela significativa da população conscientemente optou por lhe oferecer a possibilidade de se manter no poder, indiferentes à própria dor e sofrimento, acreditando estarem combatendo fantasmas inexistentes evocados pelo presidente para assombrar e assustar a parcela mais ingênua da população. Se isso não é indicativo de um sucesso assombroso, não sei o que mais pode ser.
Isso também demonstra que sucesso não é sinônimo de algo necessariamente bom. Pelo contrário, pode ser algo nefasto e causar inequívoco sofrimento. Mas isso pode ser assunto para outro momento. Por anos acreditei que o atual “governo” passaria à história como o maior fracasso da república brasileira, porém mudei de ideia: este governo é um sucesso. Atingiu (quase) todos os seus objetivos. Faltou somente um: o de se perpetuar no poder. Sorte do Brasil. Nenhum de seus objetivos visava o bem do país e este último era o golpe final para a derrocada da nação. Passou raspando, mas nos livramos desse futuro terrível.
Não se engane: apesar do título extremamente sensacionalista, este é um bom livro. Bem escrito, com bom referencial bibliográfico e o melhor de tudo: imparcial. Como trata de política, os autores tiveram uma preocupação muito grande e latente de serem o mais imparcial possível, cuidado especialmente importante neste momento nefasto da história brasileira que vivemos, cheio de “nós e eles” cheio de ódios.
“Você foi Enganado”: apesar do título sensacionalista, uma excelente leitura.
O pior do livro realmente é o título, muito sensacionalista para o meu gosto, mas entendo o apelo de chamar a atenção logo de cara, tanto do militante esquerdista quanto do extremista de direita, e todos as demais vertentes que habitam este espectro. Relevando-se o título, o livro aborda de forma ilustrativa e direta mais de 40 anos da história política brasileira, começando nos primeiros anos da década de 80 até o limiar das últimas eleições presidenciais em 2018, passando, portanto, pelo final da ditadura militar, o movimento pelas “Diretas Já”, a luta incessante contra a inflação na chamada “década perdida” até a redemocratização e as primeiras eleições presidenciais diretas após mais de 25 anos.
Segue passando pelo impeachment de Collor, o plano Real, os governos FHC, a chegada da esquerda ao poder até a sua derrocada em 2016 e o governo neoliberal que sucedeu. Por finalizar sua pesquisa neste momento, o livro não teve a oportunidade de falar sobre a guinada ao extremismo neofascista que vivemos atualmente que teria amplo material para uma obra que fala de mentiras contadas pelos governantes do país.
O livro me surpreendeu positivamente pela forma como tratou estas mentiras, sem escolha de favoritismos, independentemente da orientação do governo retratado, e olha que passaram por presidentes de diversas orientações e perfis, dedicando um capitulo a cada um deles, focando especialmente no tema que consideraram mais importante de tratar sobre aquele governo. Aqui talvez seja o momento de maior parcialidade dos autores, ao definir quais as “mentiras” iriam focar a respeito de cada presidente da república; mas ainda assim entendo que as escolhas foram feitas muito mais por uma necessidade de definir o objeto da pesquisa para delimitação do tema que algum interesse pessoal escondido por detrás. A meu ver, o trabalho foi bem feito.
Dessa forma, o livro traz capítulos sobre o general Figueiredo, sobre o presidente eleito indiretamente – e jamais empossado – Tancredo Neves, seu vice José Sarney, que foi quem assumiu de fato o poder e governou até 1990. Trazem um capítulo sobre Collor, e posteriormente sobre seu vice, Itamar Franco e a criação do plano Real. Tem outro capítulo dedicado aos governos FHC, Lula e Dilma, chegando até ao seu vice/traidor Michel Temer que assume o poder após o golpe que tirou a primeira mulher eleita presidente de nosso país. Reparem que em pouco mais de 30 anos tivemos 3 vice presidentes alçados ao poder no Brasil. Afinal de contas, não parece ser um cargo tão figurativo quanto vendem por aí… ao menos no Brasil.
Concluindo, o livro foi uma agradável surpresa me entregando mais do que esperava, e por este motivo eu recomendo a todos a leitura, sempre, porém com o viés critico de entender que, ainda que a temática do livro sejam as mentiras presidenciais, elas precisam ser contextualizadas para serem entendidas integralmente, não somente como um exercício de ódio à política. Nota 4/5.
Finalmente acabaram as eleições. O período entre o primeiro e o segundo turno foi sofrível como imaginávamos. O resultado foi apertado como todos esperávamos, ainda que não quiséssemos acreditar. A negação dos derrotados em aceitar a derrota, previsível. Quem acompanhava meus textos por aqui deve ter percebido um decréscimo no volume de postagens na véspera das eleições em final de outubro e meu total silencio após o resultado final. Pois é, não era este o planejamento, mas faltou disposição. Estava resgatando minha base aqui e percebi que havia planejado publicar 8 textos na reta final das eleições, dos quais 5 já estavam escritos. Mas na correria do dia-a-dia, no cansaço com o acirramento insuportável das emoções e com diversos problemas pessoas acontecendo, faltou fôlego para conseguir colocar no ar tudo o que estava pensando.
Hora de seguir em frente e recuperar o atraso provocado pelos ultimos 4 anos.
Não fez falta, no final das contas, pois tudo o que queria falar eventualmente já havia sido dito por pessoas mais preparadas ou mais dispostas que eu. Pós eleições e com o eventual caos decorrente das manifestações golpista dos derrotados, optei pelo silencio. Preferi saborear a vitória tão difícil e sofrível, e talvez por isso, infinitamente mais doce que todas as anteriores. Entendo perfeitamente meus amigos e colegas que disseram que perdemos mesmo vencendo. Por diversos momentos a sensação era essa mesma. EU mesmo cheguei a relatar isso ao término do primeiro turno. Mas acabei mudando de ideia. É muito importante poder celebrar essa vitória. Pois não é uma vitória da soberba nem da arrogância. É uma vitória da sobrevivência. Como bem disse Gregório Duvivier em um belíssimo vídeo que viralizou após o termino da eleição, foram 6 anos que precisamos continuar lutando e sobrevivendo diariamente quando absurdos inimagináveis aconteciam, a sensação de impotência e falta de esperança no futuro ameaçando tomar conta de tudo. Foram anos dificílimos: todas as nossas crenças na inteligência, na ciência, na humanidade, na tolerância, na fraternidade e na democracia foram colocadas à prova e tínhamos que seguir lutando e acreditando que um dia coisas poderiam melhorar.
Não vou negar: houveram momentos em que acreditei que estávamos condenados. Os absurdos promovidos pelo governo e seus seguidores eram tão surreais para alguém que, como eu, nasceu às vésperas da redemocratização e viveu tempos de prosperidade, fé no futuro e no potencial gigantesco de nosso país que foi difícil conseguir encarar tudo o que estava acontecendo e acreditar que poderíamos superar o desmanche do país a olhos vistos e ousar manter a esperança de que as coisas um dia voltariam a melhorar. Mas vencemos. Derrotamos uma máquina de mentiras voraz e atuante como nunca antes houve no país. Derrotamos a compra de votos institucionalizada pelo governo, o impedimento por parte das forças policiais do país de cumprir uma obrigação constitucional do cidadão e a conivência e indiferença de milhões de brasileiros que não se importam com o que está acontecendo no país agora e no futuro, desde que a sua realidade e seus privilégios se mantenham intocados.
Para mim foi particularmente libertador o término das eleições com vitória de Lula para não ter que lidar com esse último grupo. De um tempo pra cá eu passei a chamá-los de “Os Relativistas”. São aquelas pessoas que dizem não concordar com as coisas que o Bolsonaro fala ou faz, mas relativizaram e encontraram uma forma de justificar todas as atitudes e atrocidades por ele cometidas nos últimos 4 anos em nome de um ódio de classes velado que se materializa com o ódio à figura do presidente Lula. Essa galera é aquela turminha que se vende como “progressista”, ou “isentões”, ou ainda mais comum, “liberais”, que acreditam em uma ilusão de livre mercado como a solução de todos os problemas do mundo. É uma galera que adora postar uma ação de caridade pra se promover como solidário, mas quer a diminuição radical de auxílios governamentais aos mais vulneráveis. Esse pessoal se diz esclarecido e humanista, mas em diversos momentos foram mais bolsonaristas do que os próprios seguidores do presidente derrotado. Em várias oportunidades eu os considerei ainda mais nocivo que os “minions” apaixonados. Porque esse grupo é um caso para estudos psicológicos nos próximos anos, tamanha a contaminação e cegueira pela “Verdade do zap” que construíram toda uma realidade paralela e acreditam firmemente que estão vivendo nela, portanto falta senso crítico e toques de realidade para que possam enxergar o absurdo que estão defendendo.
Mas, os relativistas, estes não. Eles até possuem senso de realidade. Conseguem perceber o quanto o governo atual foi absurdo. Foi desumano. Mas ainda assim relativizam tudo o que aconteceu, porque para eles, “é impossível votar no Lula ou no PT”. O ódio por um determinado partido ou pessoa os impedem de olhar criticamente o cenário e fazer uma escolha democrática, ainda que pragmática. Aliás, sobre a democracia e a sociedade brasileira, fiquem ligados. Isso será tema de uma futura postagem. Mas retornando aos relativistas, no final das contas são pessoas centradas em si mesmas e olham somente para o que lhe diz respeito. Se milhões sofreram nos últimos 4 anos, se diversos grupos e minorias foram vítimas de perseguições, violência e morte por apoiadores do atual presidente e estimulados por ele, isso pouco lhes afeta, uma vez que não diz respeito às suas realidades. Essa dificuldade em se reconhecer privilegiado e entender que muitas vezes a escolha do governo impacta pouco em sua vida, mas pode afetar diretamente a vida de outros, tornou o diálogo e a convivência com os relativistas nos últimos meses muito difícil.
Hoje, infelizmente a história é muito mais compreensível. Por anos, mesmo estudando muito, não conseguia entender verdadeiramente como os movimentos fascistas da década de 30 obtiveram sucesso na Alemanha e Itália. Mas hoje a história faz muito mais sentido em minha cabeça. Não foi por conseguirem maioria nazifascista na população de seus países que Hitler e Mussolini chegaram ao poder e materializaram atrocidades inimagináveis. Mas foi pela indiferença de boa parte da sociedade, que optou por dar de ombros para as evidências autoritárias, violentas e inumanas de seus líderes e apoiadores, que chegamos ao cenário extremo de uma guerra mundial.
Sobre as manifestações ilegais e antidemocráticas que alguns apoiadores do presidente insistem em continuar fazendo mesmo um mês após as eleições, tenho pouco a falar. Exceto que essa galera está se manifestando por financiamento de empresários que faturaram alto com o entreguismo dos anos bolsonaristas, por conivência das policias, da sociedade e da mídia. Como foi comentado nas redes sociais, fossem professores protestando por melhores salários e condições de trabalho, teriam sido repelidos com truculência e violência, além de inúmeras reportagens negativas já no segundo dia. Reflexos de uma sociedade que ainda precisa avançar muito: pedir investimentos na educação é motivo para ser recebido com – perdão pelo comentário chulo e infame – “tiro, porrada e bomba”. Manifestações favoráveis à tortura, a violência, ao racismo e a homofobia, são recebidas com tapinhas nas costas e condescendência.
Foram difíceis as últimas semanas que antecederam as eleições, assim como estão sendo as que a sucederam e continuarão sendo até o país assimilar de fato que voltaremos a ter um presidente, um governo e um país em reconstrução. Eu precisava de um tempo para me recompor e reencontrar a energia e a disposição em escrever. Ainda tem muito a acontecer até a posse do presidente Lula, mas parece que já é possível vislumbrar e crer que ainda teremos um país em janeiro de 2023, tremendamente combalido e sucateado, precisando ser reconstruído, mas ainda assim um país. E isso já é motivo para muita celebração. Aqui no blog a expectativa é que possamos retomar assuntos mais interessantes, diversos e enriquecedores que tratar somente de política, ainda que possa retornar a esse tema quando julgar necessário. O desejo é o de retomar um ritmo de postagens semanais, talvez até por duas vezes na semana. Como disse aqui em casa para minha esposa, é mais fácil ter energia e assunto para outras coisas quando não precisamos lutar diariamente contra o neofascismo. E é com essa alegria de acreditar que podemos novamente ter fé e esperança no futuro é que retomo este espaço. Seja bem vindo, futuro!
Estamos a pouco mais de 24 horas do resultado das eleições presidenciais de 2022. Amanhã neste mesmo horário receberemos os primeiros números de apuração das urnas pelo Brasil e começaremos a celebrar ou lamentar. Tudo o que havia de ser dito já foi dito. Todos os pontos já foram colocados na mesa e discutidos exaustivamente. Nessa altura do campeonato, todos já estão com seu voto decidido para amanhã.
Minha passagem por aqui hoje é somente para fazer um último apelo. Peço a todos que apelem para a sua humanidade. Deixem de lado o que viram no WhatsApp. Deixem de lado os vídeos de “analistas” ou especialistas falando de previsões chocantes caso Lula seja eleito. Gente, sejam minimamente razoáveis. Se você está próximo dos 30 anos ou já passou dessa idade, você viveu conscientemente os anos de governo Lula no Brasil. Nunca viramos uma ditadura comunista, não passamos nem perto disso. Se você tinha 5 anos de idade em 2002 você se lembra de tudo o que aconteceu naqueles tempos, mesmo que fosse uma criança sem qualquer preocupação. O Brasil era um país feliz. Otimista. Esperançoso com o futuro. Racionalmente não há como você pensar que o Brasil dos últimos 4 anos está melhor que isso. Não tem como. Você pode ter escolhido acreditar nisso, mas no fundo de sua consciência você sabe que isso não é verdade.
Mas eu havia falado de humanidade. Gente, apelo para que sejam mais humanos. Os ataques a pessoas de Igrejas, toda a arruaça feita durante a festa da padroeira do Brasil. Todos os padres e pessoas que estão sofrendo ameaças de morte por simplesmente estarem pregando o evangelho de Jesus Cristo. Não é possível que não consigam perceber que as pessoas que estão se ofendendo e se exaltando durante homilias e sermões Brasil afora estão sentindo isso ao ouvirem literalmente a “palavra de Deus”. Isso é normal? Vocês realmente acham que é o PT ou Lula ou a esquerda quem estão provocando isso? Gente, Lula foi candidato à presidente por 6 vezes e em nenhuma das outras 5 vezes houve qualquer tipo de manifestações como essa, qualquer ataque a pessoas do clero ou quem quer que seja. Sério mesmo que vocês acreditam que o problema está no Lula ou na esquerda? Qual a única diferença nas eleições presidenciais que houveram antes de 2018 e de lá para cá? A violência, a truculência, a intimidação. Por qual motivo vocês acham que essas manifestações de violência estão acontecendo com maior frequência e agressividade neste momento?
Sejam humanos, gente. Deus nos dotou de um cérebro altamente capacitado para que pudéssemos pensar. Vamos utilizar esse presente! Sejamos críticos. Sejamos conscientes. E mais uma vez, sejamos humanos. Não é possível que tanta violência, tanta indiferença com a dor do outro, tanta falta de empatia e gentileza sejam normais. Passamos por uma pandemia que morreu quase meio milhões de pessoas por indiferença. Por descaso. Eu perdi um amigo queridíssimo que não pode sequer conhecer a minha filha. Que não poderá visitar a minha casa para um almoço de domingo. Por descaso. Por falta de humanidade de quem deveria zelar pela vida dos brasileiros. Não é possível que já se esqueceram disso. Não é possível que irão relevar isso. Não é isso que queremos para nosso país. Não é isso que queremos para nosso futuro. Se não querem pensar no mundo melhor agora, pensem no mundo que querem deixar para seus filhos e netos.
Apelo para a humanidade de cada um de vocês. Tenho uma filha de 2 anos, que está começando a descobrir o mundo, começando a experimentar de fato esta grande aventura que é a vida. Me ajudem a permitir a ela um mundo onde possa correr e brincar por ruas e praças sem medo de sofrer qualquer tipo de violência ou abuso. Permitam que ela possa ir para escola e brincar com os amiguinhos sem o receio de que algum deles possa ter pegado a arma do pai/tio/irmão e levado para mostrar aos coleguinhas na hora do recreio. Permitam que ela cresça consciente de sua força e capacidade e possa ter direito a todas as oportunidades de forma igualitária. Que ela possa nunca ser diminuída ou depreciada por ser mulher. Que ela possa ter condições de sonhar com um futuro em que haja abundância de água, alimento, saúde e educação.
Se você é pai ou mãe, sabe do que eu estou falando. Do quanto sonhamos e desejamos que nossos filhos possam ter uma vida feliz. Se você não é, certamente é tio, primo ou amigo de crianças e certamente quer o bem delas e quer que cresçam em um mundo com mais amor, com mais compaixão, com mais humanidade. E isso não será possível com nosso país vivendo como em um faroeste sem lei, com as pessoas raivosas e armadas por todo lado, buscando somente uma oportunidade para se mostrarem as mais fortes ou corajosas unicamente por terem uma arma na mão.
Pelo amor de Deus, o que está em jogo aqui é algo muito maior que somente o medo de um comunismo irreal que nunca existiu e nem existirá. O que está em jogo aqui é a oportunidade de tentarmos mais uma vez construir uma sociedade com maior humanidade, tolerância e paz. Não permitamos que um lunático violento com fetiche por armas desvirtue a nossa sociedade e nos torne um país cheio de ódio.
Você pode não gostar do Lula, é normal e legítimo. Mas infelizmente, ele é a única opção que restou para que possamos voltar a ter um mínimo de normalidade em nosso país. De ter um presidente que se responsabilize por seus atos. Que queira falar a todos os brasileiros, e não somente aos que o apoiam. Que queira construir pontes e dialogar e não somente agredir e subjugar aquele que é diferente, ou pensa diferente. Nós merecemos poder dialogar com todos. Mas é impossível fazer isso se alguns dos outros estiverem armados e prontos para tirar a nossa vida somente porque não concordam com as nossas escolhas.
Pensem em nossas crianças. Você se sentiria seguro se os professores de seus filhos estivessem armados na escola e lidando com os desafios de educar várias crianças inquietas? Você gostaria que o professor de natação do seu filho o xingasse e o chamasse de incapaz somente porque a criança não conseguiu fazer o exercício que ele pediu? Você se sentiria à vontade se o Uber que sua filha adolescente pegou para ir à festinha na casa da amiga olhasse com olhos lascivos para ela porque acha que pintou um clima somente porque a menina foi educada? Você acredita que o ambiente mais acolhedor para a família é uma igreja onde todos são raivosos e julgam cada pequeno detalhe da vida do outro, impondo regras e sofrimentos a quem não se enquadra no modelo que avaliam como certo?
Sejam humanos! A inteligência é o maior dom que recebemos de Deus e o que nos diferencia da maioria dos outros animais que andam por esta terra. Rogo esse apelo a todos que estiverem lendo este texto. Sejam humanos. Não se deixem contaminar pelo ódio ou pela estupidez. O mundo é complexo, é difícil, é injusto, mas somente com humanidade e harmonia teremos uma chance de prosperar. Sejam humanos. Escolham a humanidade amanhã. Deixei a irracionalidade de fora da sala de votação. Votem pela paz. Votem pela harmonia. Votem pelo respeito. Votem pelo amor. Quem ama não quer violência. E quem não quer violência não precisa de armas. Sejamos luz. Sejamos amor. Multipliquem o amor. O amor é dom de Deus. Não o ódio. Votem com amor!
Acho que já é hora de falarmos sobre esse assunto, né? O assunto do momento no Brasil que está na boca do povo há tempos. Antes de mais nada, um aviso: se você espera encontrar aqui um texto defendendo a corrupção dos governos do PT, vai se decepcionar. Tampouco vou condenar ou demonizar como muita gente faz. Também não vou relativizar o assunto, mas procurarei contextualiza-lo. Logo, se você chegou aqui esperando uma defesa ou uma acusação apaixonada com relação a este tema, lamento frustrá-lo. Este não será o objetivo aqui. Recomendo que abandone a leitura aqui mesmo, para não perder o seu tempo.
Percepção da Corrupção – Créditos na imagem
Mas se você, assim como eu, acha que este é um tema extremamente complexo e que qualquer análise feita com o fígado pouco acrescenta para a discussão e especialmente para o objetivo de construir um país melhor, talvez encontre neste texto ideias que ressoem com os seus anseios. O objetivo aqui será fazer uma análise crítica deste tema tão complexo e tão profundo, sem qualquer desejo de propor respostas, mas apenas de levantar questões que possam contribuir com o enriquecimento da discussão.
Feito todo esse preâmbulo, vamos começar. O primeiro ponto a se discutir é que os governos do PT, de 2003 a 2014(os dois anos do segundo mandato de Dilma sequer podem ser considerados aqui, tamanha a disposição de diversos setores da sociedade e da politica em sabotá-la antes de sequer avaliar o que ela tinha a propor) foram os primeiros governos da história do Brasil a terem de lidar com a internet e as redes sociais. Ainda que em 2003 a internet estivesse longe de estar presente em todo o país, como hoje, já tínhamos uma boa parcela da população utilizando a rede. E mais do que isso, eram os primeiros passos das redes sociais, em especial com o surgimento do Orkut e MSN. Posteriormente vieram facebook, twitter, Instagram e todas as outras redes que surgem e desaparecem diariamente no mundo de hoje.
Mas o que isso tem a ver com a corrupção nos governos do PT? Tudo! Foi nessa época em que surgiram os grandes portais de notícias que repercutiam as denúncias de corrupção em tempo real, sem haver a necessidade de fechamento de uma edição diária, semanal ou mensal de jornal ou revista para publicação. Foi o início da era da informação imediata e da repercussão massiva nas redes sociais. Pense comigo: antes das redes sociais e da internet, as denúncias de corrupção chegavam ao grande publico somente via telejornais, especialmente o Jornal Nacional. A pessoa via as notícias do dia, se revoltava com as denúncias de corrupção, talvez repercutisse ali com as pessoas que habitavam a mesma casa, mas depois ia jantar, ver novela, acompanhar um filme na TV ou uma partida de futebol e depois ia pra cama. No outro dia, esse assunto, ainda que surgisse ao longo do dia, não estava no topo da lista dos pensamentos da pessoa. Com a internet e as redes sociais isso mudou. O volume de informações a que temos acesso, o tamanho, o alcance e a duração da repercussão tornou-se muito maior, o que nos leva à percepção de que o volume de denúncias é muito maior atualmente.
Ou seja: os governos do PT foram os primeiros que tiveram de lidar diária e exaustivamente com o escrutínio massivo de cada noticia na internet. E aí entra um segundo fator muito importante: foi a primeira vez que um partido de orientação política de esquerda governou nosso país. Os verdadeiros donos do poder ficaram muito sentidos com isso, ainda que tivessem sinalizado positivamente em um primeiro momento. Foi como se dissessem: “tudo bem, vamos deixar vocês governarem, mas estaremos de olho para massacrá-los ao menor deslize que cometerem”. A disposição para o superdimensionamento de cada denúncia feito durante os governos petistas já era muito maior que em qualquer outro governo anterior. Mesmo sem a massificação da internet, o PT já iria sofrer bastante com a mídia negativa em seu governo, pelo simples fato de serem um governo surgido das esferas mais humildes da população. Aqui entra outro componente bacana dessa equação: o ódio de classes. O PT não somente conseguiu alcançar o poder vindo da classe trabalhadora, como construiu uma máquina gigantesca que ousou se manter no poder, mandato após mandato. Então a hiperexposição de cada denuncia de corrupção, a manipulação da narrativa para que fossem apresentadas como as maiores já vistas no país, tudo isso contribuiu para essa visão disseminada entre muitos hoje que “nunca havia se roubado tanto” quanto durante o período do PT no poder.
Será mesmo? Vamos jogar uma luz sobre os principais escândalos de corrupção durante a Era PT no poder. O primeiro deles e que rendeu condenações a inúmeros personagens do alto escalão do governo petista foi o escândalo do mensalão. Minha nossa, que horrível! O governo tinha um orçamento mensal para distribuir entre parlamentares que votassem favoravelmente às medidas propostas pelo Executivo. Quais eram as principais medidas apresentadas à época? Sendo google free e puxando somente pela memória: Programa Fome Zero, Bolsa Família, Criação de Novas Universidades Federais e Ampliação do orçamento para reforma, infraestrutura e novas cursos e vagas para as já existentes, Programa de Aceleração do Crescimento, visando obras de infraestrutura em todo o país, PROUNI e Minha Casa Minha Vida.
Tudo bem, vamos deixar de lado as pautas e voltar para analise somente do fato: governo pagando “mesada” para parlamentares a fim de garantir maioria no congresso. À época foi alardeado como o “o maior esquema de corrupção da história”. Aí eu questiono: em que este esquema difere do esquema adotado pelo governo FHC na década de 90 por muito tempo para aprovação de projetos do governo e que veio à tona com denúncias quando houve a votação da emenda constitucional que permitiria a reeleição presidencial? Se buscar reportagens da época, todas tratavam da denúncia com muito mais permissividade, alegando que se tratava de algo questionável, mas compreensível. Hoje, 25 anos depois, a grande maioria da população sequer se recorda do fato que, em essência, trata-se exatamente do mesmo caso do Mensalão, que até hoje rende ao PT a alcunha de “partido de ladrões”.
Vamos falar agora do segundo escândalo de corrupção nos governos do PT que veio para substituir o anterior como “o maior esquema de corrupção da galáxia”: as investigações da Lava Jato sobre as negociatas entre empreiteiras e a Petrobrás. Na última década, este caso tornou-se o assunto mais falado em todos os telejornais e portais de internet do país – quem não se lembra da abertura diária do Jornal Nacional falando por 20 minutos sobre as delações do processo com aquele tubo enorme escorrendo nota de 100 reais às costas do Bonner?
Uma vez mais a história vem em nosso auxílio para lançar um olhar um pouco mais crítico a tudo o que aconteceu. Todas as empreiteiras citadas neste processo são empresas gigantescas e que prestaram e continuam prestando serviços de infraestrutura ao governo federal desde a década de 60, quando surgiram e enriqueceram. Alguém realmente acredita que as negociatas de superfaturamento, notas frias e favorecimentos em contratos públicos só ocorreram nos anos de governos do PT e todos os contratos realizados nos 40 anos anteriores possuem lisura e foram rigorosamente cumpridos sem qualquer desvio?
Como podemos avaliar as inúmeras obras faraônicas realizadas durante a Ditadura Militar que nos presenteou com uma lista enorme de elefantes brancos com pouco ou nenhuma utilidade pratica? Foram produzidas somente por conta do ufanismo militarista de mostrar um “Brasil Potência” ou foram enormes esquemas de corrupção e enriquecimento ilícito envolvendo o governo e empreiteiras intimamente ligadas à cúpula militar da época?
A respeito das denúncias da Operação Lava-Jato fia ainda uma outra questão: se o PT destruiu a Petrobras com os esquemas de corrupção, como que a empresa tem tido lucro liquido ano após ano? Pois é.
Olhando para a atualidade, como explicar o orçamento secreto? Por que não há diariamente nos jornais enormes reportagens a respeito desse repasse de verbas do Estado para parlamentares obscuros e para pagamento de notas de serviço altamente suspeitas em todo o país? E o já esquecido caso dos milhões de dinheiro publico repassado a prefeituras para pagamento de shows de cantores sertanejo por 3 ou 4 vezes o valor normal de um cachê cobrado por eles? O que tá acontecendo? Isso não é indício de corrupção aos olhos dos zelosos defensores da moral e críticos ferrenhos da era do PT no governo?
Para concluir – até porque o texto já ficou longo além da conta – façamos duas reflexões. A primeira é: se o PT é o partido mais corrupto da história do Brasil e foram eles que criaram a corrupção em nosso país, porque o partido sequer tem o maior número de políticos condenados por corrupção? Essa primazia cabe quase integralmente aos partidos do chamado “centrão” que hoje estão aí cheios de carícias, intimidade e alinhamento com o atual “presidente da república”, o príncipe anticorrupção, paladino da moral e lisura. O partido com o maior número de condenados – e com uma certa margem perante os demais – é o PP, coincidentemente o mesmo partido que abrigou o então parlamentar Bolsonaro por mais de 20 anos (e por toda carreira do coronelíssimo prefeito de Uberlândia). Outros destaques nessa lista impressionante são o PL – cujo presidente do partido, Valdemar da Costa Neto foi condenado e preço por corrupção, cumprindo prisão domiciliar por muitos anos e hoje abrigando, vejam só, o atual presidente da república – e o PTB, cujo presidente Roberto Jefferson não pôde se candidatar à presidência por estar impedido pela lei da ficha limpa(condenado por casos de corrupção) e que nos premiou com o falso padre surgido do submundo para tumultuar os debates presidenciais e servir de escada para o atual ocupante do planalto. Não é no mínimo curioso que partidos tão manchados por casos de corrupções em suas fileiras estarem todos alinhados ao governo que alega ter “acabado com a corrupção”?
Em segundo lugar, a reflexão final: corrupção é uma denúncia relativamente fácil de se fazer, porém muito complexa de se comprovar. Afinal de contas, entre tantas contas públicas, notas de serviço, licitações e concessões, como rastrear de onde vem o dinheiro e para onde vai para que se possam estabelecer provas confiáveis que houve desvio de dinheiro público para enriquecimento ilícito dos favorecidos, configurando-se assim o crime de corrupção de fato? Isso somente é possível se houver um investimento maciço em órgãos de fiscalização publica, como Ministério Público, Policia Federal e em toda a esfera judiciária. Com autonomia e infraestrutura para realização de um bom trabalho investigativo, as denúncias de corrupção surgirão aos montes – até porque, como já havia dito aqui – esse é um traço cultural inerente à sociedade brasileira.
O contrário também é verdadeiro, quanto menos autonomia e investimento houverem para investigações, menos denúncias e condenações por corrupção haverão. De novo, ao se olhar para os governos anteriores no Brasil, em qual momento da história foram criadas mais medidas para controle das contas públicas (como o Portal da Transparência, abandonado no governo Bolsonaro) e para liberdade investigativa do ministério publico e polícia federal no combater a corrupção? De 2003 a 2014, e quem estava no poder durante esse período? O PT.
Entendam de uma vez por todas: não acredito que não houve corrupção nos governos do PT; pelo contrário, sei que houve. Na realidade este é o meu maior ponto de crítica ao PT: para ser governo, deixaram de lado muito da identificação histórica do partido e se aproximaram com enorme semelhança às praticas adotadas historicamente em todos os governos anteriores, provando que, para conseguir governar no país, não importa se o partido é de esquerda ou direita, ele vai precisar aprender a jogar esse jogo obsceno de troca de favores com o congresso, do contrario passará ao rodapé da história como um governo fraco que não conseguiu levar adiante nenhuma politica autoral durante seu mandato.
Em outras palavras, o aspecto mais criticado nos governos do PT e aquele pelo qual é condenado veementemente como o mais imoral dos governos é o aspecto no qual ele mais se assemelhou aos governos de direita que vieram antes e depois da década em que o partido dos trabalhadores esteve no poder. A grande diferença é que a hiperexposição de cada denuncia de corrupção por conta das redes sociais e internet existentes hoje e claro, a disposição da grande mídia – ressentida até hoje por um partido de origem popular ter chegado ao poder e ousado se manter lá – em querer massacrar a historia e o maior personagem do partido para que nunca mais ousassem ser governo no país. O projeto e o desejo não é só o de pregar de forma irremediável o rotulo de “bandido corrupto” em Lula e o PT. É o de massacrar as lideranças de esquerda para que nunca mais ousem ser governo no país. O projeto em voga no país não é o de condenar e combater a corrupção, é o de construir uma narrativa na qual estes crimes só aconteceram e acontecem nos governos de esquerda, para que isso fique impregnado no imaginário popular e nunca mais consigam chegar ao poder.
O combate à corrupção talvez seja a mais inglória e difícil das batalhas a se promover no Brasil, pois como disse anteriormente, ela mexe com traços culturais nacionais e, por se tratar de uma pauta altamente moral, é facilmente distorcida com uma narrativa pseudo-religiosa e repleta de uma moralidade tacanha que não se atreve nunca a olhar de forma crítica a assuntos complexos, mantendo uma análise rasa e superficial do tema, pois assim é mais fácil de engajar e manipular o máximo de pessoas para aceitarem a narrativa estabelecida pelos verdadeiros donos do poder no Brasil. É difícil, complexo e exaustivo tentar ser critico nesta temática, mas somente insistindo no assunto é que poderemos um dia ver alguma mudança, ainda que marginal, nessa realidade.
Na última segunda feira, fiz uma postagem a respeito do resultado das eleições gerais do Brasil em 2022. No texto, repleto de tristeza e desânimo, comentei que mais do que o resultado das eleições, perdemos enquanto sociedade que desperdiçou mais uma chance de ser um pouco melhor, de avançar um pouco mais.
Não vou negar, fiquei muito decepcionado com o resultado; foi muito triste atestar que uma grande parte da população, mesmo tendo sofrido perdas pessoais e materiais enormes nos últimos 4 anos, continua apoiando este terrível projeto de poder neofascista excludente e preconceituoso representado pelo atual ocupante da cadeira de presidente da república. Minha frustração maior foi constatar que, para além dessa figura repugnante, boa parte de seus apoiadores que se lançaram em candidaturas próprias obtiveram bons resultados. Certamente acreditei que após tanta tristeza, esse movimento perderia forças.
Assumo a minha ingenuidade. Apesar de sempre fazer uma análise crítica do perfil sociocultural do brasileiro, ainda relutava em aceitar que o brasileiro poderia ser assim tão conservador, preconceituoso e misógino como se apresentavam estes candidatos. Mas a realidade é que somos verdadeiramente assim mesmo, o Brasil é um país com os dois pés fincados na tradição e ainda que tenhamos bolhas de progressismo e liberdade em alguns locais (quase sempre nos maiores centros urbanos); na maior parte do país, especialmente no interior, o tradicionalismo é quase lei, estimulado pela herança religiosa sistematicamente. Seja na tradição católica que ainda possui muito espaço, especialmente nas pequenas cidades e no campo, ou com o crescimento do número de evangélicos no país, com destaque para as representações neopentecostais pouco sérias que possuem explícita e quase que exclusivamente um projeto de tomada de poder no país, antes mesmo de um objetivo de propagação da fé cristã.
É esse retrato de Brasil que emergiu das urnas no último domingo. Talvez por estar esperando um resultado alinhado à minha visão de mundo e dos fatos nos últimos anos, eu tenha ficado um pouco assustado com o que apareceu. Mas a realidade que vejo agora, passadas 48 horas e com a cabeça mais fria, é que este resultado era esperado. O congresso nacional foi e continuará sendo a partir da próxima legislatura o mesmo espaço de sempre: branco, elitista, latifundiário e conservador. Com raríssimas exceções pretas, pobres e progressistas que demonstram a pluralidade do povo brasileiro, que ainda permite a eleição de pessoas fora dos centros de poder contra todas as expectativas.
Tenho uma teoria de que o baque que sentimos é porque hoje temos muito mais acesso à informação e podemos acompanhar em tempo real o desempenho do congresso, coisa que não era possível há alguns anos. Com a massificação da internet e das redes sociais, temos na palma da mão amostras diárias dos posicionamentos de todos os congressistas, bem como todas as articulações que são feitas ali. É como um grande reality show bizarro que acompanhamos e podemos a cada 4 anos escolher os participantes da brincadeira. Dessa forma pudemos perceber o quão baixo é o nível intelectual e moral dos ocupantes da “casa do povo” e tendemos a acreditar que a cada legislatura o congresso eleito é o pior da história. Acredito que a diferença é que anteriormente não tínhamos esse acesso à informação para perceber que historicamente, sempre foi assim e o nível do congresso sempre foi deplorável.
Fiz todo esse permeio para concluir que o meu estado de desânimo pós domingo de esvaneceu. O resultado era esperado e foi apenas reflexo de todas as nossas mazelas enquanto sociedade. Temos muito para avançar e muito pelo qual continuar lutando para que o futuro possa ser um pouquinho melhor. E mais do que isso: acompanhando um pouco da reação da seita bolsonarista ao resultado das eleições, todos ficaram chocados e verdadeiramente sentidos com a vitória do Lula na eleição presidencial, resvalando na possibilidade de fechar já no primeiro turno, apesar de todas as pesquisas indicarem esta possibilidade como real.
O descolamento da realidade vivido por esse pessoal é tão grande que uma parte gigante deles acreditava verdadeiramente que o excremento da república iria vencer a eleição no primeiro turno e sentiram muito o golpe. São tão fascistas e adoradores da figura do lider infalível que não conseguem olhar para a realidade como um todo, e se interessam somente pelo resultado que afeta o seu lider. E justamente esse resultado foi o mais negativo que tiveram. Os 5 pontos percentuais que o capiroto ficou atrás de Lula, representando cerca de 6 milhões de votos os deixaram chocados e transtornados, pois finalmente perceberam que a possibilidade de perderem a eleição é muito real. E isso já se traduziu em um crescimento massivo no disparo de notícias falsas e insultos a Lula.
Por isso, a nós progressistas que estamos do lado certo da história (a quem ainda duvida disso, o tempo irá confirmar) cabe redobrar os esforços e colocar ainda mais energia na eleição de Lula presidente, para deixar os bolsominions transtornados e sem chão. O congresso é retrogrado? Azar. Lula já enfrentou algo assim no passado e se saiu muito bem. O congresso vai dificultar a vida e os projetos de governo de Lula? Pode ser, mas ao mesmo tempo, Lula, como chefe do executivo, poderá vetar todos os absurdos que o congresso insistir em seguir adiante. Os próximos anos poderão ser um grande cabo-de-guerra do poder? É possível, por isso é ainda mais importante garantir que teremos um lado com muita força para travar essa batalha contra o obscurantismo e conservadorismo do outro lado.
O congresso está eleito, os cargos estão todos definidos e para nós, o foco agora é total na eleição de Lula Presidente. É hora de lutar contra cada peça de desinformação que for lançada. É hora que conversar com os mais humildes para ajudá-los a entender a importância de votar em quem olha para os mais pobres. É hora que conversar as pessoas religiosas que estão verdadeiramente com medo de uma “ameaça comunista” que está chegando desde 1945 e nunca se materializa de fato. Concluindo, é hora de lutar contra a mentira usando a verdade.
É hora de ser aberto, inclusivo, construir pontes com os mais humildes, incluí-los no centro da discussão, quebrar resistências, desmentir absurdos. É hora de força total. Sentimos o baque no primeiro turno. Vamos sacudir a poeira, respirar fundo e continuar a lutar pois a nossa vitória será muito maior e muito mais gratificante. O bolsonarismo é fruto do ódio e da violência, por isso sentiram e sentirão ainda mais o golpe após a derrota final, pois ela virá do amor e da alegria, da esperança em um futuro melhor, apesar de tudo. Como bem disse Zeca Baleiro em sua canção “nossa vingança vai ser de doer, porque seremos felizes como eles não podem ser”, pois quem ressoa no ódio e na carnificina não consegue experimentar verdadeiramente a alegria.
Seguimos na luta, são mais 25 dias de batalha pelo nosso futuro, para que possamos dar um passo mais próximo do destino que queremos seguir, do país que queremos construir e do futuro que queremos preparar para as próximas gerações. Para que possamos sonhar que podemos ser grandes, que podemos ser felizes e que podemos ser verdadeiramente um país inclusivo e justo para todos. Para que possamos verdadeiramente ser a imagem de acolhedores, alegres e sociáveis que tanto tentamos divulgar para o mundo. Podemos ser melhores, podemos ser mais felizes, basta querermos.
Batemos na trave, gente! Mesmo após 10 anos de insultos e perseguição diária da mídia e do gabinete do ódio, contra a máquina estatal usada para fins eleitoreiros, Lula conseguiu a maior votação que um candidato já conseguiu para presidente da república na história do Brasil. Faltou 1,5% para ser eleito no primeiro turno. Sendo massacrado diariamente por todos os lados, ainda assim quase deu pra fechar no domingo. É seguir na pegada. É hora de ter esperança. É hora de acreditar que podemos ser felizes. Que temos direito a um país onde tenhamos paz, respeito, liberdade e inclusão. Podemos e merecemos acreditar que o Brasil pode ser melhor do que somente ódio, ofensas e armas. Merecemos sorrir, brincar e se alegrar! Falta pouco! É só querer, converse com todos, vamos construir uma grande onda de alegria e esperança, é isso que o Brasil precisa após tantos anos de trevas e luto! O amanhã há de ser melhor! Seguimos lutando!!
Sei que várias pessoas poderão me censurar ou me condenar por estar sendo muito pessimista em um momento já crítico ou estar desistindo antes da hora, mas a única palavra que me vem à mente ao tentar traduzir a sensação de vazio na boca do estomago ao acordar hoje, na primeira manhã pós resultado das eleições de ontem, é essa: perdemos!
Triste país – imagem autor desconhecido (para créditos, entrar em contato)
E o uso do pronome “nós” aqui é utilizado não somente para se referir a nós, militantes progressistas situados mais à esquerda no espectro político. O nós aqui é utilizado para se referir a todos NÓS, cidadãos brasileiros que, após passar anos nos deslocando a pé por um campo minado, debaixo de chuva contra inimigos muito mais bem equipados e sem qualquer clemência, chegamos à beira de um precipício e ao invés de usarmos a ponte que nos ofereceram para chegarmos em segurança ao outro lado, optamos por tentar pular o precipício acreditando que de alguma forma conseguiremos alcançar o outro lado do desfiladeiro.
Está além da minha capacidade lógica e racional entender o que acontece com o Brasil e o brasileiro nos últimos anos. O resultado das eleições de ontem mostram um povo perdido que procura a salvação nas mãos de seus carrascos, como animais que seguem com docilidade o caminho indicado por seus algozes ao matadouro. E aqui não me refiro exclusivamente à expressiva votação da pústula necrosada que temos o desprazer de chamar de “presidente”, mas sim ao cenário geral no qual praticamente todos os representantes desse mal pulsante chamado “bolsonarismo” tiveram expressiva votação para os mais diversos cargos.
É desesperadamente assustador pensar que um resultado desses pôde acontecer após estes 4 anos que vivemos. Este governo foi, com sobras, o mais desconectado dos anseios e necessidades da grande massa populacional do nosso país e o mais focado em governar visando única e exclusivamente os objetivos próprios. Foi um governo inteiramente voltado para atender aos caprichos do presidente e entregar o país aos desejos dos financiadores de sua campanha, utilizando a máquina estatal para dobrar o Brasil à suas vontades, não importando o quão inconstitucional eram suas atitudes.
E mesmo assim, conseguiu obter uma votação ainda mais expressiva que em 2018. Não importaram as mortes por descaso na pandemia. Não importaram as mortes na miséria causadas pela fome. Não importaram as mortes causadas pela escalada da violência com o armamento massivo de pessoas incapazes de operarem funcionalmente um garfo e faca à mesa. Não importaram as mortes causadas pelo avanço do desmatamento em nossas florestas. Não importaram quaisquer mortes causadas por esse governo, direta ou indiretamente. Pior, todos os cúmplices do “presidente” nessa carnificina – sejam por ação direta ou por conivência – que se lançaram candidatos a algum cargo nestas eleições foram eleitos com margem considerável, validando e relativizando os absurdos diários que vivenciamos nestes últimos anos.
Duas frases que vi ontem nas redes sociais resumem muito bem o desamparo e o desespero que estamos experimentando hoje: “o pior congresso da história será substituído pelo pior congresso da história”, provando que o fundo do poço pode não ter fim quando se há disposição de muitos para continuar cavando; e “agora é mais desanimador que em 2018, uma vez que as pessoas puderam experimentar o horror e metade delas quer continuar nele”, mostrando o inexplicável desejo do brasileiro em proporcionar meios para o próprio sofrimento.
Então, me desculpem as pessoas que querem se manter otimistas: admiro vocês, a resiliência e a capacidade em se manterem positivos e animados diante deste cenário aterrador. Até concordo com vocês, ainda há muito o que fazer e devemos continuar lutando para eleger Lula presidente. Acredito até que devemos fazer isso com ainda mais afinco, pois no final de contas esta é a única tábua de salvação que nos restou, a única boia que poderá nos manter à superfície em um mar revolto e repleto de tubarões. Mas a realidade crua e nua é que serão anos ainda mais difíceis pela frente, pois mesmo que Lula vença (e estarei 100% focado em lutar por este objetivo) a realidade é que será muito difícil para ele conseguir governar da forma positiva e progressista que gostaríamos, pois terá que lutar contra um congresso assustadoramente conservador e uma população que valida os seus absurdos. É uma tênue luz que pode nos guiar em um corredor longo e angustiante que nunca foi tão sombrio.
Lamento muito soar tão desanimado, mas depois de ontem, infelizmente a sensação é que mesmo que possamos vencer a última eleição que resta, na verdade já perdemos. Perdemos enquanto nação, enquanto sociedade que optou por validar a violência, a misoginia, o racismo, a vulgaridade, o desprezo pela vida humana, a falta de educação e o desprezo pela ciência e a defesa do meio ambiente. Por mais triste que seja assumir isso, a verdade é que, independentemente do resultado em 30 de outubro, nós já perdemos. Sairemos deste processo ainda pior que entramos.