Resenhando(#18)

“Misery – Louca Obsessão”: o que dizer desse livro que mal conheci, mas já considero pacas?

A piadinha infame para começar esse texto relembra os tempos de Orkut, quando escrevíamos depoimentos “profundos” para pessoas recém-conhecidas, foi somente uma tentativa de quebrar o gelo neste primeiro texto de 2023, que começa com a resenha desse livro “leve” do mestre do terror Stephen King. Começo dizendo que sou fã do autor, não um fã fervoroso que lê tudo o que ele publica – até mesmo porque para isso eu teria que ficar 24 horas por dia, 7 dias por semana por conta de ler tudo o que ele escreve, tamanha a produtividade do homem – mas quase sempre os seus livros que chegam à minha mão entregam uma boa dose de entretenimento e diversão literária.

Alguns conseguem me entregar um pouco mais e percebo que todos eles possuem uma coisa em comum: são as histórias do autor que não entregam uma trama sobrenatural, como é comum na biografia dele. As obras de Stephen King que mais me marcam sempre são as que ele escreve a respeito de personagens tipicamente humanos, com suas virtudes e defeitos, e de uma forma particularmente rica e profunda ao tratar de temáticas relacionadas a traumas e problemas relacionadas à mente humana. King consegue quase sempre entregar com maestria personagens com fobias, distúrbios mentais, obsessões doentias e distorções fantasiosas.

Misery – Louca Obsessão – Imagem: Editora Suma

E é exatamente o caso nesta obra maravilhosa que é um dos clássicos da carreira do autor. Não somente por seu sucesso literário, mas também pelo sucesso de sua adaptação cinematográfica – que inclusive rendeu um Oscar de melhor atris a Kathy Bates por seu papel como a protagonista Anne Wilkes.  Por se tratar de uma obra de mais de 30 anos, não terei pudores em citar fatos da trama, com medo de estragar a experiência de leitura para quem nunca leu. Portanto, fica somente o alerta: se você ainda pensa em ler esse livro, e não quer saber nada, absolutamente nada sobre a história, salte os próximos parágrafos. Pode retornar no penúltimo ou último parágrafo deste texto que acredito que aí já não haverá perigo.

O livro conta a história de Paul Sheldon, um escritor de sucesso, conhecido por suas histórias a respeito de Misery, uma personagem que desperta paixões em diversos leitores. Cansado de escrever histórias sobre Misery, Paul decidi escrever nova obra que, após o término ele considera o melhor que escreveu até o momento. Feliz pelo resultado, sai para comemorar dirigindo embriagado e sobre um acidente em uma estrada das montanhas rochosas durante uma tempestade de neve. Para sua sorte – ou não – ele é resgatado por Anne Wilkes, uma ex enfermeira que se autointitula fã número 1 de Paul, e absolutamente apaixonada pelos livros de Misery.

O problema começa quando Annie, ao invés de levar Paul para atendimento hospitalar, o leva para casa e passa a cuidar dele por conta própria, onde descobre que Paul matou a sua personagem favorita ao ler o último livro de Misery que havia sido lançado. Ao longo da convivência Paul descobre que Annie é profundamente desequilibrada e psicótica, com uma profunda obsessão por ele (daí o título) e com uma visão peculiar e distorcida do mundo, que a leva a torturar – física e psicologicamente – o debilitado autor, que está preso a uma cama devido às inúmeras lesões nas pernas e no quadril decorrentes de seu acidente automobilístico.

Durante a sua prisão torturante no manicômio Wilkes, Paul descobre que Annie possui distúrbios ainda mais profundos que os demonstrados inicialmente, e que possui um passado sinistro e assustador, do qual ela guarda recortes alegremente, como um álbum de lembranças macabras. A história é tão brilhantemente escrita que em diversos momentos, apesar da clara psicose de Annie, ela parece um personagem cativante e acolhedor, em que até mesmo a sua vítima – Paul – sente momentos de simpatia e carinho por aquela pessoa tão diferente.

O livro inteiro é chocante, assustador e cativante na medida certa. Há passagens que nos trazem um profundo desespero enquanto leitores, em outros nos leva a ficar na ponta dos dedos esperando o que irá acontecer, e a todo o momento nos chocamos mais e mais com a capacidade de Annie Wilkes em ser mais e mais assustadora. É uma história que te causa uma reflexão profunda acerca das capacidades humanas para a maldade e a dissimulação, e como isso pode ser fruto tanto de experiencias traumáticas quanto de distúrbios psicológicos graves, e o quanto é importante nos preocuparmos em tratar as doenças da mente tanto quanto as do corpo.

O livro é o oposto do que se espera de uma leitura de início do ano – leve, otimista e esperançosa – mas, não sem surpreender, atender perfeitamente ao objetivo de fisgar o interesse pela leitura e estimular o hábito para que ao longo do ano ele seja cultivado da melhor maneira possível: lendo mais. É uma obra irresistível. Aos que já conhecem, vale a releitura. Aos que ainda não conhecem, procurem. É Stephen King no ápice de suas capacidades literárias: nos deixa sistematicamente na ponta dos dedos esperando por mais e narra todos os fatos com uma maestria que parece que estamos dentro da história, ali ao lado da cama de Paul Sheldon, vendo o desenrolar de toda a loucura de Annie. Vai para meu top 3 de histórias favoritas do autor. Primeiro livro de 2022: recomendadíssimo. Nota 4,5/5.