Sejam todos muito bem vindos ao meu blog pessoal. Aqui é um espaço livre para falarmos de tudo aquilo que me interessar ou não, mas considerar pertinente compartilhar com vocês. A ideia de um blog não é nova. Para as (poucas) pessoas que chegarem a este texto e talvez me conhecessem há 10 anos atrás, eu tinha um espaço similar que perdurou de 2009 a 2014, onde eu falava dos meus assuntos de maior interesse. Foi um período bastante prolifico, talvez por falta do que fazer – saudades da tranquilidade da vida naquela época – mas o fato é que ficava bastante tempo interagindo no blog em um tempo que blogs ainda eram uma ferramenta amplamente utilizada na internet – infelizmente as redes sociais vieram e eclipsaram quase que inteiramente todas as demais mídias.
Aliás, sei muito bem que um blog escrito em 2022 é quase um contrassenso, mas a realidade é que a minha vontade é exatamente essa: que este espaço seja um local de resistência, onde a palavra escrita possa resistir e continuar a existir. Em um tempo de vídeos rápidos e uma enxurrada de informações, este blog se propõe exatamente ao contrário; para aqueles que aqui chegarem possam tirar um tempo para ler um texto, refletir e cordialmente expressar suas opiniões se sentir vontade. Não sei quanto a vocês, mas acho que esse excesso de vídeos a que somos expostos estão nos emburrecendo. O texto escrito é mais desafiador, exige mais atenção, mais foco, mais disponibilidade e interesse, além de maior capacidade cognitiva para processar a informação, entender o sentido e finalmente absorver o que está sendo dito. Sei que soa um tanto arrogante, mas não é esse o desejo e sim de colaborar para a continuidade da existência da informação escrita. Ao menos para mim, prefiro mil vezes ler um texto de 3 páginas do que ver um vídeo poucos minutos falando exatamente a mesma coisa.
Como mencionei no início, este blog existiu em uma outra jornada e cenário, de 2009 a 2014, mas que optei por descontinuar devido à escalada do ódio nas redes sociais – mal imaginava eu que isso era somente o embrião de situações ainda mais sinistras e assustadoras e que hoje – agosto de 2022 – sentiríamos saudades de como as coisas eram naquele já longínquo 2014. Em 2020, tentei retornar no mesmo formato, mas com a chegada da pandemia e a descoberta da gestação de minha filha, este projeto ficou em segundo plano. Em 2021 busquei recomeçar uma vez mais, e cheguei neste espaço que hoje vocês encontram. Com maior ou menor assiduidade, tentarei manter uma frequência de postagens, que podem variam conforme as exigências de minha agenda. Porém seguirei insistindo.
Este é um espaço quase terapêutico, onde me expresso com calma e de forma às vezes prolixa a respeito de temas que me incomodam, me inspiram, ou ideias que me ocorrem cotidianamente. Aqui também posto resenhas das leituras que faço, das séries que vejo, ou sobre quase tudo que eu sinta vontade de expressar a minha opinião. Falo sobre política e esportes, e também sobre religião. Ou seja, a santíssima trindade de temas que não se devia discutir serão frequentes por aqui, talvez por fazerem parte da minha formação pessoal.
Portanto aqui falo sobre o tudo e o nada. Na maior parte os temas parecerão que interessam somente a mim, mas se aprendi algo nesse tempo de conexão remota é que nunca temos um interesse exclusivamente nosso, sempre poderemos encontrar alguém que partilhe daquilo. Aqui poderemos conversar, compartilhar e quem sabe até crescer com a opinião do outro. Ainda que possamos falar sobre o ódio, aqui não há espaço para sua existência. Aos que já frequentaram aqui anteriormente, desculpem a repetição do tema, mas aos que chegaram aqui pela primeira vez, achei importante fazer uma reapresentação. Sejam muito bem vindos, sintam-se à vontade. A casa é minha, claro, mas vocês são meus convidados de honra. Um texto, uma conversa, e uma reflexão podem não resolver os problemas do mundo, mas podem fazer maravilhas para ajudar a nos sentir melhor. Ao menos para mim é assim, e espero de coração que possa ser assim para vocês também… Saudações!
Algumas horas se passaram desde o término do GP da Rússia de F1, então já tive um tempo de digerir e refletir sobre tudo o que aconteceu nas últimas voltas e que alteraram completamente o resultado da corrida. E mesmo após ler e escrever muita coisa no twitter, mantenho a opinião que tive ao término da corrida, e que já foi expresso no título dessa postagem. E, após ter lido muita coisa frustrante no twitter eu resolvi elaborar um pouco mais o meu raciocínio.
Lando Norris em ação na Rússia (Foto: McLaren)
Mantenho a opinião de que Lando Norris fez tudo correto nos momentos finais da corrida. Ele era o líder da prova, que vinha dominando até com autoridade, e faltavam pouco mais de 3 voltas quando o tempo realmente fechou e a chuva começou a cair com mais intensidade no circuito russo. Ele está ali, a pouco mais de 5 minutos da primeira vitória na carreira, conduzindo o carro já a algumas voltas em condições difíceis em que ele estava se saindo muito bem (melhor que Lewis Hamilton, diga-se) quando a maioria dos pilotos entra nos pits para trocar os pneus para intermediários. Como outros pilotos fizeram no passado, ele arriscou seguir em frente e apostando que as condições não iriam piorar, sabendo que tinha uma vantagem enorme para o segundo colocado e que, mesmo que perdesse muito tempo nos trechos da pista que estavam molhados, nos demais onde ainda estava seco poderia andar mais rápido e não perder tanto tempo total na volta, o que seria suficiente para a vitória.
Dentre muito o que se foi falado no twitter após a prova, uma das coisas que mais me irritou foi diversas pessoas dizendo que isso foi um erro. Discordo dessa posição. Norris não errou. Ele tomou a decisão de arriscar e ir como estava até o final. A equipe o chamou para os pits porque este é o papel da equipe. E o papel do piloto é o de dizer para o time “olha, não vou, ainda está bom aqui, consigo manter tudo sob controle”. E isso não pode ser considerado um erro. É uma aposta, que poderia dar muito certo, ou muito errado. Infelizmente, deu muito errado e acabou ocasionando a perda da vitória. Mas isso não quer dizer que o piloto errou. Simplesmente tomou uma decisão ousada em um momento crítico.
Muitos compararam a atitude de Norris com a de Barrichello no GP da Alemanha no ano 2000 e realmente há diversas similaridades. Naquele dia, o brasileiro também desafiou a equipe para se manter na pista úmida com pneus para a pista seca, assumiu a liderança e não perdeu mais até o final. A atitude dos pilotos nessas duas corridas separadas por 21 anos é a mesma, porém o resultado foi o oposto. A diferença? Em 2000 a chuva não apertou tanto quanto hoje na Rússia e nem começou a cair em todo o circuito, muito em razão da enormidade do circuito alemão àquela época. Com isso Rubens perdia muito tempo no último setor (e o mais lento) da pista e recuperava os outros 2 trechos de retas rápidas do circuito. Como a pista russa é menor, não houve essa chance para Norris e ao mesmo tempo a chuva apertou em todo o circuito, inviabilizando a aposta do piloto inglês. Tivesse a chuva apertado na Alemanha, o resultado de Barrichello poderia ter sido exatamente o mesmo que foi o de Norris.
Outra coisa que me chateou muito na falta das pessoas no twitter é de que Norris foi juvenil e não parou por uma ousadia e/ou inexperiência provocada pela pouca idade. Isso é uma avaliação pueril e baseada em superficialidades. A realidade é que Norris faz o melhor campeonato entre os 20 pilotos do grid, melhor até que Hamilton e Verstappen, os 2 que estão à sua frente na tabela de pontos. Apesar da pouca idade, é um piloto já em sua 3ª temporada, com resultados robustos e liderando a equipe em uma recuperação excepcional, dominando facilmente seu companheiro de equipe vitorioso e muito mais experiente. Não há nada de juvenil na postura de Norris neste ano. Inclusive no próprio GP da Rússia neste domingo, ele mais uma vez demonstrou maturidade e segurança: Não se afobou ao perder a liderança na largada por conta das condições da pista, andou próximo a Sainz na parte inicial da prova, aguardou o melhor momento de fazer a ultrapassagem, daí em diante determinou um ritmo forte e seguro que o faria vencedor se o tempo não tivesse mudado subitamente no final da prova. Foi um dos últimos entre os pilotos com pneu médio a realizar a parada, segurou a pressão de Lewis Hamilton de forma segura sem cometer erros, e mesmo quando a chuva começou a apertar e deu uma deslizada, se defendeu do heptacampeão e retomou uma vantagem segura, que inviabilizou qualquer tentativa do compatriota em ultrapassa-lo na pista.
Traçando outro paralelo com a história da categoria, resgato uma corrida em que um piloto jogou fora uma vitória em um movimento que pode ser considerado um erro pela pouca experiência, com consequências desastrosas que foi bem diferente do que houve com Norris na corrida de hoje. NO GP da China de 2007 o mesmo Lewis Hamilton jogou fora uma vitória em circunstâncias muito similares às de hoje, por se manter na pista além do necessário e não atender ao chamado da equipe de vir aos pits colocar pneus intermediários em uma condição de chuva fraca, como estava hoje em Sochi antes das últimas 3 voltas. Em 2007, parar para trocar pneus faria Hamilton perder a liderança da prova, mas o manteria ainda em um lugar no pódio que significaria o título antecipado já naquela prova. Porém ele insistiu em continuar na pista com pneus gastos, e quando a chuva apertou e ele finalmente teve de fazer sua parada, por conta dos pneus em má condição e a pista bastante molhada na entrada dos pits, perdeu o controle e ficou atolado na brita, abandonando a prova e abrindo espaço para Kimi Raikkonen descontar os pontos necessários para ser campeão naquele ano. A decisão de Hamilton em lutar pela vitória naquele momento, quando o mais sensato seria ser conservador e pensar no título foi um erro motivado pela juventude e inexperiência. Algo que ele aprendeu e utilizou em outros momentos na carreira, como neste domingo.
Não foi o caso de Norris hoje. Sua decisão foi madura e consciente. Lando estava a pouquíssimas voltas da primeira vitória da carreira, em uma condição de pista difícil, mas sob controle, não deveria parar para trocar pneus esperando que o tempo piorasse. O correto na situação dele seria se manter como estava e esperar que o tempo se mantivesse como estava por mais alguns minutos, até o final da prova. Ele não tinha que ser conservador pensando no campeonato. Isso importava a Hamilton que tinha muito mais a perder se mantendo como estava (e o rádio do heptacampeão mostrava que ele queria se manter assim), por isso fez o mais seguro. Se Norris fizesse o mesmo, poderia perder a liderança para o piloto da Mercedes e chegar seguro em uma segunda posição que não faria diferença naquela altura dos fatos. Tivesse acontecido dessa forma, estaríamos aqui falando agora sobre o porquê de Lando Norris não ter insistido em se manter com os slicks para tentar a vitória. Ele tinha tudo a ganhar se arriscando a continuar na pista. Quando Hamilton parou, reclamou que a pista estava muito seca e não era a ideal para o pneu intermediário. Tivesse se mantido assim, diríamos que o Hamilton abdicou da vitória com uma aposta errada e estaríamos chamando Norris de gênio por ter ficado na pista.
Isso é o que acontece no esporte, especialmente em um de alto desempenho como a Fórmula 1, em que uma decisão deve ser tomada literalmente em um décimo de segundo e que pode fazer toda a diferença entre a vitória e a derrota. Infelizmente para Norris e a McLaren isso significou a derrota hoje, mas poderia ter significado a segunda vitória em 2 GPs. O problema é as reações absurdas das pessoas nos tribunais das redes sociais, sempre prontos para condenar o piloto por uma decisão muito difícil, como se fosse obvio qual era a melhor escolha (vendo de fora, pela TV, seco em seu sofá, após os acontecimentos, é fácil saber qual a melhor decisão) não entendendo as nuances e a linha tênue em que os pilotos estão lidando nessa situação. Deveríamos julgar um pouco menos e somente apreciar o que foi uma corrida eletrizante, com um final de partir o coração em que o melhor piloto do dia perdeu uma vitória consagradora por uma decisão arriscada que poderia ter tido um final inteiramente diferente.
Eu curti muito a decisão corajosa de Lando Norris e só torci para que a chuva não caísse e ele saísse vitorioso de Sochi. Não aconteceu e infelizmente ele perdeu várias posições. Mas ainda assim sai da Rússia maior do que chegou, após fazer uma corrida de gente grande e se colocar como candidato natural à vitória, sem auxílio de circunstâncias excepcionais. Parem de julgá-lo e chamarem de imaturo, juvenil ou que errou. Reclamamos sempre de pilotos pouco ousados que não se arriscam e são burocratas do volante (alô Bottas!!), mas quando um piloto arrisca tudo para buscar a vitória e não dá certo, vamos apontar o dedo para o rapaz e ficar falando que errou? Me ajudem né. Foi um domingo soberbo do jovem piloto inglês, demonstrou mais uma vez muita maturidade, fez tudo certo, a equipe fez tudo certo, e por uma infeliz conjuntura de fatores climáticos, a vitória não veio. A vitória do Lando está no forno, crescendo, quase chegando, e chegará em breve. Possivelmente ainda esse ano.