Resenhando #22

Uma de minhas leituras mais agradavelmente surpreendentes de 2022 foi este livro chamado “18 dias – Quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush”, que trata, obviamente, do período de transição entre o final do governo FHC e o início do primeiro governo Lula, e os naturais desafios da mudança de um governo de centro direita para um governo de centro-esquerda, mas mais do que isso, faz um apanhado histórico do posicionamento diplomático brasileiro nos últimos 50 anos.

O principal objetivo com essa aliança durante o período de transição governamental entre dois partidos historicamente adversários, como o próprio subtítulo deixa explícito, consistia no objetivo de convencer os EUA – à época o maior parceiro comercial brasileiro e maior superpotência global inconteste – em acreditar e apoiar o Brasil, deixando de lado o seu tradicional posicionamento aversivo a qualquer governo de orientação política de esquerda surgido na América Latina. Não era uma tarefa fácil, alias. A história americana está repleta de exemplos em que os EUA utilizaram de sua posição econômico-militar e sua peculiar visão de observar a América Latina como um quintal de seus interesses para sistematicamente saquear, desestabilizar, intimidar, sabotar e derrubar qualquer governo minimamente resistente aos interesses imperialistas estadunidenses.

Mas digo que o livro foi agradavelmente surpreendente por trazer muito mais que somente isso. O livro faz um resumo dos anos anteriores ao governo FHC e traz bastante elementos referentes às suas políticas e posicionamentos durante os 8 anos de duração de seu mandato, os sucessos e insucessos, especialmente destacando o viés diplomático e o desgaste natural do governo ao término do período, tanto com a população, a imprensa e demais países e parceiros. O texto do autor aborda também – ainda que de maneira mais breve e sem tanto aprofundamento – as relações diplomáticas brasileiras com outros países relevantes, como a China (que ainda não era a superpotência atual, mas já se encontrava em vias de vir a se tornar), a Argentina, que (apesar do que acham algumas pessoas) é um grande parceiro comercial do Brasil, e também com nações do Bloco Econômico Europeu.

Existem dois pontos principais interessantíssimos a ressaltar: o primeiro é que – como já mencionei anteriormente – o livro aborda muito a questão diplomática e para quem se interessar pelo assunto, essa obra é um prato cheio, abordando a diplomacia brasileira desde meados da década de 50, passando pelo final do período Vargas, a ditadura militar e chegando à redemocratização e os desafios para o futuro pensados naquele já longínquo ano de 2002. Trata de momentos importantes da diplomacia mundial, períodos de crise e desafios enormes, especialmente ao se considerar todo o intrincado e complexo pano de fundo da guerra fria acontecendo, apresentando técnicas e abordagens dos governos e diplomatas brasileiros nesse período. Trata-se de um relato impressionante e cheio de detalhes que cativa com uma escrita profissional e nem um pouco cansativa.

O segundo e mais importante ponto, especialmente ao olhar para o Brasil agora, 20 anos depois, é o quanto impressiona a colaboração existentes entre dois partidos fundamentalmente rivais. PT e PSDB haviam disputado até aquele momento 4 eleições presidenciais e eram vistos como posicionados em lados diametralmente opostos no espectro político brasileiro. Ainda assim, porém colaboraram mutuamente, com o governo tucano abrindo as portas para todos os líderes petistas e os apresentando todos os aspectos do governo, contribuindo ativamente para que o país continuasse progredindo, incluindo aí o período de preparação e aproximação com os EUA que constituem os 18 dias que serviram de base para o título do livro, no qual os ministros e o próprio FHC não somente convidaram como trabalharam próximos aos principais integrantes do futuro governo petista durante essa aproximação e abordagem junto aos americanos . Parece uma atitude inexplicavelmente desapegada ou pouco preocupada em expor a um grupo adversário os meandros do tortuoso rio que é a governança de um país grande e complexo como o Brasil, mas, na realidade é o mínimo que se espera em um momento de transição governamental. Nós, com os olhos de 2023 enxergamos com estranheza devido a radicalização da polarização atual, e vendo como foi o processo de transição governamental no final do ano passado (ainda que muito menos dramático e atravancado como se imaginava anteriormente às eleições), é de se admirar a civilidade e a seriedade com que os envolvidos abordaram esse processo em 2002. Aqueles personagens – todos eles – foram verdadeiros patriotas que pensaram no bem do país. Deixaram as diferenças partidárias e ideológicas de lado para se portarem como democratas que visam somente servir de forma correta e produtiva a seu país. Li em uma resenha sobre esse livro que este foi o melhor período da democracia brasileira, e tendo a concordar fortemente, ainda que fosse à época um adolescente com hormônios em ebulição. Foi um período muito especial da política brasileira, em que se olhava para o futuro do país de forma conjunta e todos os lados políticos almejavam somente o desenvolvimento do Brasil. Um exemplo a ser resgatado.  Pena que o PSDB da época, tão necessário e relevante para o bom funcionamento da democracia brasileira foi corroído por vaidades e intrigas pessoais internas e hoje encontra-se moribundo, se apegando ao extremismo golpista para tentar sobreviver.

Uma frase em especial, presente no livro, merece ser destacada ao final dessa resenha, por resumir bem o sentimento que o livro – e o período vivido à época:

“Quando Fernando Henrique Cardoso passou a faixa presidencial a Lula, foi a primeira vez que um presidente eleito pelo povo empossou um sucessor de oposição, também escolhido nas urnas, e este, por sua vez, completou o mandato sem morrer, renunciar ou ser derrubado por um golpe”.

Triste é pensar que, passados 20 anos desse momento, este ainda continua sendo o exemplo único dessa civilidade democrática tão necessária para o crescimento e desenvolvimento da nação. Nota 4,5/5.

O sucesso do governo Bolsonaro

No último final de semana, enquanto as redes sociais se fervilhavam de postagens celebrando o Natal e as festas de final de ano, uma publicação me chamou a atenção. Estava eu rolando aquele “Explorar” do Instagram, gastando meu tempo olhando inúmeras postagens sugeridas para mim, sendo, porém 90% sem qualquer relevância, quando me deparo com uma publicação que destacava em letras garrafais que “Bolsonaro cumpriu somente 15% das promessas de campanha”, e alardeando como o governo dos últimos 4 anos foi um fracasso por não conseguir atender às expectativas criadas por seus eleitores.

Tal postagem me fez lembrar de um texto que havia pensado em escrever às vésperas das eleições para tentar reverter alguns votos de indecisos que se inclinavam para o inominável. Decidi aproveitar alguns trechos para fazer este último post de 2022 para celebrar o término destes 4 anos terríveis com este “governo” comandando a nação e ansiando para que seja a última vez que menciono este personagem nefasto que tivemos que aceitar como “presidente” nos últimos anos.

Eu entendo a tentação de querer afirmar que este “governo” foi um fracasso, especialmente entre pessoas que, como eu, repudiaram sistematicamente todas as atitudes e políticas adotadas desde 2018. Mas essa é uma afirmação muito mais emocional que racional. É o nosso desejo de expressar em palavras o quão ruim foi este período. Mas racionalmente falando, ao observar com distanciamento emocional os 4 anos de “governo” Bolsonaro, facilmente podemos afirmar que foi um governo de sucesso como poucas vezes visto na história do nosso país.

Assusta um pouco essa afirmação, não é mesmo? Porém o sucesso é determinado com base nos objetivos que se queria atingir ao iniciar um projeto, portanto, ao analisar os anos Bolsonaro, é claro perceber que foi um governo de fenomenal e avassalador sucesso para atingir os objetivos a que se propunha, como poucos conseguiram na história do país.

Não sejamos ingênuos. Nunca foi objetivo de Bolsonaro e seus apoiadores um projeto de pais que trouxesse crescimento e desenvolvimento à nação. Estava muito claro desde sempre que o objetivo era entregar o país aos desejos de quem financiava o seu projeto de poder. Nunca houve interesse em fomentar um projeto de governo para trazer ganho e crescimento à nação e aos seus cidadãos. Daí o desejo de comprar ferrenhamente brigas em searas ideológicas e subjetivas (como todas as temáticas ligadas à religião) e o pouco ou nenhum interesse em tratar com projetos viáveis de assuntos sérios e críticos à população, tais como saúde, educação, segurança pública, transportes e mobilidade urbana. Desde sempre Bolsonaro quis ser presidente somente para consolidar seu projeto de poder, tão limitado e obtuso que acreditava que um presidente teria poderes ilimitados, tal qual um ditador autocrata. O Estado Brasileiro e a máquina pública foram utilizados única e exclusivamente para tentar sujeitar todos à sua visão distorcida e odiosa do mundo, distorcendo narrativas e negando verdades palpáveis e históricas, a fim de perpetuar preconceitos e privilégios, gerar ainda mais divisão e justificar o uso indiscriminado da violência para eliminar quem se opunha a esta visão.

A escolha de um ‘outsider’ da política lá em 2018 condenou o brasil há anos de trevas, como os que vivemos e ainda serão os que virão pela frente, para tentarmos resgatar tudo aquilo que foi destruído ou se perdeu por negligência e incompetência. Por isso é impossível considerar esse “governo” como um fracasso. Ele se propôs ferrenhamente a entregar exatamente aquilo que se esperava dele: destruir, destruir, destruir. Não há um único indicador deste governo que seja positivo, não há um único aspecto relevante à qualidade de vida da população e da consolidação do bem-estar de um país que esteja melhor hoje do que estava em 2018: a educação piorou, a saúde está em frangalhos, a preservação do meio ambiente foi abandonada e passou a se estimular a devastação, a economia naufraga a olhos vistos, mesmo com o “posto Ipiranga” prometendo crescimento há 4 anos. Incentivos à melhoria do transporte público e mobilidade urbana? O assunto nunca foi sequer mencionado. Inflação a níveis de 30 anos atrás. Povo sem poder de compra algum. A população está visivelmente mais ansiosa, mais cansada, mais pessimista, mais triste.

Apesar de todo esse legado nefasto, o atual “governo” entra em sua última semana tendo estado a 2% de ter sido reeleito. Mesmo tendo sido o mais incapaz e incompetente de todas as pessoas a ter ocupado a cadeira da presidência da república, Bolsonaro conseguiu convencer cerca de 30% das pessoas do país de que ele é um semideus imaculado incapaz de fazer algo errado e que deve ser seguido religiosa e cegamente. Apesar de ter se vendido como o paladino da “antipolítica tradicional”, se sujeitou aos jogos de interesses políticos de uma forma nunca vista, chafurdando na lama do toma-lá-dá-cá político na forma do tal “orçamento secreto” – também conhecido como corrupção institucionalizada.

Foi um presidente que se vendeu como o defensor da vida aos fundamentalistas religiosos cristãos – não se enganem, fundamentalismo religioso não é exclusividade das religiões orientais. Porém ao se deparar com o maior desafio sanitário dos últimos 100 anos, ao invés de defender a vida, ele optou por banalizá-la. Diante da morte de quase 1 milhão de pessoas (sabemos que as mortes por covid foram em número muito maior que as 700 mil “oficiais”) durante a pandemia, ele optou por dar risada e debochar do sofrimento alheio. E mesmo assim, 45% dos brasileiros acharam que seria viável mantê-lo por mais 4 anos governando o país. Nunca tivemos um governo comprovadamente tão ruim em nosso país e mesmo assim uma parcela significativa da população conscientemente optou por lhe oferecer a possibilidade de se manter no poder, indiferentes à própria dor e sofrimento, acreditando estarem combatendo fantasmas inexistentes evocados pelo presidente para assombrar e assustar a parcela mais ingênua da população. Se isso não é indicativo de um sucesso assombroso, não sei o que mais pode ser.

Isso também demonstra que sucesso não é sinônimo de algo necessariamente bom. Pelo contrário, pode ser algo nefasto e causar inequívoco sofrimento. Mas isso pode ser assunto para outro momento. Por anos acreditei que o atual “governo” passaria à história como o maior fracasso da república brasileira, porém mudei de ideia: este governo é um sucesso. Atingiu (quase) todos os seus objetivos. Faltou somente um: o de se perpetuar no poder. Sorte do Brasil. Nenhum de seus objetivos visava o bem do país e este último era o golpe final para a derrocada da nação. Passou raspando, mas nos livramos desse futuro terrível.

Resenhando (#17)

Não se engane: apesar do título extremamente sensacionalista, este é um bom livro. Bem escrito, com bom referencial bibliográfico e o melhor de tudo: imparcial. Como trata de política, os autores tiveram uma preocupação muito grande e latente de serem o mais imparcial possível, cuidado especialmente importante neste momento nefasto da história brasileira que vivemos, cheio de “nós e eles” cheio de ódios.

“Você foi Enganado”: apesar do título sensacionalista, uma excelente leitura.

O pior do livro realmente é o título, muito sensacionalista para o meu gosto, mas entendo o apelo de chamar a atenção logo de cara, tanto do militante esquerdista quanto do extremista de direita, e todos as demais vertentes que habitam este espectro. Relevando-se o título, o livro aborda de forma ilustrativa e direta mais de 40 anos da história política brasileira, começando nos primeiros anos da década de 80 até o limiar das últimas eleições presidenciais em 2018, passando, portanto, pelo final da ditadura militar, o movimento pelas “Diretas Já”, a luta incessante contra a inflação na chamada “década perdida” até a redemocratização e as primeiras eleições presidenciais diretas após mais de 25 anos.

Segue passando pelo impeachment de Collor, o plano Real, os governos FHC, a chegada da esquerda ao poder até a sua derrocada em 2016 e o governo neoliberal que sucedeu. Por finalizar sua pesquisa neste momento, o livro não teve a oportunidade de falar sobre a guinada ao extremismo neofascista que vivemos atualmente que teria amplo material para uma obra que fala de mentiras contadas pelos governantes do país.

O livro me surpreendeu positivamente pela forma como tratou estas mentiras, sem escolha de favoritismos, independentemente da orientação do governo retratado, e olha que passaram por presidentes de diversas orientações e perfis, dedicando um capitulo a cada um deles, focando especialmente no tema que consideraram mais importante de tratar sobre aquele governo. Aqui talvez seja o momento de maior parcialidade dos autores, ao definir quais as “mentiras” iriam focar a respeito de cada presidente da república; mas ainda assim entendo que as escolhas foram feitas muito mais por uma necessidade de definir o objeto da pesquisa para delimitação do tema que algum interesse pessoal escondido por detrás. A meu ver, o trabalho foi bem feito.

Dessa forma, o livro traz capítulos sobre o general Figueiredo, sobre o presidente eleito indiretamente – e jamais empossado – Tancredo Neves, seu vice José Sarney, que foi quem assumiu de fato o poder e governou até 1990. Trazem um capítulo sobre Collor, e posteriormente sobre seu vice, Itamar Franco e a criação do plano Real. Tem outro capítulo dedicado aos governos FHC, Lula e Dilma, chegando até ao seu vice/traidor Michel Temer que assume o poder após o golpe que tirou a primeira mulher eleita presidente de nosso país. Reparem que em pouco mais de 30 anos tivemos 3 vice presidentes alçados ao poder no Brasil. Afinal de contas, não parece ser um cargo tão figurativo quanto vendem por aí… ao menos no Brasil.

Concluindo, o livro foi uma agradável surpresa me entregando mais do que esperava, e por este motivo eu recomendo a todos a leitura, sempre, porém com o viés critico de entender que, ainda que a temática do livro sejam as mentiras presidenciais, elas precisam ser contextualizadas para serem entendidas integralmente, não somente como um exercício de ódio à política. Nota 4/5.

Passando a régua

É surreal para mim pensar que estamos a poucos dias do término desse “governo” Bolsonaro. Após tanto tempo, dá até medo sentir alegria de esse período tenebroso estar finalmente terminando. Foram quatro anos intensos e exaustivos e é com uma forte sensação de esgotamento, tanto físico quanto mental, que chego a estas últimas semanas. Por essa razão eu gostaria de já não ter que falar desse personagem, até como forma de antecipar a leveza que esperamos ter em 2023 sem esse nome sendo falado diariamente em nossas cabeças. Ao mesmo tempo, porém, aconteceram tantas coisas que é impossível ficar indiferente e não esboçar umas últimas palavras a respeito desse período tão nefasto da nossa história.

Por isso decidi, como forma de passar uma régua neste assunto em minha mente, vou condensar tudo o que de mais importante e relevante ainda preciso falar sobre os “anos Bolsonaro” e que ainda não abordei em outro momento em um artigo em dois atos: no primeiro momento tentarei abordar de forma objetiva as razões pelas quais o atual presidente me causa tanta repulsa. Na segunda parte, vou compilar minhas impressões acerca dos últimos quatro anos e os resultados de seu “governo” para o nosso país.

De coração sincero espero que estas sejam as últimas vezes que eu precise mencionar o nome Bolsonaro. Desde que ouvi pela primeira vez e tomei conhecimento dos absurdos que saiam de sua boca, a antipatia foi imediata. A partir do momento em que se lançou candidato à presidência – se não me falha a memória, pouco após o término das eleições de 2014 – e começou a angariar apoiadores entre os renegados e boçais que habitavam o submundo das redes sociais, ganhando cada vez mais visibilidade e relevância, a minha aversão foi aumentando até chegar ao nível de hoje, de sequer conseguir ver sua imagem ou ouvir sua voz sem sentir algum tipo de repulsa.

Não vou fazer uma retrospectiva de todos os acontecimentos que o levaram à presidência da república, tampouco vou criticar a sua gestão sentado à cadeira mais importante do país. Quero focar unicamente em um aspecto, muito importante e que gostaria de tentar elucidar: por que tenho tanta aversão a Bolsonaro?

Essa não é uma resposta fácil. Aliás, estou há anos (pelo menos 6) tentando entender esse sentimento, que nunca havia sentido com relação a nenhum outro personagem da política brasileira. Nem sequer Aécio Neves, com sua cara debochada e seu estilo ardiloso, me causaram tanto incomodo. Durante esse período em que foi presidente, teci muitas críticas a Bolsonaro. Algumas pessoas inclusive me acusaram de odiar Bolsonaro. Por um bom tempo eu também acredito que isso era uma verdade. Porém busquei entender melhor esse sentimento e compreendi que não se trata de ódio. É uma aversão por tudo o que representa.

Essencialmente, o futuro ex-presidente representa, em suas atitudes e palavras, tudo aquilo que mais repudio em minha vida. Sua abordagem para com a vida é exatamente o oposto de tudo o que eu penso e faço. Tudo o que ele acredita e externaliza como o certo, eu considero errado e inadmissível.  Sua forma de cultivar e multiplicar a violência e a intolerância, a boçalidade e a maldade de coração, me ofende profundamente.

Eu acredito na verdade. Ele opera somente na mentira. Eu confio na ciência. Ele repudia a ciência. Eu admiro e busco o conhecimento e a inteligência. Ele se ressente do conhecimento e estimula a estupidez. Eu gosto de demonstrar gentileza, educação e deferência às pessoas. Ele gosta da truculência, falta de educação e arrogância. Eu acredito que cada um tenha o direito de ser o que quiser ser, fazer e decidir o que preferir da própria vida, desde que não se coloque no caminho do livre arbítrio do próximo. Eu aprendi a admirar, gostar e aprender com a diversidade. Ele acha que tem o direito de regular a vida do outro, ofender e ameaçar quem não é como ele acha que deve ser. Eu acredito que devemos respeitar o diferente. Ele acha que é preciso reprimir e violentar com atos e palavras quem diverge de si. Eu acredito e desejo o bem. Ele opera e vibra única e exclusivamente no mal.

Nestes “anos de Bolsonaro”, um dos maiores absurdos que tentaram propagar a todo custo, além da ladainha acéfala de seus seguidores que se tornaram uma seita assustadora e violenta, foi a narrativa de muita gente tentando “normalizar” ou civilizar o futuro ex-presidente, como se ele fosse incompreendido, se expressasse mal ou fosse somente falastrão ou barulhento, mas inofensivo. Foi feito um esforço tremendo, em grande parte da mídia por pressão da classe dominante, para “amansar” ou tornar palatável alguém bruto, truculento e violento. Muito pode se falar sobre Bolsonaro, mas uma coisa que não se pode negar é que ele se expressou exatamente como gostaria e se apresentou exatamente como é: uma pessoa de violenta, rancorosa e de má índole. É aquele tipo de gente que você não entende como pode ser tão desagradável, como pode ser tão baixo, vulgar e de mau gosto. Alguém de caráter duvidoso, cheio de rancor e ódio por quem vive e vê o mundo de forma diferente dele.

Outro ponto importantíssimo em minha aversão pelo futuro ex-presidente é a sua visão de futuro, sua sanha destruidora do meio ambiente e o seu (mau) exemplo legitimador para que demais pessoas demonstrem ser tão vis e repugnantes quanto ele mesmo. Como o pai de uma menina nascida durante esse período, me assusta imaginar qual o futuro a esperaria se Bolsonaro tivesse mais tempo de poder continuar apresentando e convencendo pessoas de sua visão deturpada e estúpida de mundo. Em quatro anos já houve um estrago considerável e um retrocesso de décadas, mas ainda podemos crer que é possível reconstruir o país. Mais quatro anos e acredito que seria muito difícil não atingirmos um ponto de não retorno à normalidade e estaríamos vivenciando uma ruptura civilizatória.

Estes anos foram desafiadores, pois foi muito difícil ver alguém que representa o oposto de tudo o que acredito ocupando um cargo de tanto poder, capaz de estragar a vida de tantas pessoas, capaz de condenar o país a extremos nunca vistos, capaz de demonstrar tamanho desprezo pela saúde, educação e cultura. Foi um baque para mim – nascido nos pós ditadura e formado pessoa durante o período mais progressista e desenvolvimentista da história brasileira – entender que nem sempre o mundo andará para frente e que podem acontecer momentos de governos nefastos e que representam o oposto dos valores que acredito e que regem a minha vida. Foi assustador perceber que tantas pessoas deram carta branca a alguém assim tomar o poder no país e se sentiram representadas – e mais do que isso – autorizadas a serem tão más quanto.

Me doeu perceber que pessoas outrora próximas a mim e muito queridas, por motivos insondáveis que talvez busque discutir no futuro, se aproximaram de um personagem como esse e se deixaram seduzir pelo fascínio do fascismo. Foi doloroso, porém necessário me afastar dessas pessoas. Não foi uma divergência política. Foi uma divergência de valores e visão de mundo. Como poderia permitir que pessoas que acreditam e apoiam Bolsonaro estarem próximas e serem exemplos para a minha filha? Não tenho ilusões, sei que ela irá conviver com pessoas assim no mundo, mas é muito diferente de cruzar com alguém assim no mundo e eu acolhe-as abertamente em minha casa. Não é aceitável e normal permitir que alguém com tendência e que apoia pessoas misóginas e machistas possam brincar com minha filha e serem de alguma forma referência na vida dela.

Minha aversão a Bolsonaro não é política. Ainda que ele também seja o oposto de tudo o que acredito ser o melhor caminho para a política brasileira, minha aversão a ele é por valores essenciais, que regem a minha vida, e que para ele são descartáveis e irrelevantes.

Foram quatro anos de sofrimento, de angústia, de medo e tristeza. Quatro anos em que cada um dos meus valores mais caros eram pisoteados, ridicularizados e tratados como “frescura” e que a resposta para tudo era a intimidação e a violência. Nunca senti algo assim por nenhum outro personagem político na história do país. Houve alguns que, em maior ou menor escala, pareciam piores ou pouco confiáveis, mas como esse personagem que ocupou a cadeira da presidência nos últimos anos, nunca houve e sinceramente espero que não exista nunca mais. Após muita reflexão, entendi que o odeio. Tenho repulsa por ele. E uma aversão extrema por tudo o que ele representa, conjunto de ideias, valores e atitudes reunidos de forma muito perspicaz e verdadeira sob a alcunha de bolsonarismo. Bolsonaro irá desaparecer em breve, mas o bolsonarismo continuará sendo uma ameaça por muito tempo. Mas continuaremos a lutar. E iremos vencer, tal qual vencemos Bolsonaro., pois o mundo anda para frente. Com percalços e tropeços, é claro. Mas sempre para frente.

O último apelo

Estamos a pouco mais de 24 horas do resultado das eleições presidenciais de 2022. Amanhã neste mesmo horário receberemos os primeiros números de apuração das urnas pelo Brasil e começaremos a celebrar ou lamentar. Tudo o que havia de ser dito já foi dito. Todos os pontos já foram colocados na mesa e discutidos exaustivamente. Nessa altura do campeonato, todos já estão com seu voto decidido para amanhã.

Minha passagem por aqui hoje é somente para fazer um último apelo. Peço a todos que apelem para a sua humanidade. Deixem de lado o que viram no WhatsApp. Deixem de lado os vídeos de “analistas” ou especialistas falando de previsões chocantes caso Lula seja eleito. Gente, sejam minimamente razoáveis. Se você está próximo dos 30 anos ou já passou dessa idade, você viveu conscientemente os anos de governo Lula no Brasil. Nunca viramos uma ditadura comunista, não passamos nem perto disso. Se você tinha 5 anos de idade em 2002 você se lembra de tudo o que aconteceu naqueles tempos, mesmo que fosse uma criança sem qualquer preocupação. O Brasil era um país feliz. Otimista. Esperançoso com o futuro. Racionalmente não há como você pensar que o Brasil dos últimos 4 anos está melhor que isso. Não tem como. Você pode ter escolhido acreditar nisso, mas no fundo de sua consciência você sabe que isso não é verdade.

Mas eu havia falado de humanidade. Gente, apelo para que sejam mais humanos. Os ataques a pessoas de Igrejas, toda a arruaça feita durante a festa da padroeira do Brasil. Todos os padres e pessoas que estão sofrendo ameaças de morte por simplesmente estarem pregando o evangelho de Jesus Cristo. Não é possível que não consigam perceber que as pessoas que estão se ofendendo e se exaltando durante homilias e sermões Brasil afora estão sentindo isso ao ouvirem literalmente a “palavra de Deus”. Isso é normal? Vocês realmente acham que é o PT ou Lula ou a esquerda quem estão provocando isso? Gente, Lula foi candidato à presidente por 6 vezes e em nenhuma das outras 5 vezes houve qualquer tipo de manifestações como essa, qualquer ataque a pessoas do clero ou quem quer que seja. Sério mesmo que vocês acreditam que o problema está no Lula ou na esquerda? Qual a única diferença nas eleições presidenciais que houveram antes de 2018 e de lá para cá? A violência, a truculência, a intimidação. Por qual motivo vocês acham que essas manifestações de violência estão acontecendo com maior frequência e agressividade neste momento?

Sejam humanos, gente. Deus nos dotou de um cérebro altamente capacitado para que pudéssemos pensar. Vamos utilizar esse presente! Sejamos críticos. Sejamos conscientes. E mais uma vez, sejamos humanos. Não é possível que tanta violência, tanta indiferença com a dor do outro, tanta falta de empatia e gentileza sejam normais. Passamos por uma pandemia que morreu quase meio milhões de pessoas por indiferença. Por descaso. Eu perdi um amigo queridíssimo que não pode sequer conhecer a minha filha. Que não poderá visitar a minha casa para um almoço de domingo. Por descaso. Por falta de humanidade de quem deveria zelar pela vida dos brasileiros. Não é possível que já se esqueceram disso. Não é possível que irão relevar isso. Não é isso que queremos para nosso país. Não é isso que queremos para nosso futuro. Se não querem pensar no mundo melhor agora, pensem no mundo que querem deixar para seus filhos e netos.

Apelo para a humanidade de cada um de vocês. Tenho uma filha de 2 anos, que está começando a descobrir o mundo, começando a experimentar de fato esta grande aventura que é a vida. Me ajudem a permitir a ela um mundo onde possa correr e brincar por ruas e praças sem medo de sofrer qualquer tipo de violência ou abuso. Permitam que ela possa ir para escola e brincar com os amiguinhos sem o receio de que algum deles possa ter pegado a arma do pai/tio/irmão e levado para mostrar aos coleguinhas na hora do recreio. Permitam que ela cresça consciente de sua força e capacidade e possa ter direito a todas as oportunidades de forma igualitária. Que ela possa nunca ser diminuída ou depreciada por ser mulher. Que ela possa ter condições de sonhar com um futuro em que haja abundância de água, alimento, saúde e educação.

Se você é pai ou mãe, sabe do que eu estou falando. Do quanto sonhamos e desejamos que nossos filhos possam ter uma vida feliz. Se você não é, certamente é tio, primo ou amigo de crianças e certamente quer o bem delas e quer que cresçam em um mundo com mais amor, com mais compaixão, com mais humanidade. E isso não será possível com nosso país vivendo como em um faroeste sem lei, com as pessoas raivosas e armadas por todo lado, buscando somente uma oportunidade para se mostrarem as mais fortes ou corajosas unicamente por terem uma arma na mão.

Pelo amor de Deus, o que está em jogo aqui é algo muito maior que somente o medo de um comunismo irreal que nunca existiu e nem existirá. O que está em jogo aqui é a oportunidade de tentarmos mais uma vez construir uma sociedade com maior humanidade, tolerância e paz. Não permitamos que um lunático violento com fetiche por armas desvirtue a nossa sociedade e nos torne um país cheio de ódio.

Você pode não gostar do Lula, é normal e legítimo. Mas infelizmente, ele é a única opção que restou para que possamos voltar a ter um mínimo de normalidade em nosso país. De ter um presidente que se responsabilize por seus atos. Que queira falar a todos os brasileiros, e não somente aos que o apoiam. Que queira construir pontes e dialogar e não somente agredir e subjugar aquele que é diferente, ou pensa diferente. Nós merecemos poder dialogar com todos. Mas é impossível fazer isso se alguns dos outros estiverem armados e prontos para tirar a nossa vida somente porque não concordam com as nossas escolhas.

Pensem em nossas crianças. Você se sentiria seguro se os professores de seus filhos estivessem armados na escola e lidando com os desafios de educar várias crianças inquietas? Você gostaria que o professor de natação do seu filho o xingasse e o chamasse de incapaz somente porque a criança não conseguiu fazer o exercício que ele pediu? Você se sentiria à vontade se o Uber que sua filha adolescente pegou para ir à festinha na casa da amiga olhasse com olhos lascivos para ela porque acha que pintou um clima somente porque a menina foi educada? Você acredita que o ambiente mais acolhedor para a família é uma igreja onde todos são raivosos e julgam cada pequeno detalhe da vida do outro, impondo regras e sofrimentos a quem não se enquadra no modelo que avaliam como certo?

Sejam humanos! A inteligência é o maior dom que recebemos de Deus e o que nos diferencia da maioria dos outros animais que andam por esta terra. Rogo esse apelo a todos que estiverem lendo este texto. Sejam humanos. Não se deixem contaminar pelo ódio ou pela estupidez. O mundo é complexo, é difícil, é injusto, mas somente com humanidade e harmonia teremos uma chance de prosperar. Sejam humanos. Escolham a humanidade amanhã. Deixei a irracionalidade de fora da sala de votação. Votem pela paz. Votem pela harmonia. Votem pelo respeito. Votem pelo amor. Quem ama não quer violência. E quem não quer violência não precisa de armas. Sejamos luz. Sejamos amor. Multipliquem o amor. O amor é dom de Deus. Não o ódio. Votem com amor! 

SEM MEDO DE SER FELIZ!!!

A hora da esperança

Na última segunda feira, fiz uma postagem a respeito do resultado das eleições gerais do Brasil em 2022. No texto, repleto de tristeza e desânimo, comentei que mais do que o resultado das eleições, perdemos enquanto sociedade que desperdiçou mais uma chance de ser um pouco melhor, de avançar um pouco mais.

Não vou negar, fiquei muito decepcionado com o resultado; foi muito triste atestar que uma grande parte da população, mesmo tendo sofrido perdas pessoais e materiais enormes nos últimos 4 anos, continua apoiando este terrível projeto de poder neofascista excludente e preconceituoso representado pelo atual ocupante da cadeira de presidente da república. Minha frustração maior foi constatar que, para além dessa figura repugnante, boa parte de seus apoiadores que se lançaram em candidaturas próprias obtiveram bons resultados. Certamente acreditei que após tanta tristeza, esse movimento perderia forças.

Assumo a minha ingenuidade. Apesar de sempre fazer uma análise crítica do perfil sociocultural do brasileiro, ainda relutava em aceitar que o brasileiro poderia ser assim tão conservador, preconceituoso e misógino como se apresentavam estes candidatos. Mas a realidade é que somos verdadeiramente assim mesmo, o Brasil é um país com os dois pés fincados na tradição e ainda que tenhamos bolhas de progressismo e liberdade em alguns locais (quase sempre nos maiores centros urbanos); na maior parte do país, especialmente no interior, o tradicionalismo é quase lei, estimulado pela herança religiosa sistematicamente. Seja na tradição católica que ainda possui muito espaço, especialmente nas pequenas cidades e no campo, ou com o crescimento do número de evangélicos no país, com destaque para as representações neopentecostais pouco sérias que possuem explícita e quase que exclusivamente um projeto de tomada de poder no país, antes mesmo de um objetivo de propagação da fé cristã.

É esse retrato de Brasil que emergiu das urnas no último domingo. Talvez por estar esperando um resultado alinhado à minha visão de mundo e dos fatos nos últimos anos, eu tenha ficado um pouco assustado com o que apareceu. Mas a realidade que vejo agora, passadas 48 horas e com a cabeça mais fria, é que este resultado era esperado. O congresso nacional foi e continuará sendo a partir da próxima legislatura o mesmo espaço de sempre: branco, elitista, latifundiário e conservador. Com raríssimas exceções pretas, pobres e progressistas que demonstram a pluralidade do povo brasileiro, que ainda permite a eleição de pessoas fora dos centros de poder contra todas as expectativas.

Tenho uma teoria de que o baque que sentimos é porque hoje temos muito mais acesso à informação e podemos acompanhar em tempo real o desempenho do congresso, coisa que não era possível há alguns anos. Com a massificação da internet e das redes sociais, temos na palma da mão amostras diárias dos posicionamentos de todos os congressistas, bem como todas as articulações que são feitas ali. É como um grande reality show bizarro que acompanhamos e podemos a cada 4 anos escolher os participantes da brincadeira. Dessa forma pudemos perceber o quão baixo é o nível intelectual e moral dos ocupantes da “casa do povo” e tendemos a acreditar que a cada legislatura o congresso eleito é o pior da história. Acredito que a diferença é que anteriormente não tínhamos esse acesso à informação para perceber que historicamente, sempre foi assim e o nível do congresso sempre foi deplorável.

Fiz todo esse permeio para concluir que o meu estado de desânimo pós domingo de esvaneceu. O resultado era esperado e foi apenas reflexo de todas as nossas mazelas enquanto sociedade. Temos muito para avançar e muito pelo qual continuar lutando para que o futuro possa ser um pouquinho melhor. E mais do que isso: acompanhando um pouco da reação da seita bolsonarista ao resultado das eleições, todos ficaram chocados e verdadeiramente sentidos com a vitória do Lula na eleição presidencial, resvalando na possibilidade de fechar já no primeiro turno, apesar de todas as pesquisas indicarem esta possibilidade como real.

O descolamento da realidade vivido por esse pessoal é tão grande que uma parte gigante deles acreditava verdadeiramente que o excremento da república iria vencer a eleição no primeiro turno e sentiram muito o golpe. São tão fascistas e adoradores da figura do lider infalível que não conseguem olhar para a realidade como um todo, e se interessam somente pelo resultado que afeta o seu lider. E justamente esse resultado foi o mais negativo que tiveram. Os 5 pontos percentuais que o capiroto ficou atrás de Lula, representando cerca de 6 milhões de votos os deixaram chocados e transtornados, pois finalmente perceberam que a possibilidade de perderem a eleição é muito real. E isso já se traduziu em um crescimento massivo no disparo de notícias falsas e insultos a Lula.

Por isso, a nós progressistas que estamos do lado certo da história (a quem ainda duvida disso, o tempo irá confirmar) cabe redobrar os esforços e colocar ainda mais energia na eleição de Lula presidente, para deixar os bolsominions transtornados e sem chão. O congresso é retrogrado? Azar. Lula já enfrentou algo assim no passado e se saiu muito bem. O congresso vai dificultar a vida e os projetos de governo de Lula? Pode ser, mas ao mesmo tempo, Lula, como chefe do executivo, poderá vetar todos os absurdos que o congresso insistir em seguir adiante. Os próximos anos poderão ser um grande cabo-de-guerra do poder? É possível, por isso é ainda mais importante garantir que teremos um lado com muita força para travar essa batalha contra o obscurantismo e conservadorismo do outro lado.

O congresso está eleito, os cargos estão todos definidos e para nós, o foco agora é total na eleição de Lula Presidente. É hora de lutar contra cada peça de desinformação que for lançada. É hora que conversar com os mais humildes para ajudá-los a entender a importância de votar em quem olha para os mais pobres. É hora que conversar as pessoas religiosas que estão verdadeiramente com medo de uma “ameaça comunista” que está chegando desde 1945 e nunca se materializa de fato. Concluindo, é hora de lutar contra a mentira usando a verdade.

É hora de ser aberto, inclusivo, construir pontes com os mais humildes, incluí-los no centro da discussão, quebrar resistências, desmentir absurdos. É hora de força total. Sentimos o baque no primeiro turno. Vamos sacudir a poeira, respirar fundo e continuar a lutar pois a nossa vitória será muito maior e muito mais gratificante. O bolsonarismo é fruto do ódio e da violência, por isso sentiram e sentirão ainda mais o golpe após a derrota final, pois ela virá do amor e da alegria, da esperança em um futuro melhor, apesar de tudo. Como bem disse Zeca Baleiro em sua canção “nossa vingança vai ser de doer, porque seremos felizes como eles não podem ser”, pois quem ressoa no ódio e na carnificina não consegue experimentar verdadeiramente a alegria.

Seguimos na luta, são mais 25 dias de batalha pelo nosso futuro, para que possamos dar um passo mais próximo do destino que queremos seguir, do país que queremos construir e do futuro que queremos preparar para as próximas gerações. Para que possamos sonhar que podemos ser grandes, que podemos ser felizes e que podemos ser verdadeiramente um país inclusivo e justo para todos. Para que possamos verdadeiramente ser a imagem de acolhedores, alegres e sociáveis que tanto tentamos divulgar para o mundo. Podemos ser melhores, podemos ser mais felizes, basta querermos.

Batemos na trave, gente! Mesmo após 10 anos de insultos e perseguição diária da mídia e do gabinete do ódio, contra a máquina estatal usada para fins eleitoreiros, Lula conseguiu a maior votação que um candidato já conseguiu para presidente da república na história do Brasil. Faltou 1,5% para ser eleito no primeiro turno. Sendo massacrado diariamente por todos os lados, ainda assim quase deu pra fechar no domingo. É seguir na pegada. É hora de ter esperança. É hora de acreditar que podemos ser felizes. Que temos direito a um país onde tenhamos paz, respeito, liberdade e inclusão. Podemos e merecemos acreditar que o Brasil pode ser melhor do que somente ódio, ofensas e armas. Merecemos sorrir, brincar e se alegrar! Falta pouco! É só querer, converse com todos, vamos construir uma grande onda de alegria e esperança, é isso que o Brasil precisa após tantos anos de trevas e luto! O amanhã há de ser melhor! Seguimos lutando!!

Infelizmente, perdemos.

Sei que várias pessoas poderão me censurar ou me condenar por estar sendo muito pessimista em um momento já crítico ou estar desistindo antes da hora, mas a única palavra que me vem à mente ao tentar traduzir a sensação de vazio na boca do estomago ao acordar hoje, na primeira manhã pós resultado das eleições de ontem, é essa: perdemos!

Triste país – imagem autor desconhecido (para créditos, entrar em contato)

E o uso do pronome “nós” aqui é utilizado não somente para se referir a nós, militantes progressistas situados mais à esquerda no espectro político. O nós aqui é utilizado para se referir a todos NÓS, cidadãos brasileiros que, após passar anos nos deslocando a pé por um campo minado, debaixo de chuva contra inimigos muito mais bem equipados e sem qualquer clemência, chegamos à beira de um precipício e ao invés de usarmos a ponte que nos ofereceram para chegarmos em segurança ao outro lado, optamos por tentar pular o precipício acreditando que de alguma forma conseguiremos alcançar o outro lado do desfiladeiro.

Está além da minha capacidade lógica e racional entender o que acontece com o Brasil e o brasileiro nos últimos anos. O resultado das eleições de ontem mostram um povo perdido que procura a salvação nas mãos de seus carrascos, como animais que seguem com docilidade o caminho indicado por seus algozes ao matadouro. E aqui não me refiro exclusivamente à expressiva votação da pústula necrosada que temos o desprazer de chamar de “presidente”, mas sim ao cenário geral no qual praticamente todos os representantes desse mal pulsante chamado “bolsonarismo” tiveram expressiva votação para os mais diversos cargos.

É desesperadamente assustador pensar que um resultado desses pôde acontecer após estes 4 anos que vivemos. Este governo foi, com sobras, o mais desconectado dos anseios e necessidades da grande massa populacional do nosso país e o mais focado em governar visando única e exclusivamente os objetivos próprios. Foi um governo inteiramente voltado para atender aos caprichos do presidente e entregar o país aos desejos dos financiadores de sua campanha, utilizando a máquina estatal para dobrar o Brasil à suas vontades, não importando o quão inconstitucional eram suas atitudes.

E mesmo assim, conseguiu obter uma votação ainda mais expressiva que em 2018. Não importaram as mortes por descaso na pandemia. Não importaram as mortes na miséria causadas pela fome. Não importaram as mortes causadas pela escalada da violência com o armamento massivo de pessoas incapazes de operarem funcionalmente um garfo e faca à mesa. Não importaram as mortes causadas pelo avanço do desmatamento em nossas florestas. Não importaram quaisquer mortes causadas por esse governo, direta ou indiretamente. Pior, todos os cúmplices do “presidente” nessa carnificina – sejam por ação direta ou por conivência – que se lançaram candidatos a algum cargo nestas eleições foram eleitos com margem considerável, validando e relativizando os absurdos diários que vivenciamos nestes últimos anos.

Duas frases que vi ontem nas redes sociais resumem muito bem o desamparo e o desespero que estamos experimentando hoje: “o pior congresso da história será substituído pelo pior congresso da história”, provando que o fundo do poço pode não ter fim quando se há disposição de muitos para continuar cavando; e “agora é mais desanimador que em 2018, uma vez que as pessoas puderam experimentar o horror e metade delas quer continuar nele”, mostrando o inexplicável desejo do brasileiro em proporcionar meios para o próprio sofrimento.

Então, me desculpem as pessoas que querem se manter otimistas: admiro vocês, a resiliência e a capacidade em se manterem positivos e animados diante deste cenário aterrador. Até concordo com vocês, ainda há muito o que fazer e devemos continuar lutando para eleger Lula presidente. Acredito até que devemos fazer isso com ainda mais afinco, pois no final de contas esta é a única tábua de salvação que nos restou, a única boia que poderá nos manter à superfície em um mar revolto e repleto de tubarões. Mas a realidade crua e nua é que serão anos ainda mais difíceis pela frente, pois mesmo que Lula vença (e estarei 100% focado em lutar por este objetivo) a realidade é que será muito difícil para ele conseguir governar da forma positiva e progressista que gostaríamos, pois terá que lutar contra um congresso assustadoramente conservador e uma população que valida os seus absurdos. É uma tênue luz que pode nos guiar em um corredor longo e angustiante que nunca foi tão sombrio.

Lamento muito soar tão desanimado, mas depois de ontem, infelizmente a sensação é que mesmo que possamos vencer a última eleição que resta, na verdade já perdemos. Perdemos enquanto nação, enquanto sociedade que optou por validar a violência, a misoginia, o racismo, a vulgaridade, o desprezo pela vida humana, a falta de educação e o desprezo pela ciência e a defesa do meio ambiente. Por mais triste que seja assumir isso, a verdade é que, independentemente do resultado em 30 de outubro, nós já perdemos. Sairemos deste processo ainda pior que entramos.

Sobre falsos padres, falsos debates e falsa universalidade democrática

Este será meu último texto antes das eleições deste domingo; meu planejamento era nem escrever mais sobre esse tema, mas o espetáculo escatológico que foi este último debate presidencial me força a expressar algumas palavras ante de me recolher ao silêncio. Como vou tratar de vários temas em um mesmo texto, vou separá-los em caixas a fim de não perder nenhum ponto importante e facilitar o entendimento das ideias.

Em primeiro lugar, é importante falar sobre a representatividade em debates políticos. Em outro momento podemos até discutir se o formato de debates como é hoje ainda é valido ou precisa ser reavaliado, mas aqui quero falar somente sobre a representatividade no evento. Entendo que a legislação eleitoral afirme que somente partidos com pelo menos 5 deputados no congresso possam participar de debates eleitorais, porém este modelo é altamente excludente, além de perpetuar o mesmo discurso e narrativa em todos os pleitos. Se é garantida a universalidade do processo eleitoral a todas as pessoas e partidos, ela deveria valer também para a representatividade nos debates. Por que razão é permitido a um extremista de direita como o tal falso padre aparecer no debate e ganhar espaço e visibilidade para suas ideias malucas enquanto a extremistas de esquerda não podem ter o mesmo direito? Por que outros partidos nanicos com percentual de intenção de votos igual ou maior ao falso padre não podem se apresentar ao grande publico e expor suas ideias para provocar discussões diferentes das que sempre são apresentadas? É urgente revisar este artigo da legislação eleitoral: ou se dá visibilidade a todos de forma igualitária para que a população conheça a todos os candidatos ou se cria outro mecanismo que somente os principais candidatos nas pesquisas de intenção de votos possam participar de votos, algo como somente quem tiver 5% ou mais de intenção de votos – portanto com uma parcela que pode impactar efetivamente no resultado da eleição – terá direito a participar de debates. Excludente, com certeza, porém mais justo que o modelo vigente, pois igualaria candidatos insignificantes da mesma forma. Neste cenário, basicamente, teríamos somente 3 candidatos participando do debate neste ciclo eleitoral e somente neste último a candidata palíndromo poderia participar, por ter atingido 5% de intenção de votos.

Aliás, sobre isso, é importante ressaltar que o debate presidencial nestas eleições(e em praticamente toda a história da democracia brasileira) é todo tomado pela narrativa da direita. Todos os candidatos, exceto Lula, são do espectro à direita do pêndulo político. É literalmente todos contra um na construção do diálogo. A narrativa e os temas abordados são todos pautados por esses interesses. O quão enriquecedor poderia ser o debate para a população brasileira se houvessem mais candidatos de esquerda para colocar em pautas temas como transporte público, combate à miséria, saneamento básico, direitos do trabalhador e criação de empregos formais, temas muito mais próximos e impactantes na vida da maior parte da população que o eterno e vazio discurso de combate à corrupção ou “o que o mercado acha disso ou daquilo”? Até quando a discussão política no Brasil será pautada única e exclusivamente pelos donos do poder e nunca pelo povo?

Outro ponto a se destacar é a covardia do atual excremento da República, sem coragem para confrontar diretamente seu principal e infinitamente e superior adversário que lidera as pesquisas, e se utilizar destes candidatos laranjas para que possam atacar por ele. Para quem fica diariamente se colocando como o machão cheio de virilidade, uma postura muito medrosa e fraca. Fica a curiosidade (que espero não ser sanada) de ver como se portaria em um eventual debate de segundo turno, tendo que tratar direta e exclusivamente com adversário único, muito mais preparado e superior em todos os quesitos.

Por fim, se o Brasil fosse um país realmente sério, após 4 anos de absurdos diários, violência, mortes, fracasso na economia, descaso na saúde, falência da educação e entreguismo na defesa do meio ambiente, um candidato como o atual excremente da república não deveria ter mais que 5% de intenção de votos, cota destinada aos lunáticos e sociopatas de todo o país. Com a máquina pública nas mãos ainda poderíamos acrescer outros 5 a 7% de votos, o que somaria um terço do que possui, o que demonstra a falência moral e educacional da maior parcela da população brasileira. Mais triste ainda é ver partidos historicamente relevantes e progressistas como PTB e PDT se sujeitarem a servir de escada para o crescimento de um personagem tão vil e sujo como o capiroto do planalto. Uma vergonha para a história. Getúlio e Brizola se contorcem no caixão.

EXTRA: chamar alguém que se autointitula padre, porém não é ordenado e sequer participa da igreja da qual diz ser representante de impostor e afirmar que está usando uma fantasia não é faltar com respeito nem ofender. É simplesmente relatar um fato. O tal padre surgiu claramente para fazer o trabalho sujo de atacar o Lula nos temas pseudocristãos e de zero relevância para a governança de um país para o que excremento da república possa ser considerado minimamente ponderado, sem ter que assumir a responsabilidade por estes ataques. Uma vergonha que a justiça eleitoral permita esse tipo de conchavo.

IMPORTANTE: eleitores de Ciro e Tebet, sei que vocês insistem na decisão de não apoiar a tal polarização que tanto criticam, mas ela está aí e continuará acontecendo ainda mais fortemente se houver um segundo turno entre os candidatos que vocês alegam repudiar. Portanto, o voto de vocês não terá relevância na redução da polarização se for mantido nestes candidatos. Mas terá EXTREMA relevância se optarem por deixar de lado essa isenção e votar no único candidato que pode ser eleito já no próximo domingo e que irá garantir aos seus preferidos o direito de tentar novamente a presidência daqui a 4 anos com melhores chances. Com Lula presidente já no primeiro turno evitamos, não somente uma escalada ainda maior na polarização e violência até o segundo turno, como garantimos uma mensagem de força da democracia necessária para que possam tentar eleger seus candidatos a presidente em 2026. Com Lula eu tenho certeza de que a democracia brasileira continuará existindo, inclusive com o direito à forte oposição. Com o excremento da república tendo chances de se reeleger, ele ganha força em sua escalada golpista e antidemocrática e tentará se perpetuar no poder, até porque, se sair, sabe que será preso. Vocês têm a oportunidade de verdadeiramente serem a diferença entre a civilização e a barbárie nestas eleições. Podem ser voz relevante no processo democrático ou irrelevância estatística. Sejam conscientes. Em 2018 por escolha eu queria votar em Boulos presidente no 1º turno, mas optei pelo voto útil em Ciro por acreditar que teria maior chance de vencer Bolsonaro e o antipetismo no 2º turno outrora. Agora é a vez de vocês fazerem este movimento em direção ao voto útil em Lula e na democraria. O Brasil conta com vocês! Sejam conscientes!

ADENDO AOS MINEIROS: estamos fazendo bonito nas pesquisas e dando quase 20 pontos de vantagem para Lula contra o excremento da república. Mas não podemos escolher Lula e votar em Zema ao mesmo tempo. Zema é um bolsonaro embalado pra presentes. Zema é o bolsonarismo que aprendeu a escovar os dentes. Não podemos permitir um filhote do bolsonarismo se manter no poder em Minas. Lula é Kalil e Kalil é Lula. Se lembrem disso!

Esqueçam o combate à corrupção

Combate à corrupção – Créditos na imagem

Estamos a menos de 10 dias do primeiro turno das eleições de 2022, as mais importantes desde a redemocratização do Brasil, por isso o momento é bastante oportuno para abordar algumas questões que venho refletindo há meses, com relação a temas relacionados à presumida “festa da democracia”.

E o tema escolhido para abrir esta série de textos que trarei daqui até as eleições não poderia ser outro senão o combate à corrupção, ou sendo mais enfático, a própria corrupção em si. Este é um tema constantemente em voga ao se tratar de política e se for feita uma pesquisa com os cidadãos brasileiros que dizem detestar a política, me arrisco a dizer que a corrupção será apontada como a principal razão de tal “ódio”. Mais do que isso, o atual “presidente” (sempre entre aspas porque o elemento que hoje ocupa o planalto não é digno de ser tratado como presidente de fato), em sua busca ensandecida para se manter no poder – a fim de evitar a prisão por todos os crimes cometidos nos últimos 3 anos e meio – insiste no tema ao tentar colar a imagem de corrupção como exclusiva aos governos do PT e, consequentemente ao presidente Lula.

Não vou aqui fazer uma defesa dos governos petistas, tampouco vou me estender falando dos inúmeros escândalos de corrupção no atual governo, e muito menos vou ceder à tentação de cair na celeuma da competição de quem é mais corrupto, ou quem roubou mais porque não vai levar a lugar nenhum. De forma alguma; aliás, meu objetivo aqui é outro: é de expor a minha ideia de que deveríamos esquecer essa conversa de combate à corrupção em debates eleitorais e muito menos estabelecer esse requisito como parâmetro na hora de escolher um candidato no dia 02 de outubro.

E não falo somente das eleições presidenciais, mas de todo o espectro de cargos e candidatos existentes no pleito atual. É urgente e imprescindível que deixemos de lado essa temática anticorrupção porque a corrupção não deixará de acontecer, independentemente dos candidatos que possamos escolher no início do próximo mês. A corrupção é um traço cultural brasileiro, me arrisco a ir até um pouco mais além e dizer que se trata de uma predisposição da própria raça humana. O homo sapiens, como animal que é, foi constituído biologicamente para garantir a sua sobrevivência e do seu grupo imediatamente ao redor, utilizando para isso de todos os mecanismos possíveis, principalmente o seu imenso cérebro altamente desenvolvido. As regras sociais que ditam que tal comportamento é corrupto foram criadas posteriormente à constituição humana, portanto são estranhas ao nosso comportamento animal, daí que em uma ocasião na qual possamos obter uma vantagem que nos traga uma realização pessoal, raramente deixamos de aproveitar esta oportunidade, ainda que socialmente possa ser vista como um comportamento corrupto.

Sejamos honestos: todos nós cometemos pequenos atos de corrupção constantemente quase sem perceber. Seja furar uma fila enorme porque há um conhecido lá na frente que nos oferece um lugar junto dele, ou então a tal “caixinha” de TV para obter os canais pagos de forma gratuita, ou ainda os “cafezinhos” ou brindes que oferecemos ou recebemos a fim de desenrolar um trabalho mais rapidamente que por vias formais e corretas. Fato é que a diferença entre o cidadão comum que vive a sua vida comum e obtém pequenas vantagens cotidianas vistas como algo normal, e o político no congresso que desvia milhões de verbas direcionadas à hospitais ou merenda escolar de crianças para uso pessoal é puramente a oportunidade apresentada. Qualquer um de nós, que estivesse em condições similares à do político corrupto dificilmente teria uma reação diferente.

“Ah, mas veja bem, você está generalizando, não são todas as pessoas que são assim, isso é um absurdo”, diriam alguns. É mesmo absurdo? Será que, mesmo que lustremos nossa consciência com um verniz de idoneidade e ética, lá no fundo do nosso cérebro, a ideia de obter um dinheiro fácil, quase sem riscos, que eu poderia usar para o que bem entender, não mexe conosco? Será que eu seria capaz de “ceder à tentação” de ter um ganho tão fácil e simples assim?

A questão é pertinente, não acham?

E aí eu chego ao meu argumento final: a corrupção nos governos irá acontecer de qualquer forma. Seja X, Y ou Z no poder, os esquemas continuarão ocorrendo, ainda que uma ou outra voz dissonante queira chamar a atenção para algum esquema em particular. Porque trata-se de uma roda gigantesca que gira independentemente de quem esteja movendo-a no momento. Seja por qualquer motivo, é muito difícil alguém entre no governo, em qualquer cargo que seja, e terá condições de verdadeiramente combater a corrupção.

Sejamos práticos, o discurso anticorrupção é tão velho quanto a própria república brasileira. Temos documento históricos de campanhas na velha republica prometendo o fim da corrupção. Temos a mítica canção do “varre varre vassourinha’ prometendo varrer a corrupção do governo. Temos o “caçador de marajás” que ia limpar o país dos corruptos e caiu justamente por denúncias de corrupção.

Poderia prosseguir por horas, mas o fato é que combate à corrupção deve ser a promessa de campanha mais comum na política brasileira, e por isso não deveria ser a régua utilizada para medir os candidatos. Olhem para o programa de governo de cada um deles, vejam o que propõem para melhorar a dignidade do cidadão brasileiro. Quais suas propostas para a saúde, como irá fomentar a educação, quais as estratégias para o combate à violência e a pobreza, como pretende preservar o meio ambiente, dentre outros temas. Estes deveriam ser os tópicos relevantes ao se escolher um candidato. Esqueçam o combate a corrupção. Nenhum candidato conseguirá de fato mexer com esse tema. Seja por medo de ser rechaçado por seus pares, por ameaças ou simplesmente pelo tamanho do desafio para de fato ter alguma mudança, essa é uma promessa que não será cumprida, então deixem de lado de uma vez por todas essa discussão vazia e cobre dos candidatos maior profundidade de discurso e soluções concretas para os maiores problemas do país.

A redução da corrupção será consequência de um conjunto de transformações socioculturais em nosso país, e não causa. Será preciso investir muito tempo, dinheiro e disposição em ética, cidadania e principalmente educação para que possamos chegar a um patamar de verdadeiramente perceber uma redução na corrupção nacional. Neste momento, não será possível, foquemos, pois, naquilo que está ao nosso alcance: a chance de proporcionar uma vida um pouco mais digna a todos.

Políticos & Afins

Resolvi compartilhar com vocês uma história que tem rolado nos últimos meses de uns entreveros meus com um vereador aqui do município de Uberlândia. Não vou citar aqui o nome do vereador a fim de evitar potenciais problemas legais uma vez que a classe é bem volátil, e no Brasil de 2022 todo cuidado é pouco, não é mesmo?

Fato é que nessa legislatura é a primeira vez que conheço pessoalmente um vereador em exercício de mandato. Quando digo conhecer, me refiro ao fato que a minha vida cruzou com a da pessoa anteriormente à sua chegada ao poder. No caso em questão, conheço o vereador dos meios de convivência da igreja, grupos e pastorais nos quais participava e ocasionalmente cruzava com ele em encontros e eventos. Apesar de nunca termos sido amigos, nos tratávamos bem, ele era muito próximo a meus irmãos e por mais de uma vez chegou a frequentar a minha casa.

Desde muito jovem ele buscava um engajamento na política, tentando se associar a eventuais candidatos e tudo o mais. Acabou se lançando candidato a vereador em alguns pleitos anteriores, tendo votação irrisória. No ano de 2016 tentou novamente e apesar de ter tido uma votação um pouco melhor, não conseguiu se eleger, mas acabou beneficiado pelo escândalo ocorrido na Câmara Municipal onde quase toda a casa teve o mandato cassado. Acabou assumindo uma posição como vários dos suplentes e pôde fazer campanha em 2020 como vereador em exercício. Acabou sendo eleito com menos votos que muitos outros candidatos, graças àquele mistério insondável do coeficiente eleitoral, com base nas coligações partidárias.

Deixo claro que nunca votei nele. Em nenhuma das eleições que participou, e muito menos na que acabou eleito, da qual eu nem participei, por estar no meio de uma pandemia e há menos de 1 mês do nascimento de minha filha. Mas me alegrei com a sua eleição e acreditei se tratar do meu representante no poder. Por essa razão, decidi que iria acompanhar o seu mandato bem de perto, como deveríamos fazer com todos os políticos, mas infelizmente não fazemos.

Não cheguei a me surpreender com a sua postura enquanto vereador, mas confesso que me impactou negativamente. Para alguém que vinha de movimentos pastorais da Igreja, que pregava o amor ao próximo e a defesa dos pobres e oprimidos o seu mandato tem sido de uma irrelevância e de um posicionamento que, fosse comigo, me sentiria envergonhado. Em todo momento durante o exercício de seu mandato, o vereador se posicionou favoravelmente ao poder, defendendo interesses de ricos e poderosos e sempre se colocando contrário a pautas humanitárias ou em defesa do pobre ou da vida humana. Como estamos vivendo um contexto de pandemia, sempre se colocou do lado dos negacionistas, dos anti-ciência e dos que lutaram arduamente pela disseminação do vírus da covid 19.

Não satisfeito com essa postura vergonhosa, ainda quando havia projetos em defesa do meio ambiente, ou de projetos em prol da dignidade da vida dos pobres e da população marginalizada na cidade, se postava de forma contraria, sempre alinhado ao poder e ao elitismo. E o que há de pior no Brasil deste momento: alinhado ao Bolsonarismo.

Por conta dessa postura vergonhosa, na qual não me sinto de forma alguma representado, comecei a me posicionar contrário a ele. Passei a comentar as suas postagens nas redes sociais, cobrando uma postura mais coerente com a sua história de vida e com os valores que ele jurou defender. Como nunca recebia nenhum retorno, comecei a mandar mensagens no formulário inbox de suas redes sociais, tentando um posicionamento da parte dele. Inicialmente recebia respostas vazias do tipo “marque um horário em meu gabinete, venha conversar”, o que naturalmente era uma impossibilidade, dentro do contexto de pandemia que estávamos vivendo e no qual deixava minha casa única e exclusivamente para atividades essenciais. Como as respostas eram sempre genéricas, imaginei que se tratasse de um assessor fajuto que acompanhava suas redes sociais, até que me irmão comentou que ele passou a ligar para o meu irmão quando eu mandava alguma mensagem.

O objetivo dessa abordagem eu não entendi, uma vez que me irmão é uma pessoa totalmente diferente de mim e não tem qualquer responsabilidade sobre o que eu falei.  Em todo caso, continuei postando e cobrando posições mais cristãs (já que ele adora postar coisas religiosas em suas redes) e maior coerência entre o discurso que prega e a atuação parlamentar.

Confesso que sentia um pouco de prazer em ficar fazendo estas cobranças e provocações, pois sabia que ele lia todas, ainda que não respondesse sempre. Afinal, quem de nós brasileiros oprimidos não gostariam de ter uma linha direta com algum político para externalizar todas as frustrações e decepções com essa classe tão baixa e vil? Sim, eu gostava dessa ligação e podia expressar toda a minha irritação com um político em exercício de mandato, tão acostumado a ser somente bajulado e jamais contrariado.

Claro que como todo político vaidoso e que não tolera críticas, ele começou a se irritar comigo e ser um pouco menos polido nas respostas, até o momento em que ele foi coautor de um projeto na câmara de Uberlândia proibindo passaporte vacinal. Essa postura tão negacionista foi demais para mim e me posicionei duramente contra ele, acusando-o de fazer necropolitica e se alinhar ao que há de mais baixo na política nacional, e que deveria ter vergonha dessa postura que defende a morte. Ele se irritou e me acusou de não estar aberto ao diálogo e que não aceitava contestações em minhas posições. Retornei colocando o meu telefone e endereço na mensagem, o convidando a ligar para mim caso quisesse conversar, ou me visitando em minha casa, me colocando a disposição para ouvir o que ele tivesse a dizer, com a condição que pudesse ouvir também o que eu tivesse para falar.

Ele, claro, não se manifestou mais. Não me ligou e obviamente não apareceu em minha casa. Nesse meio tempo passei a confrontar toda postagem inútil que ele fazia nas redes sociais, especialmente aquelas que nada condizem com o seu mandato como parlamentar. Como na vez em que foi comentar sobre a decisão da justiça colombiana pela descriminalização do aborto naquele país, eu apareci falando “o que uma decisão da justiça colombiana influencia no mandato de um vereador de Uberlândia? Deixe de conversa e vá se preocupar com os problemas de nossa cidade”. Ou agora recentemente quando foi fazer vídeo de repudio sobre a falsa polemica do filme do Danilo Gentili. Aquele filme lançado há mais de 5 anos atrás e que foi aplaudido pelos bolsonaristas como “uma perola em defesa do politicamente incorreto”, ou “contra a ditadura do politicamente correto”, asneiras desse tipo. Agora que o governo é incapaz de combater a inflação galopante, buscou no filme do ex aliado e agora desafeto a distração necessária para afastar o povo das cobranças em cima do que é relevante.

E vem esse vereador fazer vídeo repudiando o filme, como se isso tivesse alguma relação com o seu mandato como parlamentar municipal. Mais uma vez, é claro, fui aos comentários falar que isso nada tem a ver com o seu cargo, que ele deveria deixar de dar ibope para essas cortinas de fumaça do governo federal e se preocupar em atuar pelo bem da população da cidade. E fui à mensagem direta cobrar dele a oportunidade de falarmos pessoalmente. Como ele não quis entrar em contato comigo, perguntei como fazia para marcar um horário no gabinete dele para conversar pessoalmente, agora que a pandemia está (finalmente) recuando, já me sinto seguro para sair e ter esse encontro pessoalmente.

Fui além e disse que queria encontrar pessoalmente para poder dizer olhando nos olhos dele o quanto considero o mandato dele uma decepção. Ahh, foi a deixa para ele encrespar. Acabei tocando em um ponto sensível. A vaidade é algo que mexe profundamente com um político, né. São seres tão acostumado a terem sempre diversos assessores os bajulando diariamente, e quando encontram com a população, são acostumados a serem tratados sempre com tantas mesuras e veneração que se ofendem quando um zé ninguém como eu não os trata com deferência, pelo contrário, ousa dizer que os considera uma decepção. Não faltei com respeito e nem o acusei de nada. Simplesmente disse que considerava o seu mandato uma decepção e um desperdício de uma excelente oportunidade de fazer a diferença na vida de muitas pessoas. Afinal de contas, um vereador, se quiser, pode criar projetos de leis que beneficiam muitas pessoas, ainda mais em uma cidade grande e com tantas pessoas em situação de vulnerabilidade, como é o caso de Uberlândia.

Mas o vereador se doeu como se eu tivesse o atacado pessoalmente. Me acusou de ser “tão assertivo com todos”, como se isso fosse uma ofensa (mal sabe ele que todo o meu processo terapêutico é essencialmente uma busca por assertividade constante) e que não “iria se sujeitar a algo tão baixo”. Eu o questionei sobre o que seria algo tão baixo, uma vez que ouvir críticas está no escopo de um servidor público que representa a população, como é um vereador. Ouvir críticas e sugestões deveria ser a primeira demanda de um político, não acham? Não é função dele ouvir o que a população tem a dizer, mesmo que seja contrário ao que ele ache correto? Um político que ouve somente aquilo que quer ouvir está verdadeiramente abrindo espaço para todos ou está somente alimentando o seu ego e inflando ainda mais a sua bolha? Um político que está realmente aberto a ouvir a população e buscar soluções que melhore a vida de todos não deveria estar receptivo às críticas para buscar crescer com a diferença? Um político em exercício de mandato não é representante de toda a população e jamais somente àqueles que o elegeram? Entendo que um político deva satisfações aos cidadãos que o elegeram, mas não deve jamais buscar governar somente para esses, e sim para toda a população. Sei que hoje é difícil entender isso, uma vez que o próprio presidente da república governa só em benefício próprio ou fazendo gracejos para os 25% que ainda o defendem, mas cabe a todos nós, cidadão esclarecidos os recordarem que uma vez que estão em um cargo público, são responsáveis por governar para a população, inclusive para aqueles que os criticam.

O nobre vereador a que me refiro nesse texto me intimou a buscar falar com todos os vereadores, sem distinção. E eu respondi que, em um mundo ideal, isso seria sim o melhor a se fazer, mas que é impossível e impraticável, primeiramente porque a maioria dos vereadores são inacessíveis e caso você não possua um vínculo direto, eles jamais abrirão espaço para conversar com quem quer que seja que não tenha poder ou influência, como é o meu caso. Então, nessa seara, já que é impossível falar com todos os vereadores, prefiro visitar e falar com aquele que conheço pessoalmente, aquele que já frequentou a minha casa, aquele já fez pregações em grupos de oração que tocaram o meu coração e aquele que eu imaginava que verdadeiramente poderia fazer a diferença em um cargo público. Vamos ver se ele terá a coragem de me conceder um espaço para conversar pessoalmente.

É impressionante como a classe política no Brasil é mal-formada, mal estruturada, e mal assessorada. E como os egos são inflados rapidamente e com pouquíssimo tempo de mandato eles passam a acreditar que são superiores à população que o elegeu, e passam a se colocar em um pedestal acima de todos, não aceitando críticas de quem pensa minimamente diferente deles. É um jogo de vaidades em que ficam se elogiando mutuamente, um corporativismo arraigado que não aceitam ser contrariados por quem quer que seja.

E vejam só, estou falando de um ínfimo vereador de uma cidade do interior do país, que, quando era um zé ninguém era cheio de simpatia, de disponibilidade, de vontade de acolher as pessoas. Agora, com um mínimo de poder, se coloca acima do bem e do mal, se acha no direito de julgar quem pensa diferente dele como “baixo”, e fica querendo diminuir a posição alheira e fugindo do debate com o diverso.

Não por acaso vivemos esse descaso e desilusão da população com a classe política. Quando acreditamos que alguém que é “gente como a gente” chega ao poder e poderá fazer a diferença, ele se esquece de suas origens e passa a agir exatamente como os que já estão lá há anos, perpetuando um modelo político baixo, vil, corporativista e vaidoso, que não acrescenta nada à vida do cidadão comum e possui um distanciamento absurdo da população, a ponto de não se identificar mais como um cidadão comum, exceto quando quer fazer politicagem barata.

Enquanto não mudarmos a sociedade para que saibamos cobrar os políticos, e aí tenham que verdadeiramente mudar a sua postura, estaremos condenados a repetir esse mesmo modelo instituído há mais de 100 anos e que não levará o país a lugar nenhum.