Não se engane: apesar do título extremamente sensacionalista, este é um bom livro. Bem escrito, com bom referencial bibliográfico e o melhor de tudo: imparcial. Como trata de política, os autores tiveram uma preocupação muito grande e latente de serem o mais imparcial possível, cuidado especialmente importante neste momento nefasto da história brasileira que vivemos, cheio de “nós e eles” cheio de ódios.
“Você foi Enganado”: apesar do título sensacionalista, uma excelente leitura.
O pior do livro realmente é o título, muito sensacionalista para o meu gosto, mas entendo o apelo de chamar a atenção logo de cara, tanto do militante esquerdista quanto do extremista de direita, e todos as demais vertentes que habitam este espectro. Relevando-se o título, o livro aborda de forma ilustrativa e direta mais de 40 anos da história política brasileira, começando nos primeiros anos da década de 80 até o limiar das últimas eleições presidenciais em 2018, passando, portanto, pelo final da ditadura militar, o movimento pelas “Diretas Já”, a luta incessante contra a inflação na chamada “década perdida” até a redemocratização e as primeiras eleições presidenciais diretas após mais de 25 anos.
Segue passando pelo impeachment de Collor, o plano Real, os governos FHC, a chegada da esquerda ao poder até a sua derrocada em 2016 e o governo neoliberal que sucedeu. Por finalizar sua pesquisa neste momento, o livro não teve a oportunidade de falar sobre a guinada ao extremismo neofascista que vivemos atualmente que teria amplo material para uma obra que fala de mentiras contadas pelos governantes do país.
O livro me surpreendeu positivamente pela forma como tratou estas mentiras, sem escolha de favoritismos, independentemente da orientação do governo retratado, e olha que passaram por presidentes de diversas orientações e perfis, dedicando um capitulo a cada um deles, focando especialmente no tema que consideraram mais importante de tratar sobre aquele governo. Aqui talvez seja o momento de maior parcialidade dos autores, ao definir quais as “mentiras” iriam focar a respeito de cada presidente da república; mas ainda assim entendo que as escolhas foram feitas muito mais por uma necessidade de definir o objeto da pesquisa para delimitação do tema que algum interesse pessoal escondido por detrás. A meu ver, o trabalho foi bem feito.
Dessa forma, o livro traz capítulos sobre o general Figueiredo, sobre o presidente eleito indiretamente – e jamais empossado – Tancredo Neves, seu vice José Sarney, que foi quem assumiu de fato o poder e governou até 1990. Trazem um capítulo sobre Collor, e posteriormente sobre seu vice, Itamar Franco e a criação do plano Real. Tem outro capítulo dedicado aos governos FHC, Lula e Dilma, chegando até ao seu vice/traidor Michel Temer que assume o poder após o golpe que tirou a primeira mulher eleita presidente de nosso país. Reparem que em pouco mais de 30 anos tivemos 3 vice presidentes alçados ao poder no Brasil. Afinal de contas, não parece ser um cargo tão figurativo quanto vendem por aí… ao menos no Brasil.
Concluindo, o livro foi uma agradável surpresa me entregando mais do que esperava, e por este motivo eu recomendo a todos a leitura, sempre, porém com o viés critico de entender que, ainda que a temática do livro sejam as mentiras presidenciais, elas precisam ser contextualizadas para serem entendidas integralmente, não somente como um exercício de ódio à política. Nota 4/5.
Encontrei este livro por acaso na internet, quando navegava em busca de novos ebooks para alimentar meu desejo incessante por novas histórias. Logo de cara me chamou atenção, principalmente por gostar de história política e o JFK ser um personagem tão mencionado na cultura pop nos últimos 60 anos e alvo de tantas teorias conspiratórias e discussões reais que me fisgou imediatamente.
Mais do que um relato de somente os últimos dias do presidente americano antes do atentado que custou a sua vida em Dallas no fatídico novembro de 63, o livro retrata de uma forma direta e objetiva a maior parte de sua vida pública, e como chegou ao cargo político mais cobiçado do século XX. O autor faz um relato da ascensão de Kennedy e sua chegada à Casa Branca, algumas das alianças e parcerias que firmou ao longo dos anos com personagens igualmente famosos e que podem ou não ter influenciado de forma mais impactante sua postura como presidente.
Algumas trivialidades chamam bastante atenção, como a questão sobre a vida sexual de Kennedy, ou suas amizades com o mundo artístico e musical, no qual me chamou a atenção especialmente a ligação com Frank Sinatra e os vínculos que este possuía com a máfia da época.
Mas, indiscutivelmente, o motivo maior por ter me interessado pelo livro e ter desfrutado imensamente da leitura foi o fato de que o governo de JFK se situa exatamente durante o momento mais dramático e significativo da Guerra Fria e do século XX de modo geral. Outros podem citar momentos que considerem mais relevantes, mas para mim a ebulição social e o acirramento da tensão entre URSS e EUA no começo dos anos 60 e a chegada de um presidente jovem e civil ao poder da nação com o maior arsenal nuclear da época logo após um antigo general da Segunda Guerra Mundial, com toda a questão da revolução cubana ainda ressoando em todo mundo a partir da ilha caribenha, a somente alguns quilômetros da costa da Florida, além do surgimento dos distúrbios internos decorrentes do crescimento dos movimentos pelos direitos civis e luta pela igualdade racial nos EUA tornam, ao menos para mim, um relato interessantíssimo de como a situação era encarada à época.
Tenho um interesse perene por história e geografia, e a geopolítica da década de 60 é um assunto simplesmente delicioso de se observar pelos mais diversos olhares. Invasão da Baía dos Porcos fracassada, pressão dos militares por um conflito direto em Cuba, crise dos misseis e novo episódio dos milicos sedentos por sangue precisando ser controlados, tudo isso foi muito bem permeado com questões familiares triviais, como a postura da primeira dama (e também uma celebridade para a população americana) Jackie Kennedy, a relação do presidente com a esposa e a família e o drama da gestação durante o mandato e a perda gestacional pouco depois. Tudo isso possibilitou uma humanização do presidente como nunca houve antes, tornando-se histórico. Nenhum outro político americano é tão lembrado e citado quanto JFK. Nem Lincoln possui tamanho alcance e apelo.
As teorias conspiratórias a respeito de sua morte(das quais possuo algumas opiniões que podem valer um novo texto posteriormente), a questão geopolítica da Guerra Fria, o embrião dos direitos civis em seu governo, o discurso e a promessa que foram a base para a corrida espacial que culminaria com Neil Armstrong colocando os pés em solo lunar ao final da década, tudo isso é um conjunto irresistível. O livro é escrito de forma didática, interessante e casual, sem parecer uma biografia de fato, tampouco um romance barato sobre a vida de celebridades. É um relato poderoso de um personagem peculiar e carismático vivendo um dos períodos mais turbulentos do século XX. Muito interessante, especialmente a quem gosta de geopolítica e história. Recomendado. Nota 4/5
Como disse na última postagem, perdi um pouco do ritmo nas semanas pré e pós eleições, não consegui escrever muito e ler ainda menos. Mas havia finalizado algumas leituras que ainda não havia compartilhado a resenha por aqui. Como não gosto de deixar nada para trás, e no intuito de enriquecer o debate com quem se interessar por mergulhar nestas leituras que apresento, vou trazer a resenha de algumas obras que li ainda neste ano de 2022, a começar pelo livro “Operação Cavalo de Troia 3 – Saidan”. Sigamos.
Operação Cavalo de Tróia 3 – O mais cansativo da série até o momento.
Não gostei deste livro. Simples e direto. Não há muito o que falar quando a leitura não é minimamente prazerosa e infelizmente foi o caso destes “Operação Cavalo de Troia 3 – Saidan” de J.J. Benitez. O primeiro livro da extensa série foi muito marcante para mim, e me propôs reflexões muito importantes a respeito de religiosidade e espiritualidade, além de misturar temáticas de romances de suspense e thrillers interessantes, além da óbvia abordagem de ficção científica. Por isso eu me propus a ler toda a série, mesmo sabendo que seriam mais de 10 livros. A minha resolução foi levemente abalada ao ler o volume 2, que, ainda que fosse interessante, se utilizou muito dos mesmos elementos no primeiro livro, especialmente no que se referem às críticas à igreja e aos evangelhos tradicionais. Essa insistência que, no primeiro volume soava espontânea e agregando ao texto, no segundo se transformou em uma insistente critica pela crítica e no terceiro volume atingiu níveis ainda maiores, ao ponto de me deixar desconfortável.
Aos que não conhecem, acredito que não haja problema em tratar de possíveis spoilers sobre o livro – ainda mais que se tratam de volumes com mais de 20 anos de lançamento – ainda assim, quem não quiser saber maiores detalhes da trama, melhor pular esse parágrafo. O livro trata-se de uma ficção cientifica em que os personagens principais são militares do exército estadunidense que durante as pesquisas cientificas descobrem uma forma de manipular o tempo e realizar viagens entre períodos distintos da história – essencialmente, criam uma máquina do tempo – e decidem por retornar ao tempo de Jesus Cristo. Nos dois primeiros volumes são abordados a paixão e ressurreição de Cristo. Neste terceiro livro os “exploradores” se propõem a seguir os passos dos discípulos ao retornarem à Galileia após a ressurreição de Jesus e suas milagrosas aparições em meio aos seus apóstolos.
Até aí, parece muito interessante, porém o desgastante é que o autor demora enormemente a entrar no chamado “diário do major”, cansando o leitor que espera ansiosamente partir para a Galileia do século I. O autor constrói sua narrativa como um personagem da própria história e participa ativamente do desenrolar dos fatos ao buscar a segunda parte do diário do major na Jerusalém do século XX. Porém ele demora tanto a resolver essa parte da narrativa, se detendo ao menor e mais insignificante detalhe e pensamento aleatório ocorrido, diminuindo muito a fluidez da leitura e o interesse do leitor pelo andamento da obra, tanto que quando finalmente inicia a narração dos episódios fantásticos da viagem no tempo, o leitor já está com má vontade com o livro e os menos determinados provavelmente já o deixaram de lado.
Acredito que eu ainda darei chances à série de livros, até mesmo para ver se transformo a má impressão dessa leitura, mas a realidade é que o terceiro livro é chato, pouco emocionante e descartável. Não me cativou, nota 1,5/5.
Este texto não tem o desejo de soar pretensioso, elitista ou intelectual, relatando a experiência de ir ao teatro como algo superior ou descolado. Não sou superior a ninguém e muito menos descolado. Pretendo somente compartilhar com vocês uma experiência deliciosamente leve e revigorante ao mesmo tempo, permitindo nos desconectar da realidade por 90 minutos e vivenciar uma experiência transcendental de conexão com a arte e com a lembrança de que, apesar de tudo, ainda resta beleza neste mundo e que podemos desfrutar dela, basta querer.
Oswaldo Montenegro – Teatro Municipal de Uberlândia – 13/10/22
Me refiro a experiência de poder vivenciar a apresentação de Oswaldo Montenegro na noite de ontem aqui em Uberlândia, no teatro municipal. Quem me conhece sabe que, apesar de conhecê-lo enquanto artista desde a minha infância, eu “descobri” Oswaldo em 2014 em uma apresentação gratuita aqui na cidade. De lá para cá, consumi a sua discografia avassaladoramente e me tornei um admirador incondicional de sua capacidade artística.
Essa descoberta me proporcionou uma conexão com um aspecto artístico e de sensibilidade que sempre me havia escapado. Não fui criado ou educado para experimentar e apreciar a arte. Tampouco para desenvolver a sensibilidade. E a obra e a vida de Oswaldo Montenegro foi uma hecatombe de descoberta deste universo e ao mesmo tempo uma ponte de conexão justamente com estes aspectos tão negligenciados de minha formação pessoal.
Como o relato feito pela atriz Paloma Duarte em um dos DVDs de um show de Oswaldo, ele consome e produz arte 24 horas por dia. E é impossível a qualquer pessoa que tenha contato com uma obra de Oswaldo ficar indiferente a ela. Seja diante de uma pintura, de um poema, de uma peça de teatro, de um curta metragem ou, é claro, diante de uma de suas canções.
A experiência de vivenciar uma apresentação musical de Oswaldo Montenegro é como experimentar diversas sensações em um curto espaço de tempo. Se vai da alegria à melancolia, passando por momentos de deslumbre e arrebatamento, combinando risadas com momentos de profunda reflexão e, ao final da apresentação, a sensação é de alma lavada e reenergizada.
Particularmente neste momento tão tenso em que vivemos, com emoções à flor da pele e em constante ebulição, a sensação de poder se sentar e viver e sentir uma canção de Oswaldo transcende o simples “ouvir” música, nos permitindo experimentar a arte com todos os nossos sentidos, e mais do que isso, nos conectar com aspectos esquecidos de nossa ou nunca experimentados de sensibilidade, nos permitindo acreditar que tudo pode melhorar, que tudo irá melhorar, pois, como bem diz o artista, “que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer”, maravilhoso poema-canção e talvez a obra mais famosa de Oswaldo, Metade.
O show em si é tecnicamente perfeito, exaltando todas as qualidades de Oswaldo como cantor, compositor e instrumentista, onde ele passa por toda a sua carreira com um pot-pourri de uma hora de duração, com uma canção se sobrepondo a outra e formando uma sequencia maravilhosa na qual não se é possível encontrar uma que se goste menos, ou que não seja tão boa quanto a anterior, na qual destaco a poderosa e inspiradora “Eu quero ser feliz agora”,com seu grito de inconformismo e declaração de autodeterminação em busca da felicidade.
Além do desfrutar de canções tão belas, existem momentos excepcionais na apresentação, como a oportunidade para reflexão e cura interna de uma dor ou trauma, durante a apresentação da belíssima “Estrada Nova”, uma das canções mais belas e tocantes que já conheci, expressando emoções e sentimentos que jamais havia conseguido expressar antes.
Há também o momento de reverência de Oswaldo a outros artistas que o inspiraram e inspiram ainda hoje, com recortes de gracejo e autodepreciação quando o artista relata que tinha um grave defeito e que levou anos para superar, e quando a audiência se pergunta qual seria tal defeito, ele completa “eu era jovem…”, arrancando risos de toda a plateia. Neste momento o artista ressalta como se encanta com a canção Blowing in the Wind e a frustração de não ter encontrado resposta alguma no vento, e que, por sua vez, responde a Bob Dylan em forma de homenagem, afirmando que “o vento não traz resposta, acabou”, refletindo ainda a respeito do medo humano da solidão. Tem ainda a reverência a Jorge Ben Jor por, nas palavras de Oswaldo, “nunca ter escrito uma música triste”, e como ele – Oswaldo – afirma que nunca havia conseguido isso e precisou se esforçar muito para conseguir compor uma canção que não fosse triste, resultando na maravilhosa e reconfortante “Sem Mandamentos”.
Ainda nesta temática, houve um momento espontâneo vindo da plateia que resultou em uma homenagem a Belchior, quando uma pessoa pediu para Oswaldo cantar “A palo seco”, no que ele afirmou que “queria ter escrito essa canção”, sendo tal declaração o ápice de admiração e respeito pela obra do genial cantor cearense.
A segunda parte da apresentação foi um diálogo entre o artista e o público, com bastante informalidade e bom humor, no qual ele conta histórias, relata experiências da vida, faz reflexões a respeito do mundo e da história e relata sobre as trilhas sonoras de seus filmes, resultando em momentos deliciosos, como a reflexiva e provocativa “A lógica da criação” que coloca em versos os questionamentos em que todos nós fazemos em algum momento da vida mas não temos a coragem ou a disposição de colocar em palavras. Importante destacar ainda a breve palhinha a pedido de uma fã da canção “Incompatibilidade” que, com seu ritmo rápido e animado, levantou da cadeira e colocou para dançar as poucas crianças presentes no teatro, mostrando que a obra de Oswaldo transcende faixa etária e pode ser apreciada em todos os momentos da vida.
Por fim, a apresentação é um balsamo de paz e sensibilidade artística em meio ao caos do mundo atual, uma ilha de beleza e emoção que nos permite um respiro e ressalta a importância e a necessidade da democratização do acesso de todos à arte e a cultura. A dureza do mundo torna-se muito mais fácil de lidar quando há esse respiro proporcionado pela arte. E Oswaldo é um artista completo. O meu artista favorito, ainda que isso não signifique muita coisa para alguém além de mim mesmo. Foi minha terceira oportunidade de acompanhar um show ao vivo e espero que venham muitas outras. E para quem ainda não pôde acompanhar, eu ressalto: não percam a oportunidade. Mais que um show de música, é uma experiência de vida. Mesmo que não conheça uma canção sequer, eu tenho a certeza de que irá sair da apresentação muito melhor que chegou. Vida longa à arte e à boa música!
Acabo de terminar o meu maior desafio literário de 2022: ler as mais de 1600 páginas de “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. Foi um processo longo, penoso, cheio de altos e baixos, mas com um resultado misto, de emoções diversas. Ou como dizem os falantes da língua inglesa, um tanto “bittersweet”.
O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas
Mas, vamos à análise. Conheci a história por conta do filme lançado há 20 anos. Na minha ingenuidade de menino do interior de Minas, não tinha muita noção da existência destes clássicos da literatura de mais de 200 anos atrás, por isso a minha primeira experiência foi com a película cinematográfica, de uma forma um tanto curiosa. Em uma viagem de escola, nos tempos de colegial, o organizador havia levado 2 filmes para assistirmos na viagem. Um era “O Terno de 6 bilhões de dólares”, com Jackie Chan e o outro, O Conde de Monte Cristo. Havia visto o primeiro no cinema, e o segundo acabou me prendendo ainda mais. Achei a história bem cativante e interessante e, quando soube muitos anos depois que era um filme baseado em um romance literário, fiz uma anotação mental para me embrenhar na leitura assim que conseguisse colocar as mãos no romance de mais de 150 anos.
A oportunidade surgiu há alguns anos, quando encontrei o ebook disponível na internet e o coloquei em minha biblioteca. Fiquei namorando e buscando disposição para encarar o calhamaço de quase 2000 páginas e, finalmente neste 2022 resolvi encarar o desafio. Como a versão que tive acesso é uma versão estendida, com nova tradução e comentários, acabou sendo um pouco mais extenso que o romance original, com impressões de jornalistas sobre a vida e a obra do autor, que auxiliaram a compreender um pouco mais sobre a conjuntura na qual a obra foi escrita e o processo construtivo de todo o texto. Algumas novidades me chamaram a atenção logo de cara, que foi o fato de que o livro não foi lançado completo logo de cara, mas sim em diversas partes ao longo de meses, quase como uma série de diversos volumes que iam se interligando para construir todo o universo do romance. A segunda parte que me chamou a atenção foi a de que Dumas não escrevia sozinho os seus romances, tendo vários colaboradores que auxiliavam ao longo do texto, colocando as suas próprias ideias e impressões, o que pode ser sentido ao longo da obra, ainda que de forma sutil em que nada impacte no resultado.
Posto isso, vamos ao livro. A primeira coisa a se falar é que é uma leitura um tanto cansativa, logicamente pelo tamanho do livro, que se pode presumir uma riqueza excessiva de detalhes e um prolongamento da narrativa além do essencial para garantir o interesse e a riqueza da história. Como a minha primeira experiencia com o universo foi pelo filme, é inevitável traçar paralelos e fazer comparações entre a película e o livro, e são absolutamente diferentes. O trecho mais fiel no filme é o início da narrativa, mostrando como Edmond Dantes foi traído e condenado à prisão perpétua e o seu tempo no cativeiro, até a ousada fuga do Castelo de If. A partir daí, há uma constante separação entre o filme e o livro, optando por caminhos diversos para narrar os caminhos que o Conde de Monte Cristo segue para perpetrar a sua vingança àqueles que o traíram.
O ponto mais marcante sobre essas diferenças é que no livro, são essencialmente 3 os personagens que tramam a prisão de Dantés e o levam a alimentar desejos de vingança, enquanto no filme, talvez até para se enquadrar melhor no formato cinematográfico de mocinho x vilão, os 3 personagens tornam-se um só que é o responsável por todo o infortúnio do nosso herói
Um aspecto interessante e ao mesmo tempo cansativo do livro é que, todo o cenário de fundo que permeia os trechos iniciais da obra, e os seus eventuais desdobramentos refere-se ao período napoleônico e o seu exilio para a ilha de Elba, sua tentativa de retomada do poder e sua expulsão definitiva, o que, para fanáticos por história como eu, é bastante rico de detalhes e agrega muito à história, ao mesmo tempo que, a riqueza de discussões politicas e históricas torna a leitura um tanto cansativa e deixa a sensação de que a leitura seria mais impactante se não fosse tão extensa. Esse mesmo aspecto retorna em vários outros momentos da narrativa, onde, para chegar ao momento do ápice narrativo em um episódio, o autor retrocede a pontos muito antigos e relata detalhadamente como tudo aconteceu até se chegar ao momento realmente relevante para a história. Vou ilustrar esse ponto: em um determinado ponto da história, o visconde Albert de Morcef (não vou dizer quem ele é na história, para não dar spoiler) é capturado por bandoleiros romanos sob o comando de Luigi Vampa. Para chegar neste ponto da história, o autor retrocede até antes do nascimento de Vampa, para explicar que havia um corso que aterrorizava determinada região da Itália, com assaltos e sequestros, passando pelo nascimento e infância de Vampa, até que Vampa se encontra com este corsário e o desafia para um duelo ao ter sua namorada sequestrada por ele, vencendo o duelo e se tornando o lider do bando e como eles mudam de ataques nas regiões campestres da Itália para se sediarem em Roma e daí se desdobrar ate o sequestro do visconde de Morcef.
Exemplos de saltos retrospectivos e narrativas amplamente descritivas de fatos pouco impactantes no desenrolar da história principal são comuns e acabam por cansar o leitor um pouco, deixando a sensação de que, com um romance mais enxuto, de cerca de 700 paginas a história poderia ser contada de forma muito mais objetiva e sem perder nenhum detalhe, mas sendo um volume muito mais eletrizante e cativante. Mesmo vindo em um ritmo de leitura bastante rápido, acabei levando 2 meses para concluir a obra, claro que também se considerando o tamanho do calhamaço, mas ainda assim, a minha sensação é de que uma narrativa mais objetiva poderia aumentar a capacidade de prender a atenção do leitor e dar aquela sensação de não querer deixar o livro de lado.
Entendo perfeitamente porém, que, na época em que foi escrito, este era o modelo vigente na literatura e ele foi escrito para as pessoas de seu tempo, por isso relativizo esta questão e contemporizo, pontuando com os meus olhos de leitor do século XXI mas, respeitando a tradição e o brilhantismo da obra, ao mesmo tempo em que avalio com base nos meus critérios e pensando em leitores do meu tempo que, porventura, leiam esta resenha ao decidirem se irão se embrenhar no emaranhado de intrigas, conspirações e jogos de aparência da Paris do século XIX.
Um outro ponto que gostaria de destacar antes de finalizar esta resenha é com relação ao final do romance. Ainda que eu não vá dar qualquer spoiler a respeito de como o livro é finalizado, a conclusão é de conhecimento de muitas pessoas, tendo em vista que foi lançado um filme hollywoodiano sobre a obra. E talvez influenciado por este filme, eu esperava um final diferente, que a meu ver foi concluído muito sem emoção e de uma forma um tanto acelerada, quase como se o autor, a escrever mais de 1600 páginas não soubesse como terminar de forma satisfatória o seu romance. É estranho, pois ficamos esperando aquele clímax da história, onde tudo é desvelado, somos impactados e no final, há somente umas páginas de conclusão e respiro para assimilar tudo o que aconteceu nas paginas anteriores. Neste livro não tive essa sensação, parece que tudo se encerra de forma muito sem clímax, somente com pequenas pinceladas de emoção e drama, mas sem aquele momento de “puxa vida” que adoramos na conclusão de uma história. É quase como se a história fosse esquentando, mas ao invés daquele momento de pegar fogo, ela voltasse a se esfriar e seguisse no máximo, morno até o final.
Foi gostoso viver essa experiência e estou feliz por ter me desafiado a encarar esta leitura, e agradecido por ter conhecido um clássico da literatura mundial, mas para meu gosto pessoal, foi uma leitura apenas mediana, sem o impacto avassalador que me fez apaixonar por literatura. Nota 3,5/5.
Acabo de finalizar a leitura mais demorada e trabalhosa nesse 2022. Não que fosse a obra mais longa e difícil que encarei neste inicio de ano, mas por algum motivo eu não consegui engajar tão facilmente neste “O Silêncio das Montanhas”, do autor afegão Khaled Hosseini. É a segunda obra do autor que leio, após o sucesso “O caçador de pipas”, que li há muitos anos atras.
Acredito que seja uma questão de gosto pessoal mesmo, mas não consigo me conectar tanto com as histórias escritas pelo autor. Não que sejam mal escritas, muito pelo contrário. O autor tem uma sensibilidade muito tocante ao escrever sobre a cultura afegã e este país tão sofrido e maltratado, que se tornou um joguete nas mãos das superpotências durante a guerra fria e depois.
Este, aliás, é o ponto que mais gosto neste livro: o autor aborda muitos detalhes sobre como era a vida dos afegãos antes, durante e depois dos acontecimentos dramáticos que jogaram o país no meio do conflito entre as superpotências no final da década de 70 do século XX e os posteriores desdobramentos, até nos trazer ao século XXI.
Falando sobre a obra, o autor retrata dois irmãos pequenos vivendo em uma pequena aldeia afegã no início dos anos 50 e os desdobramentos de suas vidas ao longo de meio século. Não vou retratar detalhes da história, mas um detalhe interessante que acabei apreciando, ainda que tenha achado um pouco confuso é o fato de o autor alternar entre diversos narradores sem uma cronologia específica e declarada. Não há aquele prefácio em cada capítulo, informando “cidade tal, dia tal, ano tal”. A narrativa inicia-se sem que você saiba quem é o narrador, onde ele está e nem em qual época. Tudo isso vai sendo desvelado aos poucos durante a leitura, até que se consiga fazer a conexão de onde está a história e como esse fato se conecta com o restante da narrativa.
Um outro ponto bastante legal, é que a narrativa avança sempre tendo como narrador um personagem pessoa diferente do personagem principal naquele momento. Quase sempre os detalhes da história são fornecidos por um personagem secundário e por muitas vezes sem uma conexão direta com a narrativa principal, quase como se ficasse sabendo das histórias por um terceiro que o informa.
Acho que um dos pontos que me pega um pouco nas histórias do autor é que há sempre uma melancolia latente em todos os personagens, com uma sensação de que ninguém pudesse ser de fato feliz, mesmo os personagens felizes na história. Talvez seja um reflexo do próprio autor, que explora em suas obras toda a tristeza e o sofrimento que se abate sobre o povo afegão, mas confesso que é uma sensação que mina bastante a minha empolgação com a leitura. Não consigo avançar por muito tempo na história, preciso de fazer pausas sucessivas, para não me deixar levar por essa energia melancólica, para respirar e não ficar também melancólico.
Mas não é um livro ruim, é uma leitura rica, cheia de detalhes, que dá uma dimensão da realidade vivida pelas pessoas no país, a tristeza, as circunstâncias que minam a capacidade do país em se estabilizar, e personagens cheios de nuances e facetas. Apesar de triste e melancólica, é uma leitura recomendada. Nota 3,5/5.
A leitura dessa semana foi o livro “Fortaleza Digital” de Dan Brown. Claro que todos que gostam de livros ou cinema conhecem o autor, que alcançou uma fama avassaladora com o premiadíssimo “O Código da Vinci”, que posteriormente virou filme com Ton Hanks e abalou toda a estrutura da Igreja Católica e gerou revolta nos tradicionalistas.
Fortaleza Digital – Primeiro lampejo do estilo Dan Brown
Mas voltando ao Fortaleza Digital, foi o primeiro romance escrito pelo autor, e não obteve muito sucesso quando foi lançado, mas depois do sucesso de “O Código da Vinci” teve uma saída muito melhor, com os fãs procurando conhecer as obras anteriores do autor. A verdade é que o livro me passa a sensação de ter sido escrito um pouco antes do tempo, com a temática de criptografia digital, segurança da informação e pirataria de segredos de estado. Talvez no mundo de 2022 ele teria uma repercussão muito maior, mas no final dos anos 90 quando foi lançado, este tema ainda não tinha tanto apelo com o grande público, daí talvez o sucesso não tenha chegado como se esperava.
Na realidade o livro é uma obra Dan Brown do início ao fim. Aliás, tanto esse quanto o livro seguinte “Ponto de Impacto”, que também não teve tanto sucesso, são obras com o mesmo DNA dos sucessos “O Código da Vinci” e “Anjos e Demônios”. Todos os elementos que compõem a narrativa de Dan Brown estão ali presentes: uma história eletrizante em ritmo acelerado, no qual há um problema urgente a ser resolvido em que o protagonista corre contra o tempo para solucionar o mistério e salvar a situação. Tem também a divisão entre duas frentes, há o mocinho correndo atrás no campo e um “guru” que o recrutou para a missão por detrás acompanhando a missão de longe, mas com uma relevância enorme no desenrolar da história. Há ainda a perspectiva do vilão, na qual acompanhamos o desenrolar de suas peripécias para frustrar os planos dos “mocinhos” na história, até o momento em que as duas narrativas sem cruzam no clímax da história.
É um livro muito bom, no final das contas. É cativante, prende o leitor do início ao fim e a narrativa acelerada instiga a chegar ao final da história o quanto antes. Talvez falte um protagonista carismático como Robert Langdon, e talvez por estar acostumado com a dinâmica dos livros que tem o professor de Harvard como protagonista, mas senti falta de uma explicação mais detalhada e até professoral de alguns temas abordados na obra. Isso enriquece a leitura, e ao menos para mim, torna ainda mais interessante, porém nada que atrapalhe no desenrolar do cerne da história.
Acredito que o autor ainda estava moldando o seu estilo nesse primeiro livro, daí a história parecer um tanto verde em comparação com as obras seguintes, mas é um livro muito interessante, com uma história legal que vale a pena a leitura e recomendo a quem queira um livro intenso, bem no estilo do autor. Nota 4/5.
O Fantasma de Manhattan – Superficial e pouco marcante
Não é uma leitura ruim, de todo. A história é, basicamente, uma continuação da história do Fantasma da Ópera, livro obscuro do século XIX que ganhou notoriedade após a adaptação para o cinema e musical. Eu não sou muito ligado em musicais e ainda menos em ópera, então não é algo que me chamasse muito a atenção. Acho que pensei que se tratasse de algum suspense sobrenatural sobre algum fantasma na Manhattan do início do século XX. Mas não é esse o caso.
A história inicia-se em tese no final de “O Fantasma da Ópera”, e explica como o personagem mudou para a América do Norte e os desdobramentos a partir daí. Não é a narrativa mais emocionante e surpreendente, e a maioria dos fatos se desenrola de forma muito rápida, o que é normal para um livro de menos de 200 páginas, o que me causa sempre um desconforto, gosto de um pouco mais de detalhamento no desdobramento de cada caso. Porém isso é gosto pessoal, a história é bem encadeada e não deixa pontas soltas que possam causar chateação em que gosta de ter todas as respostas ao final do livro.
A construção textual é até bacana, ao invés de um único narrador explicando os fatos no presente, são utilizados vários narradores diversos, dando uma perspectiva diferente a cada capítulo, e quase sempre narrando a partir de lembranças do passado, o que deixa a narrativa interessante. O final é relativamente previsível, porém é satisfatório, dessa forma, ainda que uma leitura que não deixará muitas saudades, não foi desagradável. Simplesmente não é tão marcante, mas ainda rendeu momentos leves de distração. Razoável. Nota 2,5/5.
Minha sexta leitura deste ano de 2022 foi o livro “30 e poucos anos e uma máquina do tempo”, da autora Mo Daviau. É uma ficção científica sobre um ex músico que descobre um buraco de minhoca que o possibilita retornar ao passado e reviver shows de música antigos, e ele transforma isso em um negócio com o passar do tempo.
“30 e poucos anos e uma máquina do tempo” – Genérico e sem emoção
Não me lembro ao certo como esse livro apareceu para mim, mas me recordo de ler a sinopse e achar interessante, o que aliado ao bom preço me fez adquiri-lo para a minha biblioteca e iniciar a leitura. Já deixo claro que não esperava muito do livro, foi mais uma compra de oportunidade e, talvez uma pequena identificação com o título – por eu mesmo estar nos trinta e poucos anos e adorar a ideia de ter uma máquina do tempo para reviver shows de rock que não tive a oportunidade de acompanhar no passado – por isso eu tinha baixa expectativa, e era muito mais uma leitura de relaxamento após o livro anterior ter sido uma leitura muito densa.
Mesmo com tudo isso, infelizmente, a leitura foi menos cativante do que imaginava. Ao longo de toda a leitura eu já ficava pensando o que escrever ao término, tentando encontrar bons momentos para relatar, e ao final, essa sensação cresceu ainda mais ao saber que é o romance inaugural da autora. Fico muito sentido em fazer uma resenha negativa sobre um primeiro romance de um autor, porque imagino a frustração que deve ser lutar por muito tempo por uma história e as críticas não serem positivas, ainda que de um simples leitor do interior do Brasil, sem nenhuma influência. Mas a realidade é que o livro é muito disperso. Questões muito grandes e profundas são abordadas de forma muito simplista e superficial. Normalmente, as histórias de ficção que já li e que envolvem viagem no tempo escolhem dois caminhos: uma explicação cientifica tão profunda e detalhada, como o caso de “Operação Cavalo de Troia”, ou então como uma simples causalidade, como se o portal estivesse sempre ali e fosse encontrado por acaso e não houvesse o que explicar, simplesmente desfrutar, como relatado em “Novembro de 63”, de Stephen King.
A autora, em seu romance, porém, escolheu o caminho do meio em que inicia uma explicação científica para o “buraco de minhoca”, mas parece que desiste no meio do caminho e em alguns momentos aborda como se o portal estivesse ali e pronto, sem muito a dizer. Outro ponto que me incomodou foi que os personagens viajam no tempo, conversam com seus eus passados ou futuros sem qualquer surpresa ou estranheza. Como se fosse extremamente normal você estar vivendo e de repente uma versão mais velha ou mais jovem de si mesmo aparecesse em sua frente, conversasse contigo e tudo fosse feito com extrema naturalidade e sem qualquer consequência para o futuro ou passado.
Sem falar nos desdobramentos emocionais da história, que são resolvidos em um piscar de olhos, sem profundidade ou sem lógica alguma. Em um momento as pessoas estão rompendo o relacionamento e, no momento seguinte e uma viagem no tempo após, se encontram e ficam juntos apaixonadamente, sem qualquer construção emocional que permita justificar aquele envolvimento.
Infelizmente, essa é uma história, na melhor das intenções, para passar o tempo de forma descompromissada, sem esperar muita coisa ou um envolvimento profundo com os cenários, o enredo ou os personagens. Fica como registro histórico, mas sem cativar o leitor em nenhum momento. Nota 2,5/5 mais por simpatia com a autora, por ser seu primeiro romance.
Estava tentando encontrar um jeito de iniciar essa resenha de uma forma diferente das demais, porém não tem como eu não começar dizendo que acabo de finalizar a leitura de mais um livro. “21 lições para o século XXI”, do historiador israelense Yuval Noah Harari. Este foi a minha quinta leitura encerrada neste ano, e, de longe a mais profunda, densa e desafiadora. O autor alcançou notoriedade mundial com sua obra “Sapiens”, que relata a história da humanidade e as construções histórico-sociais que permitiram à espécie humana dominar os demais animais e o ambiente. É um relato profundo, interessantíssimo e recomendado a todos. Este livro das 21 lições, por outro lado, é muito mais sombrio, ameaçador e provocante, pois nos coloca frente a frente com discussões e cenários assustadores sobre nossa existência e futuro enquanto espécie humana.
21 lições para o século XX1 – Provocante e reflexivo
O autor relata logo no início que a ideia para o livro surgiu de conversas com colegas, amigos e leitores de suas obras anteriores, que o abordam com questionamentos sobre a espécie humana e os rumos que ditarão o futuro do Homo Sapiens neste mundo, e até se haverá um mundo no futuro. De tantos e-mails, seminários, entrevistas e abordagens diretas, o autor optou por consolidar os principais temas em uma nova obra, com 21 temas desenvolvidos a serem considerados para o século XXI e o futuro a curto e médio prazo (considerando-se o histórico de existência da vida humana no planeta).
Esta foi a segunda vez que tentei engajar na leitura, sendo a primeira vez cerca de 2 anos atrás. Tenho por habito sempre colocar meu nome e a data de aquisição de novos livros na primeira página(sei que alguns apaixonados por livros consideram isso quase um sacrilégio, mas gosto de ter um registro histórico de quando o livro entrou em minha vida) e neste caso vi que a primeira vez que tentei ler foi em abril de 2020, quando o adquiri como presente de aniversário para mim mesmo. Comecei a ler a introdução e achei o livro pesado demais para o momento que estávamos vivendo. Lembrem-se bem: abril de 2020 foi o auge do momento de “quarentena” por conta da primeira onda de COVID 19 no Brasil. Foi a época em que tínhamos lives diárias de artistas, cheio de gente em casa fazendo pão caseiro e animadíssimos com a nova realidade de todos presos em casa. Com esse cenário acabei deixando o livro de lado até este ano, quando fui organizar minha meta de leituras para 2022 e decidi que era hora de resgatar a leitura e ver quais as lições que o autor propõe.
A obra está dividida em cinco partes, que o autor chama de desafios, cada qual composta por cerca de 4 ou 5 lições relacionadas àquele desafio. É um texto difícil, denso e por muitos momentos extremamente desafiador, com o autor fazendo conexões entre temas diversos, como meditação e revolução tecnológica. A provocação feita pelo autor é feita conscientemente e muito necessária, para que possamos refletir sobre os desafios que estão diante da espécie humana, que são únicos e maiores do que qualquer outro que tenhamos enfrentado no passado, desde que deixamos as savanas africanas e nos embrenhamos nas selvas de pedra do mundo moderno, com suas megacidades interconectadas mundialmente.
Não vou mentir para ninguém: é uma leitura difícil, tanto pela sua forma quanto pelo conteúdo. É o tipo de livro que raramente você consegue passar por mais de 2 ou 3 paginas sem fazer uma pausa para reflexão a respeito do que acabou de ler. Do contrário, você corre o risco de passar direto pela obra sem absorver quase nada. A reflexão profunda sobre o que é discutido é uma necessidade neste livro. Tanto que ao longo desde ano vinha em uma média de quase 60 páginas lidas diariamente, e para este livro, quase nunca consegui passar de 20 páginas. Por este motivo, foi o que me demandou mais tempo para finalizar e o que, com sobras, representou o maior desafio intelectual.
Mas, não descrevo este cenário para espantar eventuais novos leitores, pelo contrário, é somente um alerta sobre a discussão profundamente necessária que o autor propõe e por esse motivo o livro é recomendadíssimo. Uma leitura reflexiva que analisa o nosso passado, para auxiliar no entendimento do presente e conseguirmos nos preparar de alguma forma para o futuro assustador que se descortina perante nós. O autor consegue, uma vez mais, trazer temas tradicionais da seara acadêmica para um universo mais geral de leitores de uma forma didática e interessante. Nota 4/5.