Resenhando (#6)

Finalizei a poucos dias a leitura – ou melhor dizendo, a releitura – da obra “Operação Cavalo de Tróia 2 – Massada”. Há alguns anos, por indicação de um primo li por acaso os dois primeiros livros da saga e, por fazer muito tempo, não me recordava de todos os detalhes de cada um dos livros, qual fato era de cada, havia uma confusão na minha cabeça, daí agora que resolvi retomar e ler toda a saga, achei melhor reler tudo desde o inicio para me familiarizar novamente com toda a narrativa e fazer a conexão mental com toda a história.

Cavalo de Troia 2 – Massada: Bom, mas podia ser melhor.

Posto isso, vou falar propriamente do segundo livro. Operação Cavalo de Troia 2 – Massada é uma história que se passa exatamente no momento em que finaliza a primeira aventura de Jasão e Eliseu, na Jerusalém do século 1. O livro é basicamente uma continuação dos fatos, narrados sequencialmente até o desenrolar da segunda aventura.

Confesso que achei essa segunda leitura muito mais cansativa e menos inspiradora que a primeira. Ainda que a primeira parte dos acontecimentos, toda a escolha de um novo local para o desenrolar do projeto, e principalmente o desenrolar geopolítico narrado e que permeia diversas decisões da história é muito interessante para alguém, como eu, que adora fatos históricos e geopolíticos.

Porém, ao entrar na aventura propriamente dita – o segundo salto no tempo para retornar ao tempo de Jesus e investigar os fatos pós crucificação – a sensação que fica é que o autor J.J.Benitez foi tomado mais pelo desejo de confrontar mais diretamente as religiões cristãs, especialmente a igreja católica, do que desenvolver de forma mais cativante a história, a exemplo da primeira aventura.

Ainda que a narrativa tenha momentos inspiradores e tocantes, que proporcionam reflexões bacanas, no geral a sensação é de que boa parte do tempo é desperdiçado para ficar reforçando que os evangelistas se esqueceram de narrar determinado fato, ou foram omissos em outra passagem, ou que negligenciaram personagens relevantes. De modo geral, o texto se torna mais truncado e cansativo com essa retorica insistente de apontar falhas, ao invés de seguir na descrição da aventura. É um livro interessante, vale a pena a leitura, mas, por se tratar de uma continuação de uma obra inspiradora, esperava um desenvolvimento mais uniforme e cativante. A sensação que fica é de que poderia ser muito mais do que foi, ainda que dê abertura para a continuidade da saga. Porém, vendo a forma que esse livro se desenvolveu, fiquei com a pulga atrás da orelha sobre como a saga continuará, ainda mais sabendo que serão 9 livros até o final, sendo que no segundo já há alguns sinais de cansaço da narrativa. A ver. Nota 3/5.

Resenhando (#5)

Em primeiro lugar, um feliz 2022 a todos. Nas últimas semanas de 2021 negligenciei o blog devido a outros projetos que estava desenvolvendo paralelamente, mas agora é o momento certo de retomar este espaço que me é tão querido. No mês de dezembro, ao invés de iniciar nova leitura, acabei me rendendo ao espírito de retrospectivas que sempre acontecem nessa época do ano e me voltei para releitura de livros queridos, dos quais nunca fiz uma resenha digna e que representassem de fato o tamanho do impacto que tiveram em minha vida. Ao longo do mês acabei relendo 4 dos meus livros favoritos e em outra postagem vou me arriscar a rascunhar algumas palavras acerca de cada um deles.

Polêmico e Sensível – Bela obra de JJ Benitez

Mas neste texto de hoje eu quero falar é do primeiro livro que li neste ano de 2022. Aliás, reli, por se tratar também da releitura de uma obra que já havia conhecido há muitos anos, mas que devido ao impacto do tempo e principalmente de minha transformação enquanto pessoa nos últimos anos, achei válido revisitar e me propor a uma releitura das mesmas páginas que tiveram um sabor de novo encontro.

Refiro-me ao ilustre e polêmico livro “Operação Cavalo de Tróia 1 – Jerusalém”. Polêmico pois o próprio autor J.J. Benitez destaca suas agruras com diversas pessoas e principalmente com a Igreja Católica desde a publicação de sua obra. Como trata-se de um livro já antigo (foi lançado originalmente em 1984, e chegou ao Brasil em sua primeira versão em 1987), não vou me preocupar com eventuais spoilers ao longo dessa resenha. Até mesmo por tratar da história mais contata da humanidade, seria paradoxal se eu tivesse alguma preocupação em não entregar qual o final da história.

Mas, resumidamente para melhor situar o leitor, a obra trata dos relatos de um major da Força Aérea norte americana que esteve envolvido em um projeto ultrassecreto do órgão, que durante pesquisas científico-militares, encontra uma forma de viajar no tempo. E escolhem como objeto da primeira grande “viagem” a Palestina do século I para observarem os dias dramáticos da Paixão e Morte de Jesus Cristo e sua ressurreição.  Não vou me deter a narrar os fatos do desenrolar da história, até mesmo porque todos já os conhecem amplamente, mas gostaria de ressaltar alguns pontos que achei interessante.

A parte inicial da obra, na qual o autor se coloca como personagem de sua própria história, descrevendo suas desventuras ao se encontrar com o Major e tudo o que precisou fazer para finalmente ter acesso ao diário do militar, descrevendo suas memórias do projeto. Ao se colocar dessa forma, o autor dá uma grande contribuição à credibilidade de sua história. Acredito que se tivesse somente apresentado a história do salto ao passado, sem este preâmbulo de como se apoderou da história que apresenta, todo o relato do major seria considerado amplamente inverossímil e perderia em muito o caráter de relato científico que o autor busca. Mas, ao construir a narrativa dessa forma, nos envolvemos com a história e sem que percebamos, a transição entre sua narrativa e os relatos do major se dá de forma sutil e continuamos a “ouvir” a história com naturalidade e sem que se perceba, estamos aceitando o relato do major como uma verdade.

Entendo perfeitamente o cisma da Igreja Católica com a história – há vários trechos nos quais são descritos como uma negação aos ensinamentos do dogma religioso e há principalmente, criticas contumazes a diversos aspectos da religião e da fé cristã, daí a polemica, mas em outros momentos há um relato emocionante dos ensinamentos de Jesus de Nazaré e uma alma disposta a refletir sobre a profundidade da mensagem do Mestre sem as amarras religiosas de qualquer igreja, são passagens de grande emoção e sensibilidade.

Como cresci em um meio católico fervoroso, em um primeiro momento o relato me causa estranheza e algum repúdio. Mas, ao avançar na história, ao me abrir um pouco mais para a reflexão de diversos trechos, percebo que há uma beleza e uma verdade nas palavras, especialmente nos trechos em que se propõe a falar que Deus é amor, e que praticamos a religiosidade a expressarmos o amor a todos.

Além disso, o texto é inteiramente construído como um relato amplamente científico – com o providencial acréscimo de diversas notas de rodapé e referências a diversos pontos do texto, quase como um artigo científico submetido ao escrutínio de uma banca avaliadora. Esta construção textual, ainda que um tanto maçante e cansativa em diversos pontos – especialmente para quem não tem tanto apreço por descrições técnicos e cientificas – tem um efeito impressionante de causar uma sensação de credibilidade e verdade ao relato. Por diversos momentos durante a leitura, você se esquece de que se trata de uma obra de ficção científica e passa a aceitar verdadeiramente que o Major esteve na Jerusalém do ano 30 do século I e foi testemunha ocular dos dramáticos eventos acontecidos durante a festa da Páscoa.

Ao menos para mim, um seguidor da doutrina cristã, mas que possui um profundo respeito e confiança no método científico e na construção do conhecimento, o livro foi profundamente enriquecedor. Além de propor reflexões que me permitiram aprofundar nas questões da fé, na virtude e na mensagem de Jesus Cristo, sacia a minha curiosidade científica com tantas referências técnicas, quase que me fazendo acreditar que é possível realizar a viagem proposta na obra.

O livro é extenso, são quase 600 páginas, mas que saboreei rapidamente ao longo dos primeiros 10 dias desse ano. Não avalio ainda mais positivamente pois há momentos em que o excesso de informações técnicas acaba por atravancar um pouco o avanço da história, mas no geral é uma obra brilhante e que recomendo a leitura a todos, desde o cético ateu que não tem fé ao cristão mais fervoroso. Ainda que não promova reflexões mais profundas, pelo menos permanece como uma grande peça de literatura. Nota 4/5.

Resenhando (#4)

Acabo de finalizar a leitura de “O primeiro home: a vida de Neil Armstrong”, biografia do famoso astronauta, eternizado como o primeiro homem a pisar na superfície lunar. Gosto muito de biografias e sempre me proponho a ler boas obras de personagens significativos na história. Não para buscar inspiração ou para ter alguma lição de moral para a vida, como alguns “coaches de coisa nenhuma” adoram replicar por aí, mas simplesmente pela curiosidade em torno do fato pelo qual o biografado tornou-se conhecido.

A dinâmica quase sempre é essa: o interesse pelo fato histórico é muito maior que os personagens envolvidos, mas adentrar na biografia de um deles permite um conhecimento ainda maior de tudo o que envolveu aquele fato. É assim com a chegada do homem à lua. É um tema que sempre chamou a minha atenção, desde criança ao folhear as enciclopédias que meus pais tinham em casa.

Esse interesse acentuou-se muito durante o ano de 2019(último ano de “normalidade” neste caos chamado planeta Terra), quando se celebrou os 50 anos do pouso da Apollo 11 no Mar da Tranquilidade, em julho de 1969. À época, diversos canais, especialmente History Chanel, Discovery Chanel e National Geographic fizeram uma programação especial com vários documentários sobre o tema, aumentando ainda mais a minha admiração pelo feito. Não que em certo momento eu não tenha duvidado do feito: sim, houve momentos em que eu fui meio negacionista e cheguei a desconfiar por um breve período que as teorias conspiratórias de que o homem nunca havia chegado à lua eram verdadeiras e tudo não passava de encenação.

Mas, como sou dotado de um cérebro operacional e funcionando plenamente, pude verificar que as provas existentes são contundentes e as teorias da conspiração não são nada além de especulação que tentam distorcer fatos científicos comprovados e comprováveis. Mas, vamos deixar essa discussão de lado e focar na biografia.

O livro é completíssimo e contempla toda a vida do famoso astronauta Neil Armstrong, desde antes de seu nascimento até após a sua morte, em 2012 aos 82 anos. Como o próprio autor destaca, o biografado fez questão de que fossem apresentadas as suas origens, desde as primeiras gerações de Armstrongs existentes na Escócia, até a migração para a América e chegando até o momento do nascimento de Neil.

Retrata também toda a sua formação, desde criança como escoteiro, passando por sua formação militar na Marinha Americana, sua atuação como piloto aéreo na guerra da Coreia até a chegada à NASA com a segunda turma de astronautas selecionada pelo programa espacial dos EUA, os chamados “New Nine”. A partir daí descreve todas as etapas do programa espacial até o pouso do modulo lunar na superfície da lua. Acompanha Armstrong por todos os anos subsequentes, em que lutou contra a fama provocada pelo seu feito, e os passos que seguiu profissionalmente até o final de sua vida.

O livro, provavelmente escrito e pensado para um publico estadunidense, ainda que Neil fosse uma personalidade mundial, destaca rica e exaustivamente todos os passos da carreira de Armstrong na marinha, depois nos programas de testes de aviação civil e no programa espacial, com descrições detalhadas de tempo de voo em todas as máquinas testadas pelo astronauta, quais armas utilizadas, e quais as condecorações recebidas. Para os norte-americanos, fascinados pela cultura militar parece fazer sentido, mas para mim, pouco afeito a esses aspectos, o texto torna-se um pouco maçante, ainda mais porque não possuímos qualquer conhecimento de todas as aeronaves ou embarcações porta aviões que são apresentadas.

Um outro aspecto que às vezes causa um certo embaraço na leitura é a descrição sistemática de Neil Armstrong como alguém excepcional, um fora de série, quase como um ser humano superior. Sério, às vezes o biografo carrega tanto nas tintas ao falar do astronauta que se torna um pouco cansativo, quase como se fosse um super-humano infalível. É uma forma de retratar um biografado que não vi sequer na biografia do genial Leonardo da Vinci, e que não condiz com a própria imagem que Neil faz de si mesmo, evitando os louros de seus feitos e sempre externalizando que não foi um feito individual seu, mas sim um esforço de mais de 400 mil pessoas para se chegar ao objetivo final.

Em nenhum momento Armstrong se refere como alguém excepcional, mas sempre com humildade e sensatez de que é somente um profissional dedicado ao trabalho e disposto a testar as possibilidades para se obter o resultado esperado. Um aspecto bastante interessante é que, apesar deste destaque às vezes exagerado das qualidades do biografado, em nenhum momento o livro adota um tom ufanista para celebrar os feitos dos EUA durante a guerra fira e a corrida espacial. Pelo contrário, até destaca as realizações soviéticas que vieram anteriormente às norte americanas, e trata essencialmente do desenvolvimento científico que possibilitou a chegada do homem à lua e coloca essa corrida espacial somente como o combustível extra que nutriu esse processo.

Considerando todos os fatos, é um livro muito bem escrito, rico em detalhes como uma biografia deve ser, e nos permite construir uma boa imagem acerca do biografado e os feitos históricos nos quais esteve envolvido. Um bom livro que vale a pena a leitura, especialmente para os entusiastas da exploração espacial. Garanto que a riqueza dos detalhes irá satisfazer a curiosidade e aumentar ainda mais a fascinação pelo espaço e a lua em particular. Recomendado!

Resenhando (#2)

O Livro Obscuro do Descobrimento do Brasil, de Marcos Costa. Foto: Google

Quando me proponho a ler um livro de História (a ciência mesmo), sempre pesquiso antes para saber quem é o autor e se é um pesquisador sério e pode ser considerado como uma boa referência no assunto. Este cuidado vem desde que ganhei de presente um livro sobre fatos históricos, mas escrito por alguém que não tem compromisso com a pesquisa científica séria ao tratar destes fatos. Não vou citar qual o autor ou o livro, mas para qualquer pessoa que tenha pegado algum volume que se autointitula “politicamente incorreto” sabe do que estou falando.

Antes de mais nada é preciso deixar uma coisa bem clara: este é um livro de História. Não é um romance, ou uma ficção. Por essa razão, inicialmente é um livro que pode ser de difícil leitura para que não está acostumado com o estilo. O livro apresenta detalhamente diversos elementos que contribuíram direta e indiretamente com o “descobrimento” do novo mundo pelos europeus. E quando digo detalhadamente, não é uma figura de linguagem e sim uma constatação: em diversos trechos de sua narrativa, como forma de ilustrar um tema mais profundamente, o autor se utiliza de escritos históricos da época, cartas trocadas entre reis e papas, entre colonizadores e padres, e diversos outros relatos que, embora riquíssimos do ponto de vista histórico, acabam por deixar a leitura um pouco maçante e cansativa em alguns momentos.

Não que isso seja algo ruim, entendendo o perfil de historiador do autor, é mais do que compreensível o desejo de cercar-se de documentos seguros que possam contar detalhes da época relatada, porém por se tratar em grande parte de documentos do final da idade média (séculos XV e XVI), a forma da escrita é diferente do praticado atualmente, então requer mais atenção e interpretação para compreensão exata do que se está dizendo. É uma questão de gosto, claro, mas eu particularmente preferiria que fossem utilizados recortes menores, e feito uma paráfrase em outros momentos, de forma a deixar a leitura mais prazerosa para leitores que não são tão ligados assim em história. E digo isso como alguém que ama história e se delicia com obras como essa.

Falando da obra em si, o autor faz uma combinação de diversos elementos históricos que levam as nações europeias a se lançarem na aventura de navegarem rumo ao ocidente, desbravando o assustador (para a época) Oceano Atlântico. O autor nos mostra que o “descobrimento” do Brasil e das Américas foi muito mais que um mero “acidente de percurso” ao se tentar chegar às Índias por parte das nações ibéricas e que as datas “oficiais” da descoberta pouco tem relação com a chegada dos primeiros europeus no continente americano.

Eu gostei particularmente de o autor sanar uma dúvida antiga minha, desde os tempos escolares. Nunca entendi, em minha mente adolescente, por que razão os portugueses, ao tentar chegar à índia navegando ao redor do continente africano, acabaram vindo parar no Brasil. Sempre me pareceu um desvio um tanto desconexo, pois seria mais fácil margear e acompanhar a linha do continente africano. O autor explica, brilhantemente, que se trata de uma questão natural, uma vez que as correntes do atlântico propiciam uma navegação mais segura e rápida nesta direção, e seria mais fácil para as embarcações portuguesas se deixarem levar pela corrente ao invés de lutar com elas para se manterem próximas à costa africana.

O livro é muito rico, a leitura, apesar do que já pontuei acima, flui de forma natural e, para quem gosta de fatos históricos como eu, bastante instigante. Existem muito mais detalhes que ajudam a entender a construção da nação brasileira. Como, por exemplo, os impactos da inquisição espanhola nos destinos da colonização do Brasil, e a influência da Reforma Protestante e da Contrarreforma na ascensão e queda dos impérios Ibéricos. Dou uma nota 4,5 pelo conteúdo e um 3,5 pela construção do texto. Nota 4 no conjunto geral da obra. Recomendado a todos, e particularmente aos que se interessam por questões históricas.