Retomando as leituras feitas já nesse ano de 2023, chego finalmente a esse primoroso romance nacional, talvez o livro brasileiro de maior sucesso dos últimos anos. “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior é um romance lírico e maravilhoso que arrebatou todos os prêmios literários brasileiro disponíveis, alçando o autor ao patamar de grande nome dos escritores nacionais da nova geração. Não estou brincando. Sempre quando navegava por alguns instagrams literários, sempre me deparava com um vídeo de opinião a respeito desse livro, uma resenha detalhando a opinião e o arrebatamento com a leitura.
Sinto novamente que sequer possuo muito a habilidade necessária para tecer qualquer análise a respeito do livro, especialmente por pessoas muito mais capacitadas já terem dedicado amplo espaço a debater a respeito dessa obra, mas, em respeito e fidelidade à pujante audiência fixa de 3 pessoas em meu blog, vou manter o hábito de resenhar todos os livros lidos ao longo desse ano, ainda que possa demorar um tempo após a leitura para conseguir concatenar as ideias e rascunhar algumas palavras a respeito desse clássico moderno da literatura brasileira.
O livro conta a história de duas irmãs Bibiana e Belonisia vivendo no sertão da Bahia dentro de uma grande fazenda, na qual seus pais trabalham para os patrões e no tempo livrem trabalham a terra para ter o mínimo para alimentarem a si e seus familiares. Não vou me estender longamente a respeito da trama, mas ela segue a história das irmãs desde o acidente envolvendo uma faca guardada à mala da avó na primeira infância de ambas – distantes em idade por apenas um ano, até a vida adulta e todos os desdobramentos decorrentes do crescimento e amadurecimento.
“Torto Arado” é, antes de qualquer outra definição, uma história essencialmente brasileira. Puramente brasileira. O autor não faz nenhum destaque a respeito do tempo em que a história decorre, apenas menções superficiais que podemos situar os acontecimentos acontecendo em algum local entre as décadas de 30 e 50 do século XX, mas até mesmo isso é especulação da minha parte e – acho que por decisão do autor – o objetivo é exatamente este. Digo que a história é essencialmente brasileira por destacar a história da desigualdade e da miséria presente em nosso país e que aflige, majoritariamente, a população preta do nosso país. A temática da riqueza caminhando paralelamente à pobreza está presente em toda a história e a miséria descrita é tão real que torna plenamente possível situar a história no início do século XXI quanto em finais do século XVIII.
A ambientação feita pelo autor dos cenários nos quais os personagens vivem me levaram inclusive a cometer uma gafe interna que não havia compartilhado com ninguém mas vou dividir com vocês. Nos primeiros capítulos do livro, ao descrever a casa das meninas e sua família, a pobreza e o despojamento me fizeram lembrar de diversos sítios que visitem em minha infância, de tios avós, principalmente, onde não havia luz elétrica ou água encanada, mas que ao resgatar essas memorias do início da minha vida, pude perceber que as condições de vida dos meus antepassados eram muito superiores às descritas no livro. Todas as casas que visitei, ainda que muito simples e espartanas, possuíam parede de alvenaria, piso de madeira ou vermelhão, telhado de barro e condições de salubridade muito superiores aos casebres de pau-a-pique e barro do romance, o chão de terra batida e os colchoes de palha. Sei de histórias de meus bisavós e tataravós que viveram situações mais semelhantes, mas a percepção do que eu havia registrado em minha memória com a realidade descrita no livro é tão discrepante que me assustou e me fez amaldiçoar mais uma vez esse absurdo que é a desigualdade social em nosso país. E pensar ainda que, mesmo que muito tempo tenha se passado desde faixa temporal em que situei o romance, ainda existem muitas pessoas vivendo em condições análogas àquelas e, morrendo, tal qual no romance, de fome, doenças tratáveis e assassinadas por lutarem por melhores condições para seu povo.
Descobri após a leitura que o autor do livro é um colega meu de profissão, sendo também um geografo e todas as questões que a geografia pensa constantemente referentes à ocupação social do espaço geográfico e suas inferências, podem ser observadas, ainda que sutilmente durante o romance. É possível dizer que é um romance recheado de elementos geográficos, desde a paisagem até as questões da ocupação humana ao longo da história na região, bem como a passagem de terra a novos donos e negligenciando direitos essenciais à população original da região.
É um romance brasileiro. E acredito que todo brasileiro deveria lê-lo. Fosse para se identificar, para se assustar com tamanha desigualdade ou para se revoltar e assumir um papel mais atuante na busca urgente por justiça social em nosso país, é um romance necessário. Ainda que não seja o meu estilo literário favorito, li o livro do início ao fim com um arrebatamento gigante e sentindo muito com o sofrimento dos personagens à cada página que ia passando. Profundamente tocante, discutindo assuntos atuais (ainda que já o sejam há pelo menos 80 anos) e verdadeiramente brilhante. Nota 5/5 pela primeira vez nesse blog.
Dando sequência as resenhas de livros queridos da minha biblioteca, hoje sigo falando sobre o autor suíço Joel Dicker. Falo hoje de seu segundo livro do universo do escritor Marcus Goldman, chamado “O Livro dos Baltimore”. Para essa resenha, eu vou abordar o livro de uma forma um pouquinho diferente. Vou falar na primeira parte sobre os pontos positivos do livro, e na segunda parte vou abordar exclusivamente os aspectos negativos da obra.
Como mencionei anteriormente, esse livro trata-se de uma sequência do universo apresentado pelo autor em “A Verdade sobre o caso Harry Quebert”, primeiro livro e primeiro grande sucesso do escritor. N’O Livro dos Baltimore nos reencontramos com Marcus Goldman, escritor jovem e bem sucedido que tem uma vida de dar inveja em todas as pessoas. Mas, assim como no primeiro livro, logo percebemos que a vida de Marcus não é assim tão maravilhosa e, como qualquer pessoa, existem aspectos não tão memoráveis em sua história, bem como passagens um tanto questionáveis. Neste livro, essencialmente, ainda que toda a narrativa aconteça no presente, e existam desdobramentos referentes a isso, toda o olhar é voltado para o passado, com o narrador/personagem principal relembrando fatos de sua infância e adolescência em boa parte vividos na casa de seus tios, os bem-sucedidos “Goldman de Baltimore”, daí o título bem sugestivo.
Não é meu objetivo me aprofundar nos detalhes da narrativa, acho muito mais válido falar de sensações e impressões durante a leitura. Sob esse prisma, o primeiro comentário positivo é que o livro é muito bom de ler. Bem no estilo Dicker, o livro é rápido, intenso e prende a atenção do início ao fim. O autor tem um talento natural em produzir uma narrativa poderosa e que nos deixa em constante suspense, ansiosos pelo próximo desdobramento. Além disso, ele consegue ser descritivo na medida certa, sem se perder em páginas e mais páginas discorrendo sobre ambientes, cenários, personagens e fatores climáticos. Sempre há um meio termo bastante aceitável entre a descrição detalhada o suficiente para se ter a dimensão perfeita do cenário e a margem para que a nossa imaginação faça o seu próprio trabalho de construir em nossa mente os detalhes mais relevantes para tornar a história ainda mais instigante para mim.
Porém, como nem tudo são flores, é preciso falar também sobre os aspectos negativos do livro. Ainda que não seja nenhum detalhe absolutamente desgostoso ou que desabone a boa experiência de leitura, existem algumas críticas a serem feitas, especialmente se você é um leitor que chega a esse livro após ter lido “A verdade sobre o caso Harry Quebert”. Não se assuste, porém, se você nunca leu esse primeiro livro. São duas histórias completamente independentes e a não leitura do livro anterior em nada atrapalha a leitura desse. Mas como são duas histórias que se passam no mesmo universo, há um desconforto claro quando se pensa na linha do tempo das duas histórias. Ainda não que esteja explicito, entende-se que a história d’O Livro dos Baltimore se passa após os acontecimentos de “A verdade sobre o caso Harry Quebert”. Nesse livro, Marcus é um autor recém saído de seu primeiro livro de sucesso que enfrenta uma crise de ideias que o impedem de escrever um novo romance, daí, ao tentar vencer esse bloqueio, vai se refugiar na casa de seu tutor e amigo Harry Quebert. Dessa forma, só é possível imaginar que a trama de “O Livro dos Baltimore” se passe após esses acontecimentos. Por esse motivo é muito estranho que os personagens apresentados nesse livro, que foram tão importantes ao personagem principal são sequer mencionados no primeiro livro. Mais do que isso, ainda que no primeiro ele se atenha principalmente em seu relacionamento universitário com Harry, ele aborda passagens de sua infância e adolescência sendo “o admirável”, jovem com larga carreira esportiva e acadêmica que dedica muito tempo de sua vida a isso.
Daí o confronto entre essa narrativa e a do segundo livro, onde Marcus explica que passava virtualmente quase todo o tempo disponível indo a Baltimore para estar com seus tios e primos e passar com eles o máximo de tempo disponível. Simplesmente não é plausível – não sem entrar nos terrenos da fantasia – que um jovem que passava tanto tempo no deslocamento entre Baltimore e Nova Jersey tivesse ainda tanto tempo disponível para ser um fenômeno esportivo e aluno exemplar de sua escola. Mais ainda, durante suas longas discussões com Harry no primeiro livro, Marcus é questionado sobre ter um grande amor, onde responde negativamente, alegando nunca ter vivido algo assim. Porém no segundo, boa parte da narrativa é pra descrever o seu amor juvenil e avassalador por Alexandra, jovem vizinha encantadora de Baltimore, com quem Marcus vive um romance.
Enfim, o livro é muito bom, ainda que uma das maiores críticas de outros leitores seja toda a narrativa em volta d’ O Grande Drama que é mencionado constantemente e ao final não é algo assim tão impressionante ou surpreendente, pelo contrário, até previsível. Mas a forma como o autor coloca todo o suspense em jogo, nos deixando ansiosos para saber logo o que é o tal drama é muito cativante e vale pena – ressalto mais uma vez – a leitura. O ponto da cronologia dos fatos entre os dois livros do autor são pontos de desconforto, assumo, especialmente para leitores como eu, que são mais atentos e costumam guardar detalhes e cronologia de outros livros queridos, especialmente do mesmo autor, mas em nada desabonam a aventura de um novo leitor que está somente ansiando por uma leitura divertida, cativante e estimulante. Apesar de tudo, ainda recomendo amplamente essa leitura. Nota 4/5.
Durante o processo de releitura de algum livro, sempre acontece de eu gostar ainda de algumas histórias e um pouco menos de outras. Felizmente, nesse caso, “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert” pertence à primeira categoria. Esse romance havia despertado meu interesse há um tempo atrás e acabei me decidindo adquirir por conta da belíssima capa que apresenta uma cena bucólica em uma rua qualquer.
O livro conta a história do jovem escritor Marcus Goldman que, após um estrondoso sucesso de seu romance de estreia, tinha dificuldades para engatar um novo livro. Sendo pressionado por seus editores, pelo público e por si mesmo, ele decidiu fazer um último movimento desesperado; vai se hospedar na casa de seu amigo e mentor Harry Quebert, autor de sucesso na década de 70 e seu professor na universidade. Harry, que mora em uma bela mansão à beira mar de uma bucólica e pequena cidade dos EUA desde a época de seu grande sucesso literário, acolhe o rapaz em busca de ajuda-lo.
Durante a estadia de Marcus no local, descobre-se o corpo de uma jovem desaparecida há décadas enterrada no quintal da casa de Harry e ele é imediatamente preso e acusado do assassinato, devido principalmente à uma prova substancial encontrada junto ao corpo da menina: um exemplar manuscrito do livro de sucesso de Harry. Daí em diante o livro se torna uma correria imensa de Marcus Goldman em buscar de provar a inocência de seu amigo. Durante esse processo de busca de provas para salvar Harry, Marcus acaba encarando um emaranho de histórias do passado muito mais complexas e profundas do que imaginava.
Todo este processo ocorre simultaneamente à sua busca por escrever um novo romance, quando decide escrever um livro para provar a inocência de Harry. E aqui encerro o detalhamento do romance, em primeiro lugar para não estender demais essa resenha, mas em segundo e principal lugar, por gostar sempre de deixar espaço para a descoberta da história por cada novo leitor que possa se deparar com essa resenha – como já falado em outros momentos, prefiro muito mais em minhas resenhas tratar das sensações que essa obra provocou em mim, pois acredito ser uma impressão mais honesta a respeito do impacto que o livro teve para mim.
Por esse motivo, eu afirmo sem o maior medo de parecer exagerado: A verdade sobre o caso Harry Quebert é um livro maravilho. Trata de diversos temas simultaneamente de forma brilhante, sem parecer superficial em nenhum momento, ainda que não seja o objetivo do autor aprofundar as discussões acerca de cada tema. Trabalha com fatos no presente bem como de flashbacks muito bem descritos de passado, que enriquecem a história e deixa no ar um suspense delicioso durante toda a leitura que nos leva a passar páginas e mais páginas sem sequer perceber. É um livro de 500 páginas que pode ser lido em 1 ou 2 dias facilmente, dependendo da disponibilidade do leitor. Não cansa e a cada novo desdobramento e reviravolta ficamos embasbacados imaginando se o autor irá verdadeiramente encontrar uma elucidação para o crime do assassinato da jovem, que, podia até ser jovem, mas nem um pouco inocente.
É um livro falando de livros também – todos os capítulos se iniciam com conversas entre Marcus e Harry nos tempos de universitário do primeiro a respeito de todas as etapas necessárias para se escrever um grande romance. E todo livro assim imediatamente atrai a minha simpatia e interesse, pois são grandes provas de amor à literatura e acho esse gancho maravilhosamente saboroso. Tudo isso misturado a um elenco de personagens da mais alta qualidade e heterogeneidade, os quais em determinado momento da leitura, podem todos ser considerados suspeitos de terem cometido o crime.
“A Verdade sobre o caso Harry Quebert” é o romance de estreia do autor suíço Joel Dicker e nada melhor do que um sucesso avassalador como esse para iniciar a carreira. Este livro foi o responsável por me fazer comprar todos os outros quatro romances do autor lançados posteriormente e fazendo com que ele se tornasse um de meus autores contemporâneos favoritos. Para quem gosta de suspense investigativo, é um prato cheio. Para quem gosta de romances policialescos, também. Para quem prefere uma história de amor proibido, em que tudo conspira contra o casal, idem. É um livro arrebatador. Vale muito a pena a leitura e garanto que irá desfrutar imensamente. Nota 4,5/5.
Seguindo em frente na estrada “retomando as resenhas dos livros lidos ainda em 2022”, chego ao tão esperado “Biblioteca da Meia Noite”. Desde que descobri a sinopse desse livro, ele entrou em minha lista de livros e assim que pude, o comprei para compor a minha biblioteca. É uma história com uma daquelas premissas avassaladoras e que todo mundo já se perguntou a respeito. Afinal de contas, quem nunca pensou que gostaria de voltar em algum momento importante da própria história e tomar uma decisão diferente da que tomou e ver qual seria o resultado daquilo em sua própria vida?
Essa é a dinâmica que compõe esse romance, contando a história de uma mulher por volta dos seus 30 e poucos anos, infeliz e deprimida com a própria vida, remoendo-se com a insignificância de sua existência e que fica constantemente pensando em como seria diferente a sua vida se houvesse tomado algumas decisões diferentes em momentos críticos de seu passado.
Um romance assim claramente é um prato cheio para qualquer pessoa com pouco mais de 30 anos, momento no qual a sociedade deixa de olhar com condescendência a nossa indecisão e decisões errática durantes os 20 anos e passa a julgar a pessoa que chega nessa faixa etária e ainda não tem claro “o que quer fazer da vida”. Consigo afirmar isso com propriedade pois é algo que vivencio e diversas pessoas próximas à minha faixa etária relatam sentimentos similares. É um momento da vida em que, aos olhos da sociedade julgadora e hostil, precisamos deixar de querer experimentar e viver novas experiências, conhecer novas pessoas e cenários e precisamos sedimentar o caminho que queremos, devemos ou precisamos seguir.
A sociedade não tem muita tolerância para quem não consegue ou escolher não seguir um único caminho para sua existência, e é entre os 30 e 40 anos que essa cobrança pela obrigatoriedade de se escolher um único caminho torna-se quase uma exigência, daí a dúvida de inúmeras pessoas, como eu mesmo e a personagem da história, que passam a olhar constante e sistematicamente para cada decisão de sua vida e pensando o que poderia ter feito diferente, em diversos momentos se martirizando e sofrendo por não ter tomado à época a decisão que julga melhor com a maturidade de ter vivido muita coisa após o momento crítico que exigiu uma escolha.
Para não trazer muitos spoilers sobre o livro, vou apenas mencionar que na história existe uma biblioteca na qual a personagem pode frequentar e que há um livro diferente para cada momento específico de sua própria existência, especialmente relacionado às decisões que tomou e pode escolher tirar um destes livros da prateleira da biblioteca e voltar a viver aquele momento, porém com uma decisão diferente da que tomou à época. Com essa possiblidade de escolha, se desenrolam diversos cenários pelos quais a personagem pode viver e se perceber mais ou menos feliz, ainda que não consiga ter uma percepção segura e verdadeira de que aquele caminho é realmente o que ela gostaria de fazer e que a tornaria realmente feliz e realizada.
Para as pessoas da minha geração, que atualmente estão entre 30 e 40 anos, que cresceram ouvindo sistematicamente que era preciso escolhermos e buscar um caminho único que nos faz verdadeiramente felizes, sabemos que é uma exigência que por muitas vezes nos direciona à uma busca insana, na qual se não formos bem sucedidos é porque cometemos um erro ou fomos incapazes de encontrar essa “galinha dos ovos de ouro”, que é a realização eterna. Não vou sequer mencionar todos os problemas psicológicos que podem resultar dessa cobrança imensa, sejam em depressão, ansiedade e infelicidade, mas a verdade é que crescemos, em maior ou menor escala, sendo filhos de pais que não foram essencialmente felizes profissionalmente ou até mesmo pessoalmente, mas que conseguiram ascender muito em comparação aos seus genitores, sejam financeiras ou profissionalmente. Mas que, em sua maioria relatavam que não puderam escolher ser felizes, fizeram somente o que tinham que fazer para conseguir ter uma condição de vida melhor e principalmente oferecer oportunidades melhores para que os filhos (minha geração) aí sim, pudessem ser felizes. Ainda que a felicidade nesse cenário seja, no final das contas, cumprir as expectativas que foram projetadas em nós pela geração anterior que acreditam não ter tido a oportunidade ou a permissão de ser tudo o que gostariam de ser.
O livro é um prato cheio para pensar a vida, as decisões, as experiencias que vivemos e as pessoas que cativamos ao longo do caminho, pois a cada caminho vivido, há desdobramentos, o que torna a busca pelo caminho perfeito um objetivo impossível de ser realizado, uma vez que essa própria perfeição não existe, dado que por mais que sejam diferentes versões de nós mesmos em cada cenário, ainda somos nós que vivemos aquilo, e a felicidade plena vem(ou pelo menos deveria vir) de nós mesmos e nunca do exterior.
Cativante, intrigante e profundamente reflexivo, o livro me proporcionou uma das leituras mais marcantes de 2022. Me provocou reflexões profundas acerca de mim mesmo, da minha história e das escolhas que fiz ao longo do percurso, muitas das quais eu mesmo já estava ruminando durante meu processo terapêutico de tomada de consciência de vida, o que torna a leitura muito mais prazerosa e rica, pois há uma conexão real com o que vivemos e não somente uma breve, porém cativante leitura de um bom romance de ficção científica. Nota 4,5/5.
Dando continuidade às resenhas atrasadas de 2022, hoje falo de “A cidade de vapor – Contos reunidos”, a última obra lançada pelo premiado escritor espanhol Carlos Ruiz Zafon. Na verdade, o livro foi publicado após o falecimento do autor e foi divulgado como sendo uma verdadeira homenagem ao legado de sua carreira, contemplando todos os 11 contos escritos pelo autor em vida. Não há muito detalhamento a respeito do período em que cada um destes contos foi escrito, portanto podemos presumir que podem ter sido escritos por um Zafon ainda adolescente ou mesmo pelo autor já consagrado pouco antes de sua morte. Claro que com as ferramentas de hoje é possível se levantar todas estas informações, mas eu prefiro encarar este livro com uma aura de mistério e reverência que a última obra do autor de meu livro favorito merece.
Por essa razão eu me sinto verdadeiramente desconfortável em colocar em palavras as minhas reflexões a respeito da obra. Sinto – com verdadeira convicção – que não sou digno de tecer qualquer crítica a respeito de uma obra sequer de Zafon, mas ainda assim, preciso ser fiel às minhas convicções e trazer as minhas impressões sinceras a respeito dessa obra. Não achei o livro ruim, longe disso, simplesmente não é o meu formato favorito de leitura. Gosto de uma conexão mais aprofundada com cada personagem e cenário descrito, gosto de saber maiores detalhes a seu respeito, sua forma de pensar o mundo e entender o que o envolve e motiva, por essa razão esse compilado de vários contos curtos jamais irá me cativar verdadeira e profundamente. Ainda que proporcione uma leitura leve e bela, com o pincelar característico do estilo único de Zafon em diversos momentos.
Há uns contos melhores que outros, obviamente, o que me leva a crer que, por se tratar de um compilado de contos de uma vida toda, se relacionam a diversos momentos da obra do autor. Alguns me parecem firmemente ancorados na estética de “A Sombra do Vento”, sua maior obra – e meu livro favorito da vida. Poderiam facilmente compor um capitulo adicional dentro da trama do livro supracitado sem nenhuma dificuldade de integração, tamanha a similaridade da escrita. Outros, por vez, se parecem bem diferentes com este estilo, o que me leva a crer que se tratam de contos escritos em outro momento, talvez por um Zafon ainda em formação como o célebre escritor que viria a se tornar.
Nada disso, porém, desabona o livro. Ainda que não me pareça algo que o autor talvez tivesse publicado integralmente – ou pelo menos não sem uma revisão ou reescrita de alguns trechos – a sensação de ter em mãos um livro inédito de Zafon mesmo após a triste partida do autor é tão avassalador que tudo é colocado em perspectiva. O que importa é ter mais um volume desse autor maravilhoso, que me proporcionou e proporciona constantemente momentos deliciosos durante alguma releitura. O livro é proposto como homenagem e deve ser saboreado dessa forma, como homenagem. É uma celebração da vida e da obra desse autor tão especial, que pode ter deixado o plano terreno, mas que viverá eternamente em suas páginas transbordando emoção, mística, humor e, acima de tudo, um amor imensurável pela palavra escrita.
Obrigado, Zafon. Você despertou em mim um leitor melhor, um leitor ainda mais apaixonado por livros e bibliotecas, profundamente reverente à sublime e mais bela de todas as formas de arte. Transformar palavras em sentimentos, memórias e paixões, requer uma alquimia complexa que somente os maiores gênios são capazes de executar. E você, meu amigo, certamente hoje repousa tranquilamente no olimpo entre outros de sua espécie. Um abraço de seu singelo fã.
Dando continuidade à finalização das leituras de 2022 que haviam ficado pendentes, acabo de (finalmente) concluir o livro “A Primeira Pedra – EU, padre gay, e minha revolta contra a hipocrisia da Igreja Católica”, do autor Krzysztof Charamsa. Foi um dos livros de mais difícil leitura que me deparei em 2022. Até por este motivo foi colocado de lado e por um tempo considerei desistir de vez e abandonar a leitura, mas a relevância do tema e o impacto em minha própria história com a igreja me levaram a insistir na leitura no início de 2023.
A temática da obra é explicita imediatamente com o próprio título. A contracapa se encarrega de dar um tom sombrio e assustador ainda maior quando faz afirmações bombásticas: “Um testemunho sem precedentes… Um alto sacerdote do Vaticano rompe o silêncio e revela uma face inquietante da Igreja Católica… A santa inquisição ainda existe…”. Todas estas colocações instigam o leitor a pensar que algo chocante está para ser apresentado no texto e ficamos na ponta dos dedos aguardando o momento das revelações.
“A Primeira Pedra” – de Krzysztof Charamsa. Difícil, porém necessário
A realidade, porém, é que infelizmente a editora “carregou nas tintas” para estimular um suspense revelador a respeito do Vaticano para vender exemplares do livro. A minha primeira motivação até foi a de conhecer o testemunho do padre que, sei por vivência própria, é somente um dentre tantos sacerdotes homossexuais na igreja, mas confesso que o principal interesse era o de saber “fofocas” internas a respeito do Vaticano e de sua postura engessada e altamente homofóbica.
Infelizmente o livro não apresenta nada disso. O autor até relata um pouco de sua experiência nos altos órgãos da igreja, em especial sua atuação na Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício, ex-Inquisição), mas em nenhum momento revela pormenores e detalhes da atuação da instituição, talvez até por receio de ser ainda mais rechaçado após se assumir homossexual e deixar a igreja. A maior parte das atividades e posturas da instituição não são surpresa para pessoas que, assim como eu, são católicas desde o nascimento e participam ou participaram ativamente dos movimentos pastorais dentro da Igreja. Não é preciso ser um sacerdote da mais alta corte para vislumbrar os atos e palavras que o autor relata em seu livro – basta acompanhar qualquer pastoral e as palavras da própria igreja no dia a dia de suas atividades.
Logo, esse aspecto foi um tanto frustrante para mim, confesso. E para dificultar ainda mais, a leitura é bastante comprometida e atravancada pela utilização excessiva do dialeto “igrejiano”. Claro que estou inventando palavras, mas qualquer católico praticante sabe do que estou falando: a igreja usa e abusa de uma linguagem excessivamente rebuscada em seus rituais e rotinas, dinâmica seguida por quase todos os fiéis ao se expressarem nos grupos e momentos de orações dentro da instituição. É um uso constante de “vós, tu que sois o altíssimo, o magnânimo, fazemo-nos humildemente servos de vossa inexorável compaixão”, se afastando muito da linguagem coloquial utilizada pelo seu povo. Estes sempre foram um dos aspectos que mais me incomodaram durante minha vivência dentro da igreja. Essa necessidade de soar sempre muito culto, quase que como para ser respeitado é preciso se distanciar da linguagem popular, o que, historicamente podemos entender perfeitamente como uma estratégia para subordinar os mais humildes – a dominação e a obediência mediante a opressão da língua – quem fala bonito é porque sabe muito, é inteligente, coisas assim, mas que acho que sempre distanciou a igreja daqueles que lhe são mais importante: os seus fiéis mais humildes, que são quem conseguem ter uma expressão de fé e devoção genuínas, sem afetação ou brilhantismos, com objetivo de autopromoção ou admiração.
Tudo isso contribuiu para o meu não-engajamento na leitura imediatamente e dificultou amplamente o meu avanço, que só a muito custo e determinação seguia adiante, mas sem me conectar muito com a história. O tom fortemente rancoroso do autor, externalizando constante e sistematicamente toda a sua revolta anunciada no subtítulo deixa o livro pouco convidativo. Não me entendam mal, entendo perfeitamente a revolta do autor e a sua necessidade de expressar todo o rancor com a opressão sofrida por uma instituição que amava e devia obediência, mas que ao mesmo tempo o impedia de ser quem verdadeiramente é, e incitava as pessoas a destilarem ódio a pessoas que, como ele, não se encaixavam no padrão único aceito como o certo pela instituição. Sua revolta é mais do que justificada e compreensível e, gritar isso aos quatro ventos é um processo catártico e de cura para sua verdadeira libertação e aceitação de quem é na integralidade. Só deixa a leitura difícil e pouco estimulante para quem acompanha, ainda que eu tenha feito desde o início o exercício de empatia de me colocar no lugar do autor.
E este aliás é o ponto que me fez insistir na leitura e chegar até o final. A conexão entre a história do próprio autor e minha própria experiência de vida no seio da igreja católica. Não que eu seja homossexual como o autor, mas ao longo de minha caminhada na igreja eu conheci inúmeros amigos e amigas que são homossexuais e sofriam imensamente dentro dos movimentos pastorais por ficarem divididos entre o amor pela igreja e sua própria expressão de fé e o desejo de se aceitarem como verdadeiramente são, vivendo honesta e livremente a sua sexualidade sem julgamentos. Mas, para além da questão da sexualidade de cada pessoa, a minha identificação com o livro decorre do sentimento de dicotomia entre admirar a igreja e a sua expressão de fé, ao mesmo tempo em que é muito difícil aceitar a sua postura e omissão em temas importantíssimos na qual ainda mantém um posicionamento vindo da idade média, sua incapacidade de verdadeiramente se abrir e abraçar a realidade colocada pelo mundo e estar ao lado das pessoas que amam a igreja, acolhendo-as, amando-as e sendo amparo ao invés de condená-las e sujeita-las a humilhações e ridicularizações públicas. Tenho inclusive um texto planejado a respeito desta temática, no qual eu devo relatar e expressar melhor algumas dessas incoerências que via na vida pastoral da igreja, mas que me levaram a uma série de questionamentos e posteriormente a um afastamento.
Mas nem tudo são críticas nesta resenha. O terço final do livro melhora bastante e torna a leitura mais fluida, ainda que na mesma linguagem rebuscada de outrora. Aliás, poderíamos dividir o livro em três momentos: a primeira parte, na qual o autor relata o início de sua vida e história com a igreja, o seu crescimento enquanto sacerdote e teólogo e sua ascensão até a chegada ao cargo que ocupava dentro da Congregação para a Doutrina da Fé. Aqui cabe um adendo: eu acho surreal existir um órgão assim dentro da igreja, responsável única e exclusivamente para rastrear, identificar, denunciar e perseguir sacerdotes que não sigam 100% aquilo que ditam as regras instituídas por homens como o que é correto dentro da igreja, ainda que contradigam em sua totalidade o que pregam as Santas Escrituras. Um exemplo: como pode existir um órgão instituído na igreja para julgar e condenar as pessoas quando nas escrituras diz que não cabe a nenhum homem julgar e condenar o próximo e que isso cabe somente a Deus? Enfim, este é um dos aspectos de incoerência entre a pregação e a realidade que me suscitam dúvidas e que foi o que me aproximou do sentimento contido neste livro.
Nesta primeira parte, ainda que o autor teça alguns comentários sobre a postura lamentável da igreja em diversos momentos ao tratar as questões referentes à homossexualidade e aos homossexuais, seu tom não é excessivamente rancoroso como se torna na segunda parte. Esta sim é a etapa mais difícil da leitura – é o momento em que o autor já se entende e aceita como homossexual, mas ainda não encontrou o caminho para sua libertação do meio em que está inserido e se ressente – com razão – da postura lamentável da igreja com relação a pessoas como ele. Porém, como já relatei anteriormente, o tom excessivamente revoltado dificulta um pouco a leitura e deixa o texto cansativo.
Felizmente ao chegar na terceira parte há uma mudança no tom. Ainda que continue criticando a postura da igreja e sua inanição em buscar uma transformação, este é o momento em que o autor se aceita plenamente e passa a viver realmente como é, livre e feliz de ser quem verdadeiramente é, entendendo que não há mais espaço para continuar preso às amarras da religião opressora em que foi criado. É um processo muito bonito o de aceitação de si e de comunicação a todos a seu redor de que não mais irá silenciar quem é e a consciência de que será achincalhado por isso, perseguido e desmoralizado por se assumir quem sempre foi verdadeiramente, e não se importar com isso, pois é mais urgente ser feliz e consciente de si mesmo que se esconder de sua própria essência para ser aceito como igual em um meio nocivo, excludente e preconceituoso.
A parte final do livro, especialmente no Post Scriptum, onde apresenta, na sequência, a sua carta de saída do armário, uma carta direta ao Papa Francisco e um manifesto da libertação gay, no qual exige essencialmente respeito e desculpas da igreja por conta de sua omissão e perseguição por séculos aos homossexuais. Este trecho é particularmente belo pois poderia facilmente ser transcrito como um manifesto em defesa de todas as minorias oprimidas ao longo da história pela tradição da igreja. Qualquer pessoa católica esclarecida sabe que há momentos profundamente lamentáveis na história da igreja na qual ela se omite ou se alinha e apoia diretamente a grupos perseguidores de minorias, cometendo atrocidades indescritíveis e, infelizmente, somente para uma ínfima parte houve um reconhecimento de culpa e um pedido de perdão. Daí este manifesto ser tão profundo, pois se posto em prática poderia resgatar muitos fiéis para a igreja e, mais do que isso, a tornaria mais humana e, a meu ver, muito mais cristã e amorosa.
No final das constas o livro vale a pena, muito mais por conta das reflexões que suscita do que propriamente do entretenimento contido na leitura em si. É sim um relato importante – sei de inúmeras pessoas que sofreram e sofrem como o autor por conta de não poderem ou não conseguirem se aceitarem integralmente por medo do julgamento dentro da igreja – e um ponto de partida em reflexões que a igreja deveria iniciar imediatamente. Sei que provavelmente algumas pessoas do meu círculo de amizade me execrarão simplesmente por estar falando nisso, ou abordando a igreja nestes termos, mas há tempos que deixei de me importar com estas opiniões retrógradas e acho que o verdadeiro e correto caminho para a igreja ser verdadeiramente Igreja é o de discutir e acolher a todas as minorias, fazendo uma revolução em suas antiquadas e retrógradas leis para que possa verdadeiramente ser a Igreja de Cristo na terra: AMOR. Cristo é Amor e somente pelo amor, inclusão e aceitação de todos é que a igreja pode verdadeiramente dar testemunho de fé a todos. Ainda que seja difícil e possa levar tempo, vale a pena a leitura. Nota 3/5.
Pela primeira vez vou fazer uma única resenha para dois livros. Por diversas razões; a primeira é que se trata de dois livros “fictícios” citados pelo personagem Barney Stinson na sitcom “How I Met Your Mother”; a segunda é que são dois livros igualmente ruins. Comprei ambos durante uma promoção na qual cada um deles saiu por menos de R$ 10,00. Vejo agora que ainda assim saíram caros.
“Bro Code” e “Playbook”, derivados da série How I Met Your Mother: dispensáveis
Raramente eu faço resenhas tão críticas e negativas de livros quanto farei destes, mas o ineditismo é necessário, tamanha a incapacidade dos livros em proporcionar o mínimo de entretenimento. São reproduções praticamente literais dos “livros“ citados na série, por isso já não esperava muita coisa, porém a impressão final é ainda mais decepcionante que o (pouco) esperado.
A série How I Met Your Mother é uma sitcom de grande sucesso e realmente é uma das mais divertidas, apesar de criticas referentes ao seu final e principalmente a algumas piadas consideradas machistas, homofóbicas e misóginas. Tudo isso é verdade, porém no contexto da série e na época em que foi produzida era considerado aceitável. Ainda que tenham menos de 10 anos do final da série, muitas dessas piadas não são mais toleradas pela sociedade atual e envelheceram muito mal.
E o livro, além de não acrescentar nada de diferente ao roteiro da série – eu esperava pelo menos alguma novidade nas piadas, ou uma forma diferente de apresentá-las – é excepcionalmente machista, sexista, misógino, e sem graça. Ainda que algumas piadas funcionassem na série, ainda mais com a interpretação brilhante de Neil Patrick Harris, a verdade é que escritas no livro tornam-se fúteis, baixas e muito sem graça.
Não tenho muito o que falar além disso. Não vale a pena nem como curiosidade trivial aos fãs da série. Foram as notas mais baixas que já dei a algum livro, mas não me arrependo. Livros totalmente dispensáveis. Playbook – Nota 1,5/5. Bro Code – Nota 0,5/5.
“Misery – Louca Obsessão”: o que dizer desse livro que mal conheci, mas já considero pacas?
A piadinha infame para começar esse texto relembra os tempos de Orkut, quando escrevíamos depoimentos “profundos” para pessoas recém-conhecidas, foi somente uma tentativa de quebrar o gelo neste primeiro texto de 2023, que começa com a resenha desse livro “leve” do mestre do terror Stephen King. Começo dizendo que sou fã do autor, não um fã fervoroso que lê tudo o que ele publica – até mesmo porque para isso eu teria que ficar 24 horas por dia, 7 dias por semana por conta de ler tudo o que ele escreve, tamanha a produtividade do homem – mas quase sempre os seus livros que chegam à minha mão entregam uma boa dose de entretenimento e diversão literária.
Alguns conseguem me entregar um pouco mais e percebo que todos eles possuem uma coisa em comum: são as histórias do autor que não entregam uma trama sobrenatural, como é comum na biografia dele. As obras de Stephen King que mais me marcam sempre são as que ele escreve a respeito de personagens tipicamente humanos, com suas virtudes e defeitos, e de uma forma particularmente rica e profunda ao tratar de temáticas relacionadas a traumas e problemas relacionadas à mente humana. King consegue quase sempre entregar com maestria personagens com fobias, distúrbios mentais, obsessões doentias e distorções fantasiosas.
Misery – Louca Obsessão – Imagem: Editora Suma
E é exatamente o caso nesta obra maravilhosa que é um dos clássicos da carreira do autor. Não somente por seu sucesso literário, mas também pelo sucesso de sua adaptação cinematográfica – que inclusive rendeu um Oscar de melhor atris a Kathy Bates por seu papel como a protagonista Anne Wilkes. Por se tratar de uma obra de mais de 30 anos, não terei pudores em citar fatos da trama, com medo de estragar a experiência de leitura para quem nunca leu. Portanto, fica somente o alerta: se você ainda pensa em ler esse livro, e não quer saber nada, absolutamente nada sobre a história, salte os próximos parágrafos. Pode retornar no penúltimo ou último parágrafo deste texto que acredito que aí já não haverá perigo.
O livro conta a história de Paul Sheldon, um escritor de sucesso, conhecido por suas histórias a respeito de Misery, uma personagem que desperta paixões em diversos leitores. Cansado de escrever histórias sobre Misery, Paul decidi escrever nova obra que, após o término ele considera o melhor que escreveu até o momento. Feliz pelo resultado, sai para comemorar dirigindo embriagado e sobre um acidente em uma estrada das montanhas rochosas durante uma tempestade de neve. Para sua sorte – ou não – ele é resgatado por Anne Wilkes, uma ex enfermeira que se autointitula fã número 1 de Paul, e absolutamente apaixonada pelos livros de Misery.
O problema começa quando Annie, ao invés de levar Paul para atendimento hospitalar, o leva para casa e passa a cuidar dele por conta própria, onde descobre que Paul matou a sua personagem favorita ao ler o último livro de Misery que havia sido lançado. Ao longo da convivência Paul descobre que Annie é profundamente desequilibrada e psicótica, com uma profunda obsessão por ele (daí o título) e com uma visão peculiar e distorcida do mundo, que a leva a torturar – física e psicologicamente – o debilitado autor, que está preso a uma cama devido às inúmeras lesões nas pernas e no quadril decorrentes de seu acidente automobilístico.
Durante a sua prisão torturante no manicômio Wilkes, Paul descobre que Annie possui distúrbios ainda mais profundos que os demonstrados inicialmente, e que possui um passado sinistro e assustador, do qual ela guarda recortes alegremente, como um álbum de lembranças macabras. A história é tão brilhantemente escrita que em diversos momentos, apesar da clara psicose de Annie, ela parece um personagem cativante e acolhedor, em que até mesmo a sua vítima – Paul – sente momentos de simpatia e carinho por aquela pessoa tão diferente.
O livro inteiro é chocante, assustador e cativante na medida certa. Há passagens que nos trazem um profundo desespero enquanto leitores, em outros nos leva a ficar na ponta dos dedos esperando o que irá acontecer, e a todo o momento nos chocamos mais e mais com a capacidade de Annie Wilkes em ser mais e mais assustadora. É uma história que te causa uma reflexão profunda acerca das capacidades humanas para a maldade e a dissimulação, e como isso pode ser fruto tanto de experiencias traumáticas quanto de distúrbios psicológicos graves, e o quanto é importante nos preocuparmos em tratar as doenças da mente tanto quanto as do corpo.
O livro é o oposto do que se espera de uma leitura de início do ano – leve, otimista e esperançosa – mas, não sem surpreender, atender perfeitamente ao objetivo de fisgar o interesse pela leitura e estimular o hábito para que ao longo do ano ele seja cultivado da melhor maneira possível: lendo mais. É uma obra irresistível. Aos que já conhecem, vale a releitura. Aos que ainda não conhecem, procurem. É Stephen King no ápice de suas capacidades literárias: nos deixa sistematicamente na ponta dos dedos esperando por mais e narra todos os fatos com uma maestria que parece que estamos dentro da história, ali ao lado da cama de Paul Sheldon, vendo o desenrolar de toda a loucura de Annie. Vai para meu top 3 de histórias favoritas do autor. Primeiro livro de 2022: recomendadíssimo. Nota 4,5/5.
Encontrei este livro por acaso na internet, quando navegava em busca de novos ebooks para alimentar meu desejo incessante por novas histórias. Logo de cara me chamou atenção, principalmente por gostar de história política e o JFK ser um personagem tão mencionado na cultura pop nos últimos 60 anos e alvo de tantas teorias conspiratórias e discussões reais que me fisgou imediatamente.
Mais do que um relato de somente os últimos dias do presidente americano antes do atentado que custou a sua vida em Dallas no fatídico novembro de 63, o livro retrata de uma forma direta e objetiva a maior parte de sua vida pública, e como chegou ao cargo político mais cobiçado do século XX. O autor faz um relato da ascensão de Kennedy e sua chegada à Casa Branca, algumas das alianças e parcerias que firmou ao longo dos anos com personagens igualmente famosos e que podem ou não ter influenciado de forma mais impactante sua postura como presidente.
Algumas trivialidades chamam bastante atenção, como a questão sobre a vida sexual de Kennedy, ou suas amizades com o mundo artístico e musical, no qual me chamou a atenção especialmente a ligação com Frank Sinatra e os vínculos que este possuía com a máfia da época.
Mas, indiscutivelmente, o motivo maior por ter me interessado pelo livro e ter desfrutado imensamente da leitura foi o fato de que o governo de JFK se situa exatamente durante o momento mais dramático e significativo da Guerra Fria e do século XX de modo geral. Outros podem citar momentos que considerem mais relevantes, mas para mim a ebulição social e o acirramento da tensão entre URSS e EUA no começo dos anos 60 e a chegada de um presidente jovem e civil ao poder da nação com o maior arsenal nuclear da época logo após um antigo general da Segunda Guerra Mundial, com toda a questão da revolução cubana ainda ressoando em todo mundo a partir da ilha caribenha, a somente alguns quilômetros da costa da Florida, além do surgimento dos distúrbios internos decorrentes do crescimento dos movimentos pelos direitos civis e luta pela igualdade racial nos EUA tornam, ao menos para mim, um relato interessantíssimo de como a situação era encarada à época.
Tenho um interesse perene por história e geografia, e a geopolítica da década de 60 é um assunto simplesmente delicioso de se observar pelos mais diversos olhares. Invasão da Baía dos Porcos fracassada, pressão dos militares por um conflito direto em Cuba, crise dos misseis e novo episódio dos milicos sedentos por sangue precisando ser controlados, tudo isso foi muito bem permeado com questões familiares triviais, como a postura da primeira dama (e também uma celebridade para a população americana) Jackie Kennedy, a relação do presidente com a esposa e a família e o drama da gestação durante o mandato e a perda gestacional pouco depois. Tudo isso possibilitou uma humanização do presidente como nunca houve antes, tornando-se histórico. Nenhum outro político americano é tão lembrado e citado quanto JFK. Nem Lincoln possui tamanho alcance e apelo.
As teorias conspiratórias a respeito de sua morte(das quais possuo algumas opiniões que podem valer um novo texto posteriormente), a questão geopolítica da Guerra Fria, o embrião dos direitos civis em seu governo, o discurso e a promessa que foram a base para a corrida espacial que culminaria com Neil Armstrong colocando os pés em solo lunar ao final da década, tudo isso é um conjunto irresistível. O livro é escrito de forma didática, interessante e casual, sem parecer uma biografia de fato, tampouco um romance barato sobre a vida de celebridades. É um relato poderoso de um personagem peculiar e carismático vivendo um dos períodos mais turbulentos do século XX. Muito interessante, especialmente a quem gosta de geopolítica e história. Recomendado. Nota 4/5
Acabo de terminar o meu maior desafio literário de 2022: ler as mais de 1600 páginas de “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. Foi um processo longo, penoso, cheio de altos e baixos, mas com um resultado misto, de emoções diversas. Ou como dizem os falantes da língua inglesa, um tanto “bittersweet”.
O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas
Mas, vamos à análise. Conheci a história por conta do filme lançado há 20 anos. Na minha ingenuidade de menino do interior de Minas, não tinha muita noção da existência destes clássicos da literatura de mais de 200 anos atrás, por isso a minha primeira experiência foi com a película cinematográfica, de uma forma um tanto curiosa. Em uma viagem de escola, nos tempos de colegial, o organizador havia levado 2 filmes para assistirmos na viagem. Um era “O Terno de 6 bilhões de dólares”, com Jackie Chan e o outro, O Conde de Monte Cristo. Havia visto o primeiro no cinema, e o segundo acabou me prendendo ainda mais. Achei a história bem cativante e interessante e, quando soube muitos anos depois que era um filme baseado em um romance literário, fiz uma anotação mental para me embrenhar na leitura assim que conseguisse colocar as mãos no romance de mais de 150 anos.
A oportunidade surgiu há alguns anos, quando encontrei o ebook disponível na internet e o coloquei em minha biblioteca. Fiquei namorando e buscando disposição para encarar o calhamaço de quase 2000 páginas e, finalmente neste 2022 resolvi encarar o desafio. Como a versão que tive acesso é uma versão estendida, com nova tradução e comentários, acabou sendo um pouco mais extenso que o romance original, com impressões de jornalistas sobre a vida e a obra do autor, que auxiliaram a compreender um pouco mais sobre a conjuntura na qual a obra foi escrita e o processo construtivo de todo o texto. Algumas novidades me chamaram a atenção logo de cara, que foi o fato de que o livro não foi lançado completo logo de cara, mas sim em diversas partes ao longo de meses, quase como uma série de diversos volumes que iam se interligando para construir todo o universo do romance. A segunda parte que me chamou a atenção foi a de que Dumas não escrevia sozinho os seus romances, tendo vários colaboradores que auxiliavam ao longo do texto, colocando as suas próprias ideias e impressões, o que pode ser sentido ao longo da obra, ainda que de forma sutil em que nada impacte no resultado.
Posto isso, vamos ao livro. A primeira coisa a se falar é que é uma leitura um tanto cansativa, logicamente pelo tamanho do livro, que se pode presumir uma riqueza excessiva de detalhes e um prolongamento da narrativa além do essencial para garantir o interesse e a riqueza da história. Como a minha primeira experiencia com o universo foi pelo filme, é inevitável traçar paralelos e fazer comparações entre a película e o livro, e são absolutamente diferentes. O trecho mais fiel no filme é o início da narrativa, mostrando como Edmond Dantes foi traído e condenado à prisão perpétua e o seu tempo no cativeiro, até a ousada fuga do Castelo de If. A partir daí, há uma constante separação entre o filme e o livro, optando por caminhos diversos para narrar os caminhos que o Conde de Monte Cristo segue para perpetrar a sua vingança àqueles que o traíram.
O ponto mais marcante sobre essas diferenças é que no livro, são essencialmente 3 os personagens que tramam a prisão de Dantés e o levam a alimentar desejos de vingança, enquanto no filme, talvez até para se enquadrar melhor no formato cinematográfico de mocinho x vilão, os 3 personagens tornam-se um só que é o responsável por todo o infortúnio do nosso herói
Um aspecto interessante e ao mesmo tempo cansativo do livro é que, todo o cenário de fundo que permeia os trechos iniciais da obra, e os seus eventuais desdobramentos refere-se ao período napoleônico e o seu exilio para a ilha de Elba, sua tentativa de retomada do poder e sua expulsão definitiva, o que, para fanáticos por história como eu, é bastante rico de detalhes e agrega muito à história, ao mesmo tempo que, a riqueza de discussões politicas e históricas torna a leitura um tanto cansativa e deixa a sensação de que a leitura seria mais impactante se não fosse tão extensa. Esse mesmo aspecto retorna em vários outros momentos da narrativa, onde, para chegar ao momento do ápice narrativo em um episódio, o autor retrocede a pontos muito antigos e relata detalhadamente como tudo aconteceu até se chegar ao momento realmente relevante para a história. Vou ilustrar esse ponto: em um determinado ponto da história, o visconde Albert de Morcef (não vou dizer quem ele é na história, para não dar spoiler) é capturado por bandoleiros romanos sob o comando de Luigi Vampa. Para chegar neste ponto da história, o autor retrocede até antes do nascimento de Vampa, para explicar que havia um corso que aterrorizava determinada região da Itália, com assaltos e sequestros, passando pelo nascimento e infância de Vampa, até que Vampa se encontra com este corsário e o desafia para um duelo ao ter sua namorada sequestrada por ele, vencendo o duelo e se tornando o lider do bando e como eles mudam de ataques nas regiões campestres da Itália para se sediarem em Roma e daí se desdobrar ate o sequestro do visconde de Morcef.
Exemplos de saltos retrospectivos e narrativas amplamente descritivas de fatos pouco impactantes no desenrolar da história principal são comuns e acabam por cansar o leitor um pouco, deixando a sensação de que, com um romance mais enxuto, de cerca de 700 paginas a história poderia ser contada de forma muito mais objetiva e sem perder nenhum detalhe, mas sendo um volume muito mais eletrizante e cativante. Mesmo vindo em um ritmo de leitura bastante rápido, acabei levando 2 meses para concluir a obra, claro que também se considerando o tamanho do calhamaço, mas ainda assim, a minha sensação é de que uma narrativa mais objetiva poderia aumentar a capacidade de prender a atenção do leitor e dar aquela sensação de não querer deixar o livro de lado.
Entendo perfeitamente porém, que, na época em que foi escrito, este era o modelo vigente na literatura e ele foi escrito para as pessoas de seu tempo, por isso relativizo esta questão e contemporizo, pontuando com os meus olhos de leitor do século XXI mas, respeitando a tradição e o brilhantismo da obra, ao mesmo tempo em que avalio com base nos meus critérios e pensando em leitores do meu tempo que, porventura, leiam esta resenha ao decidirem se irão se embrenhar no emaranhado de intrigas, conspirações e jogos de aparência da Paris do século XIX.
Um outro ponto que gostaria de destacar antes de finalizar esta resenha é com relação ao final do romance. Ainda que eu não vá dar qualquer spoiler a respeito de como o livro é finalizado, a conclusão é de conhecimento de muitas pessoas, tendo em vista que foi lançado um filme hollywoodiano sobre a obra. E talvez influenciado por este filme, eu esperava um final diferente, que a meu ver foi concluído muito sem emoção e de uma forma um tanto acelerada, quase como se o autor, a escrever mais de 1600 páginas não soubesse como terminar de forma satisfatória o seu romance. É estranho, pois ficamos esperando aquele clímax da história, onde tudo é desvelado, somos impactados e no final, há somente umas páginas de conclusão e respiro para assimilar tudo o que aconteceu nas paginas anteriores. Neste livro não tive essa sensação, parece que tudo se encerra de forma muito sem clímax, somente com pequenas pinceladas de emoção e drama, mas sem aquele momento de “puxa vida” que adoramos na conclusão de uma história. É quase como se a história fosse esquentando, mas ao invés daquele momento de pegar fogo, ela voltasse a se esfriar e seguisse no máximo, morno até o final.
Foi gostoso viver essa experiência e estou feliz por ter me desafiado a encarar esta leitura, e agradecido por ter conhecido um clássico da literatura mundial, mas para meu gosto pessoal, foi uma leitura apenas mediana, sem o impacto avassalador que me fez apaixonar por literatura. Nota 3,5/5.