Estava tentando encontrar um jeito de iniciar essa resenha de uma forma diferente das demais, porém não tem como eu não começar dizendo que acabo de finalizar a leitura de mais um livro. “21 lições para o século XXI”, do historiador israelense Yuval Noah Harari. Este foi a minha quinta leitura encerrada neste ano, e, de longe a mais profunda, densa e desafiadora. O autor alcançou notoriedade mundial com sua obra “Sapiens”, que relata a história da humanidade e as construções histórico-sociais que permitiram à espécie humana dominar os demais animais e o ambiente. É um relato profundo, interessantíssimo e recomendado a todos. Este livro das 21 lições, por outro lado, é muito mais sombrio, ameaçador e provocante, pois nos coloca frente a frente com discussões e cenários assustadores sobre nossa existência e futuro enquanto espécie humana.

O autor relata logo no início que a ideia para o livro surgiu de conversas com colegas, amigos e leitores de suas obras anteriores, que o abordam com questionamentos sobre a espécie humana e os rumos que ditarão o futuro do Homo Sapiens neste mundo, e até se haverá um mundo no futuro. De tantos e-mails, seminários, entrevistas e abordagens diretas, o autor optou por consolidar os principais temas em uma nova obra, com 21 temas desenvolvidos a serem considerados para o século XXI e o futuro a curto e médio prazo (considerando-se o histórico de existência da vida humana no planeta).
Esta foi a segunda vez que tentei engajar na leitura, sendo a primeira vez cerca de 2 anos atrás. Tenho por habito sempre colocar meu nome e a data de aquisição de novos livros na primeira página(sei que alguns apaixonados por livros consideram isso quase um sacrilégio, mas gosto de ter um registro histórico de quando o livro entrou em minha vida) e neste caso vi que a primeira vez que tentei ler foi em abril de 2020, quando o adquiri como presente de aniversário para mim mesmo. Comecei a ler a introdução e achei o livro pesado demais para o momento que estávamos vivendo. Lembrem-se bem: abril de 2020 foi o auge do momento de “quarentena” por conta da primeira onda de COVID 19 no Brasil. Foi a época em que tínhamos lives diárias de artistas, cheio de gente em casa fazendo pão caseiro e animadíssimos com a nova realidade de todos presos em casa. Com esse cenário acabei deixando o livro de lado até este ano, quando fui organizar minha meta de leituras para 2022 e decidi que era hora de resgatar a leitura e ver quais as lições que o autor propõe.
A obra está dividida em cinco partes, que o autor chama de desafios, cada qual composta por cerca de 4 ou 5 lições relacionadas àquele desafio. É um texto difícil, denso e por muitos momentos extremamente desafiador, com o autor fazendo conexões entre temas diversos, como meditação e revolução tecnológica. A provocação feita pelo autor é feita conscientemente e muito necessária, para que possamos refletir sobre os desafios que estão diante da espécie humana, que são únicos e maiores do que qualquer outro que tenhamos enfrentado no passado, desde que deixamos as savanas africanas e nos embrenhamos nas selvas de pedra do mundo moderno, com suas megacidades interconectadas mundialmente.
Não vou mentir para ninguém: é uma leitura difícil, tanto pela sua forma quanto pelo conteúdo. É o tipo de livro que raramente você consegue passar por mais de 2 ou 3 paginas sem fazer uma pausa para reflexão a respeito do que acabou de ler. Do contrário, você corre o risco de passar direto pela obra sem absorver quase nada. A reflexão profunda sobre o que é discutido é uma necessidade neste livro. Tanto que ao longo desde ano vinha em uma média de quase 60 páginas lidas diariamente, e para este livro, quase nunca consegui passar de 20 páginas. Por este motivo, foi o que me demandou mais tempo para finalizar e o que, com sobras, representou o maior desafio intelectual.
Mas, não descrevo este cenário para espantar eventuais novos leitores, pelo contrário, é somente um alerta sobre a discussão profundamente necessária que o autor propõe e por esse motivo o livro é recomendadíssimo. Uma leitura reflexiva que analisa o nosso passado, para auxiliar no entendimento do presente e conseguirmos nos preparar de alguma forma para o futuro assustador que se descortina perante nós. O autor consegue, uma vez mais, trazer temas tradicionais da seara acadêmica para um universo mais geral de leitores de uma forma didática e interessante. Nota 4/5.