Porquê Bolsonaro não é cristão

Charge – Montanaro/Folha de São Paulo

Uma das coisas que mais me incomoda no governo Bolsonaro é o apoio quase irrestrito de uma boa parte das pessoas que professam a fé cristã, sejam católicos ou principalmente evangélicos, com a justificativa de que o atual presidente é um exemplo de cristão ou defende os valores e interesses cristãos. A realidade é que nada disso é verdade, e tentarei exemplificar nos tópicos a seguir.

Em primeiro lugar, Cristo é Amor. Isso é o mais importante de tudo, é a constatação mais óbvia e o valor essencial primeiro do Cristianismo. Se qualquer pessoa se intitula cristã, é de imaginar que em algum momento ela conheceu e se identificou com toda a pregação de Cristo na Terra, que se baseia essencialmente, na expressão pura do amor. Amor pelo próximo, amor pelo mundo, amor pelos inimigos. Amar, amar, amar, em qualquer condição. Esse é o ensinamento de Cristo. E esse é o fundamento básico dos mandamentos de Deus, estabelecidos antes mesmo da vinda de Cristo ao mundo: “Amar a Deus sobre todas as coisas” (1º Mandamento) e “Amar ao próximo como a si mesmo.” (2º Mandamento).

Com isso em mente, qualquer pessoa que esteja vivendo no Brasil pode constatar facilmente que Bolsonaro é literalmente o oposto a tudo isso. Bolsonaro não é amor. Bolsonaro é ódio. É conflito. É divisão. Ele se nutre do ódio. Somente odiando algo ou alguém é que o presidente encontra a sua verdadeira essência. Não há nada em suas atitudes e palavras que possa ser identificado como amor. Nem quando ele fala sobre aqueles que supostamente acreditamos que ama – seus filhos – a percepção é de alguém que não expressa amor. Logo, o valor cristão mais essencial não é algo expresso ou vivido pelo presidente, portanto é no mínimo incoerente o apoio dos cristãos a alguém que expressa sentimentos opostos ao principal valor cristão.

O segundo ponto que gostaria de destacar está relacionado ao que os próprios cristãos chamam de “defesa dos valores familiares tradicionais cristãos”. Ressalto que fui criado em uma família muito católica tradicional, participei toda a minha vida de movimentos e pastorais dentro da igreja católica, então sinto que tenho propriedade para expressar o que seriam esses valores tradicionais da família cristã. Essencialmente são 3 pontos:

  1. Casamento único e indissolúvel: o tradicional “o que Deus uniu o homem não separa”. Se alguém se casou, a união deve ser mantida até o final da vida. Não há divórcio.
  2. Filhos gerados dos mesmos pais: complemento do valor anterior. Se não há divórcio, todos os filhos gerados daquela união são essencialmente dos mesmos pais. Um complemento a este valor pressupõe que se não há divórcio e todos os filhos são dos mesmos pais não há adultério.
  3. Criação de toda a família dentro de uma comunidade de fé: um valor essencial dentro das famílias cristãs é a criação dos filhos e do próprio relacionamento amparado em uma vivência assídua dentro de um núcleo religioso, essencialmente uma igreja, no qual o ensino religioso irá complementar a educação familiar, seja na catequese e doutrinação propriamente dita, ou na vivência em comunidade. No meu caso, foi a igreja católica e suas inúmeras pastorais. Hoje, existem também as igrejas evangélicas que, mesmo com suas diferenças, compartilham essencialmente dos mesmos valores.

Identificado, pois, o tripé de sustentação de uma família cristã tradicional, vamos agora observar a vida do presidente Bolsonaro a partir destes valores.

  1. Casamento único e indissolúvel: Bolsonaro fere logo de cara o primeiro valor, pois teve 3 casamentos. Ao se observar obediência aos valores da família cristã, e principalmente o comportamento em sociedade das pessoas que se orgulham de defender estes valores, o presidente seria excluído e considerado um mau cristão, ou um cristão de segundo nível, pois não soube observar o valor mais essencial na união homem-mulher e destruiu aquilo que Deus uniu. Não poderia ser considerado como um bom representante da família cristã.
  2. Filhos gerados dos mesmos pais: como teve 3 casamentos, naturalmente o presidente teve filhos gerados com diversas parceiras. Desta forma, o segundo valor familiar cristão está comprometido, pois os seus filhos não possuem a mesma mãe, logo, assim como seu pai, não seriam considerados “bons cristãos”, portanto, não seriam exemplos a serem considerados.
  3. Criação de toda a família dentro de uma comunidade de fé: este ponto é um pouco menos explicito que os anteriores, porém ainda assim é simples de verificar. Ainda que o político Bolsonaro esteja frequentemente se reunindo com líderes de igrejas, principalmente de igrejas evangélicas neopentecostais, e assim como todos os políticos, em época de eleição esteja frequentando os mais diversos rituais religiosos, a realidade do dia a dia mostra que Bolsonaro não é assíduo em nenhuma igreja. Aliás, de bate pronto não é possível sequer identificar qual a fé e religião que Bolsonaro professa. Ou alguém aqui consegue dizer que Bolsonaro é evangélico, ou católico, ou presbiteriano, ou batista, ou o que quer que seja. A realidade é que ele não segue nenhuma religião, somente usa daquela que lhe apetece no momento para distorcer narrativas e ganhar simpatia de pessoas religiosas.

Importante ressaltar que, ainda que conheça os valores cristãos que mencionei anteriormente, e tenha crescido e participado ativamente dos movimentos, não vejo com bons olhos a obediência cega a esses valores, ainda mais que muitos são ultrapassados para a realidade que vivemos hoje. E ainda mais, discordo veementemente de quem se utiliza destes valores para se autopromover como bom cristão e julgar e condenar aqueles que não sigam ou demonstrem seguir todos esses preceitos.

A verdade é que Bolsonaro não é cristão, sequer professa e segue uma religião e muito menos vive sua vida segundo preceitos que se assemelhem aquilo que foi dito por Jesus Cristo em sua passagem por este mundo. O apoio de entidades religiosas a Bolsonaro é inteiramente forjado nos seus próprios interesses em obter vantagens financeiras e ideológicas que os permitam angariar cada vez mais fiéis e recursos, ampliando o seu projeto de poder, que essencialmente é a finalidade da imensa maioria das igrejas evangélicas e de muitos católicos. Estes grupos, ao apoiar o presidente, obtém vantagens do Estado, como isenção de impostos, projetos de lei que apoiem a sua visão de mundo, possibilitando uma doutrinação e alienação de seus fiéis, o que proporciona uma fidelização de pessoas cada vez maior em suas igrejas, e consequentemente, uma rede cada vez mais robustas e populosa de pessoas para multiplicarem seus próprios interesses.

Cabe aos cristãos de boa-fé, aqueles que entendem verdadeiramente quais são os ensinamentos de Cristo e como utiliza-los no mundo em que vivemos, a missão de desanuviar o horizonte das igrejas e religiões, recuperando as comunidades e pessoas do sequestro sofrido pelo bolsonarismo, para que as pessoas realmente do bem e não “de bem” possam enxergar verdadeiramente a face de Bolsonaro e perceber o quão distante ele está do verdadeiro objetivo cristão que deve ser vivenciado no mundo por pessoas que querem o bem. 

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