
Como já perceberam, eu falo muito de religião e movimentos pastorais, especialmente da Igreja Católica, e isso não é por acaso. Sou nascido e criado dentro de uma família tradicionalista e católica até o último fio de cabelo. Toda a minha formação pessoal tem como cenário de fundo os valores cristãos católicos, se não como o fator mais preponderante, ao menos como princípios muito relevantes a ser considerado em diversos momentos.
Fui batizado com pouco mais de um mês de vida e desde então segui todos os passos de crescimento dentro da doutrina católica: fiz catequese de crianças por vários anos, até chegar ao momento da primeira Eucaristia. Após receber este sacramento, fiz o que em muitos lugares é chamado de “Perseverança”, que nada mais é que um grupinho de catequese para aqueles que ainda estão no limbo pós primeira Comunhão e antes da idade da preparação para a Crisma. Ao atingir a idade dos 15 anos fui para a preparação para a Crisma, e após receber o sacramento, continuei participando da pastoral, desta vez como “auxiliar”, por uns 3 ou 4 anos, até o momento em que recebi um convite para participar de um movimento de jovens dentro da Pastoral da Juventude.
Este grupo foi minha casa fora de casa pelos 10 anos seguintes. Ali eu me desenvolvi, passando de um adolescente imaturo a um adulto inconformado. Portanto, quando eu decido falar tanto de igreja ou religião, é porque é algo que foi tão presente em minha vida que preciso me manifestar para aplacar o choque e revolta com os absurdos que presenciamos constantemente.
Uma das coisas que mais me irritam é a relação entre política e religião, e o posicionamento dos católicos ao tratar dessa temática. Crescendo dentro da igreja Católica no Brasil dos anos 90 e 2000, acompanhei o crescimento das igrejas de orientação evangélicas, principalmente as neopentecostais e como estas “religiões” tem abocanhado boa parcela de “fiéis” que antes se intitulavam católicos. E mais do que isso, tenho observado como estas “igrejas” tem se tornado praticamente partidos políticos, tamanha o número de novos políticos que surgem de suas carreiras, nas quais os seus principais líderes frequentemente usam de seus púlpitos religiosos para se lançarem à vida pública. E com sucesso, tendo em vista que o projeto de “fidelização” das pessoas nestas religiões inclui a manipulação para que votem em massa nos candidatos que são indicados por eles.
Sendo um jovem católico interessado por política e acompanhando a escalada de inúmeros pastores às cadeiras legislativas e executivas do país, desejei que a igreja católica também fizesse o mesmo movimento para colocar alguns dos seus na vida política do país. Achava que assim seriamos melhor representados. Dessa forma, quando algumas personalidades do meio católico começaram a se movimentar para buscar uma articulação política, saudei com alegria a iniciativa e me tornei ativamente interessado em fazer a minha parte para ajudar a serem eleitos.
O primeiro movimento que acompanhei ávida e ativamente, foi a candidatura de um cantor católico que eu adorava às cadeiras do legislativo estadual. Fiz campanha entre os meus amigos e familiares com a convicção de que ele faria um bom trabalho enquanto deputado. Afinal de contas, uma pessoa que compõe músicas tão belas, faz pregações tão tocantes e participa ativamente de uma comunidade de vida e fé não pode fazer um trabalho ruim na assembleia do estado. Com isso, votei nele, votei no candidato ao congresso que fazia dobradinha com ele, e fiquei felicíssimo quando ambos foram eleitos.
Da mesma forma, comecei a acompanhar potenciais candidatos católicos às cadeiras do legislativo municipal, e, ainda que estivesse tomado pela ideia de ter um representante ativo da minha religião na câmara de vereadores, não fui tão assíduo nas campanhas, talvez por conhecer um pouco melhor os candidatos e acreditar que lhes faltassem algumas características para serem realmente bons legisladores.
Nos anos seguintes, já com maior vivência e experiencia, além de ter a amostra dos anos como deputados dos que foram eleitos, comecei a me frustrar um pouco mais e me tocar de que uma pessoa atuante na religião talvez não fosse o melhor representante do povo na política. Comecei a me tornar mais cético e entender que nem sempre um bom católico será necessariamente um bom cidadão. E a experiencia com o mandado dos dois deputados eleitos foi extremamente frustrante. Seus mandatos oscilaram entre a irrelevância e a irracionalidade, com episódios tragicômicos de projetos bizarramente inconstitucionais sendo apresentados ao plenário, somente para ser rechaçados com traços de ironia, tamanha sua desconexão com a realidade. Terrível.
Mais por inércia do que por qualquer outra coisa, ou mesmo falta de opções, no pleito seguinte, a mesma dupla se candidatou em parceria novamente, agora almejando subir degraus, pleiteando a câmara de deputados e o senado, e segui com o voto em ambos, mas sem a empolgação e participação anteriores. Cada vez mais fui percebendo que não era necessariamente obrigatório haver um católico nas esferas governamentais para promover as mudanças, mas sim alguém que compartilhasse de valores essenciais do catolicismo. E fui me tocando também que, infelizmente, o catolicismo e diversas outras religiões carregam junto de valores muito importantes e relevantes, uma carga de preconceito e repressão às diferenças que é lamentável, ainda mais dentro da ótica cristã de que devemos amar e acolher a todos sem distinção.
Em anos mais recentes vivenciei algumas experiencias de pessoas próximas que alcançaram a cadeira de vereador municipal. Ainda que quando chegaram ao poder eu já não fosse um defensor de pessoas da igreja em cargos políticos, saudei com a alegria a chegada deles à posição que tanto almejaram. E pensei que pelo menos passaríamos a ter um canal de comunicação direto com o poder público municipal, e poderíamos esperar coisas boas dessas pessoas, afinal de contas, os conhecia bem, poderiam ser até considerados amigos, frequentaram a minha casa, compartilharam bons momentos em minha companhia.
A decepção, porém, se fez presente uma vez mais ao acompanhar na atuação destas pessoas no poder público. Decepção pois não consigo enxergar em seus mandatos nem a pessoa boa e acolhedora que se demonstrava antes de chegar ao poder, nem o cristão atuante e ciente dos valores essenciais para promover a dignidade humana. No poder, se tornaram mais do mesmo, figuras sem expressão de nada daquilo que as distinguiam, sempre seguindo pautas e posicionamentos retrógrados ou contrários a ações afirmativas que promovessem bem estar à população. Uma tristeza.
Conhecendo a história do município e vendo que sempre houve uma clara elite política que define os rumos da cidade há mais de 100 anos, visando principalmente a perpetuação de seus privilégios, me entristece imensamente ver as pessoas que eu conhecia se aliando e se alinhando à esses grupos, visando principalmente a própria promoção pessoal em detrimento do atendimento dos interesses do povo, especialmente os mais pobres, se escondendo em ações rasas de promoção de pequenas obras que não são sequer de responsabilidades do poder legislativo municipal, mas que são altamente eleitoreiras e dão visibilidade e uma falsa impressão de que “estão fazendo algo pelo povo”.
Ou seja, daqueles que eu esperava uma atuação diferenciada, acabaram se tornando mais do mesmo, promovendo a politicagem baixa e superficial, enquanto os verdadeiros problemas da população, permanecem inalterados e as mudanças necessárias, inalcançáveis.
Não que eu esperasse que eles pudessem mudar o mundo unicamente por serem católicos, mas eu esperava pelo menos uma atitude diferenciada, tentando fazer algo diferente, promover melhorias para a população. Nem me importaria de que não atingissem resultados. Sou adulto o suficiente para entender que o desejo de mudança do status quo da sociedade é uma batalha árdua e inglória, mas não haver sequer uma movimentação para buscar esta transformação é algo que me frustra e decepciona inteiramente. Sei que muitos podem considerar como suicídio político ter essa postura, mas era exatamente isso que eu esperava de alguém que se diz um defensor de valores cristãos: que defendesse as mudanças necessárias e buscasse promovê-las ainda que isso custasse sua carreira política. Sei que essa fala soa como idealista e ingênuo, mas verdadeiramente era o que eu esperava. Talvez a busca por um ideal maior seja exatamente o que nos falta nestes mundo tão individualista e imediatista.
Fui percebendo que haver uma distinção clara entre Estado e Igreja não é apenas saudável, como altamente recomendado, onde encontramos respaldo até nas palavras de Cristo, quando Ele diz que devemos “dar a Deus o que é de Deus e a Cesar o que é de Cesar” (Mt 22, 21b), ou ainda “O meu reino não é deste mundo”(Jo, 18:36), mostrando claramente que há uma distinção entre o Poder de Deus e o poder dos homens, e que ainda que possam se complementar, eles não devem ser confundidos como uma coisa só. Os planos de Deus para o mundo não são um projeto de poder. Cristo expressa constantemente em Sua passagem por essa terra.
De uma forma bem simplista: uma pessoa que vive os valores cristãos do amor, do respeito ao próximo, da dignidade da pessoa humana, pode ser um bom representante político, mas desde que não se atenha única e exclusivamente aos dogmas religiosos para direcionar a sua gestão pública. Pode se inspirar nos valores, especialmente para desenvolver uma compaixão e um senso de promoção da justiça social para a população que está representando, mas não deve jamais tentar tornar o poder público uma extensão de sua própria igreja, seja ela qual for, pois, dentro do universo da população existem inúmeras pessoas que não expressam a mesma fé e não devem ser excluídas ou reprimidas por isso, nem devem ter menos acesso aos direitos constitucionais inerentes a um cidadão normal, mas sim incluídas da mesma forma e respeitadas em sua própria individualidade.
Em um momento de acirramento dos ânimos nas esferas política e religiosa, com a escalada do ativismo extremista em ambas, o caminho me parece muito claro: não devemos buscar a união entre as religiões e o poder político, mas sim a colaboração mútua para que possam promover juntos ações positivas para tornar o mundo em um local mais humano e solidário. A religião com o direcionamento moral e social, estimulando o amor pelo próximo, a solidariedade e o acolhimento nas dificuldades e diferenças. A política com a criação de propostas que efetivamente promovam a justiça social e a melhoria da qualidade de vida das pessoas, dando dignidade e qualidade de vida a todos, independentemente do credo que professam.