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Resenhando (#8)

A quarta leitura deste ano foi o livro “Onze Anéis: a Alma do Sucesso”, do mestre Phil Jackson. Apesar de ser um fã confesso do antigo treinador da NBA, estou há anos com esse livro guardado esperando um bom momento para iniciar a leitura. Confesso que minha hesitação se devia principalmente pelo receio de ser um livro estilo “autoajuda” ou voltado para o universo corporativo/empresarial. Já havia visto personalidades do mundo corporativo recomendando o livro, e isso sempre me causou arrepios. Detesto esse tipo de leitura.

Onze Aneis – Leitura Cativante e agradável – Imagem: Editora Rocco

Mas, como nesse início de ano estou me propondo a resgatar leituras antigas ou livros que estavam parados na minha biblioteca, resolvi deixar o preconceito de lado e dar uma chance, afinal de contas, se tratava de uma obra sobre o universo do basquetebol, com um personagem que me desperta muito interesse e admiração.

E que bom que optei por dar essa chance. É um bom livro, que conta de forma direcionada boa parte da carreira de Phil Jackson, desde a sua adolescência, sua carreira no basquete universitário até a chegada à NBA como jogador do New York Knicks, até a sua aposentadoria como treinador, após o recorde de 11 títulos. Não se trata, porém, de uma biografia. Não no contexto clássico de uma obra biográfica. Phil Jackson conta diversos detalhes sobre a sua vida e sua carreira, detendo-se com maior ou menor atenção em alguns pontos específicos. Mas é uma descrição direcionada, quase sempre para a sua abordagem como jogador e treinador de basquete, e sua busca incessante por autoconhecimento e crescimento espiritual, sem ser forçado ou enfocando alguma religião.

Acho interessante que ele descreve a sua intensa formação cristã, por conta da criação de seus pais, mas como nunca isso nunca o tocou profundamente e quando se tornou adulto partiu em busca de uma ressignificação de sua espiritualidade e o aprofundamento na doutrina zen-budista.

O autor descreve várias passagens interessantes e as visões e interpretações de diversos personagens relevantes, em especial Michael Jordan e Scottie Pippen, e no segundo tricampeonato do Chicago Bulls, os desafios de treinar e extrair o melhor do instável e brilhante Dennis Rodman. Há também passagens deliciosas sobre o tempo de Los Angeles Lakers, que, para um torcedor como eu, são maravilhosas, especialmente a relação cheia de altos e baixos de Shaq e Kobe, marcado por uma intensa rivalidade e uma parceria fantástica. Phil Jackson aborda amplamente suas estratégias para lidar com a luta de egos existentes no universo de Los Angeles, as maneiras com que possibilita a criação de uma conexão especial entre atletas de personalidades tão diversas buscando uma unidade enquanto time que possibilita a realização de feitos espetaculares.

Com a leitura, pude entender porque diversas pessoas citam o livro como obra de referencia para gestão, pois aborda muito aspectos de liderança e gestão de conflitos, principalmente. Mas, o livro vai muito além disso, o que simplifica quando o retratam como um livro de gestão. Pude finalmente entender também porque chamam Phil Jackson de o “Mestre Zen” da NBA, pois ele trata em diversos momentos dos ensinamentos do budismo e como aplicou em seu universo, especialmente os benefícios da meditação e direcionamento de foco, desligando-se dos ruídos e interferências que envolvem todo o universo do basquete profissional.

Foi uma leitura enriquecedora, tanto no conhecimento de curiosidades de momentos especiais dos últimos 30 anos da NBA, como Phil Jackson construiu 2 dinastias com duas franquias extremamente diferentes, e como trilhou seu caminho rumo ao autoconhecimento espiritual e como essa experiência foi fundamental no seu sucesso e no seu crescimento pessoal. Como alguém que vive um momento pessoal de questionamento profundo de suas verdades espirituais e não encontra familiaridade no universo que sempre frequentou, a busca do autor me tocou profundamente e possibilitou reflexões importantes e essenciais no processo pessoal que vivo atualmente. Livro surpreendentemente bom e leve, que me prendeu do inicio ao final, muito mais que estava esperando. Nota 4/5.

Resenhando (#7)

A terceira leitura do ano foi esse “Dez Argumentos para você deletar agora suas redes sociais”, de Jaron Lanier. Como o autor propõe uma ideia altamente transgressora para os dias atuais, fui procurar saber quem ela era e vi que realmente ele possui histórico e respaldo suficiente para falar do assunto e sua opinião deve ser levada em consideração.

Tive essa preocupação de fazer a pesquisa sobre o autor porque raramente leio esse tipo de livro que traz uma ordem ou um objetivo final da leitura, soando muito com os livros de gestão ou autoajuda que tanto detesto. Mas como se tratava de um tema intrigante e uma reflexão pessoal que já tenho feito, fiquei curioso para saber mais sobre os tais “argumentos” propostos pelo autor.

Livro da vez – interessante e reflexivo

Não é a primeira vez que me deparava com o livro – tive o primeiro contato com ele e tentei iniciar a leitura no final de 2020 – mas o combo pandemia + nascimento da minha filha + cirurgia no ombro foi muito avassalador para conseguir aprofundar em uma leitura como essa, que indiscutivelmente exige muita reflexão pessoal, além de paciência e atenção para entender a fundo os argumentos do autor.

Fato é que deixei o livro um pouco de lado até o momento em que estava definindo a minha meta de leitura para 2022. Aliás, recomendo a todos que façam o mesmo, além de ser um exercício gratificante, ajuda a estimular o hábito da leitura, especialmente para aqueles que estão com o objetivo de lerem mais.

Falando do livro agora, é uma obra curta(são menos de 200 páginas) e escrito de uma forma objetiva e direta, mas que ainda assim soa um pouco difícil de se entender em um primeiro momento, especialmente para alguém como eu, que não é um cientista da computação ou tem lá muita familiaridade com a terminologia utilizada nos escritórios do Vale do Silício e da galera que está sistematicamente nas redes sociais.

Ainda que reconheça o esforço do autor em tentar trazer as suas ideias e argumentos para uma realidade e publico mais abrangentes, em determinados momentos ainda fica uma pequena sensação de deslocamento para quem não acostumado aos jargões do meio. Porém, o meu conselho é: persista. Ainda que em algum momento possa ter a sensação de que você não está exatamente entendendo o que ele está falando, o autor constrói a obra de forma a que no final você tenha entendido a mensagem geral que ele quer passar, ainda que possa ter escapado um ou outro conceito ao longo do texto.

De todos os argumentos, o que soa com mais estranheza para mim é justamente o décimo e último, talvez por ser aquele em que o autor mais se arrisca a falar de algo metafísico e filosófico, um pouco mais distante de seu universo profissional, e mesmo que muito sutilmente, passa a soar um pouco mais messiânico ou como texto de auto ajuda.

No geral, achei uma leitura bacana, que propõe reflexões importantes (muitas das quais eu já estou fazendo há algum tempo, tanto que estou vivendo novo período de autoexílio das redes sociais), mas que talvez ainda soe um tanto técnico demais ou difícil ao grande público que hoje povoa as redes sociais. Além, é claro, da própria premissa do livro, de sugerir algo que é quase uma blasfêmia aos olhos do povo hiper conectado de hoje.

Acho que ninguém deva considerar este livro como uma obra de autoajuda ou um guia com respostas às questões que propõe, e nem ter um direcionamento profundo e concreto do que se deve ou não fazer com relação às suas redes sociais. O autor propõe simplesmente uma reflexão a respeito de uma opinião que ele possui e expõe argumentos pertinentes com base em sua história de vida e realidade profissional. Como ele mesmo disse no livro, existem diversos outros argumentos que podem ser utilizados para convencer alguém a deixar de lado as redes sociais, ele se ateve única e exclusivamente aos dez que considerou possuir maior conhecimento e propriedade para abordar.

Gostei bastante da reflexão, dos argumentos apresentados e me fizeram aprofundar em pensamentos que já venho ruminando há meses, portanto, me foi muito esclarecedor e produtivo a leitura, ainda que eu entenda os motivos de algumas resenhas não tão positivas existentes na internet sobre a obra. Eu recomendo a leitura a todos. Nota 4/5.

Resenhando (#6)

Finalizei a poucos dias a leitura – ou melhor dizendo, a releitura – da obra “Operação Cavalo de Tróia 2 – Massada”. Há alguns anos, por indicação de um primo li por acaso os dois primeiros livros da saga e, por fazer muito tempo, não me recordava de todos os detalhes de cada um dos livros, qual fato era de cada, havia uma confusão na minha cabeça, daí agora que resolvi retomar e ler toda a saga, achei melhor reler tudo desde o inicio para me familiarizar novamente com toda a narrativa e fazer a conexão mental com toda a história.

Cavalo de Troia 2 – Massada: Bom, mas podia ser melhor.

Posto isso, vou falar propriamente do segundo livro. Operação Cavalo de Troia 2 – Massada é uma história que se passa exatamente no momento em que finaliza a primeira aventura de Jasão e Eliseu, na Jerusalém do século 1. O livro é basicamente uma continuação dos fatos, narrados sequencialmente até o desenrolar da segunda aventura.

Confesso que achei essa segunda leitura muito mais cansativa e menos inspiradora que a primeira. Ainda que a primeira parte dos acontecimentos, toda a escolha de um novo local para o desenrolar do projeto, e principalmente o desenrolar geopolítico narrado e que permeia diversas decisões da história é muito interessante para alguém, como eu, que adora fatos históricos e geopolíticos.

Porém, ao entrar na aventura propriamente dita – o segundo salto no tempo para retornar ao tempo de Jesus e investigar os fatos pós crucificação – a sensação que fica é que o autor J.J.Benitez foi tomado mais pelo desejo de confrontar mais diretamente as religiões cristãs, especialmente a igreja católica, do que desenvolver de forma mais cativante a história, a exemplo da primeira aventura.

Ainda que a narrativa tenha momentos inspiradores e tocantes, que proporcionam reflexões bacanas, no geral a sensação é de que boa parte do tempo é desperdiçado para ficar reforçando que os evangelistas se esqueceram de narrar determinado fato, ou foram omissos em outra passagem, ou que negligenciaram personagens relevantes. De modo geral, o texto se torna mais truncado e cansativo com essa retorica insistente de apontar falhas, ao invés de seguir na descrição da aventura. É um livro interessante, vale a pena a leitura, mas, por se tratar de uma continuação de uma obra inspiradora, esperava um desenvolvimento mais uniforme e cativante. A sensação que fica é de que poderia ser muito mais do que foi, ainda que dê abertura para a continuidade da saga. Porém, vendo a forma que esse livro se desenvolveu, fiquei com a pulga atrás da orelha sobre como a saga continuará, ainda mais sabendo que serão 9 livros até o final, sendo que no segundo já há alguns sinais de cansaço da narrativa. A ver. Nota 3/5.

Resenhando (#5)

Em primeiro lugar, um feliz 2022 a todos. Nas últimas semanas de 2021 negligenciei o blog devido a outros projetos que estava desenvolvendo paralelamente, mas agora é o momento certo de retomar este espaço que me é tão querido. No mês de dezembro, ao invés de iniciar nova leitura, acabei me rendendo ao espírito de retrospectivas que sempre acontecem nessa época do ano e me voltei para releitura de livros queridos, dos quais nunca fiz uma resenha digna e que representassem de fato o tamanho do impacto que tiveram em minha vida. Ao longo do mês acabei relendo 4 dos meus livros favoritos e em outra postagem vou me arriscar a rascunhar algumas palavras acerca de cada um deles.

Polêmico e Sensível – Bela obra de JJ Benitez

Mas neste texto de hoje eu quero falar é do primeiro livro que li neste ano de 2022. Aliás, reli, por se tratar também da releitura de uma obra que já havia conhecido há muitos anos, mas que devido ao impacto do tempo e principalmente de minha transformação enquanto pessoa nos últimos anos, achei válido revisitar e me propor a uma releitura das mesmas páginas que tiveram um sabor de novo encontro.

Refiro-me ao ilustre e polêmico livro “Operação Cavalo de Tróia 1 – Jerusalém”. Polêmico pois o próprio autor J.J. Benitez destaca suas agruras com diversas pessoas e principalmente com a Igreja Católica desde a publicação de sua obra. Como trata-se de um livro já antigo (foi lançado originalmente em 1984, e chegou ao Brasil em sua primeira versão em 1987), não vou me preocupar com eventuais spoilers ao longo dessa resenha. Até mesmo por tratar da história mais contata da humanidade, seria paradoxal se eu tivesse alguma preocupação em não entregar qual o final da história.

Mas, resumidamente para melhor situar o leitor, a obra trata dos relatos de um major da Força Aérea norte americana que esteve envolvido em um projeto ultrassecreto do órgão, que durante pesquisas científico-militares, encontra uma forma de viajar no tempo. E escolhem como objeto da primeira grande “viagem” a Palestina do século I para observarem os dias dramáticos da Paixão e Morte de Jesus Cristo e sua ressurreição.  Não vou me deter a narrar os fatos do desenrolar da história, até mesmo porque todos já os conhecem amplamente, mas gostaria de ressaltar alguns pontos que achei interessante.

A parte inicial da obra, na qual o autor se coloca como personagem de sua própria história, descrevendo suas desventuras ao se encontrar com o Major e tudo o que precisou fazer para finalmente ter acesso ao diário do militar, descrevendo suas memórias do projeto. Ao se colocar dessa forma, o autor dá uma grande contribuição à credibilidade de sua história. Acredito que se tivesse somente apresentado a história do salto ao passado, sem este preâmbulo de como se apoderou da história que apresenta, todo o relato do major seria considerado amplamente inverossímil e perderia em muito o caráter de relato científico que o autor busca. Mas, ao construir a narrativa dessa forma, nos envolvemos com a história e sem que percebamos, a transição entre sua narrativa e os relatos do major se dá de forma sutil e continuamos a “ouvir” a história com naturalidade e sem que se perceba, estamos aceitando o relato do major como uma verdade.

Entendo perfeitamente o cisma da Igreja Católica com a história – há vários trechos nos quais são descritos como uma negação aos ensinamentos do dogma religioso e há principalmente, criticas contumazes a diversos aspectos da religião e da fé cristã, daí a polemica, mas em outros momentos há um relato emocionante dos ensinamentos de Jesus de Nazaré e uma alma disposta a refletir sobre a profundidade da mensagem do Mestre sem as amarras religiosas de qualquer igreja, são passagens de grande emoção e sensibilidade.

Como cresci em um meio católico fervoroso, em um primeiro momento o relato me causa estranheza e algum repúdio. Mas, ao avançar na história, ao me abrir um pouco mais para a reflexão de diversos trechos, percebo que há uma beleza e uma verdade nas palavras, especialmente nos trechos em que se propõe a falar que Deus é amor, e que praticamos a religiosidade a expressarmos o amor a todos.

Além disso, o texto é inteiramente construído como um relato amplamente científico – com o providencial acréscimo de diversas notas de rodapé e referências a diversos pontos do texto, quase como um artigo científico submetido ao escrutínio de uma banca avaliadora. Esta construção textual, ainda que um tanto maçante e cansativa em diversos pontos – especialmente para quem não tem tanto apreço por descrições técnicos e cientificas – tem um efeito impressionante de causar uma sensação de credibilidade e verdade ao relato. Por diversos momentos durante a leitura, você se esquece de que se trata de uma obra de ficção científica e passa a aceitar verdadeiramente que o Major esteve na Jerusalém do ano 30 do século I e foi testemunha ocular dos dramáticos eventos acontecidos durante a festa da Páscoa.

Ao menos para mim, um seguidor da doutrina cristã, mas que possui um profundo respeito e confiança no método científico e na construção do conhecimento, o livro foi profundamente enriquecedor. Além de propor reflexões que me permitiram aprofundar nas questões da fé, na virtude e na mensagem de Jesus Cristo, sacia a minha curiosidade científica com tantas referências técnicas, quase que me fazendo acreditar que é possível realizar a viagem proposta na obra.

O livro é extenso, são quase 600 páginas, mas que saboreei rapidamente ao longo dos primeiros 10 dias desse ano. Não avalio ainda mais positivamente pois há momentos em que o excesso de informações técnicas acaba por atravancar um pouco o avanço da história, mas no geral é uma obra brilhante e que recomendo a leitura a todos, desde o cético ateu que não tem fé ao cristão mais fervoroso. Ainda que não promova reflexões mais profundas, pelo menos permanece como uma grande peça de literatura. Nota 4/5.

O fator Liberty Media

Desde o GP da Arábia Saudita de F1, no domingo passado, eu estou ensaiando escrever algumas palavras antes da decisão do campeonato neste final de semana. A ideia inicial era de falar sobre Max Verstappen e os exageros na hora de disputar posições contra outros pilotos e, especialmente contra Lewis Hamilton. Havia pensado em fazer uma retrospectiva do ano todo, mencionar o histórico desde que chegou à Red Bull em 2016, mas este assunto já foi tão abordado em diversos blogs e sites ao longo da semana e as redes sociais estão pulsando tão raivosas e enfáticas com as discussões a respeito do tema que pouco eu teria a dizer para que pudesse de fato acrescentar nesse assunto.

Por essa razão optei por trazer um outro viés para a discussão sobre as atitudes dos pilotos, a postura da FIA no que diz respeito a punições e decisões extra pista, que é a influência e os objetivos da Liberty Media neste contexto. Lembrando, a Liberty Media é um grupo financeiro que comprou a F1 da antiga FOM (Formula One Management), empresa de Bernie Ecclestone, que foi o chefão soberano da categoria por mais de 30 anos. Esta mudança aconteceu em 2017 e desde então a Liberty vem aos poucos colocando a sua visão de negócios no mundo até então sisudo da F1.

Algumas mudanças são extremamente positivas, como a maior abertura da categoria para as redes sociais, para novas midias, como a Netflix, e a captura de novos fãs, especialmente jovens que antes não tinham qualquer interesse pela categoria. Ao mesmo tempo, a Liberty tem uma postura bem estadunidense de “priorizar o espetáculo e o entretenimento acima de tudo”, mesmo que em algum momento as decisões esportivas sejam colocadas um pouco de lado.

A maior polêmica deste ano de 2021 está nas decisões dos comissários de prova e do diretor de corridas, Michael Masi. Ainda que sejam vinculados à FIA, me parece muito claro que estão diretamente a serviço da Liberty no que diz respeito à essa priorização do espetáculo sobre o esporte. A inconsistência de decisões ao longo do ano, a falta de uma diretriz unica a ser aplicada para casos similares, a disposição para condescendência em alguns casos e para a rigidez em outros demonstra para mim um objetivo de sempre tomar decisões que não impactem diretamente o resultado do espetáculo.

Isso apareceu ainda mais claramente nas ultimas polêmicas envolvendo disputa de posições entre os lideres do campeonato. O ano todo foi recheado de momentos de contatos e quase contatos entre Hamilton e Verstappen, o que não é surpresa dado o contexto e principalmente a postura do holandês. Desde que chegou à Red Bull ele é visto como um piloto espetáculo que atrai muitos fãs para a categoria, sejam torcedores ou criticos, logo, é visto como a menina dos olhos para os donos do show, no caso a Liberty. Ao longo dos anos, desde 2016, Verstappen sempre esteve envolvido em disputas excepcionalmente duras e que na maioria das vezes tiveram resultados favoráveis a ele, seja ganhando uma posição, ou não tomando uma punição por uma manobra mais rispida.

Me parece claro que é um desejo da Liberty ter um personagem assim, que desperte paixões e apimente o espetáculo, daí a maior permissividade com ele que com os demais pilotos. E ao longo deste ano, isso foi claro em diversos momentos em que, quando os lideres do campeonato se encontraram na pista, todas as vezes em que quase houve o contato, mas foi evitado em cima da hora porquê Hamilton recolhia. Quando optou por não fazer isso, houve o choque, como em Silverstone, Monza, Interlagos e Jeddah.

Especialmente nos dois ultimos casos, os incidentes geraram polêmicas enormes e, ainda que houvesse uma discussão acerca, a maioria das opiniões são de que Verstappen deveria ter sido punido em Interlagos(não foi) e deveria ter recebido uma punição mais dura na Arabia(10 segundos ficou barato). A permissividade da FIA me parece como uma influência direta da Liberty Media em preservar o espetáculo mesmo que ao custo de perda da credibilidade das decisões dos comissários. A FIA, enquanto orgão regulador, não deve olhar para posição de campeonato, personagens envolvidos ou eventuais consequências de suas decisões. Deveria simplesmente observar as regras, definir se houve infração e aplicar o regulamento.

Mas o que aconteceu não foi isso e me parece uma clara influência da Liberty para que se crie um clima de quase guerra que acirra os animos e aumente substancialmente o interesse pela decisão do campeonato. Desde que o Hamilton tomou 2 punições em Interlagos e ainda assim conseguiu se recuperar, driblar Verstappen que o jogou para fora da pista e ainda assim vencer, a Liberty vislumbrou uma possibilidade de o campeonato chegar na ultima etapa empatado ou muito acirrado, cenário que parecia quase impossivel desde que Verstappen venceu as duas corridas na America do Norte. Após o GP no Brasil eu vislumbrei a possibilidade dos concorrentes chegarem empatados à decisão, e me parece que a Liberty também notou isso e pressionou para que isso acontecesse, mesmo com as atitudes de Max Verstappen beirarem a deslealdade, tanto no Brasil quanto na Arábia. E deram aquela forçada na direção de prova para que, primeiro não se punisse o holandês pela manobra em Interlagos e depois da corrida absurdamente erratíca que fez em Jeddah, onde tomou 5 punições, que estas punições não influenciassem de forma alguma o resultado da corrida e consequentemente do campeonato.

Verdade seja dita, em Interlagos, com a manobra de forçar Hamilton para fora da pista, caberia uma punição que não vejo. Punição essa que poderia jogá-lo para 3° colocado na pista e impediria o empate que temos hoje na decisão. Da mesma forma como aconteceu na Arábia. A recorrência das punições em uma mesma corrida poderia e deveria ter resultado em uma punição dura ao piloto da Red Bull. Sempre foi assim na F1: faz algo errado, recebe uma advertência, repete o erro, é punido, repete o erro, punição mais dura, insiste em errar, desclassificação.

A meu ver, claramente a Liberty viu a possibilidade um campeonato tão instigante chegar à ultima corrida com os pilotos aspirantes ao título empatados em pontos e forçou para que nada atrapalhasse isso. Daí a permissividade da FIA com Verstappen na ultima corrida. Reafirmo: pelo brake test, ele deveria ser desclassificado, porém caso considerassem muito extremo, poderiam ter aplicado a punição de Stop&Go na prova, onde somando-se o tempo perdido no pitlane mais os 10 segundos de punição, seriam pelo menos 30 segundos perdidos, o que derrubaria Max de segundo para 5° na prova, fazendo com que chegasse pelo menos 10 ou 12 pontos atrás de Hamilton na decisão. Tal cenário obrigaria o piloto a vencer e torcer por uma combinação de resultados para ser campeão. Sem as punições e rigorosamente empatados, um abandono duplo, faz do holandês campeão. Muito se especulou sobre isso também ao longo da semana, tanto que até a FIA se pronunciou, dizendo que pode desclassificar se alguém(leia-se Verstappen) utilizar desse artificio pra forçar o resultado que lhe favorece.

Pensando em mercado, visibilidade e retorno de midia para a Liberty,o cenário de decisão empatada, quem ganhar leva é o cenário dos sonhos para a dona da F1 e acredito que ela realmente atuou nos bastidores em todas estas polêmicas para garantir que esse cenário pudesse se consolidade. Nesse ponto, foi uma gestão brilhante, mas o custo esportivo e o desgaste para a imagem da isonomia esperada das decisões esportivas deixa muito a desejar. A F1 é um negócio bilionário, mas jamais deve deixar que isso se sobreponha à preocupação com segurança e o lado esportivo da categoria. Os fãs agradecem.

Um amorversário

Filha,

Papai tentou escrever um tanto de coisas para celebrar o seu aniversário, mas as palavras simplesmente escapam ou não são suficientes para descrever tudo o que o papai sente em cada momento que está com você.  Em cada sorrisinho que você dá ao ver o papai quando ele chega para te tirar do bercinho ao acordar. No encantamento ao observar os seus olhinhos inchados e sonolentos pela manhã quando vai trocar a sua fraldinha. No balbuciar de cada sonzinho que você faz enquanto fazemos seu ritual de higiene e vamos conversando. Em cada beijinho nos pés, na barriga ou rosto que o papai te dá ao fazer tudo isso, porque não resiste tamanha gostosura. Em cada fralda suja e fedorenta que o papai troca com a maior alegria do mundo, fazendo festa pelo seu cocô e xixi. Pela alegria e orgulho que papai e mamãe sentem a cada descoberta que você faz, pegando uma frutinha e levando até a boca, bebendo a sua água direto do copinho sozinha, ou dando os primeiros passos por conta própria. Papai sempre sonhou com a sua chegada, mas na verdade ter você aqui é muito melhor que qualquer sonho.
Papai sofre e se encanta em iguais medidas. Papai preocupa e aproveita na mesma proporção. Papai ensina e aprende com a mesma disposição. Papai erra e acerta com a mesma frequência.  Papai te ama incondicionalmente e está encantado em poder testemunhar a sua história neste mundo. Papai é personagem coadjuvante em um roteiro no qual você é a estrela. Quando você chegou, o papai desejou “Seja feliz, filha”. Hoje, reafirma esse desejo.

Feliz aniversario minha pequena amada!

Resenhando (#4)

Acabo de finalizar a leitura de “O primeiro home: a vida de Neil Armstrong”, biografia do famoso astronauta, eternizado como o primeiro homem a pisar na superfície lunar. Gosto muito de biografias e sempre me proponho a ler boas obras de personagens significativos na história. Não para buscar inspiração ou para ter alguma lição de moral para a vida, como alguns “coaches de coisa nenhuma” adoram replicar por aí, mas simplesmente pela curiosidade em torno do fato pelo qual o biografado tornou-se conhecido.

A dinâmica quase sempre é essa: o interesse pelo fato histórico é muito maior que os personagens envolvidos, mas adentrar na biografia de um deles permite um conhecimento ainda maior de tudo o que envolveu aquele fato. É assim com a chegada do homem à lua. É um tema que sempre chamou a minha atenção, desde criança ao folhear as enciclopédias que meus pais tinham em casa.

Esse interesse acentuou-se muito durante o ano de 2019(último ano de “normalidade” neste caos chamado planeta Terra), quando se celebrou os 50 anos do pouso da Apollo 11 no Mar da Tranquilidade, em julho de 1969. À época, diversos canais, especialmente History Chanel, Discovery Chanel e National Geographic fizeram uma programação especial com vários documentários sobre o tema, aumentando ainda mais a minha admiração pelo feito. Não que em certo momento eu não tenha duvidado do feito: sim, houve momentos em que eu fui meio negacionista e cheguei a desconfiar por um breve período que as teorias conspiratórias de que o homem nunca havia chegado à lua eram verdadeiras e tudo não passava de encenação.

Mas, como sou dotado de um cérebro operacional e funcionando plenamente, pude verificar que as provas existentes são contundentes e as teorias da conspiração não são nada além de especulação que tentam distorcer fatos científicos comprovados e comprováveis. Mas, vamos deixar essa discussão de lado e focar na biografia.

O livro é completíssimo e contempla toda a vida do famoso astronauta Neil Armstrong, desde antes de seu nascimento até após a sua morte, em 2012 aos 82 anos. Como o próprio autor destaca, o biografado fez questão de que fossem apresentadas as suas origens, desde as primeiras gerações de Armstrongs existentes na Escócia, até a migração para a América e chegando até o momento do nascimento de Neil.

Retrata também toda a sua formação, desde criança como escoteiro, passando por sua formação militar na Marinha Americana, sua atuação como piloto aéreo na guerra da Coreia até a chegada à NASA com a segunda turma de astronautas selecionada pelo programa espacial dos EUA, os chamados “New Nine”. A partir daí descreve todas as etapas do programa espacial até o pouso do modulo lunar na superfície da lua. Acompanha Armstrong por todos os anos subsequentes, em que lutou contra a fama provocada pelo seu feito, e os passos que seguiu profissionalmente até o final de sua vida.

O livro, provavelmente escrito e pensado para um publico estadunidense, ainda que Neil fosse uma personalidade mundial, destaca rica e exaustivamente todos os passos da carreira de Armstrong na marinha, depois nos programas de testes de aviação civil e no programa espacial, com descrições detalhadas de tempo de voo em todas as máquinas testadas pelo astronauta, quais armas utilizadas, e quais as condecorações recebidas. Para os norte-americanos, fascinados pela cultura militar parece fazer sentido, mas para mim, pouco afeito a esses aspectos, o texto torna-se um pouco maçante, ainda mais porque não possuímos qualquer conhecimento de todas as aeronaves ou embarcações porta aviões que são apresentadas.

Um outro aspecto que às vezes causa um certo embaraço na leitura é a descrição sistemática de Neil Armstrong como alguém excepcional, um fora de série, quase como um ser humano superior. Sério, às vezes o biografo carrega tanto nas tintas ao falar do astronauta que se torna um pouco cansativo, quase como se fosse um super-humano infalível. É uma forma de retratar um biografado que não vi sequer na biografia do genial Leonardo da Vinci, e que não condiz com a própria imagem que Neil faz de si mesmo, evitando os louros de seus feitos e sempre externalizando que não foi um feito individual seu, mas sim um esforço de mais de 400 mil pessoas para se chegar ao objetivo final.

Em nenhum momento Armstrong se refere como alguém excepcional, mas sempre com humildade e sensatez de que é somente um profissional dedicado ao trabalho e disposto a testar as possibilidades para se obter o resultado esperado. Um aspecto bastante interessante é que, apesar deste destaque às vezes exagerado das qualidades do biografado, em nenhum momento o livro adota um tom ufanista para celebrar os feitos dos EUA durante a guerra fira e a corrida espacial. Pelo contrário, até destaca as realizações soviéticas que vieram anteriormente às norte americanas, e trata essencialmente do desenvolvimento científico que possibilitou a chegada do homem à lua e coloca essa corrida espacial somente como o combustível extra que nutriu esse processo.

Considerando todos os fatos, é um livro muito bem escrito, rico em detalhes como uma biografia deve ser, e nos permite construir uma boa imagem acerca do biografado e os feitos históricos nos quais esteve envolvido. Um bom livro que vale a pena a leitura, especialmente para os entusiastas da exploração espacial. Garanto que a riqueza dos detalhes irá satisfazer a curiosidade e aumentar ainda mais a fascinação pelo espaço e a lua em particular. Recomendado!

Política e Religião

Charge: Duke

Como já perceberam, eu falo muito de religião e movimentos pastorais, especialmente da Igreja Católica, e isso não é por acaso. Sou nascido e criado dentro de uma família tradicionalista e católica até o último fio de cabelo. Toda a minha formação pessoal tem como cenário de fundo os valores cristãos católicos, se não como o fator mais preponderante, ao menos como princípios muito relevantes a ser considerado em diversos momentos.

Fui batizado com pouco mais de um mês de vida e desde então segui todos os passos de crescimento dentro da doutrina católica: fiz catequese de crianças por vários anos, até chegar ao momento da primeira Eucaristia. Após receber este sacramento, fiz o que em muitos lugares é chamado de “Perseverança”, que nada mais é que um grupinho de catequese para aqueles que ainda estão no limbo pós primeira Comunhão e antes da idade da preparação para a Crisma. Ao atingir a idade dos 15 anos fui para a preparação para a Crisma, e após receber o sacramento, continuei participando da pastoral, desta vez como “auxiliar”, por uns 3 ou 4 anos, até o momento em que recebi um convite para participar de um movimento de jovens dentro da Pastoral da Juventude.

Este grupo foi minha casa fora de casa pelos 10 anos seguintes. Ali eu me desenvolvi, passando de um adolescente imaturo a um adulto inconformado. Portanto, quando eu decido falar tanto de igreja ou religião, é porque é algo que foi tão presente em minha vida que preciso me manifestar para aplacar o choque e revolta com os absurdos que presenciamos constantemente.

Uma das coisas que mais me irritam é a relação entre política e religião, e o posicionamento dos católicos ao tratar dessa temática. Crescendo dentro da igreja Católica no Brasil dos anos 90 e 2000, acompanhei o crescimento das igrejas de orientação evangélicas, principalmente as neopentecostais e como estas “religiões” tem abocanhado boa parcela de “fiéis” que antes se intitulavam católicos. E mais do que isso, tenho observado como estas “igrejas” tem se tornado praticamente partidos políticos, tamanha o número de novos políticos que surgem de suas carreiras, nas quais os seus principais líderes frequentemente usam de seus púlpitos religiosos para se lançarem à vida pública. E com sucesso, tendo em vista que o projeto de “fidelização” das pessoas nestas religiões inclui a manipulação para que votem em massa nos candidatos que são indicados por eles.

            Sendo um jovem católico interessado por política e acompanhando a escalada de inúmeros pastores às cadeiras legislativas e executivas do país, desejei que a igreja católica também fizesse o mesmo movimento para colocar alguns dos seus na vida política do país. Achava que assim seriamos melhor representados. Dessa forma, quando algumas personalidades do meio católico começaram a se movimentar para buscar uma articulação política, saudei com alegria a iniciativa e me tornei ativamente interessado em fazer a minha parte para ajudar a serem eleitos.

            O primeiro movimento que acompanhei ávida e ativamente, foi a candidatura de um cantor católico que eu adorava às cadeiras do legislativo estadual. Fiz campanha entre os meus amigos e familiares com a convicção de que ele faria um bom trabalho enquanto deputado. Afinal de contas, uma pessoa que compõe músicas tão belas, faz pregações tão tocantes e participa ativamente de uma comunidade de vida e fé não pode fazer um trabalho ruim na assembleia do estado. Com isso, votei nele, votei no candidato ao congresso que fazia dobradinha com ele, e fiquei felicíssimo quando ambos foram eleitos.

Da mesma forma, comecei a acompanhar potenciais candidatos católicos às cadeiras do legislativo municipal, e, ainda que estivesse tomado pela ideia de ter um representante ativo da minha religião na câmara de vereadores, não fui tão assíduo nas campanhas, talvez por conhecer um pouco melhor os candidatos e acreditar que lhes faltassem algumas características para serem realmente bons legisladores. 

            Nos anos seguintes, já com maior vivência e experiencia, além de ter a amostra dos anos como deputados dos que foram eleitos, comecei a me frustrar um pouco mais e me tocar de que uma pessoa atuante na religião talvez não fosse o melhor representante do povo na política. Comecei a me tornar mais cético e entender que nem sempre um bom católico será necessariamente um bom cidadão. E a experiencia com o mandado dos dois deputados eleitos foi extremamente frustrante. Seus mandatos oscilaram entre a irrelevância e a irracionalidade, com episódios tragicômicos de projetos bizarramente inconstitucionais sendo apresentados ao plenário, somente para ser rechaçados com traços de ironia, tamanha sua desconexão com a realidade. Terrível.

            Mais por inércia do que por qualquer outra coisa, ou mesmo falta de opções, no pleito seguinte, a mesma dupla se candidatou em parceria novamente, agora almejando subir degraus, pleiteando a câmara de deputados e o senado, e segui com o voto em ambos, mas sem a empolgação e participação anteriores. Cada vez mais fui percebendo que não era necessariamente obrigatório haver um católico nas esferas governamentais para promover as mudanças, mas sim alguém que compartilhasse de valores essenciais do catolicismo. E fui me tocando também que, infelizmente, o catolicismo e diversas outras religiões carregam junto de valores muito importantes e relevantes, uma carga de preconceito e repressão às diferenças que é lamentável, ainda mais dentro da ótica cristã de que devemos amar e acolher a todos sem distinção.

Em anos mais recentes vivenciei algumas experiencias de pessoas próximas que alcançaram a cadeira de vereador municipal. Ainda que quando chegaram ao poder eu já não fosse um defensor de pessoas da igreja em cargos políticos, saudei com a alegria a chegada deles à posição que tanto almejaram. E pensei que pelo menos passaríamos a ter um canal de comunicação direto com o poder público municipal, e poderíamos esperar coisas boas dessas pessoas, afinal de contas, os conhecia bem, poderiam ser até considerados amigos, frequentaram a minha casa, compartilharam bons momentos em minha companhia.

A decepção, porém, se fez presente uma vez mais ao acompanhar na atuação destas pessoas no poder público. Decepção pois não consigo enxergar em seus mandatos nem a pessoa boa e acolhedora que se demonstrava antes de chegar ao poder, nem o cristão atuante e ciente dos valores essenciais para promover a dignidade humana. No poder, se tornaram mais do mesmo, figuras sem expressão de nada daquilo que as distinguiam, sempre seguindo pautas e posicionamentos retrógrados ou contrários a ações afirmativas que promovessem bem estar à população. Uma tristeza.

Conhecendo a história do município e vendo que sempre houve uma clara elite política que define os rumos da cidade há mais de 100 anos, visando principalmente a perpetuação de seus privilégios, me entristece imensamente ver as pessoas que eu conhecia se aliando e se alinhando à esses grupos, visando principalmente a própria promoção pessoal em detrimento do atendimento dos interesses do povo, especialmente os mais pobres, se escondendo em ações rasas de promoção de pequenas obras que não são sequer de responsabilidades do poder legislativo municipal, mas que são altamente eleitoreiras e dão visibilidade e uma falsa impressão de que “estão fazendo algo pelo povo”.

Ou seja, daqueles que eu esperava uma atuação diferenciada, acabaram se tornando mais do mesmo, promovendo a politicagem baixa e superficial, enquanto os verdadeiros problemas da população, permanecem inalterados e as mudanças necessárias, inalcançáveis.

Não que eu esperasse que eles pudessem mudar o mundo unicamente por serem católicos, mas eu esperava pelo menos uma atitude diferenciada, tentando fazer algo diferente, promover melhorias para a população. Nem me importaria de que não atingissem resultados. Sou adulto o suficiente para entender que o desejo de mudança do status quo da sociedade é uma batalha árdua e inglória, mas não haver sequer uma movimentação para buscar esta transformação é algo que me frustra e decepciona inteiramente. Sei que muitos podem considerar como suicídio político ter essa postura, mas era exatamente isso que eu esperava de alguém que se diz um defensor de valores cristãos: que defendesse as mudanças necessárias e buscasse promovê-las ainda que isso custasse sua carreira política. Sei que essa fala soa como idealista e ingênuo, mas verdadeiramente era o que eu esperava. Talvez a busca por um ideal maior seja exatamente o que nos falta nestes mundo tão individualista e imediatista.

            Fui percebendo que haver uma distinção clara entre Estado e Igreja não é apenas saudável, como altamente recomendado, onde encontramos respaldo até nas palavras de Cristo, quando Ele diz que devemos “dar a Deus o que é de Deus e a Cesar o que é de Cesar” (Mt 22, 21b), ou ainda “O meu reino não é deste mundo”(Jo, 18:36), mostrando claramente que há uma distinção entre o Poder de Deus e o poder dos homens, e que ainda que possam se complementar, eles não devem ser confundidos como uma coisa só. Os planos de Deus para o mundo não são um projeto de poder. Cristo expressa constantemente em Sua passagem por essa terra.

De uma forma bem simplista: uma pessoa que vive os valores cristãos do amor, do respeito ao próximo, da dignidade da pessoa humana, pode ser um bom representante político, mas desde que não se atenha única e exclusivamente aos dogmas religiosos para direcionar a sua gestão pública. Pode se inspirar nos valores, especialmente para desenvolver uma compaixão e um senso de promoção da justiça social para a população que está representando, mas não deve jamais tentar tornar o poder público uma extensão de sua própria igreja, seja ela qual for, pois, dentro do universo da população existem inúmeras pessoas que não expressam a mesma fé e não devem ser excluídas ou reprimidas por isso, nem devem ter menos acesso aos direitos constitucionais inerentes a um cidadão normal, mas sim incluídas da mesma forma e respeitadas em sua própria individualidade.

Em um momento de acirramento dos ânimos nas esferas política e religiosa, com a escalada do ativismo extremista em ambas, o caminho me parece muito claro: não devemos buscar a união entre as religiões e o poder político, mas sim a colaboração mútua para que possam promover juntos ações positivas para tornar o mundo em um local mais humano e solidário. A religião com o direcionamento moral e social, estimulando o amor pelo próximo, a solidariedade e o acolhimento nas dificuldades e diferenças. A política com a criação de propostas que efetivamente promovam a justiça social e a melhoria da qualidade de vida das pessoas, dando dignidade e qualidade de vida a todos, independentemente do credo que professam.

Porquê Bolsonaro não é cristão

Charge – Montanaro/Folha de São Paulo

Uma das coisas que mais me incomoda no governo Bolsonaro é o apoio quase irrestrito de uma boa parte das pessoas que professam a fé cristã, sejam católicos ou principalmente evangélicos, com a justificativa de que o atual presidente é um exemplo de cristão ou defende os valores e interesses cristãos. A realidade é que nada disso é verdade, e tentarei exemplificar nos tópicos a seguir.

Em primeiro lugar, Cristo é Amor. Isso é o mais importante de tudo, é a constatação mais óbvia e o valor essencial primeiro do Cristianismo. Se qualquer pessoa se intitula cristã, é de imaginar que em algum momento ela conheceu e se identificou com toda a pregação de Cristo na Terra, que se baseia essencialmente, na expressão pura do amor. Amor pelo próximo, amor pelo mundo, amor pelos inimigos. Amar, amar, amar, em qualquer condição. Esse é o ensinamento de Cristo. E esse é o fundamento básico dos mandamentos de Deus, estabelecidos antes mesmo da vinda de Cristo ao mundo: “Amar a Deus sobre todas as coisas” (1º Mandamento) e “Amar ao próximo como a si mesmo.” (2º Mandamento).

Com isso em mente, qualquer pessoa que esteja vivendo no Brasil pode constatar facilmente que Bolsonaro é literalmente o oposto a tudo isso. Bolsonaro não é amor. Bolsonaro é ódio. É conflito. É divisão. Ele se nutre do ódio. Somente odiando algo ou alguém é que o presidente encontra a sua verdadeira essência. Não há nada em suas atitudes e palavras que possa ser identificado como amor. Nem quando ele fala sobre aqueles que supostamente acreditamos que ama – seus filhos – a percepção é de alguém que não expressa amor. Logo, o valor cristão mais essencial não é algo expresso ou vivido pelo presidente, portanto é no mínimo incoerente o apoio dos cristãos a alguém que expressa sentimentos opostos ao principal valor cristão.

O segundo ponto que gostaria de destacar está relacionado ao que os próprios cristãos chamam de “defesa dos valores familiares tradicionais cristãos”. Ressalto que fui criado em uma família muito católica tradicional, participei toda a minha vida de movimentos e pastorais dentro da igreja católica, então sinto que tenho propriedade para expressar o que seriam esses valores tradicionais da família cristã. Essencialmente são 3 pontos:

  1. Casamento único e indissolúvel: o tradicional “o que Deus uniu o homem não separa”. Se alguém se casou, a união deve ser mantida até o final da vida. Não há divórcio.
  2. Filhos gerados dos mesmos pais: complemento do valor anterior. Se não há divórcio, todos os filhos gerados daquela união são essencialmente dos mesmos pais. Um complemento a este valor pressupõe que se não há divórcio e todos os filhos são dos mesmos pais não há adultério.
  3. Criação de toda a família dentro de uma comunidade de fé: um valor essencial dentro das famílias cristãs é a criação dos filhos e do próprio relacionamento amparado em uma vivência assídua dentro de um núcleo religioso, essencialmente uma igreja, no qual o ensino religioso irá complementar a educação familiar, seja na catequese e doutrinação propriamente dita, ou na vivência em comunidade. No meu caso, foi a igreja católica e suas inúmeras pastorais. Hoje, existem também as igrejas evangélicas que, mesmo com suas diferenças, compartilham essencialmente dos mesmos valores.

Identificado, pois, o tripé de sustentação de uma família cristã tradicional, vamos agora observar a vida do presidente Bolsonaro a partir destes valores.

  1. Casamento único e indissolúvel: Bolsonaro fere logo de cara o primeiro valor, pois teve 3 casamentos. Ao se observar obediência aos valores da família cristã, e principalmente o comportamento em sociedade das pessoas que se orgulham de defender estes valores, o presidente seria excluído e considerado um mau cristão, ou um cristão de segundo nível, pois não soube observar o valor mais essencial na união homem-mulher e destruiu aquilo que Deus uniu. Não poderia ser considerado como um bom representante da família cristã.
  2. Filhos gerados dos mesmos pais: como teve 3 casamentos, naturalmente o presidente teve filhos gerados com diversas parceiras. Desta forma, o segundo valor familiar cristão está comprometido, pois os seus filhos não possuem a mesma mãe, logo, assim como seu pai, não seriam considerados “bons cristãos”, portanto, não seriam exemplos a serem considerados.
  3. Criação de toda a família dentro de uma comunidade de fé: este ponto é um pouco menos explicito que os anteriores, porém ainda assim é simples de verificar. Ainda que o político Bolsonaro esteja frequentemente se reunindo com líderes de igrejas, principalmente de igrejas evangélicas neopentecostais, e assim como todos os políticos, em época de eleição esteja frequentando os mais diversos rituais religiosos, a realidade do dia a dia mostra que Bolsonaro não é assíduo em nenhuma igreja. Aliás, de bate pronto não é possível sequer identificar qual a fé e religião que Bolsonaro professa. Ou alguém aqui consegue dizer que Bolsonaro é evangélico, ou católico, ou presbiteriano, ou batista, ou o que quer que seja. A realidade é que ele não segue nenhuma religião, somente usa daquela que lhe apetece no momento para distorcer narrativas e ganhar simpatia de pessoas religiosas.

Importante ressaltar que, ainda que conheça os valores cristãos que mencionei anteriormente, e tenha crescido e participado ativamente dos movimentos, não vejo com bons olhos a obediência cega a esses valores, ainda mais que muitos são ultrapassados para a realidade que vivemos hoje. E ainda mais, discordo veementemente de quem se utiliza destes valores para se autopromover como bom cristão e julgar e condenar aqueles que não sigam ou demonstrem seguir todos esses preceitos.

A verdade é que Bolsonaro não é cristão, sequer professa e segue uma religião e muito menos vive sua vida segundo preceitos que se assemelhem aquilo que foi dito por Jesus Cristo em sua passagem por este mundo. O apoio de entidades religiosas a Bolsonaro é inteiramente forjado nos seus próprios interesses em obter vantagens financeiras e ideológicas que os permitam angariar cada vez mais fiéis e recursos, ampliando o seu projeto de poder, que essencialmente é a finalidade da imensa maioria das igrejas evangélicas e de muitos católicos. Estes grupos, ao apoiar o presidente, obtém vantagens do Estado, como isenção de impostos, projetos de lei que apoiem a sua visão de mundo, possibilitando uma doutrinação e alienação de seus fiéis, o que proporciona uma fidelização de pessoas cada vez maior em suas igrejas, e consequentemente, uma rede cada vez mais robustas e populosa de pessoas para multiplicarem seus próprios interesses.

Cabe aos cristãos de boa-fé, aqueles que entendem verdadeiramente quais são os ensinamentos de Cristo e como utiliza-los no mundo em que vivemos, a missão de desanuviar o horizonte das igrejas e religiões, recuperando as comunidades e pessoas do sequestro sofrido pelo bolsonarismo, para que as pessoas realmente do bem e não “de bem” possam enxergar verdadeiramente a face de Bolsonaro e perceber o quão distante ele está do verdadeiro objetivo cristão que deve ser vivenciado no mundo por pessoas que querem o bem. 

Redes sociais e Corrupção – a percepção e a era PT

Redes Sociais e a manipulação da realidade – Charge Joana Afonso

O assunto da postagem anterior é bastante amplo, e gostaria de continuar abordando neste texto de hoje. Tenho refletido muito sobre como as redes sociais transformaram a nossa realidade a nossa forma de interagir com as demais pessoal e com o mundo em geral. É claro que transformaram também a nossa relação com a política.

Nunca fomos o povo mais atuante e participativo na vida política do país, raramente nos engajamos de forma ativa fora do período eleitoral e entendemos como política somente o processo de eleição dos representantes para os cargos eletivos. Como sempre deixamos esse assunto de lado por 2 anos até o próximo ciclo eleitoral, os nossos políticos são péssimos e se aproveitam imensamente da paralisia do povo com relação à política. Com as redes sociais passamos a ter uma falsa sensação de participação e acompanhamento, uma vez que podemos seguir os mais diversos políticos em suas redes. Mas, como somos mal preparados para lidar com esse tema, o escrutínio público e constante das redes sociais não trouxe o esperado grau de fiscalização e cobrança por melhores projetos e atitudes. Somente acirrou ainda mais os ânimos dos momentos de disputa eleitoral para uma guerra quase diária de opiniões diversas. Somos um povo historicamente mal preparados para discutir propostas e ações para melhoria da vida de toda a sociedade.

E, nesse contexto, o assunto mais mencionado e discutido sempre é a malfadada corrupção dos políticos. Esse é um dos assuntos mais antigos na política nacional e em todo ciclo eleitoral surge um candidato para prometer acabar com a corrupção, quase sempre se colocando como “a nova voz da política”, ou algo similar. Jânio Quadros, já na década de 60 chegou ao planalto com o mesmo discurso de “varrer” a corrupção da política. O atual presidente foi eleito com esse mesmo discurso, alegando ser a “nova política”, quando os fatos mostram que não é nada além de mais do mesmo. Estamos já na terceira década do século XXI e nada mudou, como se pode ver.

A corrupção é uma prática vigente no país desde os tempos de colônia. Sugiro a leitura do maravilhoso livro 1808, de Laurentino Gomes, que aborda como a corrupção foi essencial para o estabelecimento da Coroa Portuguesa em terras brasileiras. Com o advento das redes sociais, há uma percepção equivocada de que nunca se roubou tanto no Brasil como agora, ou nos últimos 20 anos. Os casos de corrupção pipocam diariamente à nossa frente e mal conseguimos acompanhar todas as denúncias.

A verdade é que antes, com a informação concentrada nas mãos de poucos veículos de comunicação, o que chegava à grande massa de pessoas era uma informação filtrada e tratada conforme os interesses de cada veículo, portanto tínhamos conhecimento de uma pequena parcela da realidade. Hoje, com o boom da internet e principalmente os smartphones, a informação está na palma de nossa mão e em tempo real, com isso a velocidade e frequência com que as denúncias e casos de corrupção chegam até nós é estonteante, nos dando a percepção de que isso está acontecendo em uma proporção maior.

E neste contexto, vivemos simultaneamente o primeiro governo de um partido de origem trabalhadora e de orientação política de esquerda, com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder. Somando-se a informação maciça ao ódio das classes econômicas dominantes pela chegada do PT ao poder, todo o cenário de corrupção foi potencializado para se dizer que nunca se roubou tanto quanto nos governos de esquerda. A realidade é que o PT foi o primeiro governo neste cenário em que qualquer desdobramento político é maciçamente escrutinado e discutido por muitas pessoas nas redes sociais, dando a visão de que se tornou algo maior do que realmente é. Foi o primeiro governo no Brasil a ter de lidar diariamente com a virulência das redes sociais, em que a informação chega a cada vez mais pessoas, porém carregadas de visões particulares de cada pessoa que a replica.

Junte-se a isso o ódio de classes fomentado pelos grupos econômicos dominantes do poder, frustrados pela chegada de um governo populista de esquerda, personificado na figura de um retirante nordestino forjado na metalurgia, que não somente tem a audácia de chegar ao poder, como de conseguir se reeleger sistematicamente, ficando um tempo surpreendentemente longo no poder. O discurso distorcido de corrupção recorde replicado nas redes sociais à exaustão é explorado diariamente nos telejornais que (ainda) são o veículo mais poderoso para chegar a todos os domicílios brasileiros, o que potencializa ainda mais a percepção que é distribuída.

A meu ver, o maior problema dos governos do PT e que é altamente passível de críticas foi o fato de que o partido que se vendia como um grupo que faria nova política tenha se igualado em muitos aspectos ao que todos os outros governantes fizeram antes deles, de se aliar a personagens nefastos da política nacional e negociar pastas e ministérios para se ter maioria no congresso e conseguir a tão sonhada governabilidade. Ainda que qualquer partido que ascenda ao poder tenha que se vender – em maior ou menor nível – à esta prática para conseguir colocar um mínimo de suas propostas de governo em prática.

Uma vez mais, ficamos discutindo os personagens, amando uns e odiando outros, quando deveríamos estar discutindo os meios de se fazer política no país, os métodos moralmente questionáveis e altamente prejudiciais ao povo de se conseguir apoio político no Brasil. As pessoas se vendem por muito pouco, deixando os seus valores e as bandeiras que defendem enquanto militantes inteiramente de lado.