No último final de semana, enquanto as redes sociais se fervilhavam de postagens celebrando o Natal e as festas de final de ano, uma publicação me chamou a atenção. Estava eu rolando aquele “Explorar” do Instagram, gastando meu tempo olhando inúmeras postagens sugeridas para mim, sendo, porém 90% sem qualquer relevância, quando me deparo com uma publicação que destacava em letras garrafais que “Bolsonaro cumpriu somente 15% das promessas de campanha”, e alardeando como o governo dos últimos 4 anos foi um fracasso por não conseguir atender às expectativas criadas por seus eleitores.
Tal postagem me fez lembrar de um texto que havia pensado em escrever às vésperas das eleições para tentar reverter alguns votos de indecisos que se inclinavam para o inominável. Decidi aproveitar alguns trechos para fazer este último post de 2022 para celebrar o término destes 4 anos terríveis com este “governo” comandando a nação e ansiando para que seja a última vez que menciono este personagem nefasto que tivemos que aceitar como “presidente” nos últimos anos.
Eu entendo a tentação de querer afirmar que este “governo” foi um fracasso, especialmente entre pessoas que, como eu, repudiaram sistematicamente todas as atitudes e políticas adotadas desde 2018. Mas essa é uma afirmação muito mais emocional que racional. É o nosso desejo de expressar em palavras o quão ruim foi este período. Mas racionalmente falando, ao observar com distanciamento emocional os 4 anos de “governo” Bolsonaro, facilmente podemos afirmar que foi um governo de sucesso como poucas vezes visto na história do nosso país.
Assusta um pouco essa afirmação, não é mesmo? Porém o sucesso é determinado com base nos objetivos que se queria atingir ao iniciar um projeto, portanto, ao analisar os anos Bolsonaro, é claro perceber que foi um governo de fenomenal e avassalador sucesso para atingir os objetivos a que se propunha, como poucos conseguiram na história do país.
Não sejamos ingênuos. Nunca foi objetivo de Bolsonaro e seus apoiadores um projeto de pais que trouxesse crescimento e desenvolvimento à nação. Estava muito claro desde sempre que o objetivo era entregar o país aos desejos de quem financiava o seu projeto de poder. Nunca houve interesse em fomentar um projeto de governo para trazer ganho e crescimento à nação e aos seus cidadãos. Daí o desejo de comprar ferrenhamente brigas em searas ideológicas e subjetivas (como todas as temáticas ligadas à religião) e o pouco ou nenhum interesse em tratar com projetos viáveis de assuntos sérios e críticos à população, tais como saúde, educação, segurança pública, transportes e mobilidade urbana. Desde sempre Bolsonaro quis ser presidente somente para consolidar seu projeto de poder, tão limitado e obtuso que acreditava que um presidente teria poderes ilimitados, tal qual um ditador autocrata. O Estado Brasileiro e a máquina pública foram utilizados única e exclusivamente para tentar sujeitar todos à sua visão distorcida e odiosa do mundo, distorcendo narrativas e negando verdades palpáveis e históricas, a fim de perpetuar preconceitos e privilégios, gerar ainda mais divisão e justificar o uso indiscriminado da violência para eliminar quem se opunha a esta visão.
A escolha de um ‘outsider’ da política lá em 2018 condenou o brasil há anos de trevas, como os que vivemos e ainda serão os que virão pela frente, para tentarmos resgatar tudo aquilo que foi destruído ou se perdeu por negligência e incompetência. Por isso é impossível considerar esse “governo” como um fracasso. Ele se propôs ferrenhamente a entregar exatamente aquilo que se esperava dele: destruir, destruir, destruir. Não há um único indicador deste governo que seja positivo, não há um único aspecto relevante à qualidade de vida da população e da consolidação do bem-estar de um país que esteja melhor hoje do que estava em 2018: a educação piorou, a saúde está em frangalhos, a preservação do meio ambiente foi abandonada e passou a se estimular a devastação, a economia naufraga a olhos vistos, mesmo com o “posto Ipiranga” prometendo crescimento há 4 anos. Incentivos à melhoria do transporte público e mobilidade urbana? O assunto nunca foi sequer mencionado. Inflação a níveis de 30 anos atrás. Povo sem poder de compra algum. A população está visivelmente mais ansiosa, mais cansada, mais pessimista, mais triste.
Apesar de todo esse legado nefasto, o atual “governo” entra em sua última semana tendo estado a 2% de ter sido reeleito. Mesmo tendo sido o mais incapaz e incompetente de todas as pessoas a ter ocupado a cadeira da presidência da república, Bolsonaro conseguiu convencer cerca de 30% das pessoas do país de que ele é um semideus imaculado incapaz de fazer algo errado e que deve ser seguido religiosa e cegamente. Apesar de ter se vendido como o paladino da “antipolítica tradicional”, se sujeitou aos jogos de interesses políticos de uma forma nunca vista, chafurdando na lama do toma-lá-dá-cá político na forma do tal “orçamento secreto” – também conhecido como corrupção institucionalizada.
Foi um presidente que se vendeu como o defensor da vida aos fundamentalistas religiosos cristãos – não se enganem, fundamentalismo religioso não é exclusividade das religiões orientais. Porém ao se deparar com o maior desafio sanitário dos últimos 100 anos, ao invés de defender a vida, ele optou por banalizá-la. Diante da morte de quase 1 milhão de pessoas (sabemos que as mortes por covid foram em número muito maior que as 700 mil “oficiais”) durante a pandemia, ele optou por dar risada e debochar do sofrimento alheio. E mesmo assim, 45% dos brasileiros acharam que seria viável mantê-lo por mais 4 anos governando o país. Nunca tivemos um governo comprovadamente tão ruim em nosso país e mesmo assim uma parcela significativa da população conscientemente optou por lhe oferecer a possibilidade de se manter no poder, indiferentes à própria dor e sofrimento, acreditando estarem combatendo fantasmas inexistentes evocados pelo presidente para assombrar e assustar a parcela mais ingênua da população. Se isso não é indicativo de um sucesso assombroso, não sei o que mais pode ser.
Isso também demonstra que sucesso não é sinônimo de algo necessariamente bom. Pelo contrário, pode ser algo nefasto e causar inequívoco sofrimento. Mas isso pode ser assunto para outro momento. Por anos acreditei que o atual “governo” passaria à história como o maior fracasso da república brasileira, porém mudei de ideia: este governo é um sucesso. Atingiu (quase) todos os seus objetivos. Faltou somente um: o de se perpetuar no poder. Sorte do Brasil. Nenhum de seus objetivos visava o bem do país e este último era o golpe final para a derrocada da nação. Passou raspando, mas nos livramos desse futuro terrível.
Não se engane: apesar do título extremamente sensacionalista, este é um bom livro. Bem escrito, com bom referencial bibliográfico e o melhor de tudo: imparcial. Como trata de política, os autores tiveram uma preocupação muito grande e latente de serem o mais imparcial possível, cuidado especialmente importante neste momento nefasto da história brasileira que vivemos, cheio de “nós e eles” cheio de ódios.
“Você foi Enganado”: apesar do título sensacionalista, uma excelente leitura.
O pior do livro realmente é o título, muito sensacionalista para o meu gosto, mas entendo o apelo de chamar a atenção logo de cara, tanto do militante esquerdista quanto do extremista de direita, e todos as demais vertentes que habitam este espectro. Relevando-se o título, o livro aborda de forma ilustrativa e direta mais de 40 anos da história política brasileira, começando nos primeiros anos da década de 80 até o limiar das últimas eleições presidenciais em 2018, passando, portanto, pelo final da ditadura militar, o movimento pelas “Diretas Já”, a luta incessante contra a inflação na chamada “década perdida” até a redemocratização e as primeiras eleições presidenciais diretas após mais de 25 anos.
Segue passando pelo impeachment de Collor, o plano Real, os governos FHC, a chegada da esquerda ao poder até a sua derrocada em 2016 e o governo neoliberal que sucedeu. Por finalizar sua pesquisa neste momento, o livro não teve a oportunidade de falar sobre a guinada ao extremismo neofascista que vivemos atualmente que teria amplo material para uma obra que fala de mentiras contadas pelos governantes do país.
O livro me surpreendeu positivamente pela forma como tratou estas mentiras, sem escolha de favoritismos, independentemente da orientação do governo retratado, e olha que passaram por presidentes de diversas orientações e perfis, dedicando um capitulo a cada um deles, focando especialmente no tema que consideraram mais importante de tratar sobre aquele governo. Aqui talvez seja o momento de maior parcialidade dos autores, ao definir quais as “mentiras” iriam focar a respeito de cada presidente da república; mas ainda assim entendo que as escolhas foram feitas muito mais por uma necessidade de definir o objeto da pesquisa para delimitação do tema que algum interesse pessoal escondido por detrás. A meu ver, o trabalho foi bem feito.
Dessa forma, o livro traz capítulos sobre o general Figueiredo, sobre o presidente eleito indiretamente – e jamais empossado – Tancredo Neves, seu vice José Sarney, que foi quem assumiu de fato o poder e governou até 1990. Trazem um capítulo sobre Collor, e posteriormente sobre seu vice, Itamar Franco e a criação do plano Real. Tem outro capítulo dedicado aos governos FHC, Lula e Dilma, chegando até ao seu vice/traidor Michel Temer que assume o poder após o golpe que tirou a primeira mulher eleita presidente de nosso país. Reparem que em pouco mais de 30 anos tivemos 3 vice presidentes alçados ao poder no Brasil. Afinal de contas, não parece ser um cargo tão figurativo quanto vendem por aí… ao menos no Brasil.
Concluindo, o livro foi uma agradável surpresa me entregando mais do que esperava, e por este motivo eu recomendo a todos a leitura, sempre, porém com o viés critico de entender que, ainda que a temática do livro sejam as mentiras presidenciais, elas precisam ser contextualizadas para serem entendidas integralmente, não somente como um exercício de ódio à política. Nota 4/5.
É surreal para mim pensar que estamos a poucos dias do término desse “governo” Bolsonaro. Após tanto tempo, dá até medo sentir alegria de esse período tenebroso estar finalmente terminando. Foram quatro anos intensos e exaustivos e é com uma forte sensação de esgotamento, tanto físico quanto mental, que chego a estas últimas semanas. Por essa razão eu gostaria de já não ter que falar desse personagem, até como forma de antecipar a leveza que esperamos ter em 2023 sem esse nome sendo falado diariamente em nossas cabeças. Ao mesmo tempo, porém, aconteceram tantas coisas que é impossível ficar indiferente e não esboçar umas últimas palavras a respeito desse período tão nefasto da nossa história.
Por isso decidi, como forma de passar uma régua neste assunto em minha mente, vou condensar tudo o que de mais importante e relevante ainda preciso falar sobre os “anos Bolsonaro” e que ainda não abordei em outro momento em um artigo em dois atos: no primeiro momento tentarei abordar de forma objetiva as razões pelas quais o atual presidente me causa tanta repulsa. Na segunda parte, vou compilar minhas impressões acerca dos últimos quatro anos e os resultados de seu “governo” para o nosso país.
De coração sincero espero que estas sejam as últimas vezes que eu precise mencionar o nome Bolsonaro. Desde que ouvi pela primeira vez e tomei conhecimento dos absurdos que saiam de sua boca, a antipatia foi imediata. A partir do momento em que se lançou candidato à presidência – se não me falha a memória, pouco após o término das eleições de 2014 – e começou a angariar apoiadores entre os renegados e boçais que habitavam o submundo das redes sociais, ganhando cada vez mais visibilidade e relevância, a minha aversão foi aumentando até chegar ao nível de hoje, de sequer conseguir ver sua imagem ou ouvir sua voz sem sentir algum tipo de repulsa.
Não vou fazer uma retrospectiva de todos os acontecimentos que o levaram à presidência da república, tampouco vou criticar a sua gestão sentado à cadeira mais importante do país. Quero focar unicamente em um aspecto, muito importante e que gostaria de tentar elucidar: por que tenho tanta aversão a Bolsonaro?
Essa não é uma resposta fácil. Aliás, estou há anos (pelo menos 6) tentando entender esse sentimento, que nunca havia sentido com relação a nenhum outro personagem da política brasileira. Nem sequer Aécio Neves, com sua cara debochada e seu estilo ardiloso, me causaram tanto incomodo. Durante esse período em que foi presidente, teci muitas críticas a Bolsonaro. Algumas pessoas inclusive me acusaram de odiar Bolsonaro. Por um bom tempo eu também acredito que isso era uma verdade. Porém busquei entender melhor esse sentimento e compreendi que não se trata de ódio. É uma aversão por tudo o que representa.
Essencialmente, o futuro ex-presidente representa, em suas atitudes e palavras, tudo aquilo que mais repudio em minha vida. Sua abordagem para com a vida é exatamente o oposto de tudo o que eu penso e faço. Tudo o que ele acredita e externaliza como o certo, eu considero errado e inadmissível. Sua forma de cultivar e multiplicar a violência e a intolerância, a boçalidade e a maldade de coração, me ofende profundamente.
Eu acredito na verdade. Ele opera somente na mentira. Eu confio na ciência. Ele repudia a ciência. Eu admiro e busco o conhecimento e a inteligência. Ele se ressente do conhecimento e estimula a estupidez. Eu gosto de demonstrar gentileza, educação e deferência às pessoas. Ele gosta da truculência, falta de educação e arrogância. Eu acredito que cada um tenha o direito de ser o que quiser ser, fazer e decidir o que preferir da própria vida, desde que não se coloque no caminho do livre arbítrio do próximo. Eu aprendi a admirar, gostar e aprender com a diversidade. Ele acha que tem o direito de regular a vida do outro, ofender e ameaçar quem não é como ele acha que deve ser. Eu acredito que devemos respeitar o diferente. Ele acha que é preciso reprimir e violentar com atos e palavras quem diverge de si. Eu acredito e desejo o bem. Ele opera e vibra única e exclusivamente no mal.
Nestes “anos de Bolsonaro”, um dos maiores absurdos que tentaram propagar a todo custo, além da ladainha acéfala de seus seguidores que se tornaram uma seita assustadora e violenta, foi a narrativa de muita gente tentando “normalizar” ou civilizar o futuro ex-presidente, como se ele fosse incompreendido, se expressasse mal ou fosse somente falastrão ou barulhento, mas inofensivo. Foi feito um esforço tremendo, em grande parte da mídia por pressão da classe dominante, para “amansar” ou tornar palatável alguém bruto, truculento e violento. Muito pode se falar sobre Bolsonaro, mas uma coisa que não se pode negar é que ele se expressou exatamente como gostaria e se apresentou exatamente como é: uma pessoa de violenta, rancorosa e de má índole. É aquele tipo de gente que você não entende como pode ser tão desagradável, como pode ser tão baixo, vulgar e de mau gosto. Alguém de caráter duvidoso, cheio de rancor e ódio por quem vive e vê o mundo de forma diferente dele.
Outro ponto importantíssimo em minha aversão pelo futuro ex-presidente é a sua visão de futuro, sua sanha destruidora do meio ambiente e o seu (mau) exemplo legitimador para que demais pessoas demonstrem ser tão vis e repugnantes quanto ele mesmo. Como o pai de uma menina nascida durante esse período, me assusta imaginar qual o futuro a esperaria se Bolsonaro tivesse mais tempo de poder continuar apresentando e convencendo pessoas de sua visão deturpada e estúpida de mundo. Em quatro anos já houve um estrago considerável e um retrocesso de décadas, mas ainda podemos crer que é possível reconstruir o país. Mais quatro anos e acredito que seria muito difícil não atingirmos um ponto de não retorno à normalidade e estaríamos vivenciando uma ruptura civilizatória.
Estes anos foram desafiadores, pois foi muito difícil ver alguém que representa o oposto de tudo o que acredito ocupando um cargo de tanto poder, capaz de estragar a vida de tantas pessoas, capaz de condenar o país a extremos nunca vistos, capaz de demonstrar tamanho desprezo pela saúde, educação e cultura. Foi um baque para mim – nascido nos pós ditadura e formado pessoa durante o período mais progressista e desenvolvimentista da história brasileira – entender que nem sempre o mundo andará para frente e que podem acontecer momentos de governos nefastos e que representam o oposto dos valores que acredito e que regem a minha vida. Foi assustador perceber que tantas pessoas deram carta branca a alguém assim tomar o poder no país e se sentiram representadas – e mais do que isso – autorizadas a serem tão más quanto.
Me doeu perceber que pessoas outrora próximas a mim e muito queridas, por motivos insondáveis que talvez busque discutir no futuro, se aproximaram de um personagem como esse e se deixaram seduzir pelo fascínio do fascismo. Foi doloroso, porém necessário me afastar dessas pessoas. Não foi uma divergência política. Foi uma divergência de valores e visão de mundo. Como poderia permitir que pessoas que acreditam e apoiam Bolsonaro estarem próximas e serem exemplos para a minha filha? Não tenho ilusões, sei que ela irá conviver com pessoas assim no mundo, mas é muito diferente de cruzar com alguém assim no mundo e eu acolhe-as abertamente em minha casa. Não é aceitável e normal permitir que alguém com tendência e que apoia pessoas misóginas e machistas possam brincar com minha filha e serem de alguma forma referência na vida dela.
Minha aversão a Bolsonaro não é política. Ainda que ele também seja o oposto de tudo o que acredito ser o melhor caminho para a política brasileira, minha aversão a ele é por valores essenciais, que regem a minha vida, e que para ele são descartáveis e irrelevantes.
Foram quatro anos de sofrimento, de angústia, de medo e tristeza. Quatro anos em que cada um dos meus valores mais caros eram pisoteados, ridicularizados e tratados como “frescura” e que a resposta para tudo era a intimidação e a violência. Nunca senti algo assim por nenhum outro personagem político na história do país. Houve alguns que, em maior ou menor escala, pareciam piores ou pouco confiáveis, mas como esse personagem que ocupou a cadeira da presidência nos últimos anos, nunca houve e sinceramente espero que não exista nunca mais. Após muita reflexão, entendi que o odeio. Tenho repulsa por ele. E uma aversão extrema por tudo o que ele representa, conjunto de ideias, valores e atitudes reunidos de forma muito perspicaz e verdadeira sob a alcunha de bolsonarismo. Bolsonaro irá desaparecer em breve, mas o bolsonarismo continuará sendo uma ameaça por muito tempo. Mas continuaremos a lutar. E iremos vencer, tal qual vencemos Bolsonaro., pois o mundo anda para frente. Com percalços e tropeços, é claro. Mas sempre para frente.
Finalmente acabaram as eleições. O período entre o primeiro e o segundo turno foi sofrível como imaginávamos. O resultado foi apertado como todos esperávamos, ainda que não quiséssemos acreditar. A negação dos derrotados em aceitar a derrota, previsível. Quem acompanhava meus textos por aqui deve ter percebido um decréscimo no volume de postagens na véspera das eleições em final de outubro e meu total silencio após o resultado final. Pois é, não era este o planejamento, mas faltou disposição. Estava resgatando minha base aqui e percebi que havia planejado publicar 8 textos na reta final das eleições, dos quais 5 já estavam escritos. Mas na correria do dia-a-dia, no cansaço com o acirramento insuportável das emoções e com diversos problemas pessoas acontecendo, faltou fôlego para conseguir colocar no ar tudo o que estava pensando.
Hora de seguir em frente e recuperar o atraso provocado pelos ultimos 4 anos.
Não fez falta, no final das contas, pois tudo o que queria falar eventualmente já havia sido dito por pessoas mais preparadas ou mais dispostas que eu. Pós eleições e com o eventual caos decorrente das manifestações golpista dos derrotados, optei pelo silencio. Preferi saborear a vitória tão difícil e sofrível, e talvez por isso, infinitamente mais doce que todas as anteriores. Entendo perfeitamente meus amigos e colegas que disseram que perdemos mesmo vencendo. Por diversos momentos a sensação era essa mesma. EU mesmo cheguei a relatar isso ao término do primeiro turno. Mas acabei mudando de ideia. É muito importante poder celebrar essa vitória. Pois não é uma vitória da soberba nem da arrogância. É uma vitória da sobrevivência. Como bem disse Gregório Duvivier em um belíssimo vídeo que viralizou após o termino da eleição, foram 6 anos que precisamos continuar lutando e sobrevivendo diariamente quando absurdos inimagináveis aconteciam, a sensação de impotência e falta de esperança no futuro ameaçando tomar conta de tudo. Foram anos dificílimos: todas as nossas crenças na inteligência, na ciência, na humanidade, na tolerância, na fraternidade e na democracia foram colocadas à prova e tínhamos que seguir lutando e acreditando que um dia coisas poderiam melhorar.
Não vou negar: houveram momentos em que acreditei que estávamos condenados. Os absurdos promovidos pelo governo e seus seguidores eram tão surreais para alguém que, como eu, nasceu às vésperas da redemocratização e viveu tempos de prosperidade, fé no futuro e no potencial gigantesco de nosso país que foi difícil conseguir encarar tudo o que estava acontecendo e acreditar que poderíamos superar o desmanche do país a olhos vistos e ousar manter a esperança de que as coisas um dia voltariam a melhorar. Mas vencemos. Derrotamos uma máquina de mentiras voraz e atuante como nunca antes houve no país. Derrotamos a compra de votos institucionalizada pelo governo, o impedimento por parte das forças policiais do país de cumprir uma obrigação constitucional do cidadão e a conivência e indiferença de milhões de brasileiros que não se importam com o que está acontecendo no país agora e no futuro, desde que a sua realidade e seus privilégios se mantenham intocados.
Para mim foi particularmente libertador o término das eleições com vitória de Lula para não ter que lidar com esse último grupo. De um tempo pra cá eu passei a chamá-los de “Os Relativistas”. São aquelas pessoas que dizem não concordar com as coisas que o Bolsonaro fala ou faz, mas relativizaram e encontraram uma forma de justificar todas as atitudes e atrocidades por ele cometidas nos últimos 4 anos em nome de um ódio de classes velado que se materializa com o ódio à figura do presidente Lula. Essa galera é aquela turminha que se vende como “progressista”, ou “isentões”, ou ainda mais comum, “liberais”, que acreditam em uma ilusão de livre mercado como a solução de todos os problemas do mundo. É uma galera que adora postar uma ação de caridade pra se promover como solidário, mas quer a diminuição radical de auxílios governamentais aos mais vulneráveis. Esse pessoal se diz esclarecido e humanista, mas em diversos momentos foram mais bolsonaristas do que os próprios seguidores do presidente derrotado. Em várias oportunidades eu os considerei ainda mais nocivo que os “minions” apaixonados. Porque esse grupo é um caso para estudos psicológicos nos próximos anos, tamanha a contaminação e cegueira pela “Verdade do zap” que construíram toda uma realidade paralela e acreditam firmemente que estão vivendo nela, portanto falta senso crítico e toques de realidade para que possam enxergar o absurdo que estão defendendo.
Mas, os relativistas, estes não. Eles até possuem senso de realidade. Conseguem perceber o quanto o governo atual foi absurdo. Foi desumano. Mas ainda assim relativizam tudo o que aconteceu, porque para eles, “é impossível votar no Lula ou no PT”. O ódio por um determinado partido ou pessoa os impedem de olhar criticamente o cenário e fazer uma escolha democrática, ainda que pragmática. Aliás, sobre a democracia e a sociedade brasileira, fiquem ligados. Isso será tema de uma futura postagem. Mas retornando aos relativistas, no final das contas são pessoas centradas em si mesmas e olham somente para o que lhe diz respeito. Se milhões sofreram nos últimos 4 anos, se diversos grupos e minorias foram vítimas de perseguições, violência e morte por apoiadores do atual presidente e estimulados por ele, isso pouco lhes afeta, uma vez que não diz respeito às suas realidades. Essa dificuldade em se reconhecer privilegiado e entender que muitas vezes a escolha do governo impacta pouco em sua vida, mas pode afetar diretamente a vida de outros, tornou o diálogo e a convivência com os relativistas nos últimos meses muito difícil.
Hoje, infelizmente a história é muito mais compreensível. Por anos, mesmo estudando muito, não conseguia entender verdadeiramente como os movimentos fascistas da década de 30 obtiveram sucesso na Alemanha e Itália. Mas hoje a história faz muito mais sentido em minha cabeça. Não foi por conseguirem maioria nazifascista na população de seus países que Hitler e Mussolini chegaram ao poder e materializaram atrocidades inimagináveis. Mas foi pela indiferença de boa parte da sociedade, que optou por dar de ombros para as evidências autoritárias, violentas e inumanas de seus líderes e apoiadores, que chegamos ao cenário extremo de uma guerra mundial.
Sobre as manifestações ilegais e antidemocráticas que alguns apoiadores do presidente insistem em continuar fazendo mesmo um mês após as eleições, tenho pouco a falar. Exceto que essa galera está se manifestando por financiamento de empresários que faturaram alto com o entreguismo dos anos bolsonaristas, por conivência das policias, da sociedade e da mídia. Como foi comentado nas redes sociais, fossem professores protestando por melhores salários e condições de trabalho, teriam sido repelidos com truculência e violência, além de inúmeras reportagens negativas já no segundo dia. Reflexos de uma sociedade que ainda precisa avançar muito: pedir investimentos na educação é motivo para ser recebido com – perdão pelo comentário chulo e infame – “tiro, porrada e bomba”. Manifestações favoráveis à tortura, a violência, ao racismo e a homofobia, são recebidas com tapinhas nas costas e condescendência.
Foram difíceis as últimas semanas que antecederam as eleições, assim como estão sendo as que a sucederam e continuarão sendo até o país assimilar de fato que voltaremos a ter um presidente, um governo e um país em reconstrução. Eu precisava de um tempo para me recompor e reencontrar a energia e a disposição em escrever. Ainda tem muito a acontecer até a posse do presidente Lula, mas parece que já é possível vislumbrar e crer que ainda teremos um país em janeiro de 2023, tremendamente combalido e sucateado, precisando ser reconstruído, mas ainda assim um país. E isso já é motivo para muita celebração. Aqui no blog a expectativa é que possamos retomar assuntos mais interessantes, diversos e enriquecedores que tratar somente de política, ainda que possa retornar a esse tema quando julgar necessário. O desejo é o de retomar um ritmo de postagens semanais, talvez até por duas vezes na semana. Como disse aqui em casa para minha esposa, é mais fácil ter energia e assunto para outras coisas quando não precisamos lutar diariamente contra o neofascismo. E é com essa alegria de acreditar que podemos novamente ter fé e esperança no futuro é que retomo este espaço. Seja bem vindo, futuro!
Acho que já é hora de falarmos sobre esse assunto, né? O assunto do momento no Brasil que está na boca do povo há tempos. Antes de mais nada, um aviso: se você espera encontrar aqui um texto defendendo a corrupção dos governos do PT, vai se decepcionar. Tampouco vou condenar ou demonizar como muita gente faz. Também não vou relativizar o assunto, mas procurarei contextualiza-lo. Logo, se você chegou aqui esperando uma defesa ou uma acusação apaixonada com relação a este tema, lamento frustrá-lo. Este não será o objetivo aqui. Recomendo que abandone a leitura aqui mesmo, para não perder o seu tempo.
Percepção da Corrupção – Créditos na imagem
Mas se você, assim como eu, acha que este é um tema extremamente complexo e que qualquer análise feita com o fígado pouco acrescenta para a discussão e especialmente para o objetivo de construir um país melhor, talvez encontre neste texto ideias que ressoem com os seus anseios. O objetivo aqui será fazer uma análise crítica deste tema tão complexo e tão profundo, sem qualquer desejo de propor respostas, mas apenas de levantar questões que possam contribuir com o enriquecimento da discussão.
Feito todo esse preâmbulo, vamos começar. O primeiro ponto a se discutir é que os governos do PT, de 2003 a 2014(os dois anos do segundo mandato de Dilma sequer podem ser considerados aqui, tamanha a disposição de diversos setores da sociedade e da politica em sabotá-la antes de sequer avaliar o que ela tinha a propor) foram os primeiros governos da história do Brasil a terem de lidar com a internet e as redes sociais. Ainda que em 2003 a internet estivesse longe de estar presente em todo o país, como hoje, já tínhamos uma boa parcela da população utilizando a rede. E mais do que isso, eram os primeiros passos das redes sociais, em especial com o surgimento do Orkut e MSN. Posteriormente vieram facebook, twitter, Instagram e todas as outras redes que surgem e desaparecem diariamente no mundo de hoje.
Mas o que isso tem a ver com a corrupção nos governos do PT? Tudo! Foi nessa época em que surgiram os grandes portais de notícias que repercutiam as denúncias de corrupção em tempo real, sem haver a necessidade de fechamento de uma edição diária, semanal ou mensal de jornal ou revista para publicação. Foi o início da era da informação imediata e da repercussão massiva nas redes sociais. Pense comigo: antes das redes sociais e da internet, as denúncias de corrupção chegavam ao grande publico somente via telejornais, especialmente o Jornal Nacional. A pessoa via as notícias do dia, se revoltava com as denúncias de corrupção, talvez repercutisse ali com as pessoas que habitavam a mesma casa, mas depois ia jantar, ver novela, acompanhar um filme na TV ou uma partida de futebol e depois ia pra cama. No outro dia, esse assunto, ainda que surgisse ao longo do dia, não estava no topo da lista dos pensamentos da pessoa. Com a internet e as redes sociais isso mudou. O volume de informações a que temos acesso, o tamanho, o alcance e a duração da repercussão tornou-se muito maior, o que nos leva à percepção de que o volume de denúncias é muito maior atualmente.
Ou seja: os governos do PT foram os primeiros que tiveram de lidar diária e exaustivamente com o escrutínio massivo de cada noticia na internet. E aí entra um segundo fator muito importante: foi a primeira vez que um partido de orientação política de esquerda governou nosso país. Os verdadeiros donos do poder ficaram muito sentidos com isso, ainda que tivessem sinalizado positivamente em um primeiro momento. Foi como se dissessem: “tudo bem, vamos deixar vocês governarem, mas estaremos de olho para massacrá-los ao menor deslize que cometerem”. A disposição para o superdimensionamento de cada denúncia feito durante os governos petistas já era muito maior que em qualquer outro governo anterior. Mesmo sem a massificação da internet, o PT já iria sofrer bastante com a mídia negativa em seu governo, pelo simples fato de serem um governo surgido das esferas mais humildes da população. Aqui entra outro componente bacana dessa equação: o ódio de classes. O PT não somente conseguiu alcançar o poder vindo da classe trabalhadora, como construiu uma máquina gigantesca que ousou se manter no poder, mandato após mandato. Então a hiperexposição de cada denuncia de corrupção, a manipulação da narrativa para que fossem apresentadas como as maiores já vistas no país, tudo isso contribuiu para essa visão disseminada entre muitos hoje que “nunca havia se roubado tanto” quanto durante o período do PT no poder.
Será mesmo? Vamos jogar uma luz sobre os principais escândalos de corrupção durante a Era PT no poder. O primeiro deles e que rendeu condenações a inúmeros personagens do alto escalão do governo petista foi o escândalo do mensalão. Minha nossa, que horrível! O governo tinha um orçamento mensal para distribuir entre parlamentares que votassem favoravelmente às medidas propostas pelo Executivo. Quais eram as principais medidas apresentadas à época? Sendo google free e puxando somente pela memória: Programa Fome Zero, Bolsa Família, Criação de Novas Universidades Federais e Ampliação do orçamento para reforma, infraestrutura e novas cursos e vagas para as já existentes, Programa de Aceleração do Crescimento, visando obras de infraestrutura em todo o país, PROUNI e Minha Casa Minha Vida.
Tudo bem, vamos deixar de lado as pautas e voltar para analise somente do fato: governo pagando “mesada” para parlamentares a fim de garantir maioria no congresso. À época foi alardeado como o “o maior esquema de corrupção da história”. Aí eu questiono: em que este esquema difere do esquema adotado pelo governo FHC na década de 90 por muito tempo para aprovação de projetos do governo e que veio à tona com denúncias quando houve a votação da emenda constitucional que permitiria a reeleição presidencial? Se buscar reportagens da época, todas tratavam da denúncia com muito mais permissividade, alegando que se tratava de algo questionável, mas compreensível. Hoje, 25 anos depois, a grande maioria da população sequer se recorda do fato que, em essência, trata-se exatamente do mesmo caso do Mensalão, que até hoje rende ao PT a alcunha de “partido de ladrões”.
Vamos falar agora do segundo escândalo de corrupção nos governos do PT que veio para substituir o anterior como “o maior esquema de corrupção da galáxia”: as investigações da Lava Jato sobre as negociatas entre empreiteiras e a Petrobrás. Na última década, este caso tornou-se o assunto mais falado em todos os telejornais e portais de internet do país – quem não se lembra da abertura diária do Jornal Nacional falando por 20 minutos sobre as delações do processo com aquele tubo enorme escorrendo nota de 100 reais às costas do Bonner?
Uma vez mais a história vem em nosso auxílio para lançar um olhar um pouco mais crítico a tudo o que aconteceu. Todas as empreiteiras citadas neste processo são empresas gigantescas e que prestaram e continuam prestando serviços de infraestrutura ao governo federal desde a década de 60, quando surgiram e enriqueceram. Alguém realmente acredita que as negociatas de superfaturamento, notas frias e favorecimentos em contratos públicos só ocorreram nos anos de governos do PT e todos os contratos realizados nos 40 anos anteriores possuem lisura e foram rigorosamente cumpridos sem qualquer desvio?
Como podemos avaliar as inúmeras obras faraônicas realizadas durante a Ditadura Militar que nos presenteou com uma lista enorme de elefantes brancos com pouco ou nenhuma utilidade pratica? Foram produzidas somente por conta do ufanismo militarista de mostrar um “Brasil Potência” ou foram enormes esquemas de corrupção e enriquecimento ilícito envolvendo o governo e empreiteiras intimamente ligadas à cúpula militar da época?
A respeito das denúncias da Operação Lava-Jato fia ainda uma outra questão: se o PT destruiu a Petrobras com os esquemas de corrupção, como que a empresa tem tido lucro liquido ano após ano? Pois é.
Olhando para a atualidade, como explicar o orçamento secreto? Por que não há diariamente nos jornais enormes reportagens a respeito desse repasse de verbas do Estado para parlamentares obscuros e para pagamento de notas de serviço altamente suspeitas em todo o país? E o já esquecido caso dos milhões de dinheiro publico repassado a prefeituras para pagamento de shows de cantores sertanejo por 3 ou 4 vezes o valor normal de um cachê cobrado por eles? O que tá acontecendo? Isso não é indício de corrupção aos olhos dos zelosos defensores da moral e críticos ferrenhos da era do PT no governo?
Para concluir – até porque o texto já ficou longo além da conta – façamos duas reflexões. A primeira é: se o PT é o partido mais corrupto da história do Brasil e foram eles que criaram a corrupção em nosso país, porque o partido sequer tem o maior número de políticos condenados por corrupção? Essa primazia cabe quase integralmente aos partidos do chamado “centrão” que hoje estão aí cheios de carícias, intimidade e alinhamento com o atual “presidente da república”, o príncipe anticorrupção, paladino da moral e lisura. O partido com o maior número de condenados – e com uma certa margem perante os demais – é o PP, coincidentemente o mesmo partido que abrigou o então parlamentar Bolsonaro por mais de 20 anos (e por toda carreira do coronelíssimo prefeito de Uberlândia). Outros destaques nessa lista impressionante são o PL – cujo presidente do partido, Valdemar da Costa Neto foi condenado e preço por corrupção, cumprindo prisão domiciliar por muitos anos e hoje abrigando, vejam só, o atual presidente da república – e o PTB, cujo presidente Roberto Jefferson não pôde se candidatar à presidência por estar impedido pela lei da ficha limpa(condenado por casos de corrupção) e que nos premiou com o falso padre surgido do submundo para tumultuar os debates presidenciais e servir de escada para o atual ocupante do planalto. Não é no mínimo curioso que partidos tão manchados por casos de corrupções em suas fileiras estarem todos alinhados ao governo que alega ter “acabado com a corrupção”?
Em segundo lugar, a reflexão final: corrupção é uma denúncia relativamente fácil de se fazer, porém muito complexa de se comprovar. Afinal de contas, entre tantas contas públicas, notas de serviço, licitações e concessões, como rastrear de onde vem o dinheiro e para onde vai para que se possam estabelecer provas confiáveis que houve desvio de dinheiro público para enriquecimento ilícito dos favorecidos, configurando-se assim o crime de corrupção de fato? Isso somente é possível se houver um investimento maciço em órgãos de fiscalização publica, como Ministério Público, Policia Federal e em toda a esfera judiciária. Com autonomia e infraestrutura para realização de um bom trabalho investigativo, as denúncias de corrupção surgirão aos montes – até porque, como já havia dito aqui – esse é um traço cultural inerente à sociedade brasileira.
O contrário também é verdadeiro, quanto menos autonomia e investimento houverem para investigações, menos denúncias e condenações por corrupção haverão. De novo, ao se olhar para os governos anteriores no Brasil, em qual momento da história foram criadas mais medidas para controle das contas públicas (como o Portal da Transparência, abandonado no governo Bolsonaro) e para liberdade investigativa do ministério publico e polícia federal no combater a corrupção? De 2003 a 2014, e quem estava no poder durante esse período? O PT.
Entendam de uma vez por todas: não acredito que não houve corrupção nos governos do PT; pelo contrário, sei que houve. Na realidade este é o meu maior ponto de crítica ao PT: para ser governo, deixaram de lado muito da identificação histórica do partido e se aproximaram com enorme semelhança às praticas adotadas historicamente em todos os governos anteriores, provando que, para conseguir governar no país, não importa se o partido é de esquerda ou direita, ele vai precisar aprender a jogar esse jogo obsceno de troca de favores com o congresso, do contrario passará ao rodapé da história como um governo fraco que não conseguiu levar adiante nenhuma politica autoral durante seu mandato.
Em outras palavras, o aspecto mais criticado nos governos do PT e aquele pelo qual é condenado veementemente como o mais imoral dos governos é o aspecto no qual ele mais se assemelhou aos governos de direita que vieram antes e depois da década em que o partido dos trabalhadores esteve no poder. A grande diferença é que a hiperexposição de cada denuncia de corrupção por conta das redes sociais e internet existentes hoje e claro, a disposição da grande mídia – ressentida até hoje por um partido de origem popular ter chegado ao poder e ousado se manter lá – em querer massacrar a historia e o maior personagem do partido para que nunca mais ousassem ser governo no país. O projeto e o desejo não é só o de pregar de forma irremediável o rotulo de “bandido corrupto” em Lula e o PT. É o de massacrar as lideranças de esquerda para que nunca mais ousem ser governo no país. O projeto em voga no país não é o de condenar e combater a corrupção, é o de construir uma narrativa na qual estes crimes só aconteceram e acontecem nos governos de esquerda, para que isso fique impregnado no imaginário popular e nunca mais consigam chegar ao poder.
O combate à corrupção talvez seja a mais inglória e difícil das batalhas a se promover no Brasil, pois como disse anteriormente, ela mexe com traços culturais nacionais e, por se tratar de uma pauta altamente moral, é facilmente distorcida com uma narrativa pseudo-religiosa e repleta de uma moralidade tacanha que não se atreve nunca a olhar de forma crítica a assuntos complexos, mantendo uma análise rasa e superficial do tema, pois assim é mais fácil de engajar e manipular o máximo de pessoas para aceitarem a narrativa estabelecida pelos verdadeiros donos do poder no Brasil. É difícil, complexo e exaustivo tentar ser critico nesta temática, mas somente insistindo no assunto é que poderemos um dia ver alguma mudança, ainda que marginal, nessa realidade.
Na última segunda feira, fiz uma postagem a respeito do resultado das eleições gerais do Brasil em 2022. No texto, repleto de tristeza e desânimo, comentei que mais do que o resultado das eleições, perdemos enquanto sociedade que desperdiçou mais uma chance de ser um pouco melhor, de avançar um pouco mais.
Não vou negar, fiquei muito decepcionado com o resultado; foi muito triste atestar que uma grande parte da população, mesmo tendo sofrido perdas pessoais e materiais enormes nos últimos 4 anos, continua apoiando este terrível projeto de poder neofascista excludente e preconceituoso representado pelo atual ocupante da cadeira de presidente da república. Minha frustração maior foi constatar que, para além dessa figura repugnante, boa parte de seus apoiadores que se lançaram em candidaturas próprias obtiveram bons resultados. Certamente acreditei que após tanta tristeza, esse movimento perderia forças.
Assumo a minha ingenuidade. Apesar de sempre fazer uma análise crítica do perfil sociocultural do brasileiro, ainda relutava em aceitar que o brasileiro poderia ser assim tão conservador, preconceituoso e misógino como se apresentavam estes candidatos. Mas a realidade é que somos verdadeiramente assim mesmo, o Brasil é um país com os dois pés fincados na tradição e ainda que tenhamos bolhas de progressismo e liberdade em alguns locais (quase sempre nos maiores centros urbanos); na maior parte do país, especialmente no interior, o tradicionalismo é quase lei, estimulado pela herança religiosa sistematicamente. Seja na tradição católica que ainda possui muito espaço, especialmente nas pequenas cidades e no campo, ou com o crescimento do número de evangélicos no país, com destaque para as representações neopentecostais pouco sérias que possuem explícita e quase que exclusivamente um projeto de tomada de poder no país, antes mesmo de um objetivo de propagação da fé cristã.
É esse retrato de Brasil que emergiu das urnas no último domingo. Talvez por estar esperando um resultado alinhado à minha visão de mundo e dos fatos nos últimos anos, eu tenha ficado um pouco assustado com o que apareceu. Mas a realidade que vejo agora, passadas 48 horas e com a cabeça mais fria, é que este resultado era esperado. O congresso nacional foi e continuará sendo a partir da próxima legislatura o mesmo espaço de sempre: branco, elitista, latifundiário e conservador. Com raríssimas exceções pretas, pobres e progressistas que demonstram a pluralidade do povo brasileiro, que ainda permite a eleição de pessoas fora dos centros de poder contra todas as expectativas.
Tenho uma teoria de que o baque que sentimos é porque hoje temos muito mais acesso à informação e podemos acompanhar em tempo real o desempenho do congresso, coisa que não era possível há alguns anos. Com a massificação da internet e das redes sociais, temos na palma da mão amostras diárias dos posicionamentos de todos os congressistas, bem como todas as articulações que são feitas ali. É como um grande reality show bizarro que acompanhamos e podemos a cada 4 anos escolher os participantes da brincadeira. Dessa forma pudemos perceber o quão baixo é o nível intelectual e moral dos ocupantes da “casa do povo” e tendemos a acreditar que a cada legislatura o congresso eleito é o pior da história. Acredito que a diferença é que anteriormente não tínhamos esse acesso à informação para perceber que historicamente, sempre foi assim e o nível do congresso sempre foi deplorável.
Fiz todo esse permeio para concluir que o meu estado de desânimo pós domingo de esvaneceu. O resultado era esperado e foi apenas reflexo de todas as nossas mazelas enquanto sociedade. Temos muito para avançar e muito pelo qual continuar lutando para que o futuro possa ser um pouquinho melhor. E mais do que isso: acompanhando um pouco da reação da seita bolsonarista ao resultado das eleições, todos ficaram chocados e verdadeiramente sentidos com a vitória do Lula na eleição presidencial, resvalando na possibilidade de fechar já no primeiro turno, apesar de todas as pesquisas indicarem esta possibilidade como real.
O descolamento da realidade vivido por esse pessoal é tão grande que uma parte gigante deles acreditava verdadeiramente que o excremento da república iria vencer a eleição no primeiro turno e sentiram muito o golpe. São tão fascistas e adoradores da figura do lider infalível que não conseguem olhar para a realidade como um todo, e se interessam somente pelo resultado que afeta o seu lider. E justamente esse resultado foi o mais negativo que tiveram. Os 5 pontos percentuais que o capiroto ficou atrás de Lula, representando cerca de 6 milhões de votos os deixaram chocados e transtornados, pois finalmente perceberam que a possibilidade de perderem a eleição é muito real. E isso já se traduziu em um crescimento massivo no disparo de notícias falsas e insultos a Lula.
Por isso, a nós progressistas que estamos do lado certo da história (a quem ainda duvida disso, o tempo irá confirmar) cabe redobrar os esforços e colocar ainda mais energia na eleição de Lula presidente, para deixar os bolsominions transtornados e sem chão. O congresso é retrogrado? Azar. Lula já enfrentou algo assim no passado e se saiu muito bem. O congresso vai dificultar a vida e os projetos de governo de Lula? Pode ser, mas ao mesmo tempo, Lula, como chefe do executivo, poderá vetar todos os absurdos que o congresso insistir em seguir adiante. Os próximos anos poderão ser um grande cabo-de-guerra do poder? É possível, por isso é ainda mais importante garantir que teremos um lado com muita força para travar essa batalha contra o obscurantismo e conservadorismo do outro lado.
O congresso está eleito, os cargos estão todos definidos e para nós, o foco agora é total na eleição de Lula Presidente. É hora de lutar contra cada peça de desinformação que for lançada. É hora que conversar com os mais humildes para ajudá-los a entender a importância de votar em quem olha para os mais pobres. É hora que conversar as pessoas religiosas que estão verdadeiramente com medo de uma “ameaça comunista” que está chegando desde 1945 e nunca se materializa de fato. Concluindo, é hora de lutar contra a mentira usando a verdade.
É hora de ser aberto, inclusivo, construir pontes com os mais humildes, incluí-los no centro da discussão, quebrar resistências, desmentir absurdos. É hora de força total. Sentimos o baque no primeiro turno. Vamos sacudir a poeira, respirar fundo e continuar a lutar pois a nossa vitória será muito maior e muito mais gratificante. O bolsonarismo é fruto do ódio e da violência, por isso sentiram e sentirão ainda mais o golpe após a derrota final, pois ela virá do amor e da alegria, da esperança em um futuro melhor, apesar de tudo. Como bem disse Zeca Baleiro em sua canção “nossa vingança vai ser de doer, porque seremos felizes como eles não podem ser”, pois quem ressoa no ódio e na carnificina não consegue experimentar verdadeiramente a alegria.
Seguimos na luta, são mais 25 dias de batalha pelo nosso futuro, para que possamos dar um passo mais próximo do destino que queremos seguir, do país que queremos construir e do futuro que queremos preparar para as próximas gerações. Para que possamos sonhar que podemos ser grandes, que podemos ser felizes e que podemos ser verdadeiramente um país inclusivo e justo para todos. Para que possamos verdadeiramente ser a imagem de acolhedores, alegres e sociáveis que tanto tentamos divulgar para o mundo. Podemos ser melhores, podemos ser mais felizes, basta querermos.
Batemos na trave, gente! Mesmo após 10 anos de insultos e perseguição diária da mídia e do gabinete do ódio, contra a máquina estatal usada para fins eleitoreiros, Lula conseguiu a maior votação que um candidato já conseguiu para presidente da república na história do Brasil. Faltou 1,5% para ser eleito no primeiro turno. Sendo massacrado diariamente por todos os lados, ainda assim quase deu pra fechar no domingo. É seguir na pegada. É hora de ter esperança. É hora de acreditar que podemos ser felizes. Que temos direito a um país onde tenhamos paz, respeito, liberdade e inclusão. Podemos e merecemos acreditar que o Brasil pode ser melhor do que somente ódio, ofensas e armas. Merecemos sorrir, brincar e se alegrar! Falta pouco! É só querer, converse com todos, vamos construir uma grande onda de alegria e esperança, é isso que o Brasil precisa após tantos anos de trevas e luto! O amanhã há de ser melhor! Seguimos lutando!!
Uma das coisas que mais me incomoda no governo Bolsonaro é o apoio quase irrestrito de uma boa parte das pessoas que professam a fé cristã, sejam católicos ou principalmente evangélicos, com a justificativa de que o atual presidente é um exemplo de cristão ou defende os valores e interesses cristãos. A realidade é que nada disso é verdade, e tentarei exemplificar nos tópicos a seguir.
Em primeiro lugar, Cristo é Amor. Isso é o mais importante de tudo, é a constatação mais óbvia e o valor essencial primeiro do Cristianismo. Se qualquer pessoa se intitula cristã, é de imaginar que em algum momento ela conheceu e se identificou com toda a pregação de Cristo na Terra, que se baseia essencialmente, na expressão pura do amor. Amor pelo próximo, amor pelo mundo, amor pelos inimigos. Amar, amar, amar, em qualquer condição. Esse é o ensinamento de Cristo. E esse é o fundamento básico dos mandamentos de Deus, estabelecidos antes mesmo da vinda de Cristo ao mundo: “Amar a Deus sobre todas as coisas” (1º Mandamento) e “Amar ao próximo como a si mesmo.” (2º Mandamento).
Com isso em mente, qualquer pessoa que esteja vivendo no Brasil pode constatar facilmente que Bolsonaro é literalmente o oposto a tudo isso. Bolsonaro não é amor. Bolsonaro é ódio. É conflito. É divisão. Ele se nutre do ódio. Somente odiando algo ou alguém é que o presidente encontra a sua verdadeira essência. Não há nada em suas atitudes e palavras que possa ser identificado como amor. Nem quando ele fala sobre aqueles que supostamente acreditamos que ama – seus filhos – a percepção é de alguém que não expressa amor. Logo, o valor cristão mais essencial não é algo expresso ou vivido pelo presidente, portanto é no mínimo incoerente o apoio dos cristãos a alguém que expressa sentimentos opostos ao principal valor cristão.
O segundo ponto que gostaria de destacar está relacionado ao que os próprios cristãos chamam de “defesa dos valores familiares tradicionais cristãos”. Ressalto que fui criado em uma família muito católica tradicional, participei toda a minha vida de movimentos e pastorais dentro da igreja católica, então sinto que tenho propriedade para expressar o que seriam esses valores tradicionais da família cristã. Essencialmente são 3 pontos:
Casamento único e indissolúvel: o tradicional “o que Deus uniu o homem não separa”. Se alguém se casou, a união deve ser mantida até o final da vida. Não há divórcio.
Filhos gerados dos mesmos pais: complemento do valor anterior. Se não há divórcio, todos os filhos gerados daquela união são essencialmente dos mesmos pais. Um complemento a este valor pressupõe que se não há divórcio e todos os filhos são dos mesmos pais não há adultério.
Criação de toda a família dentro de uma comunidade de fé: um valor essencial dentro das famílias cristãs é a criação dos filhos e do próprio relacionamento amparado em uma vivência assídua dentro de um núcleo religioso, essencialmente uma igreja, no qual o ensino religioso irá complementar a educação familiar, seja na catequese e doutrinação propriamente dita, ou na vivência em comunidade. No meu caso, foi a igreja católica e suas inúmeras pastorais. Hoje, existem também as igrejas evangélicas que, mesmo com suas diferenças, compartilham essencialmente dos mesmos valores.
Identificado, pois, o tripé de sustentação de uma família cristã tradicional, vamos agora observar a vida do presidente Bolsonaro a partir destes valores.
Casamento único e indissolúvel: Bolsonaro fere logo de cara o primeiro valor, pois teve 3 casamentos. Ao se observar obediência aos valores da família cristã, e principalmente o comportamento em sociedade das pessoas que se orgulham de defender estes valores, o presidente seria excluído e considerado um mau cristão, ou um cristão de segundo nível, pois não soube observar o valor mais essencial na união homem-mulher e destruiu aquilo que Deus uniu. Não poderia ser considerado como um bom representante da família cristã.
Filhos gerados dos mesmos pais: como teve 3 casamentos, naturalmente o presidente teve filhos gerados com diversas parceiras. Desta forma, o segundo valor familiar cristão está comprometido, pois os seus filhos não possuem a mesma mãe, logo, assim como seu pai, não seriam considerados “bons cristãos”, portanto, não seriam exemplos a serem considerados.
Criação de toda a família dentro de uma comunidade de fé: este ponto é um pouco menos explicito que os anteriores, porém ainda assim é simples de verificar. Ainda que o político Bolsonaro esteja frequentemente se reunindo com líderes de igrejas, principalmente de igrejas evangélicas neopentecostais, e assim como todos os políticos, em época de eleição esteja frequentando os mais diversos rituais religiosos, a realidade do dia a dia mostra que Bolsonaro não é assíduo em nenhuma igreja. Aliás, de bate pronto não é possível sequer identificar qual a fé e religião que Bolsonaro professa. Ou alguém aqui consegue dizer que Bolsonaro é evangélico, ou católico, ou presbiteriano, ou batista, ou o que quer que seja. A realidade é que ele não segue nenhuma religião, somente usa daquela que lhe apetece no momento para distorcer narrativas e ganhar simpatia de pessoas religiosas.
Importante ressaltar que, ainda que conheça os valores cristãos que mencionei anteriormente, e tenha crescido e participado ativamente dos movimentos, não vejo com bons olhos a obediência cega a esses valores, ainda mais que muitos são ultrapassados para a realidade que vivemos hoje. E ainda mais, discordo veementemente de quem se utiliza destes valores para se autopromover como bom cristão e julgar e condenar aqueles que não sigam ou demonstrem seguir todos esses preceitos.
A verdade é que Bolsonaro não é cristão, sequer professa e segue uma religião e muito menos vive sua vida segundo preceitos que se assemelhem aquilo que foi dito por Jesus Cristo em sua passagem por este mundo. O apoio de entidades religiosas a Bolsonaro é inteiramente forjado nos seus próprios interesses em obter vantagens financeiras e ideológicas que os permitam angariar cada vez mais fiéis e recursos, ampliando o seu projeto de poder, que essencialmente é a finalidade da imensa maioria das igrejas evangélicas e de muitos católicos. Estes grupos, ao apoiar o presidente, obtém vantagens do Estado, como isenção de impostos, projetos de lei que apoiem a sua visão de mundo, possibilitando uma doutrinação e alienação de seus fiéis, o que proporciona uma fidelização de pessoas cada vez maior em suas igrejas, e consequentemente, uma rede cada vez mais robustas e populosa de pessoas para multiplicarem seus próprios interesses.
Cabe aos cristãos de boa-fé, aqueles que entendem verdadeiramente quais são os ensinamentos de Cristo e como utiliza-los no mundo em que vivemos, a missão de desanuviar o horizonte das igrejas e religiões, recuperando as comunidades e pessoas do sequestro sofrido pelo bolsonarismo, para que as pessoas realmente do bem e não “de bem” possam enxergar verdadeiramente a face de Bolsonaro e perceber o quão distante ele está do verdadeiro objetivo cristão que deve ser vivenciado no mundo por pessoas que querem o bem.
Quer dizer que mesmo após 3 anos de um governo nulo e fraco, sem nenhuma melhoria real para a condição de vida da população brasileira – pelo contrário, um governo que nos leva a retroceder 30 anos de avanços econômicos e sociais você ainda o defende? Mesmo após 3 anos de sucessivos erros de postura, atitudes e decisões, de absurdos que levaram à morte centenas de milhares de brasileiros, seja por conta da pandemia, da violência, da intolerância, da fome e da miséria que este governo estimula diariamente, você ainda o defende?
Lamento, mas você deixou o espectro do razoável e do humano e se tornou adepto de uma seita fanática que não apenas é conivente com absurdos desumanos e vergonhosos promovidos pelo presidente e seu governo, como os aplaude como se fossem um espetáculo agradável. Não vou tentar discutir em nome de uma falsa pluralidade e respeito ao diverso, pois nesse caso eu estaria sendo conivente e normalizando os absurdos ditos e feitos por aquele que vocês ainda insistem em defender. Por essa razão, não tenho nada a dizer a vocês, lamento.
Em primeiro lugar, gostaria de deixar bem claro que não me importa mais que você tenha votado em Bolsonaro em 2018. E me importa ainda menos as razões que tenham te levado a votar em Bolsonaro em 2018. A única coisa que me importa neste momento é que você está arrependido desta decisão e disposto a corrigir o seu erro de anos atrás. Aplaudo a sua coragem de assumir que errou: não é fácil, ainda mais neste mundo de hoje em que dar o braço a torcer e assumir que cometeu um equívoco é visto com muita desconfiança e até como sinal de fraqueza.
Acredito, porém, que é uma força imensa e demonstração de caráter e, por esta razão, hoje me dirijo a você. O seu arrependimento com a escolha em 2018 será o diferencial para evitar que o país cometa o mesmo erro em 2022. Sei que se você está arrependido, é porque reconheceu que este é um governo incapaz de produzir qualquer coisa que seja minimamente útil para o país, e por isso, estamos agora do mesmo lado na batalha e, somente com a união de nossas forças, é que poderemos evitar 4 anos de nova tragédia.
Ressalto que o “governo” Bolsonaro não possui nenhum plano, não existem propostas concretas a respeito do que fazer para melhorar o Brasil e, mais importante ainda, como fazer para tornar as propostas realidade. Por isso, tão certo quanto a garantia de que o presidente dirá alguma mentira amanhã, é a convicção de que seu plano de “governo” para a reeleição será um deserto similar de ideias. Por esta razão, não há, sob qualquer viés que se queira adotar, a convicção ou expectativa de que ele possa vir a fazer um segundo governo bom. Ele simplesmente não sabe ser governo, portanto, não merece nova oportunidade de governar, tampouco de angariar votos para que seja uma ameaça nas eleições.
Por isso eu acredito fortemente de que o depoimento e posicionamento sincero e frequente de vocês fará toda a diferença para evitar que ele seja reeleito. É importantíssimo que iniciem desde já um movimento explicando os motivos pelos quais se arrependeram da escolha de 2018 e por que motivos não irão repetir a escolha em 2022. Não se preocupem que possam aparecer pessoas de esquerda fazendo piadas ou desmerecendo o depoimento de vocês – eles ainda não entenderam a gravidade da situação e o quanto é importante lutar com todas as armas para cortar o mal que é Bolsonaro no poder pela raiz.
Acho que podem fazer uma diferença gigantesca e evitar mais 4 anos de Bolsonaro. Ah, vocês não gostam de que o candidato lider nas pesquisas neste momento seja o ex-presidente Lula? Sem problemas. Trabalhem com ainda mais afinco para tirar votos de Bolsonaro, de forma que ele nem chegue no segundo turno. Aí sim, com ele fora da disputa, vocês podem ficar à vontade para fazer campanha contra o ex-presidente Lula (ou quem quer que seja da esquerda que esteja no segundo turno) sem nenhum problema.
Sei que temos aqui nossas diferenças de visão do mundo, do que é melhor para o país, mas acredito que podemos discutir racional e cordialmente estes tópicos com o retorno do país à normalidade de um governo que busque pelo menos tentar melhorar a vida de sua população, ao invés de ficar o tempo todo em permanente conflito contra tudo e todos e governando somente em benefício próprio. Precisamos retornar à normalidade democrática, chega de ser refém de um governo vil, mesquinho e incapaz de abordar qualquer questão minimamente importante de forma realista e verdadeira.
Precisamos muito recuperar a dignidade de nosso país, a defesa de bandeiras realmente importantes, como a preservação ambiental, o combate à fome e à miséria e a busca por justiça social e igualdade. Além do respeito a todos, independentemente de raça, sexualidade, gênero, condição social e visão de mundo. E só conseguiremos tudo isso se unirmos forças contra Bolsonaro que é a antítese a tudo isso. Vamos juntos!
Antes de qualquer colocação, gostaria de dar os meus parabéns. Parece fácil agora, diante do caos institucional, e era realmente simples de perceber que o governo de um candidato que não se deu ao trabalho de elaborar um plano de governo, ou de participar de debates para discutir os problemas mais essenciais do país seria um fracasso, mas, mesmo assim houve muita gente disposta a pagar para ver, e agora estamos pagando, literalmente, com nossas vidas o resultado dessas escolhas.
Mas, se você não foi um dos 57 milhões de brasileiros que escolheram o atual presidente conscientemente, eu aplaudo a sua sensatez e o seu posicionamento correto diante da maior ameaça à nossa frágil e jovem democracia. Significa que você entendeu o risco que seria colocar uma pessoa assim à frente do país, e fez o que estava a seu alcance para evitar o fato.
E olhe que aqui não estou sequer fazendo distinção entre quem votou no candidato derrotado e quem votou em branco, nulo ou se absteve. Ainda que, em última análise, a escolha destes 3 últimos grupos acabe por não contabilizar no resultado eleitoral, tornando a eleição de um candidato mais fácil por necessitar de menos votos válidos, estou considerado nesta carta que você quis expressar conscientemente que não considerava o atual presidente uma boa escolha, então, por este motivo, acredito que estamos todos sob a mesma bandeira.
Por esta razão escrevo a todos, ciente de que minha colocação é só mais uma em meio a tanto ruido que já se faz e se fará ainda mais em 2022, a medida em que se aproximem as eleições, mas acredito ser meu dever cívico e esclarecido de conclamar a todos para que façamos juntos uma militância ativa e implacável, mas adulta e consciente, a fim de reduzirmos cada vez mais até eliminarmos a ameaça de um novo governo do atual presidente.
Percebam que não me importo (neste momento) qual será a sua escolha de voto para 2022. Até mesmo porque nem sabemos de fato quais serão as cartas deste baralho que teremos para escolher daqui a pouco mais de um ano, porém o mais importante é desde já combater e enfraquecer ao máximo o bolsonarismo, para que perca força e influência, até que não seja mais uma sombra a ameaçar a democracia em nosso país.
Sei que o nosso grupo é muito heterogêneo e talvez existam mais diferenças que semelhanças entre nós, mas o fato é que aquilo que nos une é o mais nobre e importante dos objetivos: não haver um segundo mandato do atual presidente. E o quanto antes isso acontecer, melhor. Por isso é importante que possamos virar qualquer voto que ainda possa pender para o lado do presidente. Não deem ouvido a quem fale que o melhor é atacar a esquerda para tirar a sua força e emplacar um candidato de “terceira via” contra o presidente no segundo turno, e não escutem também quem é de esquerda e diz que o melhor para garantir a eleição de Lula (provável candidato petista e maior força da esquerda) seja enfrentar Bolsonaro.
A sombra do atual presidente é tão nociva e preocupante que não devemos adotar uma postura pragmática achando que ele está enfraquecido, portanto é o candidato ideal para deixar os cenários em banho maria para enfrentar em 2022, que a chance de quem quer que seja contra ele é maior. Não se esqueçam que as pesquisas em 2018 apontavam que todos os candidatos venceriam facilmente Bolsonaro no segundo turno, por isso pouco se fez para reduzir os seus votos no primeiro turno. O resultado todos conhecemos.
Quanto antes Bolsonaro for alijado da disputa, melhor para a democracia. Melhor para o país, e melhor para a escolha de um bom governo, seja ele qual for. Enquanto o presidente estiver na disputa com um volume considerável de votos, ficaremos discutindo as mesmas questões estúpidas e vazias que discutimos em 2018: ficaremos falando de ideologia de gênero, kit gay, ameaça comunista e outros devaneios sem sentido que vira e mexe o presidente requenta quando precisa de uma cortina de fumaça para desviar os olhos da população dos problemas existentes em seu (não)governo.
Por isso, quando ele começar a esbravejar sobre estes assuntos, ou tentar sequestrar a narrativa falando qualquer outra baboseira do tipo, não vamos cair na esparrela de repostar seus devaneios em redes sociais comentando o quão absurdo isso é, ou quanto a sua postura não condiz com o cargo que ocupa. É isso que ele quer. Lembrem-se: sempre que postamos as loucuras do presidente para criticar, estamos amplificando o seu discurso e levando a sua insanidade a pessoas que talvez nem tivessem ciência do fato. E mesmo que façamos uma crítica maravilhosa sobre o absurdo da vez, o que vai ressoar mais na cabeça do brasileiro médio e mal informado é o discurso simplista e bravateiro do presidente. Foi assim que ele chegou aonde está.
Temos que focar a crítica nos assuntos relevantes à vida no país: a inflação galopante, a economia em recessão que não se recupera mesmo após N promessas do “super ministro” da economia, o crescimento da pobreza e da miséria, o fantasma da fome que voltou a assombrar o país, o desemprego recorde, a corrupção sistêmica em seu governo, o fracasso no combate à pandemia, os escândalos na compra das vacinas, o desgaste na imagem internacional do país, a destruição ambiental dos biomas nacionais, enfim, a piora na condição de vida da maioria da população brasileira.
Não devemos também cair na armadilha de tentarmos nos igualar a ele: há quem diga que devemos jogar o mesmo jogo, espalhando desinformação, notícias falsas, bravatas, ameaças etc. Não vai adiantar, em primeiro lugar porque estaríamos nos igualando a ele e dando margem para que digam “quando querem o poder, fazem exatamente como nos criticavam” e o mais importante, estaremos jogando o jogo no qual eles já são experts. Não há como ganhar da milicia digital do presidente no jogo deles. São anos de uma engrenagem que funciona a todo vapor sempre que há a necessidade de defender o presidente em um momento de baixa na popularidade.
Devemos focar o tempo todo no que é prático e palpável: o fracasso do seu governo. Incapaz de gerar condições para a melhoria do país, não há um único indicador econômico, social ou ambiental que esteja melhor hoje do que estava anteriormente a 2018. Temos que nos ater sempre a realidade. E a realidade é de ir ao supermercado e não conseguir encher um carrinho de compras. É de ir ao açougue e não conseguir comprar carne para a semana. É ir ao posto de combustíveis e não conseguir sequer encher meio tanque. É olhar para o que éramos a 10 anos atras e ver que todos somos mais infelizes hoje. É perceber as pesquisas que apontam que os jovens brasileiros são hoje os mais infelizes e que menos acreditam em um futuro melhor.
Não importa qual o seu viés político, social ou econômico. Importa que você não quer mais 4 anos de Bolsonaro no governo. Importa que você quer que o país volte a crescer e a ser feliz. Por isso temos que estar juntos do lado desta batalha. Depois disso, superada a ameaça bolsonarista, podemos voltar a divergir em nossas ideias e propostas, pois acredito que conseguiremos fazer isso de forma educada e cordial. As eleições municipais na cidade de São Paulo foram o exemplo de que se é possível ter um debate de ideias completamente opostas sem deixar a civilidade de lado. E nós perdemos isso com esse governo. E é isso que precisamos recuperar imediatamente. Pelo bem de nossos filhos, pelo bem de nosso meio ambiente, pelo bem de nosso país, enquanto ainda é tempo. Pode ser que não tenhamos essa oportunidade após mais 4 anos de Bolsonaro no poder.