
O assunto da postagem anterior é bastante amplo, e gostaria de continuar abordando neste texto de hoje. Tenho refletido muito sobre como as redes sociais transformaram a nossa realidade a nossa forma de interagir com as demais pessoal e com o mundo em geral. É claro que transformaram também a nossa relação com a política.
Nunca fomos o povo mais atuante e participativo na vida política do país, raramente nos engajamos de forma ativa fora do período eleitoral e entendemos como política somente o processo de eleição dos representantes para os cargos eletivos. Como sempre deixamos esse assunto de lado por 2 anos até o próximo ciclo eleitoral, os nossos políticos são péssimos e se aproveitam imensamente da paralisia do povo com relação à política. Com as redes sociais passamos a ter uma falsa sensação de participação e acompanhamento, uma vez que podemos seguir os mais diversos políticos em suas redes. Mas, como somos mal preparados para lidar com esse tema, o escrutínio público e constante das redes sociais não trouxe o esperado grau de fiscalização e cobrança por melhores projetos e atitudes. Somente acirrou ainda mais os ânimos dos momentos de disputa eleitoral para uma guerra quase diária de opiniões diversas. Somos um povo historicamente mal preparados para discutir propostas e ações para melhoria da vida de toda a sociedade.
E, nesse contexto, o assunto mais mencionado e discutido sempre é a malfadada corrupção dos políticos. Esse é um dos assuntos mais antigos na política nacional e em todo ciclo eleitoral surge um candidato para prometer acabar com a corrupção, quase sempre se colocando como “a nova voz da política”, ou algo similar. Jânio Quadros, já na década de 60 chegou ao planalto com o mesmo discurso de “varrer” a corrupção da política. O atual presidente foi eleito com esse mesmo discurso, alegando ser a “nova política”, quando os fatos mostram que não é nada além de mais do mesmo. Estamos já na terceira década do século XXI e nada mudou, como se pode ver.
A corrupção é uma prática vigente no país desde os tempos de colônia. Sugiro a leitura do maravilhoso livro 1808, de Laurentino Gomes, que aborda como a corrupção foi essencial para o estabelecimento da Coroa Portuguesa em terras brasileiras. Com o advento das redes sociais, há uma percepção equivocada de que nunca se roubou tanto no Brasil como agora, ou nos últimos 20 anos. Os casos de corrupção pipocam diariamente à nossa frente e mal conseguimos acompanhar todas as denúncias.
A verdade é que antes, com a informação concentrada nas mãos de poucos veículos de comunicação, o que chegava à grande massa de pessoas era uma informação filtrada e tratada conforme os interesses de cada veículo, portanto tínhamos conhecimento de uma pequena parcela da realidade. Hoje, com o boom da internet e principalmente os smartphones, a informação está na palma de nossa mão e em tempo real, com isso a velocidade e frequência com que as denúncias e casos de corrupção chegam até nós é estonteante, nos dando a percepção de que isso está acontecendo em uma proporção maior.
E neste contexto, vivemos simultaneamente o primeiro governo de um partido de origem trabalhadora e de orientação política de esquerda, com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder. Somando-se a informação maciça ao ódio das classes econômicas dominantes pela chegada do PT ao poder, todo o cenário de corrupção foi potencializado para se dizer que nunca se roubou tanto quanto nos governos de esquerda. A realidade é que o PT foi o primeiro governo neste cenário em que qualquer desdobramento político é maciçamente escrutinado e discutido por muitas pessoas nas redes sociais, dando a visão de que se tornou algo maior do que realmente é. Foi o primeiro governo no Brasil a ter de lidar diariamente com a virulência das redes sociais, em que a informação chega a cada vez mais pessoas, porém carregadas de visões particulares de cada pessoa que a replica.
Junte-se a isso o ódio de classes fomentado pelos grupos econômicos dominantes do poder, frustrados pela chegada de um governo populista de esquerda, personificado na figura de um retirante nordestino forjado na metalurgia, que não somente tem a audácia de chegar ao poder, como de conseguir se reeleger sistematicamente, ficando um tempo surpreendentemente longo no poder. O discurso distorcido de corrupção recorde replicado nas redes sociais à exaustão é explorado diariamente nos telejornais que (ainda) são o veículo mais poderoso para chegar a todos os domicílios brasileiros, o que potencializa ainda mais a percepção que é distribuída.
A meu ver, o maior problema dos governos do PT e que é altamente passível de críticas foi o fato de que o partido que se vendia como um grupo que faria nova política tenha se igualado em muitos aspectos ao que todos os outros governantes fizeram antes deles, de se aliar a personagens nefastos da política nacional e negociar pastas e ministérios para se ter maioria no congresso e conseguir a tão sonhada governabilidade. Ainda que qualquer partido que ascenda ao poder tenha que se vender – em maior ou menor nível – à esta prática para conseguir colocar um mínimo de suas propostas de governo em prática.
Uma vez mais, ficamos discutindo os personagens, amando uns e odiando outros, quando deveríamos estar discutindo os meios de se fazer política no país, os métodos moralmente questionáveis e altamente prejudiciais ao povo de se conseguir apoio político no Brasil. As pessoas se vendem por muito pouco, deixando os seus valores e as bandeiras que defendem enquanto militantes inteiramente de lado.